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Casada com o CEO Implacável
Casada com o CEO Implacável
Author: Srta. Oliveira

Capítulo 1

last update publish date: 2026-03-05 03:33:00

Capítulo 1

Narrado por Ariella

Apoiei as mãos na pia e encarei meu reflexo no espelho embaçado do banheiro minúsculo. As olheiras profundas pareciam ter ganhado mais uma camada roxa desde ontem.

Meus cabelos cacheados — que minha mãe sempre elogiava — estavam presos num coque malfeito, com fios escapando para todos os lados.

Tenho vinte e dois anos.

Mas naquela manhã eu me sentia com o dobro.

— Ari, vai se atrasar de novo! — a voz de Rafa veio do outro lado da porta, acompanhada de batidas impacientes.

— Já vou, já vou!

Joguei água fria no rosto, passei as mãos nos cachos como se pudesse domá-los e abri a porta. Rafa quase caiu para dentro do banheiro, equilibrando-se com a mochila pendurada em um ombro só.

— Cadê o Beto?

— No quarto, lendo. Como sempre.

Atravessei o corredor apertado do apartamento alugado e espiei o quarto dos gêmeos. Beto estava sentado na cama, um livro aberto no colo, mas os olhos vidrados na parede.

Eu conhecia aquele olhar.

Preocupação.

— Beto, vamos. Hoje é dia de exame, não pode chegar atrasado.

Ele levantou devagar e guardou o livro na mochila sem dizer uma palavra.

Os dois anos desde a morte dos nossos pais tinham sido uma queda livre sem fim. Mas os últimos meses…

Os últimos meses pareciam um mergulho em águas cada vez mais escuras.

— Dona Lurdes já deve estar com o café — falei, tentando parecer animada. — Comam direito, depois ela leva vocês pra escola. Eu volto tarde. Tenho o turno da noite no restaurante.

Rafa revirou os olhos.

— Você sempre volta tarde.

— Porque alguém precisa pagar as contas, gênio.

Ele abriu a boca para responder, mas Beto tocou no braço dele.

Um gesto pequeno.

Quase invisível.

Mas não para mim.

Beto sempre foi o freio de Rafa. O silêncio que equilibrava o barulho.

E eu agradecia todos os dias por eles terem um ao outro.

Na cozinha, Dona Lurdes já arrumava a mesa com pães e café.

Nossa vizinha tinha assumido o posto de mãe postiça desde o acidente.

— Menina, come alguma coisa — ela ordenou, apontando para mim com a faca de manteiga.

— Não dá tempo. Vou perder o ônibus.

— Você vai passar mal. Olha essa cara…

Dei um beijo rápido na bochecha enrugada dela, peguei um pão e saí quase correndo, ainda enfiando os braços na jaqueta.

Lá fora, a cidade acordava cinzenta e fria.

Corri até o ponto de ônibus com os fones nos ouvidos, uma playlist animada tentando competir com o cansaço que parecia morar no meu corpo.

Durante os quarenta minutos até a padaria, meu primeiro emprego, tentei não pensar na carta que tinha chegado ontem.

Mas era impossível.

As palavras estavam gravadas na minha cabeça.

"Prezada senhora, informamos que o convênio médico não cobre a totalidade do novo protocolo de tratamento para amiloidose familiar. O valor pendente é de R$ 127.000,00. Caso não haja regularização em até 15 dias, o tratamento será suspenso."

Cento e vinte e sete mil reais.

Eu ganhava um salário mínimo na padaria.

Outro no restaurante à noite.

Depois do aluguel, da comida e da escola dos meninos…

Não sobrava nada.

Absolutamente nada.

Pensei na minha mãe por um segundo.

Nos cabelos cacheados iguais aos meus.

No cheiro de pão quente na cozinha.

Tudo parecia pertencer a outra vida.

O dia passou entre bandejas de pão de queijo e clientes apressados que mal olhavam na minha cara.

Às quatro da tarde, troquei o avental da padaria pelo uniforme do restaurante.

Mais oito horas de pé.

Carregando pratos.

Sorrindo.

Fingindo que estava tudo bem.

Quando finalmente saí, já passava da uma da manhã.

Meu celular vibrou.

"Meninos dormindo. Tudo bem aqui. Você chega a que horas?" — mensagem de Dona Lurdes.

