LOGINA dor veio antes da compreensão.
Não foi gradual, nem suave, nem algo que pudesse ser ignorado como um desconforto passageiro — foi um impacto direto, pulsante, como se algo tivesse se chocado contra a mente de Lívia por dentro, abrindo à força uma fissura em um lugar que deveria estar protegido, selado, inacessível, e o pior não foi a intensidade, mas o que veio junto com ela.
A imagem.
Rápida.
Desorganizada.
Mas real.
Tão real que, por um segundo, ela não conseguiu distinguir se aquilo era uma lembrança ou apenas o reflexo de algo que Arthur tinha dito, uma sugestão plantada, uma construção da própria mente tentando preencher lacunas que agora pareciam maiores do que nunca.
Ela levou a mão à cabeça imediatamente, os dedos pressionando as têmporas como se pudesse conter aquilo, como se pudesse impedir que aquela sensação avançasse, mas já era tarde — algo tinha sido tocado, algo tinha reagido, e agora não havia como simplesmente voltar ao estado anterior.
Arthur ainda estava ali, parado perto da porta, e o silêncio entre eles não era mais o mesmo, não era mais apenas tensão ou confronto — havia algo novo, algo mais instável, como se uma linha invisível tivesse sido cruzada sem que nenhum dos dois percebesse exatamente quando.
— O que foi? — a voz dele veio mais baixa, mais atenta, e aquilo por si só já era estranho.
Lívia demorou um segundo para responder, tentando recuperar o controle da própria respiração, tentando organizar o que tinha acabado de acontecer antes de permitir que ele percebesse qualquer fraqueza.
— Nada — disse, afastando a mão do rosto, mesmo que a dor ainda pulsasse ali.
Arthur não se moveu.
Não insistiu.
Mas também não acreditou.
Era possível ver isso no olhar dele, na forma como a observava agora com mais atenção, como se estivesse procurando sinais, como se estivesse esperando exatamente aquele tipo de reação.
— Isso não foi nada — ele repetiu, como se estivesse confirmando algo para si mesmo.
Lívia sentiu a irritação subir, rápida, quase como um mecanismo de defesa.
— Eu disse que não foi nada.
Ele inclinou levemente a cabeça, sustentando o olhar por mais alguns segundos, e então, finalmente, desviou, como se tivesse decidido não pressionar naquele momento, como se aquilo não fizesse parte do plano imediato — mas fazia, e ela sabia disso.
Ele saiu do quarto sem dizer mais nada.
E foi apenas quando a porta se fechou que Lívia percebeu o quanto o corpo ainda estava tenso, o quanto os músculos permaneciam rígidos, como se ainda estivessem esperando um novo impacto, uma nova informação, uma nova quebra.
Ela respirou fundo, uma vez, duas, tentando desacelerar, tentando recuperar o controle sobre si mesma, mas a imagem — aquela imagem — ainda estava ali, insistente, incompleta, como um fragmento de algo maior que se recusava a se organizar.
Ela chorando.
Desesperada.
Repetindo uma frase.
“Eu não posso lembrar disso…”
O que exatamente era aquilo?
Uma lembrança real?
Ou apenas uma reação ao que ele disse?
Ela precisava saber.
Precisava de algo concreto.
Porque continuar naquele estado — entre dúvida e sensação — não era uma opção.
Minutos depois, Lívia estava no banheiro, apoiada contra a pia, olhando para o próprio reflexo como se esperasse encontrar alguma resposta ali, como se o rosto diante dela pudesse revelar algo que a mente ainda não conseguia acessar, mas tudo o que via era ela mesma — ou pelo menos a versão que sempre acreditou ser.
— Você não esqueceu… você apagou.
As palavras de Arthur ecoaram novamente, mais fortes agora, mais difíceis de ignorar, porque, pela primeira vez, havia algo dentro dela que não rejeitava completamente aquela possibilidade.
E isso era perigoso.
Porque abrir espaço para aquilo significava questionar tudo.
Ela fechou os olhos por um instante, tentando se concentrar, tentando puxar qualquer outra imagem, qualquer outro fragmento que pudesse confirmar ou negar o que estava acontecendo, mas o silêncio interno permaneceu, pesado, quase opressor.
Nada.
Exceto aquela sensação.
Aquela familiaridade estranha que surgia sempre que ele se aproximava demais, sempre que falava daquele jeito, sempre que a olhava como se já a conhecesse melhor do que ela mesma.
Isso não era normal.
E não podia ser ignorado.
Decidida, Lívia deixou o quarto e começou a caminhar pela casa, os passos mais rápidos agora, mais firmes, como se o movimento ajudasse a organizar os pensamentos, como se pudesse afastar a sensação de estar sendo arrastada para dentro de algo que não controlava.
A casa ainda estava silenciosa, mas não vazia.
Ela sentia.
Era como se aquele lugar tivesse uma presença constante, mesmo quando não havia ninguém por perto, como se cada espaço carregasse uma memória que não era dela, mas que, de alguma forma, começava a afetá-la.
