FAZER LOGINLívia ficou olhando para a tela do celular por tempo demais, como se aquelas palavras pudessem mudar se ela piscasse ou respirasse fundo o suficiente, como se fosse possível reinterpretar aquela frase de alguma forma menos ameaçadora, menos pessoal, menos… direcionada a ela, mas não havia margem para dúvida, não havia ironia, não havia ambiguidade — apenas uma certeza fria e direta que parecia atravessar o vidro da tela e se instalar dentro do peito dela.
Bem-vinda ao inferno, Lívia.
O nome dela ali, escrito com tanta naturalidade, foi o que mais incomodou, porque confirmava algo que ela já começava a suspeitar desde o momento em que Arthur Valença cruzou aquela porta mais cedo: aquilo não era um acordo qualquer, não era uma negociação desesperada entre duas partes em desvantagem, era algo muito mais calculado, muito mais pessoal, e, acima de tudo, muito mais perigoso do que ela estava pronta para enfrentar.
Ela travou a tela devagar, como se aquele simples gesto pudesse encerrar o assunto, e apoiou o celular sobre a mesa, mas não conseguiu afastar a sensação incômoda de que já estava sendo observada, avaliada, conduzida para dentro de um jogo cujas regras ela não conhecia — e isso, mais do que qualquer outra coisa, fazia o estômago dela se revirar.
A assinatura ainda estava fresca no contrato, a tinta quase brilhando sob a luz suave da sala, e por um instante ela teve um impulso irracional de rasgar o papel, de fingir que nada daquilo tinha acontecido, de voltar algumas horas no tempo e simplesmente não atender o telefone do pai, mas a realidade era mais sólida do que qualquer vontade momentânea, e a verdade era simples demais para ser ignorada: ela tinha assinado, e aquilo mudava tudo.
O silêncio da casa parecia mais pesado do que o normal, como se as paredes tivessem absorvido a decisão e agora devolvessem aquele peso em forma de um vazio opressor, e foi nesse silêncio que ela começou a perceber o quanto estava sozinha naquele momento, porque, apesar de tudo, aquela escolha — ou falta dela — era exclusivamente dela, e as consequências também seriam.
Ela não sabia quanto tempo ficou ali, parada entre o contrato e o celular, entre a realidade e a sensação crescente de que tinha acabado de entrar em algo que não conseguiria controlar, mas foi o som da porta principal se abrindo que a trouxe de volta, abruptamente, como se alguém tivesse puxado ela de um lugar distante.
— Lívia? — a voz do pai veio carregada de uma expectativa que a fez fechar os olhos por um segundo antes de responder.
— Estou aqui.
Ele entrou na sala devagar, como se já soubesse o que iria encontrar, como se estivesse preparado para qualquer resposta — exceto talvez aquela que realmente importava — e os olhos dele foram direto para o contrato sobre a mesa, parando ali por um tempo que pareceu longo demais, antes de subir lentamente até o rosto dela.
— Você… — ele começou, mas não terminou.
Não precisava.
Ela apenas assentiu.
Simples assim.
E naquele pequeno gesto, tudo foi dito.
O alívio que atravessou o rosto dele foi imediato, quase doloroso de assistir, porque era puro, era sincero, e ao mesmo tempo era o lembrete mais claro possível do preço que ela tinha acabado de pagar por aquilo, e Lívia sentiu algo apertar dentro dela, algo entre culpa e resignação, algo que ela não queria nomear naquele momento.
— Eu sei que não foi fácil — ele disse, a voz mais baixa agora, mais humana, mais próxima — mas você fez a coisa certa.
Ela quase riu.
Quase.
Mas não havia humor na situação, não havia leveza em absolutamente nada daquilo, então ela apenas desviou o olhar, incapaz de sustentar aquela validação, porque não se sentia certa, não se sentia forte, não se sentia nada além de… presa.
— Ele mandou uma mensagem — disse de repente, sem olhar para o pai.
— O quê?
Ela pegou o celular novamente, destravou a tela e mostrou para ele, sem dizer mais nada.
O silêncio que se seguiu foi diferente do anterior.
Mais tenso.
Mais consciente.
O pai dela franziu o cenho enquanto lia, e por um instante Lívia viu algo mudar na expressão dele, algo próximo de preocupação real, mas foi rápido, rápido demais para se sustentar, e logo ele devolveu o celular com um suspiro controlado.
— Deve ser só… uma forma de pressão — ele disse, tentando parecer convincente.
Mas não parecia.
— Não — Lívia respondeu, finalmente olhando para ele — não é.
Porque ela sabia.
Sentia.
Aquilo não era teatro.
Era aviso.
E a diferença entre os dois era exatamente o que a assustava.
Antes que o pai pudesse responder, o celular dela vibrou novamente, desta vez com um número desconhecido ligando diretamente, e o nome de Arthur não aparecia na tela, mas ela não precisou de confirmação para saber quem era.
Ela hesitou por um segundo.
Dois.
Mas então atendeu.
— Alô?
— Espero que você tenha uma boa noite de sono — a voz dele veio do outro lado, calma, controlada, como se estivesse comentando algo trivial — porque amanhã você deixa de ter qualquer tipo de tranquilidade.