"Já tô indo", respondi.

O ar gelado da noite cortou meus pulmões enquanto eu caminhava até o ponto de ônibus.

As ruas estavam vazias.

Os postes de luz refletiam nas poças de chuva.

Foi quando vi.

Um carro preto enorme parado na esquina.

Vidros escuros.

Por um segundo, meu coração disparou.

A lembrança do acidente dos meus pais sempre voltava nas madrugadas silenciosas.

Mas o carro não se mexeu.

Apenas ficou ali.

Como se estivesse esperando.

Apertei o passo.

Entrei no ônibus quase vazio e me sentei no fundo, o corpo pesado como chumbo.

No dia seguinte, o desespero bateu ainda mais forte.

Passei a manhã inteira ligando para hospitais, assistência social, qualquer lugar que pudesse ajudar.

A resposta era sempre a mesma.

"A senhora precisa de um fiador."

"Comprovante de renda maior."

"Ou aguardar na fila."

Eu não tinha nada disso.

Nada.

À tarde, voltei para casa por algumas horas antes do turno da noite.

Encontrei Beto sentado na escada do prédio, com o rosto escondido entre os joelhos.

Meu coração disparou.

— Beto? O que aconteceu?

Ele levantou o rosto devagar.

Os olhos estavam vermelhos.

— O Rafa desmaiou na escola. Levaram ele pro hospital.

Meu mundo parou.

O hospital era ainda pior do que eu imaginava.

Rafa estava deitado na cama, com soro e aparelhos ligados ao corpo pequeno demais para tanta coisa.

O médico explicou tudo com aquela frieza profissional que eu já tinha aprendido a odiar.

A amiloidose familiar estava progredindo mais rápido que o esperado.

Sem o novo tratamento…

Em seis meses…

Eu não deixei ele terminar.

— A gente vai conseguir o dinheiro — falei.

Minha voz saiu firme.

Muito mais firme do que eu me sentia.

— Eu vou conseguir.

Saí para o corredor com as mãos tremendo.

Liguei para o banco.

Empréstimo negado.

Liguei para a assistente social.

Processo demorado.

Pode levar meses.

Liguei para o padre da igreja.

— Vamos tentar uma campanha, filha. Mas não prometo nada.

Quando desliguei, minhas pernas fraquejaram.

Deslizei pela parede do corredor até me sentar no chão frio do hospital.

Enterrei o rosto nas mãos.

Pela primeira vez em dois anos, desde que assumi os meninos, senti que não daria conta.

— Ariella?

Levantei o rosto.

Uma enfermeira estava na minha frente com um envelope na mão.

— Deixaram isso pra você na recepção.

Franzi a testa.

Peguei o envelope e abri.

Dentro havia um cartão simples com um nome e um endereço.

E um bilhete escrito à mão:

Precisamos conversar. Pode mudar a vida dos seus irmãos. Venha amanhã, 10h.

Ass: Dr. Moretti

Não tinha telefone.

Não tinha explicação.

Apenas um endereço no bairro mais caro da cidade.

— Quem entregou isso? — perguntei.

— Um homem de terno. Disse que era urgente.

Olhei para o cartão.

Podia ser trote.

Podia ser perigoso.

Podia ser qualquer coisa.

Mas quando olhei para o quarto onde Rafa lutava para respirar… entendi.

Eu não tinha escolha.

Naquela noite, fiquei ao lado do leito dele.

Segurando sua mão.

O monitor bipava sem parar.

Beto dormia encolhido na poltrona ao lado.

Meu celular vibrou.

Menina, o que houve? Preocupa não, Deus proverá. — Dona Lurdes.

Guardei o telefone sem responder.

Olhei novamente para o cartão.

Moretti.

Quem era ele?

E o que queria de mim?

Talvez fosse uma mentira.

Talvez fosse uma armadilha.

Talvez fosse a pior decisão da minha vida.

Passei os dedos nos cabelos de Rafa.

— Desculpa — sussurrei.

Ele não respondeu.

Mas sua mão apertou a minha no sono.

E naquele momento eu entendi.

Se existia uma chance — qualquer chance — de salvar meus irmãos…

Eu precisava tentar.

Guardei o cartão no bolso.

Amanhã eu descobriria quem era o homem por trás daquele nome.

E qual seria o preço para salvar meus irmãos.

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