FAZER LOGINMilena
Eu não sentia mais as minhas pernas, mas meus pés se moviam com uma firmeza que eu nunca soube que tinha. Deixei os pedaços do meu véu rasgado para trás, jogados no chão do corredor escuro, e caminhei em direção às portas duplas do salão principal da igreja.
Quando empurrei a madeira pesada, o som do falatório dos convidados sumiu por um segundo, substituído pelos primeiros acordes da marcha nupcial que o músico começou a tocar no teclado.
Eles achavam que a noiva boba estava entrando para o seu final feliz. Que piada ridícula.
Caminhei pelo tapete vermelho com o olhar fixo no altar, mas meus olhos não procuravam o noivo, que nem ali estava ainda.
Meus olhos procuravam os rostos daquelas pessoas que diziam me amar. Vi minha tia Marcela, sentada no primeiro banco com um sorriso cínico nos lábios, usando um vestido elegante que eu também ajudei a pagar. Ao lado dela, meu tio Antônio abaixava a cabeça, sem conseguir olhar nos meus olhos. Senti o sangue ferver nas minhas veias. Parei bem no meio do corredor, interrompendo a minha própria caminhada, e encarei a plateia cheia de parentes e amigos do Pedro.
— Olhem bem para mim! — gritei com todas as minhas forças, fazendo a música parar abruptamente e um silêncio mortal tomar conta do lugar. — Eu quero saber uma coisa antes de dar mais um passo. Quem de vocês aqui sabia? Quem de vocês sabia que o Pedro Henrique estava me traindo com a minha própria prima debaixo do meu nariz? Tia Marcela? Tio Antônio? Vocês sabiam que o noivo perfeito estava transando com a filha de vocês minutos atrás no camarim?
Apontei o dedo na direção deles, esperando gritos de choque, esperando que alguém se levantasse para me defender ou para negar aquela monstruosidade. Mas o que recebi foi o pior dos silêncios.
Olhei para as amigas da minha tia, para os primos do Pedro, para os convidados que enchiam os bancos. Alguns desviaram o olhar, constrangidos. Outros começaram a cochichar entre si, cobrindo a boca com as mãos, mas ninguém parecia surpreso.
Minha tia Marcela apenas ajeitou a postura no banco, com um olhar gélido de desdém, e meu tio Antônio continuou olhando para os próprios sapatos, como o covarde que sempre foi. Eles sabiam.
Todos eles sabiam que eu estava sendo feita de palhaça. A verdade me atingiu como um soco no estômago: eu era a única cega no meio de um ninho de cobras, e aquela cumplicidade silenciosa me deixou ainda mais brava, transformando a minha dor em uma fúria incontrolável.
O salão da igreja inteira parecia girar ao meu redor. Eu conseguia ver o choque estampado no rosto de cada pessoa, mas não era um choque pelo que o Pedro tinha feito, e sim pela minha postura.
A Milena boazinha, a que sempre aceitava tudo de cabeça baixa e pedia desculpas por existir, estava parada ali com o vestido amassado, as mãos vazias sem buquê e o véu arrancado à força.
Minhas lágrimas tinham escorrido, deixando rastros pretos de maquiagem borrada pelo meu rosto, me fazendo parecer um monstro que tinha acabado de sair de um pesadelo. E eu era exatamente isso agora: o pesadelo deles.
Caminhei até o altar a passos largos, ignorando os murmúrios horrorizados que começavam a crescer nos bancos. O padre me olhava com os olhos arregalados, segurando a bíblia contra o peito como se estivesse vendo o próprio demônio de vestido branco.
Eu olhei para as grandes velas decorativas que iluminavam o altar, queimando lindamente para abençoar uma união que na verdade era um golpe. Aquilo era uma ofensa. Toda aquela encenação era uma sujeira.
— Vocês acham que vão rir da minha cara? Vocês acham que vão roubar o que é meu e ficar impunes? — perguntei, com a voz vibrando de ódio, olhando diretamente para a minha tia Marcela.
— Todos vocês são cúmplices dele! Vocês destruíram a minha vida, arrancaram o meu coração e riram da minha ingenuidade! Vocês merecem ir direto para o inferno por isso!
Antes que qualquer segurança ou convidado pudesse se mover para me segurar, dei um passo à frente e agarrei um dos grandes castiçais de ferro do altar. Com toda a força do meu corpo, levantei a peça pesada e joguei a vela acesa direto contra as cortinas de veludo pesado que enfeitavam as laterais das janelas da igreja.