Lívia sentiu o corpo inteiro enrijecer, mas manteve a voz firme.
— Você gosta de dramatizar, não gosta?
Um pequeno silêncio.
E então… um riso baixo.
Não alto.
Não exagerado.
Mas perigoso.
— Você ainda não viu nada, Lívia.
O nome dela novamente.
Sempre o nome.
— Se isso é uma tentativa de me assustar—
— Não é tentativa — ele cortou, agora mais direto — é uma garantia.
O coração dela acelerou, mas ela se recusou a demonstrar.
— Então por que eu? — a pergunta saiu antes que ela pudesse segurar.
Silêncio.
E dessa vez foi mais longo.
Mais carregado.
— Você realmente não sabe? — ele perguntou, e havia algo diferente na voz dele agora, algo mais escuro, mais profundo.
— Não.
Outra pausa.
E então, mais baixo:
— Melhor assim.
A ligação caiu.
Simples assim.
Sem explicação.
Sem resposta.
E isso foi pior do que qualquer ameaça.
Lívia ficou olhando para o celular por alguns segundos, tentando processar, tentando encaixar aquilo em algum tipo de lógica que fizesse sentido, mas quanto mais ela pensava, mais claro ficava que não havia lógica suficiente para explicar o comportamento dele, não sem uma peça que ainda estava faltando.
— O que ele disse? — o pai perguntou.
Ela hesitou.
Mas então respondeu:
— Que isso é só o começo.
E pela primeira vez desde que tudo começou, ela viu algo próximo de medo real no olhar dele.
A noite passou mais devagar do que deveria, arrastada, pesada, como se o tempo tivesse decidido desacelerar apenas para que ela pudesse sentir cada segundo daquela nova realidade se instalando dentro dela, e quando finalmente o dia começou a clarear, Lívia já estava acordada, sentada na cama, olhando para o nada, como se estivesse tentando se preparar para algo que ela ainda não compreendia completamente.
O som do celular interrompeu o silêncio novamente.
Mensagem.
Dessa vez, objetiva.
“Carro na porta em 30 minutos. Não se atrase.”
Sem assinatura.
Sem explicação.
Sem opção.
Ela soltou o ar devagar.
Então era assim.
Sem espaço.
Sem escolha.
Sem controle.
Levantou-se, caminhou até o guarda-roupa e parou por um instante, olhando para as roupas como se estivesse escolhendo uma versão de si mesma que ainda não existia, porque a verdade era que a Lívia de ontem já não servia mais, e a de hoje ainda estava sendo construída à força.
Optou por algo simples.
Elegante.
Controlado.
Se ele queria um jogo, ela não entraria despreparada.
Quando desceu, o pai já estava na sala, inquieto, andando de um lado para o outro, e parou assim que a viu.
— Você não precisa ir sozinha—
— Eu preciso — ela respondeu, antes que ele terminasse.
E ele soube.
Pelo tom.
Pela postura.
Que não adiantava insistir.
O carro estava lá.
Preto.
Impecável.
Esperando.
Como tudo na vida de Arthur Valença parecia ser.
Lívia respirou fundo antes de entrar.
E no momento em que a porta se fechou atrás dela, uma única certeza se instalou de vez:
não havia mais volta.
Quando o carro finalmente parou, minutos depois…
Lívia olhou pela janela — e o ar sumiu dos pulmões.
Ela não estava sendo levada para uma empresa.
Nem para uma reunião.
Nem para um cartório.
Era uma mansão.
Gigantesca.
Isolada.
Imponente.
E no topo da escadaria…
Arthur estava esperando.
Como se já soubesse exatamente quando ela chegaria.
E dessa vez…
ele estava sorrindo.
