INICIAR SESIÓNA chuva ainda caía fina quando ele bateu a porta atrás de si, mas eu fiquei parada no meio da sala, respirando fundo, tentando não desabar. O som das gotas batendo na janela se misturava ao ruído do meu coração.
Tudo em mim queria fugir. Mas fugir de Henrique Lucchese era o mesmo que tentar escapar de uma sombra — ela sempre te encontra, não importa onde vá. Peguei minha bolsa, minhas chaves, o que restava da coragem, e comecei a juntar algumas roupas. O medo me guiava, mas a raiva me dava forças. Eu precisava ver o papai. Se estivesse mesmo em coma, precisava entender por quê. Foi quando a voz dele ecoou outra vez, fria como aço. — Não adianta arrumar nada, Rosália. — Me virei e o vi novamente encostado na porta do quarto, como se nunca tivesse ido embora. Ele parecia ainda maior, com os ombros largos cobrindo o batente, o olhar de predador fixo em mim. — O que está fazendo aqui ainda? — Perguntei, tentando soar firme, mas a voz saiu trêmula. — Observando a sua burrice — respondeu, num tom calmo demais para ser seguro. — Você não vai precisar de nada disso. — Preciso ver o papai. — Ele riu. Um riso curto, sem humor, daqueles que soam mais como aviso do que como graça. — Já disse que vai me acompanhar. — Eu posso ir sozinha! Henrique se aproximou, e em segundos sua mão já prendia meu pulso. A força dele era absurda, o aperto doía. — Você vai comigo. — Me solta, Henrique! — Gritei, mas ele não pareceu ouvir. Puxou-me pelo corredor, arrastando-me quase sem esforço. O ar parecia mais denso, e o perfume dele — aquela mistura de couro, tabaco e poder — se espalhava, deixando minha respiração curta. — Não ouse levantar a voz comigo. — A voz dele soou baixa, ameaçadora. — Você não quer que os vizinhos saibam quem você realmente é, quer? Aquilo me paralisou. Ele sabia exatamente onde atingir. Eu vivia ali sob um nome falso, longe das rotas da máfia, estudando em silêncio, fingindo ser apenas mais uma garota anônima em Manhattan. Se Henrique revelasse a verdade, tudo estaria perdido. — Você é um monstro. — Nurmurei, tentando conter as lágrimas. Ele parou, virando-se de repente. Os olhos ardiam com algo entre raiva e prazer em me ver vulnerável. — E você é uma de nós. Querendo ou não. Fiquei em silêncio, porque discutir com Henrique era inútil. Ele sempre ganhava. Sempre. A família Lucchese era conhecida como a mais disciplinada das Cinco Famílias. Fria, silenciosa, letal. Não deixavam rastros. Meu pai, Vittorio Lucchese, era o Don — o líder absoluto, até o dia em que o corpo dele cedeu ao peso de tantos segredos. Agora, com ele em coma, o trono estava vago. E Henrique acreditava que esse trono deveria ser dele. Só que não era. Era meu. A notícia de que eu havia sido escolhida devia estar destruindo o ego dele, e talvez fosse por isso que estava ali: para me controlar, me dobrar, me punir por algo que eu nem sequer havia pedido. Ele me empurrou até o sofá. — Sente-se. Eu o encarei com ódio. — Eu quero ver o papai. Henrique se inclinou sobre mim, o olhar a centímetros do meu rosto. — E você vai. Mas antes precisa entender uma coisa. — O quê? — Há mais do que apenas o estado de saúde do velho em jogo. Minha cabeça latejava. — Fala logo, Henrique. Ele deu um passo para trás, andando pela sala com a calma de quem saboreia o medo. — O Conselho das Famílias se reuniu ontem. — O estômago virou. — O Conselho? — Sim. Os De Lucca, os Bonanno, os Marciani, os Conti e nós, os Lucchese. Os cinco pilares da cidade. — Ele me olhou com arrogância. — E o assunto da reunião foi… você. Engoli seco. — Eu? — O velho te nomeou oficialmente como sucessora, Rosália. — As palavras pareceram um golpe no ar. — Isso é impossível. Eu nunca quis isso! — Pois é tarde demais. — Ele se aproximou novamente, o tom cada vez mais ácido. — Você foi escolhida pra manter a aliança entre as famílias. — Eu não vou fazer parte disso. Henrique sorriu, e aquele sorriso me fez sentir pequena. — Você não tem escolha. A raiva me fez levantar. — Eu não sou uma mercadoria! — O olhar dele mudou. Escureceu. E antes que eu pudesse me mover, senti a mão dele atingir meu rosto com força. O som do tapa ecoou alto demais na sala. O impacto me jogou contra a parede. O mundo girou por um instante. O gosto de sangue se espalhou pela boca, e a visão ficou turva. Henrique respirava pesado, os olhos marejados de raiva — ou de algo pior. — Viu o que você me fez fazer? — Gritou, com os dentes cerrados. — Eu tento ser razoável, mas você sempre me desafia! Segurei a parede, tentando não cair. Não ia chorar. Não ia dar esse prazer a