Mag-log inLiel
Por alguns segundos, eu realmente acho que o Don enlouqueceu. Talvez a notícia dos seis tiros, o susto, o cansaço de tudo, tudo isso tenha finalmente cobrado a conta e ele tenha cruzado aquela linha invisível entre sensatez e delírio. Talvez seja só o choque, uma reação absurda ao ver o próprio filho estirado numa cama de hospital. — “Você. Você é a mulher.” A frase ecoa na minha cabeça como se tivesse sido disparada por uma arma com um silenciador. Eu o encaro, esperando que ele complete a frase com um… “brincadeira”. Uma piada de humor duvidoso, inadequada para o estado crítico em que o filho dele se encontra. Mas Don Marcus não é esse tipo de homem. Ele não faz piada com aquilo que leva a sério. E ele leva a família mais a sério do que leva a própria vida. Vinnie está ali, entre nós, inconsciente, pálido, ligado a fios e máquinas. O bip regular do monitor cardíaco enche o quarto de um som irritantemente constante. O peito largo sobe e desce, lento, pesado, como se respirar fosse uma tarefa árdua demais para alguém que sempre gastou o ar com provocação e álcool. Eu pisco devagar, tentando reorganizar meus pensamentos. — Padrinho… — minha voz sai mais baixa do que eu pretendia. — Eu levaria um tiro pelo senhor. O senhor sabe disso. Eu trocaria a minha vida pela sua mil vezes sem pensar. Mas… isso? Faço um gesto curto com a mão entre nós, apontando para o meu peito, depois para o Vinnie. — Isso, eu não posso fazer — continuo. — Eu não posso casar com o seu filho. Eu odeio ele. A palavra “odeio” sai limpa, sem tremor, sem culpa. Eu repito mentalmente, como se precisasse reafirmar a mim mesma o que sinto. Eu odeio o modo como ele entra nas salas como se fosse dono do lugar, o cheiro de whisky impregnado nas roupas caras, o jeito como bagunça tudo o que meu padrinho constrói com tanto esforço. Don Marcus me observa com aquela calma perigosa de quem está acostumado a ouvir negativas e transformá-las em acordos. — Justamente por isso você é perfeita para o que eu preciso — ele diz. Eu rio. Não porque tenha graça, mas porque é a única reação que o meu corpo encontra para não quebrar. — Perfeita — repito, irônica. — Eu passo a vida inteira derrubando o Vinnie no chão, e o senhor acha que o próximo passo natural é dividir uma cama com ele? — Eu preciso de alguém que tenha pulso firme — o Don continua, como se eu não tivesse falado. — Alguém que não se curve diante dos caprichos do meu filho. Você é a única pessoa que consegue olhar para ele e não tremer. A única que não se intimida, não se impressiona, não se apaixona pela beleza. Eu aperto os dedos em torno da pasta que carrego, sentindo a borda de metal pressionar a palma da minha mão. — O senhor está esquecendo de alguns detalhes importantes — digo, fria. — Detalhes como… nós dois quase sempre terminamos no chão quando estamos no mesmo cômodo por mais de dez minutos. Ou como o fato de que, se dependesse de mim, o Vinnie seria o último homem no mundo com quem eu dividiria uma cama. E, mesmo se ele fosse o último, eu provavelmente ainda preferiria dormir abraçada com uma arma. O Don respira fundo. Eu reconheço o jeito como ele faz isso, é quando está prestes a jogar uma carta que sabe que vai mudar o jogo. — Liel — ele começa, com a voz um pouco mais grave. — Eu estou doente. As palavras caem pesadas no espaço entre nós. Eu o encaro, o estômago contraindo. Não é novidade que ele anda cansado, que a respiração dele perde o ritmo em escadas, que as olheiras se aprofundam a cada ano. Mas outra coisa é ouvir a confissão crua, sem filtro. — O médico foi claro comigo — ele continua. — Se eu fizer tudo certo, se eu seguir cada instrução, se eu descansar, se eu delegar… talvez eu tenha cinco anos. Talvez seis. Se eu fizer tudo errado, posso