LOGINA noite parecia interminável. O relógio na parede marcava algo em torno de duas da manhã, mas o tempo se arrastava, pesado e sufocante. Eu me mexia na cama, virando de um lado para o outro, tentando encontrar o sono que teimava em fugir de mim. O colchão parecia menor, o travesseiro mais duro, o ar mais denso. Tudo estava... diferente.
A velha cama da infância, com seu cheiro leve de talco e lembranças, agora me parecia estranha. O quarto rosa, com as fitas de tule que mamãe insistia em manter, parecia de outra pessoa. Toquei a parede coberta pelo tecido escuro e senti o arrepio da lembrança — eu costumava fingir que aquele quarto era uma torre, e que um príncipe viria me salvar. Mas agora eu sabia: príncipes não existiam. Suspirei, observando a luz do jardim projetar reflexos suaves no teto. As sombras dançavam lentamente, embaladas pelo vento que passava pela janela aberta. Por um instante, o som das folhas lá fora me trouxe calma. O cheiro úmido da noite, o sussurro do vento, o balanço do tule... tudo me fez mergulhar em memórias. E assim, sem perceber, adormeci. Não sei quanto tempo passou até que o som da chuva me despertasse. A primeira pancada contra o vidro me fez abrir os olhos devagar. Pisquei algumas vezes, confusa. A janela ainda estava aberta e as cortinas se agitavam com o vento. “Se mamãe vir isso, vai brigar de novo”, pensei, tentando rir baixinho, mas a risada morreu antes de nascer. Sentei na cama, afastando os cobertores. O chão frio sob meus pés me trouxe à realidade. Caminhei até a janela, sentindo o coração ainda preguiçoso batendo em ritmo calmo... até que algo se mexeu. Um farfalhar. Um som estranho, como tecido roçando no vidro. Eu congelei. Antes que pudesse dar um passo, a janela se fechou sozinha, com um estalo alto. A luz do jardim piscou. E então eu o vi. Uma figura parada diante da janela. Alta. Escura. Vestida com um manto negro que cobria até os pés. Por um instante, não respirei. O ar pareceu evaporar. Cada batida do meu coração ecoava como um trovão no peito. O homem não se moveu. Apenas ficou ali, como se me observasse de dentro das sombras. — Isso é um sonho... — murmurei para mim mesma, num fio de voz. Mas o som da chuva, o frio cortante do vento e o cheiro de terra molhada me diziam o contrário. A figura deu um passo. Eu recuei. Outro passo. Meu corpo encostou na parede, e o pânico me invadiu. Tentei gritar, mas minha garganta falhou. Nenhum som saiu. Era como se algo invisível me silenciasse. O homem parou diante da cama. A luz fraca da rua penetrou pelo vidro e revelou um pedaço do seu rosto — a linha firme do maxilar, o olhar escuro, profundo. E foi então que ouvi. — Rosália... Meu nome. Sussurrado como uma prece. Ou uma maldição. Ele se moveu, o capuz deslizando um pouco, revelando parte do rosto. Não era um estranho. Eu o conhecia. Mas o medo me impedia de pensar. — Quem é você? — perguntei, tremendo. — O que quer de mim? Um sorriso lento apareceu em seus lábios. — Você não se lembra de mim? Que decepção, futura esposa. Aquele timbre. Aquela ousadia. Luciano Bonanno. Meu sangue gelou. A voz do herdeiro da família que arruinou a nossa. O homem que meu irmão detestava. O mesmo que o destino cruel insistia em empurrar para o meu caminho. — Como entrou aqui? Foi o Henrique? Ele deixou você entrar? Ele deu um passo à frente, e o som do couro das botas no chão ecoou como um aviso. — Eu não preciso de permissão para ver a mulher que vai se casar comigo. Meu corpo travou. A cada palavra dele, a realidade se tornava mais sufocante. — Eu vim lhe dar um presente. — disse, num tom leve demais para alguém que invadia um quarto no meio da madrugada. — Eu não quero nada seu. — sussurrei, mas ele continuou se aproximando. O colchão afundou quando ele se inclinou. A distância entre nós se tornou quase inexistente. Tentei puxar o cobertor, mas ele o arrancou com um movimento brusco. — Não há necessidade disso. — murmurou. — Logo tudo que é seu será meu. Meu coração batia tão alto que doía. Eu queria correr, mas minhas pernas tremiam. Luciano passou os olhos pelo quarto, observando cada detalhe. — Um quarto de menina... curioso. — E então, voltou a olhar para mim. — Ainda acredita em contos de fadas, Rosália? — O que você quer de mim? — repeti, com a voz embargada. Ele se inclinou, roçando a ponta dos dedos frios na minha bochecha. O