LOGINMaíra se casou com Ronan, rei de Drevain, para encerrar uma guerra. Dois anos depois, diante de toda a corte, ela faz o impensável: pede o divórcio — e exige de volta a coroa do reino que perdeu. Mas o tratado que pode libertá-la impõe uma condição: Maíra e Ronan precisam atravessar sete províncias e conquistar a assinatura de seus governantes. Uma jornada perigosa, ainda mais quando alguém tenta envenená-la e um assassino surge usando o símbolo proibido de sua família. Enquanto Ronan insiste em protegê-la, Soren — seu amigo de infância e rei de Velária — oferece a Maíra uma saída: quando estiver livre, ela poderá se tornar sua rainha. Ele a ama há anos. E está disposto a ajudá-la mesmo que ela nunca o escolha. Só que os segredos enterrados na guerra podem destruir qualquer futuro. A mãe de Maíra talvez tenha ajudado a abrir os portões para a invasão. E Ronan guarda uma verdade sobre o passado dela que pode transformar o pedido de divórcio em algo muito mais doloroso. Para recuperar seu trono, Maíra precisará descobrir quem traiu seu povo. Para conquistar sua liberdade, talvez tenha de decidir se ainda consegue confiar no homem de quem está tentando se separar.
View MorePOV — Maíra
Coloquei o pedido de divórcio sobre o trono do homem que eu jurara amar.
O salão inteiro ficou em silêncio. Até os músicos pararam no meio da melodia. Diante de mim, Ronan não se mexeu. A coroa dourada sobre sua cabeça refletia a luz dos candelabros, mas seus olhos estavam fixos no documento entre nós.
— Leia em voz alta — ordenei.
Um murmúrio atravessou os nobres reunidos para celebrar dois anos de paz. Dois anos desde que me tornei rainha do reino que havia conquistado o meu. Dois anos desde que aceitei aquele casamento para impedir que mais soldados cruzassem as fronteiras.
Dois anos fingindo que a aliança no meu dedo não pesava como uma corrente.
Ronan estendeu a mão e pegou o papel. Não havia surpresa em seu rosto. Isso me incomodou mais do que se ele tivesse gritado.
— Você escolheu uma ocasião movimentada para tratar de assuntos privados — disse ele.
— Nosso casamento nunca foi privado. Foi assinado diante de dois exércitos e de sete províncias.
— Ainda assim, podia ter me entregado isso em particular.
— Eu tentei. Você sempre estava ocupado demais salvando seu reino.
— E você estava ocupada demais tentando destruí-lo?
A provocação arrancou alguns suspiros da corte. Mantive o queixo erguido.
— Não quero destruir reino algum. Quero meu divórcio e a devolução da coroa de Avelor.
Ronan olhou para o papel. Por um instante, notei um músculo se contrair em sua mandíbula.
— As condições do tratado são claras.
— Então conhece a cláusula. O casamento pode ser dissolvido com a assinatura dos governantes das sete províncias.
— Sete assinaturas que não conseguiria em uma semana.
— Não pedi uma semana.
— Quer percorrer as províncias comigo?
— Quero percorrê-las com ou sem você.
O salão voltou a murmurar. Meu tio, sentado à esquerda do trono, levantou-se. Lorde Varyn vestia o branco e o azul da minha família, embora nunca tivesse lutado um dia sequer por Avelor. Desde a morte da minha mãe, ele se apresentava como meu conselheiro. Nunca como meu amigo.
— Majestade, talvez este não seja o momento — disse ele. — Há emissários estrangeiros, representantes das províncias…
— Foi por isso que escolhi este momento. Quero testemunhas.
Ronan dobrou o documento uma única vez.
— Você acredita que o divórcio resolverá tudo?
— Não. Mas será um começo.
— E o que espera encontrar depois? Um reino destruído? Uma coroa sem exército? A liberdade de governar ruínas?
— Prefiro ruínas que pertençam ao meu povo a um palácio construído sobre os túmulos dele.
Por um instante, vi algo mudar no rosto de Ronan. Dor, talvez. Ou raiva. Com ele, as duas coisas sempre usavam a mesma máscara.
Naquela noite, eu não devia beber nada oferecido pela corte. Minha criada repetira isso tantas vezes que as palavras já pareciam parte do ritual. Mesmo assim, quando um pajem surgiu com uma taça de vinho, aceitei.
— À paz — disse ele, curvando a cabeça.
— A paz não precisa de vinho — respondi.
O rapaz se enrijeceu.
Ronan percebeu. Antes que eu pudesse recusar a taça, ele segurou meu pulso.
O vinho balançou contra a borda.
— Não beba.
— Agora resolveu se preocupar comigo?