não ter nem isso. Por um instante, o bip do monitor parece mais alto. Eu aperto os dentes, tentando impedir que qualquer expressão de pânico escape pelo meu rosto. Eu já vi homens sangrando até a morte sem piscar. Mas a ideia de perder o Don… isso, eu não sei como enfrentar. — Chegou o momento de você pagar por tudo o que eu fiz por você — ele diz, sem crueldade, mas sem suavidade. — Eu tirei você do mar. Dei um nome, uma casa, um lugar no mundo. Criei você como minha filha, ensinei um ofício, coloquei poder nas suas mãos. Agora, eu preciso que você faça o que ninguém mais consegue… tirar o meu filho do buraco em que ele se enfiou. Meu peito aperta. — Isso não é um pagamento, padrinho — respondo, a voz mais áspera do que deveria. — Isso é uma sentença. Eu posso matar por você, posso negociar por você, posso comandar o submundo inteiro se o senhor mandar. Mas casamento…? Olho para Vinnie, inconsciente, o tórax marcado pelas bandagens, o rosto ainda bonito demais para alguém tão problemático. Ele parece mais jovem assim. Menos ameaçador. Quase… vulnerável. Quase. — Ele nem tem sentimentos amorosos por mim — argumento, buscando qualquer brecha. — Eu não tenho por ele. Nós não nos suportamos. O Vinnie não vai aceitar esse casamento comigo. Ele vai surtar, vai se revoltar, vai destruir qualquer acordo antes mesmo de assinar. Uma parte de mim sabe que é mentira. Não a parte que fala dos meus sentimentos, mas a que fala dos dele. Eu vejo como ele me olha quando pensa que ninguém está vendo. Eu sinto a tensão no ar quando discutimos. Mas admitir isso agora seria dar uma arma extra na mão do Don.Liel A mansão Azzaro nunca ficou totalmente silenciosa.Mesmo à noite, tinha o som distante de carro passando na rua, o clique de algum rádio no andar de baixo, o passo contido de segurança mudando de posição. O submundo não dormia. Só diminuía o volume.Hoje, mesmo com tudo isso, o quarto parecia outro lugar.No berço ao lado da cama, o nosso filho dormia.Pequeno demais pra tudo que já tinha acontecido antes dele. Respirava com aquele barulho leve de bebê, a mão fechada num punho que não sabia ainda o peso do nome que carregava.Azzaro.Bellatorre.Não era só sobrenome.Era herança.Vinnie estava sentado na borda da cama, cotovelos nos joelhos, olhar fixo no berço como se estivesse guardando a cena pra nunca mais esquecer. A luz baixa deixava o rosto dele mais sério, mas menos pesado do que nos últimos meses.Renata Conte estava fora do jogo.Não importava, naquela noite, se viva, morta, exilada. Não importava o destino exato. Importava que não tinha mais mão dela em nenhuma opera
Vinnie Eu sempre achei que a mansão Azzaro era território.Território pra reunião, pra guardar arma, pra planejar guerra. Um lugar onde o submundo se levantava e se desmontava todo dia, dependendo de quem entrava pela porta.Nunca tinha pensado nela como casa.Até ver a Liel descendo a escada com a mão na barriga.Não era barriga grande ainda.Era só gesto.Ela vinha devagar, não por fraqueza, mas porque estava pensando. Liel nunca andava rápido quando pensava. Cada degrau era tempo de cálculo.Eu estava no meio da escada.— Onde você acha que vai? — perguntei, cruzando os braços.— Trabalhar — respondeu, simples.— Trabalhar onde?— Na sala de reunião.Desci mais um degrau, bloqueando o caminho.— Não.Ela ergueu o queixo.— Não o quê?— Você não vai pra sala de reunião.— Por quê?— Porque tem dez homens sentados lá embaixo discutindo contrato, risco, possíveis ataques, gente querendo arrancar pedaço do nome Azzaro. Não é ambiente pra grávida.— Vinnie… — ela suspirou, olhando pro