toque fez meu estômago se revirar, e ainda assim, algo dentro de mim — algo que eu odiava — estremeceu. — Você. — respondeu simplesmente. O ar saiu dos meus pulmões num suspiro de puro desespero. Ele segurou minha mão e enfiou a outra no bolso. — Tenho algo que vai selar o nosso destino. Antes que eu pudesse recuar, senti o metal frio escorregar pelo meu dedo. Um anel. Ele o forçou até passar pela articulação, ignorando meu gemido de dor. — Ai! — gritei, tentando puxar a mão. A pedra negra reluzia com o brilho da tempestade lá fora. Era grande, pesada, opressora. — Tire isso! — implorei. Ele me olhou com aquele mesmo sorriso — metade ameaça, metade prazer. — Não adianta, Rosália. Esse anel é mais que um presente. É um pacto. — Um pacto?! — De posse. — respondeu, inclinando-se até nossos rostos quase se tocarem. — Você me pertence agora. Meu corpo inteiro tremia. O medo e a raiva se misturavam, queimando por dentro. Tentei arrancar o anel, mas o metal parecia preso à pele. Luciano segurou meu pulso e aproximou o rosto do meu pescoço. Senti sua respiração quente contra minha pele fria. Ele inalou o cheiro do meu cabelo como se quisesse decorá-lo. — Você está proibida de tirá-lo. — sussurrou, e sua voz grave soou como uma sentença. — Ele vai te lembrar de quem manda aqui. Meus olhos se encheram de lágrimas. — Por quê? Por que eu? Ele se ergueu, e o capuz voltou a esconder o rosto. O sorriso não desapareceu. — Porque você é uma Lucchese. — respondeu calmamente. — E nada une duas famílias como o medo. As palavras dele me cortaram por dentro. A chuva aumentou, e um trovão soou mais forte no céu, sacudindo as janelas. No reflexo do vidro, vi seu corpo desaparecer na escuridão. Um segundo depois, o vento invadiu o quarto, frio e cortante. A janela estava aberta novamente. Eu permaneci ali, imóvel, o coração disparado, o anel pesando no dedo como uma corrente. O medo me envolvia como um cobertor gelado. Tentei respirar fundo, mas o ar parecia denso, venenoso. Fechei os olhos por um instante e jurei ouvir a voz dele, distante, sussurrando meu nome. “Você me pertence agora, Rosália Lucchese... para o bem ou para o mal.” Abri os olhos num sobressalto. O quarto estava vazio. Mas o medo não havia ido embora. Eu o sentia ali — nas sombras, no vento, no metal frio que agora marcava meu destino. E pela primeira vez, temi que o amanhecer não fosse suficiente para afastar a escuridão que ele havia deixado. Palavras da Autora. Rosália achou que era só um pesadelo. Mas pesadelos não deixam marcas. Nem anéis impossíveis de remover. E se o verdadeiro inferno começou naquele toque gelado? 🔥 No próximo capítulo... o dia amanhece, mas o medo não vai embora. Você está pronta para o que vem?Luciano e Rosália não tiveram uma história fácil.Eles não foram moldados pelo acaso nem pelo conforto. Foram forjados no fogo, na perda, no medo e nas escolhas que doem mais do que qualquer ferida aberta.Eles se encontraram quando ainda estavam quebrados.Se feriram quando ainda não sabiam amar direito.Quase se perderam quando o passado cobrou seu preço mais alto.Mas permaneceram.Luciano aprendeu que poder sem amor é vazio. Que controlar não é proteger. Que ser forte não é ser impenetrável, mas permanecer quando tudo em você quer fugir. Ele deixou de ser apenas um homem moldado pela Facção e se tornou marido, pai, abrigo. Um homem que escolhe a luz, mesmo carregando sombras.Rosália aprendeu que amar não é se anular. Que sobreviver não é o mesmo que viver. Que sua voz importa, que seu corpo é seu, que sua história não pertence ao medo nem à culpa. Ela deixou de ser apenas alguém que resistia e se tornou alguém que floresce.Juntos, eles criaram algo que nem a violência, nem o ódi
Narrado por RosáliaJosé passa a parte de trás do dedo com delicadeza sobre a bochecha de Rayane. O gesto é simples, respeitoso, quase reverente.Ele comenta que ela é uma beleza, igual à mãe.Agradeço com um sorriso automático.Luciano acrescenta que teve um pouco a ver com isso, mas que está satisfeito que ela tenha herdado apenas a cor dos olhos dele.Digo que ainda há o temperamento.Luciano me lança um olhar de advertência silenciosa.José ri e comenta que então estamos com as mãos cheias. Em seguida, estende a pequena caixa em nossa direção e a abre.Por um instante, quase tinha me esquecido dessa parte. A pulseira destinada a todas as meninas nascidas sob a proteção da Facção.Luciano agradece com um aceno respeitoso.José retribui o gesto e, junto do padre, se despede.Luciano prende a corrente com cuidado no pulso gordinho de Rayane. O metal reluz discretamente sob a luz suave da capela.Observo a cena e tento compreender o que sinto. Estranhamente, não sinto nada. Pelo menos
