A Rainha que pediu Divórcio ao Rei

A Rainha que pediu Divórcio ao Rei

last updateLast Updated : 2026-10-22
By:  J. WellsUpdated just now
Language: Portuguese
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Maíra se casou com Ronan, rei de Drevain, para encerrar uma guerra. Dois anos depois, diante de toda a corte, ela faz o impensável: pede o divórcio — e exige de volta a coroa do reino que perdeu. Mas o tratado que pode libertá-la impõe uma condição: Maíra e Ronan precisam atravessar sete províncias e conquistar a assinatura de seus governantes. Uma jornada perigosa, ainda mais quando alguém tenta envenená-la e um assassino surge usando o símbolo proibido de sua família. Enquanto Ronan insiste em protegê-la, Soren — seu amigo de infância e rei de Velária — oferece a Maíra uma saída: quando estiver livre, ela poderá se tornar sua rainha. Ele a ama há anos. E está disposto a ajudá-la mesmo que ela nunca o escolha. Só que os segredos enterrados na guerra podem destruir qualquer futuro. A mãe de Maíra talvez tenha ajudado a abrir os portões para a invasão. E Ronan guarda uma verdade sobre o passado dela que pode transformar o pedido de divórcio em algo muito mais doloroso. Para recuperar seu trono, Maíra precisará descobrir quem traiu seu povo. Para conquistar sua liberdade, talvez tenha de decidir se ainda consegue confiar no homem de quem está tentando se separar.

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Chapter 1

Capítulo 1 — O pedido diante do trono

POV — Maíra

Coloquei o pedido de divórcio sobre o trono do homem que eu jurara amar.

O salão inteiro ficou em silêncio. Até os músicos pararam no meio da melodia. Diante de mim, Ronan não se mexeu. A coroa dourada sobre sua cabeça refletia a luz dos candelabros, mas seus olhos estavam fixos no documento entre nós.

— Leia em voz alta — ordenei.

Um murmúrio atravessou os nobres reunidos para celebrar dois anos de paz. Dois anos desde que me tornei rainha do reino que havia conquistado o meu. Dois anos desde que aceitei aquele casamento para impedir que mais soldados cruzassem as fronteiras.

Dois anos fingindo que a aliança no meu dedo não pesava como uma corrente.

Ronan estendeu a mão e pegou o papel. Não havia surpresa em seu rosto. Isso me incomodou mais do que se ele tivesse gritado.

— Você escolheu uma ocasião movimentada para tratar de assuntos privados — disse ele.

— Nosso casamento nunca foi privado. Foi assinado diante de dois exércitos e de sete províncias.

— Ainda assim, podia ter me entregado isso em particular.

— Eu tentei. Você sempre estava ocupado demais salvando seu reino.

— E você estava ocupada demais tentando destruí-lo?

A provocação arrancou alguns suspiros da corte. Mantive o queixo erguido.

— Não quero destruir reino algum. Quero meu divórcio e a devolução da coroa de Avelor.

Ronan olhou para o papel. Por um instante, notei um músculo se contrair em sua mandíbula.

— As condições do tratado são claras.

— Então conhece a cláusula. O casamento pode ser dissolvido com a assinatura dos governantes das sete províncias.

— Sete assinaturas que não conseguiria em uma semana.

— Não pedi uma semana.

— Quer percorrer as províncias comigo?

— Quero percorrê-las com ou sem você.

O salão voltou a murmurar. Meu tio, sentado à esquerda do trono, levantou-se. Lorde Varyn vestia o branco e o azul da minha família, embora nunca tivesse lutado um dia sequer por Avelor. Desde a morte da minha mãe, ele se apresentava como meu conselheiro. Nunca como meu amigo.

— Majestade, talvez este não seja o momento — disse ele. — Há emissários estrangeiros, representantes das províncias…

— Foi por isso que escolhi este momento. Quero testemunhas.

Ronan dobrou o documento uma única vez.

— Você acredita que o divórcio resolverá tudo?

— Não. Mas será um começo.

— E o que espera encontrar depois? Um reino destruído? Uma coroa sem exército? A liberdade de governar ruínas?

— Prefiro ruínas que pertençam ao meu povo a um palácio construído sobre os túmulos dele.

Por um instante, vi algo mudar no rosto de Ronan. Dor, talvez. Ou raiva. Com ele, as duas coisas sempre usavam a mesma máscara.

Naquela noite, eu não devia beber nada oferecido pela corte. Minha criada repetira isso tantas vezes que as palavras já pareciam parte do ritual. Mesmo assim, quando um pajem surgiu com uma taça de vinho, aceitei.

— À paz — disse ele, curvando a cabeça.

— A paz não precisa de vinho — respondi.

O rapaz se enrijeceu.

Ronan percebeu. Antes que eu pudesse recusar a taça, ele segurou meu pulso.

O vinho balançou contra a borda.

— Não beba.