ele. Ele se abaixou, segurando meus braços, forçando-me a olhar para ele. — O seu tempo de brincar de vida normal acabou, Rosália. — Eu só queria estudar… viver em paz. Sussurrei, entre lágrimas. — Não quero esse trono, Henrique. — Paz não existe pra gente. Nunca existiu. O olhar dele suavizou por um breve segundo. Um lampejo estranho, como se houvesse pena ali — ou desejo. Mas desapareceu rápido. Ele me soltou, respirando fundo, e passou a mão pelos cabelos, frustrado. — Vista-se. Precisamos ir. — Eu quero ver o papai. — Vai ver. Mas antes, precisa saber o motivo da sua escolha. — O ar parecia pesado demais. — Que motivo? Henrique riu, um riso sem humor. — Você foi prometida, Rosália. A palavra me fez estremecer. — Prometida? — A uma das famílias. O velho achou que seria a melhor forma de manter a paz. O chão pareceu se mover. — Eu não vou me casar com ninguém! Ele deu de ombros. — Vai, sim. — Isso é loucura! Henrique se aproximou, e o toque dos dedos dele no meu queixo me fez recuar. — Sabe o que é loucura? — disse, com a voz baixa, quase sussurrada. — Achar que tem escolha. — Me solta, Henrique. Ele apertou o maxilar, me obrigando a olhar para ele. — Você é bonita, Rosália. Demais. E pra seu próprio bem. Aceite. Ele te escolheu pela sua beleza. É por isso que ele te escolheu. — Quem ele? Henrique hesitou por um instante, e o silêncio entre nós pareceu se estender por minutos. — Quem é o homem, Henrique? perguntei, a voz tremendo. Ele sorriu de canto. — Não adianta saber agora. Vai descobrir em breve. — Me diga! Henrique recuou lentamente, os olhos ainda queimando os meus. — Você deveria agradecer. Podia ter sido pior. — Pior? — Ele é poderoso. Jovem. Controla metade dos portos de Manhattan. Meu coração começou a disparar. — Não… — Um De Lucca Bonanno, Rosália. — Senti o sangue gelar. A Família De Lucca Bonanno era a mais impiedosa das Cinco. Envolvida com tráfico de armas, controle marítimo e negócios sujos com os russos. Henrique observava meu pavor com prazer evidente. — Surpresa? — Eu não vou aceitar isso! Ele se aproximou mais uma vez, e quando falou, seu tom foi cortante. — Não tem que aceitar. Só tem que obedecer. Fiquei imóvel, respirando com dificuldade. As lágrimas desceram sem que eu percebesse. Ele olhou para o relógio. — Cinco minutos. Esteja pronta. — Pra onde está me levando? — Para o hospital. E depois… para ele. — Ele quem? Henrique sorriu. Aquele sorriso gelado que parecia o prelúdio do inferno. — Luciano De Lucca Bonanno. Meu coração falhou uma batida. Aquele nome era uma sentença. O Don mais jovem e perigoso de toda Manhattan. Um homem que todos temiam e ninguém ousava desafiar. Henrique segurou a maçaneta, mas antes de sair, lançou o último golpe: — Ele está ansioso pra colocar as mãos em você, querida irmã. A porta bateu com força. Fiquei ali, sozinha, tremendo, o som da chuva misturado ao eco do meu próprio medo. A vida que eu tinha acabado de perder escorria pelo chão junto com minhas lágrimas. Naquela noite, percebi que não havia para onde correr. Eu era uma Lucchese, filha da máfia, herdeira de um império de sangue. E agora… prometida a um monstro. Continua...Luciano e Rosália não tiveram uma história fácil.Eles não foram moldados pelo acaso nem pelo conforto. Foram forjados no fogo, na perda, no medo e nas escolhas que doem mais do que qualquer ferida aberta.Eles se encontraram quando ainda estavam quebrados.Se feriram quando ainda não sabiam amar direito.Quase se perderam quando o passado cobrou seu preço mais alto.Mas permaneceram.Luciano aprendeu que poder sem amor é vazio. Que controlar não é proteger. Que ser forte não é ser impenetrável, mas permanecer quando tudo em você quer fugir. Ele deixou de ser apenas um homem moldado pela Facção e se tornou marido, pai, abrigo. Um homem que escolhe a luz, mesmo carregando sombras.Rosália aprendeu que amar não é se anular. Que sobreviver não é o mesmo que viver. Que sua voz importa, que seu corpo é seu, que sua história não pertence ao medo nem à culpa. Ela deixou de ser apenas alguém que resistia e se tornou alguém que floresce.Juntos, eles criaram algo que nem a violência, nem o ódi