— Maíra, não beba.
A urgência na voz dele apagou por um segundo a música, os nobres e os guardas. Olhei para o pajem. Ele era jovem, talvez dezesseis anos, e tremia tanto que parte do vinho derramava em seus dedos.
— Quem mandou você trazer isso? — perguntei.
— A cozinha, Majestade.
— Qual cozinha?
O rapaz olhou para a porta lateral. Foi o bastante.
Um homem vestido de criado avançou da multidão. Não correu na minha direção. Correu para Ronan.
A lâmina brilhou sob a luz.
Ronan me puxou para trás e recebeu o primeiro golpe no ombro. O som do impacto abafou os gritos. Os guardas cercaram o agressor, mas ele conseguiu girar o punhal e alcançar meu braço. Senti o corte antes de sentir a dor.
Ronan atingiu o homem no rosto com o punho. Quando o agressor caiu, o rei manteve a espada encostada em sua garganta.
— Quem mandou você? — exigiu.
O homem sorriu. Havia sangue entre os dentes.
— A rainha — respondeu.
Todos se viraram para mim.
Pressionei o ferimento com a mão. O sangue escorreu por meus dedos e pingou sobre o vestido.
— Está mentindo — eu disse.
— Então por que usava isto?
Um guarda arrancou uma corrente escondida sob a túnica do homem. No pingente havia o símbolo do sol partido: o brasão da minha família, proibido desde a tomada de Avelor.
Reconheci aquele desenho. Minha mãe o usava num broche que desapareceu na noite em que morreu.
Ronan encarou o pingente. A mão que segurava a espada ficou imóvel.
— Levem-no vivo — ordenou.
— Se era isso que pretendia, deveria ter dito antes de quebrar o pescoço dele — retruquei.
O agressor começou a rir. Um som fraco e molhado, que terminou num engasgo. Seu corpo tombou para o lado antes que os guardas conseguissem segurá-lo.
Varyn chegou perto de mim.
— Majestade, precisamos tirá-la daqui.
— Não.
— Este ataque prova que o pedido de divórcio foi uma imprudência.
— O ataque prova que alguém não quer que eu descubra alguma coisa.
Ronan entregou a espada a um guarda e se aproximou. O corte no ombro dele escurecia a camisa, mas ele mal olhou para o próprio ferimento.
— Você não vai às províncias — disse.
— Não é sua decisão.
— Alguém tentou envenenar você e acabou de mandar um assassino atrás de nós dois.
— Atrás de nós dois?
Ele olhou para o homem morto.
— Se quisessem apenas você, teriam esperado o salão esvaziar.
— Talvez estivessem esperando que eu bebesse.
— Então ainda bem que não bebeu.
— Não confunda sua presença com proteção.
— Não confunda minha paciência com consentimento.
A palavra me atingiu com força. A corte inteira escutava. Por baixo da raiva, havia outra coisa nos olhos dele — algo que me lembrava as noites em que ainda acreditava que o coração de Ronan podia ser um lugar seguro.
Afastei essa lembrança.
— O pedido continua válido.
— Eu não assinei.
— Vai assinar.
— Quando chegarmos às sete províncias.
— Eu não disse que iria com você.
— Não precisa dizer. Se sair deste palácio sozinha, Varyn assumirá o controle da sua guarda. Se ficar, o conselho vai usar o ataque para declarar você incapaz de governar.
Olhei para meu tio. Ele já conversava em voz baixa com dois membros do conselho. Quando percebeu que eu o observava, ofereceu um sorriso triste.
Eu conhecia aquele sorriso. Era o mesmo que usara no funeral da minha mãe.
— Vamos percorrer as províncias — falei. — E vou conseguir as sete assinaturas.
— Se sobreviver até lá — disse Ronan.
— Você vai se certificar de que eu sobreviva.
— E por que faria isso?
— Porque, se eu morrer, nunca terá a chance de se divorciar de mim.
Ronan se inclinou, perto o bastante para que apenas eu ouvisse:
— Não sabe o que encontrará quando esse casamento acabar.
— Sei exatamente o que encontrarei. Uma vida que não pertence a você.
Atrás de mim, alguém gritou.
O pajem que trouxera o vinho estava ajoelhado junto ao corpo do assassino. Revirava os bolsos da túnica, chorando. Quando os guardas o puxaram para longe, ele estendeu a mão fechada na minha direção.
— Majestade, ele me deu isto. Disse que era uma mensagem para a senhora.
O guarda abriu os dedos do garoto.
Uma pequena chave negra descansava na palma dele. Presa à chave havia uma tira de tecido queimado, bordada com o brasão da minha mãe.
Ronan ficou pálido.
— De onde veio isso? — perguntei.