— Agora resolveu se preocupar comigo?

— Maíra, não beba.

A urgência na voz dele apagou por um segundo a música, os nobres e os guardas. Olhei para o pajem. Ele era jovem, talvez dezesseis anos, e tremia tanto que parte do vinho derramava em seus dedos.

— Quem mandou você trazer isso? — perguntei.

— A cozinha, Majestade.

— Qual cozinha?

O rapaz olhou para a porta lateral. Foi o bastante.

Um homem vestido de criado avançou da multidão. Não correu na minha direção. Correu para Ronan.

A lâmina brilhou sob a luz.

Ronan me puxou para trás e recebeu o primeiro golpe no ombro. O som do impacto abafou os gritos. Os guardas cercaram o agressor, mas ele conseguiu girar o punhal e alcançar meu braço. Senti o corte antes de sentir a dor.

Ronan atingiu o homem no rosto com o punho. Quando o agressor caiu, o rei manteve a espada encostada em sua garganta.

— Quem mandou você? — exigiu.

O homem sorriu. Havia sangue entre os dentes.

— A rainha — respondeu.

Todos se viraram para mim.

Pressionei o ferimento com a mão. O sangue escorreu por meus dedos e pingou sobre o vestido.

— Está mentindo — eu disse.

— Então por que usava isto?

Um guarda arrancou uma corrente escondida sob a túnica do homem. No pingente havia o símbolo do sol partido: o brasão da minha família, proibido desde a tomada de Avelor.

Reconheci aquele desenho. Minha mãe o usava num broche que desapareceu na noite em que morreu.

Ronan encarou o pingente. A mão que segurava a espada ficou imóvel.

— Levem-no vivo — ordenou.

— Se era isso que pretendia, deveria ter dito antes de quebrar o pescoço dele — retruquei.

O agressor começou a rir. Um som fraco e molhado, que terminou num engasgo. Seu corpo tombou para o lado antes que os guardas conseguissem segurá-lo.

Varyn chegou perto de mim.

— Majestade, precisamos tirá-la daqui.

— Não.

— Este ataque prova que o pedido de divórcio foi uma imprudência.

— O ataque prova que alguém não quer que eu descubra alguma coisa.

Ronan entregou a espada a um guarda e se aproximou. O corte no ombro dele escurecia a camisa, mas ele mal olhou para o próprio ferimento.

— Você não vai às províncias — disse.

— Não é sua decisão.

— Alguém tentou envenenar você e acabou de mandar um assassino atrás de nós dois.

— Atrás de nós dois?

Ele olhou para o homem morto.

— Se quisessem apenas você, teriam esperado o salão esvaziar.

— Talvez estivessem esperando que eu bebesse.

— Então ainda bem que não bebeu.

— Não confunda sua presença com proteção.

— Não confunda minha paciência com consentimento.

A palavra me atingiu com força. A corte inteira escutava. Por baixo da raiva, havia outra coisa nos olhos dele — algo que me lembrava as noites em que ainda acreditava que o coração de Ronan podia ser um lugar seguro.

Afastei essa lembrança.

— O pedido continua válido.

— Eu não assinei.

— Vai assinar.

— Quando chegarmos às sete províncias.

— Eu não disse que iria com você.

— Não precisa dizer. Se sair deste palácio sozinha, Varyn assumirá o controle da sua guarda. Se ficar, o conselho vai usar o ataque para declarar você incapaz de governar.

Olhei para meu tio. Ele já conversava em voz baixa com dois membros do conselho. Quando percebeu que eu o observava, ofereceu um sorriso triste.

Eu conhecia aquele sorriso. Era o mesmo que usara no funeral da minha mãe.

— Vamos percorrer as províncias — falei. — E vou conseguir as sete assinaturas.

— Se sobreviver até lá — disse Ronan.

— Você vai se certificar de que eu sobreviva.

— E por que faria isso?

— Porque, se eu morrer, nunca terá a chance de se divorciar de mim.

Ronan se inclinou, perto o bastante para que apenas eu ouvisse:

— Não sabe o que encontrará quando esse casamento acabar.

— Sei exatamente o que encontrarei. Uma vida que não pertence a você.

Atrás de mim, alguém gritou.

O pajem que trouxera o vinho estava ajoelhado junto ao corpo do assassino. Revirava os bolsos da túnica, chorando. Quando os guardas o puxaram para longe, ele estendeu a mão fechada na minha direção.

— Majestade, ele me deu isto. Disse que era uma mensagem para a senhora.

O guarda abriu os dedos do garoto.

Uma pequena chave negra descansava na palma dele. Presa à chave havia uma tira de tecido queimado, bordada com o brasão da minha mãe.

Ronan ficou pálido.

— De onde veio isso? — perguntei.

O pajem balançou a cabeça.

— Ele disse que a rainha morta deixou uma coisa para a senhora. E que o rei sabe onde está.

Olhei para Ronan.

Ele não negou.

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