Narrado por RosáliaJosé passa a parte de trás do dedo com delicadeza sobre a bochecha de Rayane. O gesto é simples, respeitoso, quase reverente.Ele comenta que ela é uma beleza, igual à mãe.Agradeço com um sorriso automático.Luciano acrescenta que teve um pouco a ver com isso, mas que está satisfeito que ela tenha herdado apenas a cor dos olhos dele.Digo que ainda há o temperamento.Luciano me lança um olhar de advertência silenciosa.José ri e comenta que então estamos com as mãos cheias. Em seguida, estende a pequena caixa em nossa direção e a abre.Por um instante, quase tinha me esquecido dessa parte. A pulseira destinada a todas as meninas nascidas sob a proteção da Facção.Luciano agradece com um aceno respeitoso.José retribui o gesto e, junto do padre, se despede.Luciano prende a corrente com cuidado no pulso gordinho de Rayane. O metal reluz discretamente sob a luz suave da capela.Observo a cena e tento compreender o que sinto. Estranhamente, não sinto nada. Pelo menos
Narrado por Rosália TRÊS MESES DEPOIS É um dia claro de inverno. O céu está limpo, azul pálido, e o frio é suave, mais simbólico do que incômodo. Abotoo a jaqueta de Rayane com cuidado, certificando-me de que esteja bem protegida, antes de erguê-la do banco traseiro do carro. Ela emite um som baixo, quase um resmungo satisfeito, e isso me arranca um sorriso automático. Atrás de mim, Luciano murmura uma maldição abafada. Viro-me para encontrá-lo lutando com o carrinho enquanto tenta desdobrá-lo, a testa franzida em concentração. Ele balança a estrutura uma vez, duas, até finalmente conseguir. Passa as mãos pela superfície plana, ajeitando os cobertores com uma atenção quase cerimonial, certificando-se de que o colchão ainda vazio esteja perfeitamente acomodado. O pequeno ursinho de pelúcia, aquele com o qual Rayane dorme todas as noites, espreita por cima do tecido, como se supervisionasse tudo. Luciano resmunga algo sobre porta-copos e engenhocas desnecessárias, reclamando qu
Ela sorri para mim no exato instante em que meu aperto em seu corpo se intensifica. Meus dedos se contraem ao redor dela, firmes, possessivos, enquanto meu o****o afasta qualquer pensamento racional que ainda tente resistir. Meu p** pulsa, espasmos incontroláveis me atravessam e eu me derramo dentro dela, sentindo-a continuar em movimento, aproveitando cada segundo restante para arrancar de si o próprio prazer. O corpo dela se curva, um grito escapa de sua garganta e, logo depois, ela desaba contra meu peito, ofegante, inteira.Meus braços a envolvem imediatamente. Nossa pele gruda, quente, viva, enquanto ficamos ali, na penumbra do quarto, recuperando o fôlego, acariciando um ao outro, como se o mundo inteiro tivesse deixado de existir. A escuridão pesada do dia finalmente se dissipa e eu sei que isso não é por acaso.Ela sabia que eu precisava disso. Assim como eu sempre soube que ela também precisava. Por um momento, cheguei a pensar que precisaríamos falar sobre tudo. Tive medo de
Quando entro no quarto do bebê, me surpreendo ao encontrar Rosália ali, balançando Rayane adormecida em seus braços. Ela parece exausta, e um peso de culpa se instala em mim por não ter estado presente para ajudá-la com a alimentação esta noite. Ainda assim, há algo sereno na forma como ela segura nossa filha, um cuidado silencioso que me atravessa.Pergunto em voz baixa o que ela ainda está fazendo acordada. As palavras saem suaves, quase como se eu temesse quebrar aquele momento.Ela ergue o olhar para mim. Seus olhos estão calmos, macios, e esse simples detalhe me traz um alívio que eu nem sabia que precisava. Por um instante, percebo que temi este encontro. Temei como ela me veria depois de tudo. Depois de eu ter estado lá, testemunhando a morte do irmão dela, sentindo um fechamento duro, necessário, quase vergonhoso de admitir. Ainda assim, espero que ela entenda que sei o quanto isso a fere, apesar de tudo o que ele fez.Ela diz que não conseguiria dormir sem mim. Não naquela no
O sorriso desaparece do rosto dele. No lugar, surge um brilho cru de raiva, algo que pulsa nos olhos como um último reflexo de tudo o que ele sempre foi.Eu continuo falando, mantendo a voz firme, sem elevar o tom, porque não preciso gritar para que ele me ouça.Digo que nossas vidas seguirão em frente. Que criaremos nossos filhos. Que prosperaremos na ausência dele. Que a família dele será a minha família. Que sua irmã é minha esposa. Que seu pai é meu pai. Que os dias sombrios que ele criou ficarão muito para trás de nós. Que quando nos reunirmos em cada feriado não haverá um lugar vazio à mesa. Será como se ele nunca tivesse existido. Que sua memória será apagada, esquecida. E talvez esse seja o maior presente que ele nos deixa. Uma apatia tão pura que já não somos capazes de sentir ódio por ele. Nem tristeza. Nem perda. Não há nada. Sempre haverá nada quando se trata dele.Henrique reage com um rosnado baixo, carregado de desprezo. Diz que eu não sou a família deles. Diz que nunca