O tecido seco pegou fogo instantaneamente. Uma labareda alta e alaranjada subiu pelas paredes, cobrindo a madeira do teto. Peguei outro castiçal e joguei na cortina do lado oposto, assistindo com um sorriso doentio e vingativo enquanto o fogo começava a se espalhar rapidamente, engolindo a decoração luxuosa que eles prepararam para o teatro do meu casamento.
Em questão de segundos, o desespero tomou conta do lugar que antes cheirava a flores e perfume. O fogo subiu rápido pelas cortinas, soltando uma fumaça preta e espessa que começou a encher o teto da igreja, fazendo as pessoas tossirem e entrarem em pânico total. Os convidados começaram a gritar, subindo nos bancos e correndo uns por cima dos outros na tentativa desesperada de alcançar as portas de saída.
Homens engravatados arrancavam os paletós para tentar abafar as chamas no altar, enquanto as mulheres de vestido longo choravam e empurravam quem estivesse na frente.
Minha tia Marcela gritava pelo marido, e eu consegui ver o Pedro Henrique correndo para o meio do salão com a roupa desalinhada, berrando o meu nome no meio do tumulto, mas a voz dele já não tinha mais poder sobre mim.
Eu dei as costas para o altar em chamas e caminhei calmamente contra o fluxo de pessoas que corriam desesperadas. Ninguém ousava me tocar; todos se afastavam de mim como se eu fosse a própria personificação da destruição.
Empurrei as portas principais da igreja e saí para a escadaria de pedra. O céu parecia sangrar junto comigo. Uma tempestade violenta desabava sobre a cidade, com raios cortando as nuvens escuras e trovões que faziam o chão tremer sob os meus pés.
A água fria da chuva bateu contra o meu rosto no exato momento em que os primeiros gritos de socorro ecoavam de dentro do templo que começava a arder em chamas.
Minha maquiagem borrada foi lavada pela tempestade, e o meu vestido de noiva estilo princesa ficou encharcado, pesado e sujo de fuligem nas pontas.
Eu não olhei para trás nem por um segundo para ver os convidados tentando apagar o fogo ou salvando suas vidas miseráveis. Desci os degraus correndo sob o toró, sentindo a adrenalina correr pura nas minhas veias enquanto o reflexo do incêndio iluminava a noite escura atrás de mim, sabendo que eu estava completamente sozinha no mundo, sem teto e sem rumo, mas com a certeza que a minha vingança não acabaria ali.
Milena Eu continuei fingindo que estava desmaiada, mantendo o corpo mole e a cabeça caída sobre o peito. Mas a minha encenação não durou muito tempo. Senti uma mão bruta segurar a ponta do saco de pano e puxá-lo com violência para cima, arrancando o tecido da minha cabeça de uma vez só.A luz forte do galpão abandonado bateu direto nos meus olhos, me fazendo piscar várias vezes para tentar enxergar o que estava ao meu redor. A tontura ainda flutuava na minha mente, mas a visão daquele lugar imundo me deixou em alerta máximo.Três homens estavam parados bem na minha frente. Todos eles usavam máscaras pretas de tecido cobrindo do nariz até o queixo, deixando apenas os olhos escuros e maldosos de fora.— Olha só, rapazes! A bela adormecida resolveu acordar! — um deles debochou, soltando uma risada nojenta e seca.Ele deu um passo para perto de mim e esticou a mão suja, passando os dedos nojentos no meu cabelo. Eu puxei a cabeça para trás no mesmo instante, encarando-o com o olhar mais f
Ulisses O sangue queimava nas minhas veias como se fosse puro ácido. Os meus pulmões pareciam em chamas, rasgados pelo esforço e desesperado de ter corrido atrás daquele carro preto por no meio do trânsito. A minha camisa social estava transparente de tão encharcada de suor, desbotada, com os botões do peito abertos e as mangas rasgadas. O meu terno caro tinha ficado para trás em algum lugar daquela rua amaldiçoada. Mas eu não me importava com nada disso. A única coisa que se repetia na minha cabeça como um eco infernal era a imagem da Milena sendo jogada para dentro daquele veículo, indefesa, pálida, inconsciente pelo veneno que deram a ela.Eu esmurrei a mesa de madeira do delegado com tanta força que o computador e os papéis saltaram no ar, fazendo um barulho ensurdecedor que parou toda a delegacia.— Eu já disse mil vezes e vou repetir para vocês, cambada de inútil! — gritei com a voz rasgada, os meus olhos injetados de puro ódio e desespero. — O sujeito tinha mais de um metro e