O pajem balançou a cabeça.
— Ele disse que a rainha morta deixou uma coisa para a senhora. E que o rei sabe onde está.
Olhei para Ronan.
Ele não negou.
POV — MaíraCorri atrás dos passos antes que Ronan pudesse me deter.— Maíra, espere!A escuridão engoliu o corredor. A cada passada, o som da mulher ficava mais distante, misturado ao eco de água correndo sob as pedras. Estendi a mão à parede para não tropeçar. Meus dedos roçaram uma fenda úmida.Atrás de mim, ouvi Dain perder o fôlego.— Não consigo acompanhar vocês — ele disse.— Volte para a câmara e espere — ordenei.— Não vou deixar que enfrente isso sozinha.— Não pedi que enfrentasse. Pedi que esperasse.Ronan alcançou meu braço, mas não me puxou.— A passagem pode ter armadilhas.— Então avise antes que eu pise em uma.Ele soltou meu braço. A escuridão tornava tudo mais próximo: a respiração dele junto à minha, o calor da mão que por um instante quase tocara minha cintura. Eu não confiava nele. Ainda assim, quando um ruído seco veio de algum ponto adiante, encontrei sua mão às cegas e a segurei.Ronan não disse nada. Apenas apertou meus dedos uma vez.A chama da tocha reacend
POV — MaíraA palavra Avelor continuava gravada na pedra, mas já não me parecia um epitáfio. Parecia um aviso.— O escrivão disse para procurar sob a pedra do nome — falei.Ronan examinou a inscrição, espada em punho. Dain se apoiou na borda do sarcófago, ainda fraco demais para fingir que não estava.— Talvez tenha algo escondido atrás da placa — sugeriu ele.Passei os dedos pelo mármore. A parte inferior do nome da minha mãe tinha uma saliência quase imperceptível. Pressionei. A pedra cedeu com um estalo seco.Ronan se colocou entre mim e a tumba.— Afaste-se.— Não.— Maíra…— Se alguém escondeu algo sob o nome dela, não vou ficar olhando de longe.Ele sustentou meu olhar por um instante. Então recuou meio passo, sem guardar a espada.A placa se soltou. Atrás dela havia uma cavidade estreita, escavada no mármore. Não encontrei joias, documentos ou uma chave. Só um pequeno encaixe de metal, gasto pelo uso, e uma alavanca curta escondida sob a pedra.Dain reconheceu o mecanismo.— Is
POV — Maíra— Vou voltar a Avelor — anunciei a Dain. — Preciso ver a tumba da minha mãe.Ele olhou para as correntes nos próprios pulsos. As marcas sob o metal estavam vermelhas e inchadas.— Então eu vou com você.— Está há dois anos preso naquela torre. Mal consegue ficar em pé.— Consigo ficar em pé o bastante para contar o que Cael me disse.Dain se levantou. As pernas vacilaram, mas ele se segurou na parede antes que alguém pudesse ajudá-lo. Não queria piedade. Eu conhecia aquela expressão; já a usara vezes demais.Olhei para Edric.— Solte-o.— Ele continua sendo meu prisioneiro — disse o governador.— E minha testemunha. Se o deixar aqui, Varyn pode mandar silenciá-lo antes que eu volte.Edric hesitou. Depois fez um sinal ao guarda, que abriu as algemas. Dain esfregou os pulsos, sem agradecer. Não o censurava. Dois anos de prisão não desapareciam com uma chave girando.— Ele vai sob minha responsabilidade — Edric disse. — Se fugir, a senhora responde por isso.— Aceito.— Ainda
POV — RonanA mão de Maíra continuava fechada em torno do pulso do escrivão.— A data estava na ordem? — ela perguntou.O homem assentiu, respirando com dificuldade.— Três dias depois do massacre. Eu me lembro porque precisei registrar a entrada no arquivo.O curandeiro tentou afastá-lo da mesa.— Ele precisa de repouso, Majestade.— Vai ter repouso — Maíra respondeu. — Mas ninguém fica sozinho com ele.Edric chamou dois guardas para acompanharem o escrivão até a enfermaria. Maíra acrescentou mais quatro. Não discutiu quando o curandeiro insistiu que o ferimento precisava ser tratado; só exigiu que a porta permanecesse aberta e que um guarda ficasse dentro do quarto.Ela não confiava em ninguém. Nem sequer no próprio instinto, percebi, quando seus olhos encontraram os meus.— Você viu o corpo da minha mãe? — perguntou.A resposta me custou mais do que deveria.— Não.A expressão dela endureceu.— Você disse que soube da morte dela na manhã seguinte.— Meu pai me contou. Eu tinha vist


















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