Um ano depois.Lívia costumava pensar que finais felizes eram feitos de grandes momentos.Declarações em lugares perfeitos.Promessas diante de centenas de pessoas.A sensação de que, depois de uma grande batalha, tudo finalmente ficaria exatamente como deveria ser.Ela estava errada.O verdadeiro final feliz não parecia uma cena de filme.Parecia uma manhã comum.Parecia acordar com Arthur reclamando porque ela havia roubado metade do cobertor durante a noite.Parecia café derramado na mesa.Parecia livros abertos em todos os cantos da casa.Parecia uma vida que não precisava ser extraordinária para ser preciosa.— Você está escrevendo sobre mim?Arthur perguntou.Lívia levantou os olhos do caderno.Ele estava encostado na porta do escritório, segurando duas xícaras de café.Ela sorriu.— Talvez.Arthur colocou uma das xícaras ao lado dela.— Essa resposta significa sim.— Você ficou muito convencido.Ele sentou ao lado dela.— Depois de tudo que aconteceu, acho que tenho direito a u
Seis meses depois.A vida voltou a ter sons simples.E, depois de tudo que haviam vivido, Arthur descobriu que eram justamente esses sons que mais significavam.O barulho de uma xícara sendo colocada sobre a mesa.O riso de alguém na cozinha.A chuva batendo na janela durante uma tarde tranquila.O silêncio confortável entre duas pessoas que não precisavam mais preencher todos os espaços com explicações.Durante muito tempo, ele acreditou que a paz seria algo grandioso.Uma vitória.Uma conquista.Um momento em que finalmente sentiria que havia vencido.Mas a paz não chegou como uma explosão.Ela chegou em pequenas coisas.Como acordar ao lado de Lívia e saber que ela estava ali porque escolheu estar.A casa havia mudado.Não por causa de reformas.Mas porque agora tinha vida.Livros espalhados pela sala.Flores na mesa.Desenhos de Caio emoldurados nas paredes.Fotografias de momentos que antes pareciam impossíveis.Era diferente da antiga mansão dos Vasconcelos.Lá tudo era perfeito
O último dia em Aurora chegou sem cerimônia.Sem câmeras.Sem jornalistas.Sem pessoas esperando uma grande revelação.Apenas um pequeno grupo caminhando pelos corredores que um dia pareceram intermináveis.Arthur segurava a mão de Lívia.Dessa vez, não para guiá-la.Não para protegê-la.Apenas porque queria.E essa diferença significava tudo.O complexo estava quase vazio.As paredes que antes carregavam centenas de telas agora tinham apenas marcas do tempo.Os corredores onde pessoas haviam perdido anos de suas vidas estavam iluminados pela luz natural que entrava pelas janelas abertas.Pela primeira vez, Aurora parecia um lugar comum.Talvez esse fosse o maior sinal de que tinha acabado.Gabriel caminhava à frente com alguns documentos.— O processo de encerramento foi aprovado.Todos os servidores restantes serão desmontados.Os arquivos históricos ficarão no memorial.Nada relacionado aos experimentos continuará ativo.Clara olhou ao redor.— É estranho.Gabriel concordou.— O qu
Durante alguns segundos, Lívia não conseguiu responder.Não porque tivesse dúvidas.Mas porque, pela primeira vez em toda a sua história com Arthur, ela queria guardar aquele instante.Não havia contratos.Não havia ameaças.Não havia famílias decidindo por eles.Não havia um passado empurrando os dois para uma direção que não escolheram.Havia apenas Arthur.Ajoelhado diante dela.Esperando.Escolhendo.Ela olhou ao redor.A antiga Aurora estava diferente.O lugar que um dia representou medo agora carregava flores, luz e lembranças.Caio estaria feliz.Helena teria orgulho.E talvez aquela fosse a maior vitória de todas.Transformar um lugar criado para controlar vidas em um lugar onde duas pessoas podiam escolher uma.Arthur ainda segurava sua mão.— Lívia...A voz dele estava baixa.— Se você precisar de tempo...Ela balançou a cabeça imediatamente.— Não.Ele se surpreendeu.Ela sorriu através das lágrimas.— Eu passei tempo demais esperando respostas.Esperando descobrir quem eu
Capítulo 116 — A Segunda Vez Que Eu Escolhi VocêTrês semanas se passaram.Pela primeira vez em muitos meses, Arthur acordou sem o som de alarmes, mensagens urgentes ou o peso constante de estar sendo perseguido.A casa era silenciosa.Silenciosa de um jeito bom.O aroma de café recém-passado vinha da cozinha.Lívia cantarolava baixinho enquanto preparava o café da manhã.Arthur permaneceu alguns segundos parado na porta.Apenas observando.Ela usava um moletom largo dele.Os cabelos estavam presos de qualquer jeito.Havia farinha em uma das bochechas.E ela parecia completamente feliz.Nenhuma maquiagem.Nenhuma preocupação.Nenhuma sombra do passado.Naquele instante, Arthur compreendeu que era daquela mulher comum que havia se apaixonado.Não da mulher cercada por mistérios.Nem da vítima.Nem da heroína.Apenas de Lívia.Ela percebeu sua presença.— Vai ficar me olhando até o café esfriar?Arthur sorriu.— Talvez.Ela riu.— Então venha me ajudar.Ele aproximou-se e, sem dizer nad
O cemitério estava vazio.Era uma manhã tranquila, dessas em que o vento parecia caminhar devagar entre as árvores, sem pressa de chegar a lugar algum.Arthur estacionou o carro e permaneceu alguns instantes com as mãos apoiadas sobre o volante.Respirou fundo.Durante anos, imaginara aquele momento de formas diferentes.Em algumas delas, chegava tomado pela raiva.Em outras, fazia perguntas que jamais seriam respondidas.Também houve um tempo em que acreditou que pisaria ali apenas para dizer ao pai tudo o que havia destruído.Agora, nenhuma dessas palavras fazia sentido.Lívia segurou sua mão.— Não precisa entrar sozinho.Ele olhou para ela e sorriu.— Eu sei.Mas acho que essa conversa é minha.Ela assentiu.— Estarei aqui.Sempre.Arthur acariciou seu rosto com delicadeza antes de descer do carro.Os passos sobre o cascalho pareciam mais pesados do que realmente eram.Cada metro percorrido carregava lembranças de uma infância confusa, de uma juventude marcada pelo ressentimento e







