LOGINAlguns meses haviam se passado desde o retorno ao Brasil. A vida de Sophie ainda era movimentada pelas necessidades de Maya, pelas noites interrompidas e pela rotina intensa de um pequeno bebê, mas havia uma tranquilidade nova dentro daquela casa. Não era uma paz perfeita ou silenciosa. Era feita de mamadeiras sobre a bancada, roupinhas espalhadas pelo quarto, brinquedos ocupando os sofás e risadas que surgiam nos momentos mais inesperados. Naquela manhã, Sophie acordou com Maya balbuciando no berço. A menina ainda era pequena demais para andar, mas já conseguia sustentar a cabeça, agarrar os dedos dos pais e emitir sons que pareciam conversas importantes que somente ela entendia. Seus olhos acompanhavam tudo ao redor com uma curiosidade intensa, especialmente quando Alexandre entrava no quarto. Naquela manhã, porém, ele não estava ali. Sophie abriu os olhos devagar e estendeu a mão para o lado da cama. Encontrou apenas os lençóis frios. — Amor ? — chamou, ainda sonolenta. Não
(POV: Sophie) Alguns meses haviam passado desde o dia em que voltei para o Brasil. O tempo não apagou o que aconteceu, mas mudou a forma como as lembranças ocupavam espaço dentro de mim. O medo ainda existia. Algumas noites eram interrompidas por sonhos confusos, portas se fechando e passos desconhecidos no corredor. Às vezes, um barulho inesperado fazia meu corpo reagir antes que eu conseguisse lembrar que estava segura. Mas o medo já não comandava todos os meus movimentos. O apartamento onde morávamos ficava em uma rua tranquila, cercada por árvores e protegida por homens que Alexandre ainda considerava indispensáveis. Havia câmeras discretas nos portões, alarmes nas portas e uma equipe de segurança que conhecia cada detalhe da nossa rotina. Alexandre continuava verificando fechaduras, questionando horários e pedindo relatórios semanalmente. Ele não havia se tornado um homem dócil. Continuava autoritário, controlador e perigoso quando acreditava que alguém ameaçava a nossa famíli
Na manhã seguinte, o apartamento parecia mais silencioso do que de costume. Maya dormia no quarto ao lado, sob os cuidados da enfermeira, enquanto a luz do sol entrava pelas janelas da sala e iluminava as malas ainda encostadas perto do corredor. Sophie havia deixado algumas roupas sobre o sofá e uma pequena manta dobrada sobre a mesa. O apartamento continuava protegido por seguranças, câmeras e portas que Alexandre verificava mais vezes do que admitia. Mas, naquela manhã, o que chamava a atenção de Alexandre não era a segurança. Era o celular de Sophie. Ela estava sentada no sofá, com os cabelos presos de qualquer maneira e uma xícara de café esquecida entre as mãos. O rosto permanecia concentrado na tela enquanto lia as mensagens que havia recebido durante a madrugada. Alexandre entrou na sala depois de terminar uma ligação com Eric. Parou ao perceber a expressão dela. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou, mantendo a voz baixa. Sophie ergueu os olhos rapidamente. — Não. A res
Durante alguns segundos, ninguém pareceu saber o que dizer ou fazer, e um silêncio desconfortável tomou conta da sala. O pai de Sophie permanecia sentado na poltrona, olhando para a esposa e para a neta, que estava sentada no sofá. Não conseguia desviar completamente o olhar de Maya, mas também não parecia capaz de relaxar. Seus dedos estavam entrelaçados sobre o joelho, e a mandíbula permanecia rígida, como se segurasse todas as perguntas que ainda não tinha coragem de fazer. Alexandre estava sentado ao lado de Sophie, em silêncio. Mantinha as mãos apoiadas sobre as pernas e uma postura discreta. Não parecia confortável, mas também não demonstrava estar desconfortável. Quando percebeu que os pais de Sophie aguardavam respostas, não se adiantou. Permaneceu calado, deixando que ela conduzisse aquele momento. — Você disse que foi sequestrada — falou Roberto, com a voz baixa e controlada. — Preciso entender o que isso significa. Aurora parou de balançar a neta e olhou para a filha. —
(POV:Sophie) Depois que apertei a campainha, fiquei parada em frente à porta da casa dos meus pais, esperando alguém abrir. Assim que a porta começou a se abrir devagar, o rangido das dobradiças pareceu alto demais no silêncio da manhã. Meu coração bateu contra as costelas e, por um instante, fiquei incapaz de respirar. A mão de Alexandre permanecia presa à minha, firme, mas sem me puxar para frente. Ele não tentou assumir o controle do momento. Não se colocou diante de mim. Não respondeu por mim. Apenas ficou ao meu lado. Marcos permanecia alguns passos atrás, perto do portão, com o corpo atento e os olhos percorrendo a rua. A porta se abriu completamente. Minha mãe apareceu do outro lado. Por alguns segundos, ela não pareceu me reconhecer. Seus olhos percorreram meu rosto, meus cabelos, a roupa que eu vestia e, por fim, pararam em Maya, protegida nos braços de Alexandre. A mão dela subiu até a boca. — Sophie? — chamou, quase sem voz. Meu nome saiu como uma pergunta, como se ela
(POV: Alexandre) Algumas horas depois, estávamos dentro do avião. Henrique cuidava dos últimos detalhes na parte dianteira da aeronave, enquanto a enfermeira verificava Maya. Sophie permanecia acomodada junto à janela, olhando para a paisagem. A paisagem vista do alto ainda não havia surgido, mas ela olhava para o vidro como se pudesse encontrar tudo nela. Sentei-me ao lado dela e afivelei o cinto. — Amor, não precisa ficar nervosa com a viagem — falei, passando a mão pelo cabelo dela. — Vai dar tudo certo. Não fique pensando nisso agora. Ela virou-se para mim e sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos. — Estou tentando não pensar nisso. — Não está conseguindo, pelo visto. Ela soltou uma risada curta, sem humor. — Eu sei. Aproximei-me lentamente e dei um beijo na testa dela. — Quer que eu peça para mudarem a rota? — perguntei, mantendo o rosto sério. — Se você quiser, podemos ir para outro país. Sophie virou-se para mim lentamente. — Você está brincando? — Claro que não.