Milena A escuridão que me cobria era diferente de um desmaio comum. Não era só o efeito daquela droga nojenta que tinham colocado no meu suco, era uma escuridão pesada, sufocante e quente. Tentei piscar os olhos, mas as minhas pálpebras bateram contra um tecido grosso e áspero. Havia um saco de pano cobrindo toda a minha cabeça, deixando o ar que eu respirava abafado e com um cheiro forte de poeira e mofo.A minha cabeça latejava como se um martelo estivesse batendo direto no meu cérebro. A tontura ainda flutuava no meu corpo, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto do que o efeito do remédio.Tentei mover as mãos para tirar aquele pano do meu rosto, mas os meus braços simplesmente não saíram do lugar. Puxei com mais força e senti o atrito violento de uma corda grossa cortando a pele dos meus pulsos. Olhei para baixo por dentro do pano, tentando me mexer, e percebi que as minhas pernas também estavam completamente presas, amarradas juntas pelos tornozelos contra os pés de uma
Milena A taça de vidro tremia tanto na minha mão que algumas gotas do suco de uva respingaram na minha calça. O pavor tomou conta de mim com uma força avassaladora. O homem de branco abriu a porta da sala VIP e saiu em silêncio, empurrando o carrinho de inox sem olhar para trás nem por um segundo.— Ulisses! — chamei, a minha voz saindo rasgada, sufocada de tanto pavor.Ulisses desligou o celular no mesmo instante, assustado com o tom da minha voz. Ele cruzou a sala num pulo, vindo até mim e se ajoelhando na minha frente, segurando os meus ombros com firmeza.— Mili! O que foi?! O que aconteceu?! Você está pálida! — ele perguntou desesperado, os olhos azuis faiscando de preocupação ao ver o meu corpo inteiro tremer.— Aquele homem... o homem que acabou de sair daqui com o carrinho de comida... — murmurei, apontando para a porta com o dedo trêmulo, sentindo as lágrimas de pavor queimarem os meus olhos. — Eu conheço ele, Ulisses! É o mesmo homem que estava me perseguindo na rua! O mesm
Milena O carro do Ulisses parou suavemente na entrada de um prédio moderno e espelhado, localizado no bairro mais nobre da cidade. A fachada de vidro reluzia sob a luz da manhã, e na porta principal já havia um segurança de terno preto pronto para abrir a porta do veículo para nós.Eu olhei pela janela com os olhos bem abertos, impressionada. Nunca na minha vida tinha colocado os pés em um lugar como aquele. Para mim, ir ao médico sempre significava filas gigantescas em postos de saúde ou salas de espera barulhentas.— Chegamos, Mili — Ulisses disse num tom suave, saindo do carro e vindo até o meu lado para segurar a minha mão e me ajudar a descer.Caminhamos juntos para dentro da clínica, e o ar-condicionado gelado e cheiroso me recebeu na hora. O chão de mármore branco brilhava tanto que dava para ver o reflexo dos nossos sapatos. Assim que pisamos na recepção, duas recepcionistas vestidas com roupas impecáveis se levantaram imediatamente, dando um sorriso largo.— Seja muito bem-v
Milena A noite passou num piscar de olhos, sem pesadelos ou sombras daquela cela fria para me atormentar. Pela primeira vez em semanas, a escuridão do meu sono foi preenchida por uma luz suave e quente. No meu sonho, eu estava em um quarto todo pintado de branco e azul-claro, segurando um pacotinho minúsculo e macio nos braços. Era o nosso bebê. O rostinho dele era perfeito, com os olhos azuis idênticos aos do Ulisses e os cabelinhos escuros colados na testa.Eu balançava o corpinho pequeno com todo o amor do mundo, sentindo um calor inexplicável no peito, uma paz que eu achava que nunca mais ia sentir na vida.De repente, os passos firmes que eu já conhecia tão bem ecoaram pelo quarto. Olhei para a porta e vi o Ulisses parado ali, usando uma camisa social branca com as mangas dobradas. O rosto dele não tinha aquela expressão fria de bilionário arrogante ou o pavor do dia anterior. Ele sorria de um jeito aberto, sincero e cheio de uma ternura que cortava o meu coração.O Ulisses se a