Ela precisava encontrar respostas fora da própria cabeça.
E havia apenas um lugar onde poderia começar.
O escritório dele.
A porta estava fechada.
Mas não trancada.
Isso por si só já era estranho.
Lívia hesitou por um segundo, o suficiente para que a consciência pesasse, para que uma parte dela dissesse que aquilo era invasão, que estava cruzando uma linha, mas outra parte — mais forte naquele momento — respondeu imediatamente: ele já cruzou todas as linhas possíveis.
Ela girou a maçaneta.
E entrou.
O ambiente era exatamente como imaginava: organizado, impecável, funcional, sem excessos, sem distrações, cada objeto no lugar exato, como se nada ali existisse sem um propósito claro, como se até o silêncio fosse calculado.
Ela fechou a porta atrás de si e caminhou até a mesa, o coração acelerando de leve, não por medo de ser pega — embora isso fosse uma possibilidade — mas pela expectativa de encontrar algo, qualquer coisa que pudesse preencher aquele vazio crescente.
Documentos.
Arquivos.
Pastas.
Tudo organizado demais.
Limpo demais.
Mas então…
uma gaveta.
Diferente.
Trancada.
O detalhe chamou atenção imediatamente.
E confirmou o que ela já suspeitava.
Era ali.
Ela tentou abrir.
Nada.
Respirou fundo.
Olhou ao redor.
E então percebeu.
Um pequeno objeto metálico sobre a mesa.
Chave.
Simples.
Direta.
Como se tivesse sido deixada ali de propósito.
E isso…
isso a fez hesitar.
Por quê?
Por que ele deixaria algo assim tão exposto?
Armadilha?
Ou provocação?
Talvez os dois.
Mas naquele momento, a necessidade de saber falou mais alto.
Ela pegou a chave.
E abriu.
O som do clique pareceu alto demais.
E por um segundo, o mundo pareceu desacelerar novamente, como se aquele pequeno gesto tivesse mais peso do que deveria, como se estivesse prestes a acessar algo que não poderia ser desfeito.
Dentro da gaveta, havia poucas coisas.
Pouquíssimas.
Mas o suficiente.
Uma pasta.
Um pen drive.
E…
um diário.
Antigo.
Gasto.
Usado.
Lívia sentiu o coração disparar com mais força.
Aquilo não era dele.
Não parecia ser.
Era pequeno demais.
Pessoal demais.
Ela pegou.
As mãos agora claramente tensas.
E abriu.
A primeira página estava marcada.
Como se alguém soubesse exatamente por onde ela começaria.
A letra era feminina.
E familiar.
Dolorosamente familiar.
Ela leu a primeira linha.
E o mundo parou.
“Hoje eu encontrei Arthur pela primeira vez… e eu acho que isso vai mudar tudo.”
O ar sumiu dos pulmões.
Não.
Não podia ser.
Ela virou a página rapidamente.
Outra entrada.
Outra data.
Mais recente.
“Eu não sei se consigo lidar com o que estou sentindo… ele me olha como se eu fosse a única coisa que importa.”
As mãos começaram a tremer.
A respiração ficou irregular.
Ela continuou.
Mais páginas.
Mais palavras.
Mais sentimentos.
Mais…
história.
Uma história que ela não lembrava.
Mas que estava ali.
Escrita.
Por ela.
E então, na última página marcada…
ela leu uma frase que fez tudo dentro dela colapsar:
“Se algo acontecer comigo… foi culpa minha. Eu destruí tudo
Um ano depois.Lívia costumava pensar que finais felizes eram feitos de grandes momentos.Declarações em lugares perfeitos.Promessas diante de centenas de pessoas.A sensação de que, depois de uma grande batalha, tudo finalmente ficaria exatamente como deveria ser.Ela estava errada.O verdadeiro final feliz não parecia uma cena de filme.Parecia uma manhã comum.Parecia acordar com Arthur reclamando porque ela havia roubado metade do cobertor durante a noite.Parecia café derramado na mesa.Parecia livros abertos em todos os cantos da casa.Parecia uma vida que não precisava ser extraordinária para ser preciosa.— Você está escrevendo sobre mim?Arthur perguntou.Lívia levantou os olhos do caderno.Ele estava encostado na porta do escritório, segurando duas xícaras de café.Ela sorriu.— Talvez.Arthur colocou uma das xícaras ao lado dela.— Essa resposta significa sim.— Você ficou muito convencido.Ele sentou ao lado dela.— Depois de tudo que aconteceu, acho que tenho direito a u