Narrado por Rosália TRÊS MESES DEPOIS É um dia claro de inverno. O céu está limpo, azul pálido, e o frio é suave, mais simbólico do que incômodo. Abotoo a jaqueta de Rayane com cuidado, certificando-me de que esteja bem protegida, antes de erguê-la do banco traseiro do carro. Ela emite um som baixo, quase um resmungo satisfeito, e isso me arranca um sorriso automático. Atrás de mim, Luciano murmura uma maldição abafada. Viro-me para encontrá-lo lutando com o carrinho enquanto tenta desdobrá-lo, a testa franzida em concentração. Ele balança a estrutura uma vez, duas, até finalmente conseguir. Passa as mãos pela superfície plana, ajeitando os cobertores com uma atenção quase cerimonial, certificando-se de que o colchão ainda vazio esteja perfeitamente acomodado. O pequeno ursinho de pelúcia, aquele com o qual Rayane dorme todas as noites, espreita por cima do tecido, como se supervisionasse tudo. Luciano resmunga algo sobre porta-copos e engenhocas desnecessárias, reclamando qu
Ela sorri para mim no exato instante em que meu aperto em seu corpo se intensifica. Meus dedos se contraem ao redor dela, firmes, possessivos, enquanto meu o****o afasta qualquer pensamento racional que ainda tente resistir. Meu p** pulsa, espasmos incontroláveis me atravessam e eu me derramo dentro dela, sentindo-a continuar em movimento, aproveitando cada segundo restante para arrancar de si o próprio prazer. O corpo dela se curva, um grito escapa de sua garganta e, logo depois, ela desaba contra meu peito, ofegante, inteira.Meus braços a envolvem imediatamente. Nossa pele gruda, quente, viva, enquanto ficamos ali, na penumbra do quarto, recuperando o fôlego, acariciando um ao outro, como se o mundo inteiro tivesse deixado de existir. A escuridão pesada do dia finalmente se dissipa e eu sei que isso não é por acaso.Ela sabia que eu precisava disso. Assim como eu sempre soube que ela também precisava. Por um momento, cheguei a pensar que precisaríamos falar sobre tudo. Tive medo de
Quando entro no quarto do bebê, me surpreendo ao encontrar Rosália ali, balançando Rayane adormecida em seus braços. Ela parece exausta, e um peso de culpa se instala em mim por não ter estado presente para ajudá-la com a alimentação esta noite. Ainda assim, há algo sereno na forma como ela segura nossa filha, um cuidado silencioso que me atravessa.Pergunto em voz baixa o que ela ainda está fazendo acordada. As palavras saem suaves, quase como se eu temesse quebrar aquele momento.Ela ergue o olhar para mim. Seus olhos estão calmos, macios, e esse simples detalhe me traz um alívio que eu nem sabia que precisava. Por um instante, percebo que temi este encontro. Temei como ela me veria depois de tudo. Depois de eu ter estado lá, testemunhando a morte do irmão dela, sentindo um fechamento duro, necessário, quase vergonhoso de admitir. Ainda assim, espero que ela entenda que sei o quanto isso a fere, apesar de tudo o que ele fez.Ela diz que não conseguiria dormir sem mim. Não naquela no
O sorriso desaparece do rosto dele. No lugar, surge um brilho cru de raiva, algo que pulsa nos olhos como um último reflexo de tudo o que ele sempre foi.Eu continuo falando, mantendo a voz firme, sem elevar o tom, porque não preciso gritar para que ele me ouça.Digo que nossas vidas seguirão em frente. Que criaremos nossos filhos. Que prosperaremos na ausência dele. Que a família dele será a minha família. Que sua irmã é minha esposa. Que seu pai é meu pai. Que os dias sombrios que ele criou ficarão muito para trás de nós. Que quando nos reunirmos em cada feriado não haverá um lugar vazio à mesa. Será como se ele nunca tivesse existido. Que sua memória será apagada, esquecida. E talvez esse seja o maior presente que ele nos deixa. Uma apatia tão pura que já não somos capazes de sentir ódio por ele. Nem tristeza. Nem perda. Não há nada. Sempre haverá nada quando se trata dele.Henrique reage com um rosnado baixo, carregado de desprezo. Diz que eu não sou a família deles. Diz que nunca