VinnieAlguns dias depois, Liel decidiu que precisava ver o mar.Ela não avisou.Eu percebi quando acordei e ela não estava na cama, e uma mensagem curta no celular substituía a presença.“Praia. Sem escolta demais. Sem drama. Não surta.”Surtei.No limite interno.Peguei o carro, fui atrás.A praia não era luxuosa.Era uma faixa de areia, mar cinza, vento cortando a pele. Ela estava em pé perto da água, sapatos na mão, pés descalços, vestido simples que não chamava atenção, cabelo preso de forma prática.A “Estrela da Morte” tinha sido cena que marcou a vida dela.Ela me contou, aos pedaços, sobre naufrágio, sobre quem ela foi antes de virar Liel Bellatorre, sobre o que o mar tirou. Nunca em detalhes demais. Só o suficiente pra eu entender que, pra ela, água não era só água.Era perda.Cheguei devagar.Não chamei.Fiquei alguns passos atrás, observando.Ela olhava pro horizonte como se estivesse tentando ver uma pessoa que não existia mais.Depois olhou pra própria barriga, ainda dis
Vinnie O consultório ainda me incomodava.Parede clara, cadeira confortável demais, cheiro de coisa limpa. Eu sempre me senti deslocado em lugares que não carregavam o peso de tudo que eu fiz. Aqui, ninguém tinha sangue nas mãos. Só caneta, papel e diplomas na parede.O médico me olhou por cima dos óculos.— Há quanto tempo você não bebe? — perguntou.— Tempo suficiente pra ter medo de contar — respondi.Ele anotou.Sessões de terapia nunca foram lugar em que eu me senti à vontade. Nas primeiras, eu passei metade do tempo irritado, a outra metade calado. Nas últimas, alguma coisa mudou. Não porque eu passei a gostar, mas porque o peso dentro da cabeça começou a exigir um lugar pra sair.— E por que decidiu parar? — ele insistiu.Pensei em responder com alguma frase de efeito.Não respondi.— Porque eu amo uma mulher que não merece ver a própria vida virar repetição da minha — falei, simples. — Porque eu vou ser pai de alguém que não pediu pra nascer nesse mundo. Porque meu pai já pa
Liel O salão do tribunal da máfia nunca foi feito pra acomodar conforto.É pedra, madeira pesada, luz baixa. Há décadas, homens decidem destinos ali com a mesma naturalidade com que pedem mais café. Hoje a sala está cheia.Azzaro.Serracante.Dois aliados secundários do norte que ainda não decidiram se amam ou odeiam o nome Conte.Todos sentados em semicírculo, olhando pro centro.No centro, uma mesa.Sobre ela, dois nomes pesam mais do que qualquer papel:Renata Conte.Marco Vitale.Os relatórios estão empilhados, cada operação listada, cada tentativa de ataque, cada resposta que demos. O tribunal não existe pra elogiar. Existe pra julgar.Marcus está à minha esquerda.Vinnie, à minha direita.Eu no meio.A barriga não aparece ainda, mas eu sinto. Não como peso. Como presença. É estranho estar ali com a consciência de que não sou só conselheira, não sou só arma, e mesmo assim carregar a responsabilidade de falar por todos.O Don mais velho dos aliados bate o martelo de madeira na m
VinnieEle continua:— Pra mim, cada alvo era só alvo. Cada contrato, só número. Eu entrava, fazia, saía. Nunca tive pai pra segurar estrutura. Nunca tive mulher pra ser conselheira. Nunca tive filho pra pensar em futuro. — Dá de ombros. — Não tenho problema em cair hoje, se for o caso. É só mais um dia.O contraste é claro.Eu sei exatamente por que não posso cair.Ele não.— É por isso que você nunca falhou — digo. — Porque não tinha nada a perder.Ele sorri de canto.— Talvez.— É por isso que você vai falhar hoje — completo.Não dou tempo pra ele responder.— Armas abaixadas — ordeno pros homens.Eles obedecem.Vitale franze a testa.— Vai me deixar sair? — pergunta.— Não.— Então?— Isso aqui não é execução em massa. — Dou mais um passo. Agora a distância entre nós é mínima. — Isso aqui é acerto. De mim com você.Ele leva a mão pro lado da jaqueta.Eu já esperava.Minha própria mão vai pra arma, mas não tiro ainda. Entro na linha dele, não fora. Se ele atirar, vai ter que me ace