Seis meses depois.A vida voltou a ter sons simples.E, depois de tudo que haviam vivido, Arthur descobriu que eram justamente esses sons que mais significavam.O barulho de uma xícara sendo colocada sobre a mesa.O riso de alguém na cozinha.A chuva batendo na janela durante uma tarde tranquila.O silêncio confortável entre duas pessoas que não precisavam mais preencher todos os espaços com explicações.Durante muito tempo, ele acreditou que a paz seria algo grandioso.Uma vitória.Uma conquista.Um momento em que finalmente sentiria que havia vencido.Mas a paz não chegou como uma explosão.Ela chegou em pequenas coisas.Como acordar ao lado de Lívia e saber que ela estava ali porque escolheu estar.A casa havia mudado.Não por causa de reformas.Mas porque agora tinha vida.Livros espalhados pela sala.Flores na mesa.Desenhos de Caio emoldurados nas paredes.Fotografias de momentos que antes pareciam impossíveis.Era diferente da antiga mansão dos Vasconcelos.Lá tudo era perfeito
O último dia em Aurora chegou sem cerimônia.Sem câmeras.Sem jornalistas.Sem pessoas esperando uma grande revelação.Apenas um pequeno grupo caminhando pelos corredores que um dia pareceram intermináveis.Arthur segurava a mão de Lívia.Dessa vez, não para guiá-la.Não para protegê-la.Apenas porque queria.E essa diferença significava tudo.O complexo estava quase vazio.As paredes que antes carregavam centenas de telas agora tinham apenas marcas do tempo.Os corredores onde pessoas haviam perdido anos de suas vidas estavam iluminados pela luz natural que entrava pelas janelas abertas.Pela primeira vez, Aurora parecia um lugar comum.Talvez esse fosse o maior sinal de que tinha acabado.Gabriel caminhava à frente com alguns documentos.— O processo de encerramento foi aprovado.Todos os servidores restantes serão desmontados.Os arquivos históricos ficarão no memorial.Nada relacionado aos experimentos continuará ativo.Clara olhou ao redor.— É estranho.Gabriel concordou.— O qu
Durante alguns segundos, Lívia não conseguiu responder.Não porque tivesse dúvidas.Mas porque, pela primeira vez em toda a sua história com Arthur, ela queria guardar aquele instante.Não havia contratos.Não havia ameaças.Não havia famílias decidindo por eles.Não havia um passado empurrando os dois para uma direção que não escolheram.Havia apenas Arthur.Ajoelhado diante dela.Esperando.Escolhendo.Ela olhou ao redor.A antiga Aurora estava diferente.O lugar que um dia representou medo agora carregava flores, luz e lembranças.Caio estaria feliz.Helena teria orgulho.E talvez aquela fosse a maior vitória de todas.Transformar um lugar criado para controlar vidas em um lugar onde duas pessoas podiam escolher uma.Arthur ainda segurava sua mão.— Lívia...A voz dele estava baixa.— Se você precisar de tempo...Ela balançou a cabeça imediatamente.— Não.Ele se surpreendeu.Ela sorriu através das lágrimas.— Eu passei tempo demais esperando respostas.Esperando descobrir quem eu
Capítulo 116 — A Segunda Vez Que Eu Escolhi VocêTrês semanas se passaram.Pela primeira vez em muitos meses, Arthur acordou sem o som de alarmes, mensagens urgentes ou o peso constante de estar sendo perseguido.A casa era silenciosa.Silenciosa de um jeito bom.O aroma de café recém-passado vinha da cozinha.Lívia cantarolava baixinho enquanto preparava o café da manhã.Arthur permaneceu alguns segundos parado na porta.Apenas observando.Ela usava um moletom largo dele.Os cabelos estavam presos de qualquer jeito.Havia farinha em uma das bochechas.E ela parecia completamente feliz.Nenhuma maquiagem.Nenhuma preocupação.Nenhuma sombra do passado.Naquele instante, Arthur compreendeu que era daquela mulher comum que havia se apaixonado.Não da mulher cercada por mistérios.Nem da vítima.Nem da heroína.Apenas de Lívia.Ela percebeu sua presença.— Vai ficar me olhando até o café esfriar?Arthur sorriu.— Talvez.Ela riu.— Então venha me ajudar.Ele aproximou-se e, sem dizer nad
O cemitério estava vazio.Era uma manhã tranquila, dessas em que o vento parecia caminhar devagar entre as árvores, sem pressa de chegar a lugar algum.Arthur estacionou o carro e permaneceu alguns instantes com as mãos apoiadas sobre o volante.Respirou fundo.Durante anos, imaginara aquele momento de formas diferentes.Em algumas delas, chegava tomado pela raiva.Em outras, fazia perguntas que jamais seriam respondidas.Também houve um tempo em que acreditou que pisaria ali apenas para dizer ao pai tudo o que havia destruído.Agora, nenhuma dessas palavras fazia sentido.Lívia segurou sua mão.— Não precisa entrar sozinho.Ele olhou para ela e sorriu.— Eu sei.Mas acho que essa conversa é minha.Ela assentiu.— Estarei aqui.Sempre.Arthur acariciou seu rosto com delicadeza antes de descer do carro.Os passos sobre o cascalho pareciam mais pesados do que realmente eram.Cada metro percorrido carregava lembranças de uma infância confusa, de uma juventude marcada pelo ressentimento e







