MasukLiel
O meu padrinho apenas sorri, aquele sorriso curto de quem já pensou três movimentos à frente. — Se necessário, eu obrigo — responde. — Sou o Don. Sou o pai. E, no fundo, você sabe que ele não faria tanta força assim para fugir de você. Meu coração dá um salto que eu prefiro ignorar. O Don se aproxima meio passo, e eu sinto o peso dos anos entre nós. Ele parece mais velho agora do que em qualquer batalha que já enfrentou. — Eu confio em você para isso, princesinha — ele diz, baixo. — Sei que você é capaz disso… e de muito mais. Eu olho para ele, e tudo dentro de mim briga ao mesmo tempo. Gratidão, lealdade, raiva, medo, amor, cansaço. É um caos silencioso, como o mar antes da tormenta. — Eu não quero ver o meu filho morrer aos poucos — ele continua. — Não depois de ter sobrevivido a seis tiros. Não depois de tudo o que lutei para mantê-lo vivo até aqui. Eu quero vê-lo casado, quero ver meu primeiro neto. Quero ver você com uma vida que não dependa apenas do meu sobrenome para existir. Eu aperto os lábios. — E se eu disser não? — pergunto. Ele não hesita. — Eu vou respeitar — diz. — Mas vou morrer sabendo que eu pedi isso à única pessoa que tinha real chance de salvá-lo. Eu sei que ele está me manipulando. Não da forma baixa que muitos fazem, mas da forma mais cruel possível, colocando o coração dele na mesa e me deixando escolher o que fazer com isso. Ele dá o golpe final. — Se você se casar com o Vinnie e conseguir transformá-lo no homem que ele deve ser — o Don continua, agora com a voz de quem faz um contrato — eu assino um acordo, um contrato, liberando você de qualquer compromisso com a família Azzaro depois da minha morte. Você não será presa a nome, a juramento, a dívida alguma. Eu ergo o olhar, surpresa. — Eu… não vou? — Você vai receber a parte que lhe cabe na herança, como já está no testamento — ele explica. — Vai poder viver onde quiser. Recomeçar do zero. Longe da máfia, se assim escolher. Sem precisar dormir com uma arma debaixo do travesseiro. Basta uma coisa, se casar com o homem que você diz odiar… e tirá-lo do lixo em que se jogou. A palavra “liberdade” passa pelos meus pensamentos como um sussurro perigoso. Viver onde eu quiser. Recomeçar do zero. Não mais acordar no meio da madrugada por barulhos suspeitos. Não mais ter sangue nas mãos. Não mais planejar mortes, calcular traições, negociar com monstros. Eu penso em Gideon. Penso nos olhos cor de mel, na maneira gentil, na voz firme, na forma como ele sempre me tratou como igual. Penso no rosto dele quando sorri, nas piadas leves, no modo como diz que é “fofo” eu corar quando ele chega perto. Penso na possibilidade, remota, mas real, de um dia poder ser apenas Liel. Não conselheira. Não arma. Não peça de um tabuleiro sangrento. Apenas uma mulher que ama um homem e constrói uma vida ao lado dele. Quem sabe em uma casa afastada, em um país onde ninguém saiba pronunciar o nome Azzaro ou Serracante. Sem códigos, sem reuniões, sem alianças. Eu olho para Vinnie novamente. Ele continua sedado, alheio a tudo. Um idiota inconsequente, herdeiro de um império, quebrado até o osso, segurando, sem saber, a chave da minha eventual liberdade. É irônico. Cruel. Perfeito demais para ser coincidência. Meu olhar sobe para o Don. Ele não me pressiona com palavras agora. Só espera. E, ao ver o cansaço nos olhos dele, a sombra de dor escondida nas rugas ao redor, eu entendo que, no fim, não se trata só do Vinnie. Trata-se de como ele quer morrer, sabendo que tentou tudo. Eu respiro fundo. — Se eu aceitar… — começo, a voz mais baixa. — O senhor cumpre cada palavra? — Cada linha do contrato — ele garante. — Você terá isso por escrito. Advogados, testemunhas, tudo. Depois que eu me for, ninguém terá o direito de exigir que você continue presa a essa vida. Eu deixo a cabeça cair um pouco para frente. Penso nos anos que já vivi sob o teto dele. Nos treinamentos, nas noites em claro, na mão dele segurando a minha quando o pesadelo com o mar voltava. Penso no dia em que ele me deu um sobrenome. Penso em quantas vezes ele me apresentou ao submundo não como funcionária, mas como família. Se existe uma dívida que eu aceite pagar nesta vida, é com ele. Fecho os olhos por um segundo. Abro de novo. Olho para Vinnie. Olho para o Don. A sensação é de estar na beira de um precipício, sabendo que o passo à frente é inevitável. Não importa a direção, eu vou cair em algum lugar. — Eu aceito — digo, finalmente. Minha voz sai firme, mesmo que por dentro tudo esteja tremendo. — Eu me caso com o Vinnie. — Engulo em seco. — E eu vou transformá-lo no homem que o senhor quer que ele seja. A cabeça do Don inclina levemente, em respeito, mas o brilho de alívio nos olhos dele diz mais do que qualquer agradecimento. Eu, Liel Bellatorre, conselheira da máfia Azzaro, acabo de selar o próprio destino com quatro palavras simples. Eu. Me. Caso. Com. Ele. E, pela primeira vez em muitos anos, não tenho certeza se a arma apontada para mim é a do inimigo… ou a do destino.Liel A mansão Azzaro nunca ficou totalmente silenciosa.Mesmo à noite, tinha o som distante de carro passando na rua, o clique de algum rádio no andar de baixo, o passo contido de segurança mudando de posição. O submundo não dormia. Só diminuía o volume.Hoje, mesmo com tudo isso, o quarto parecia outro lugar.No berço ao lado da cama, o nosso filho dormia.Pequeno demais pra tudo que já tinha acontecido antes dele. Respirava com aquele barulho leve de bebê, a mão fechada num punho que não sabia ainda o peso do nome que carregava.Azzaro.Bellatorre.Não era só sobrenome.Era herança.Vinnie estava sentado na borda da cama, cotovelos nos joelhos, olhar fixo no berço como se estivesse guardando a cena pra nunca mais esquecer. A luz baixa deixava o rosto dele mais sério, mas menos pesado do que nos últimos meses.Renata Conte estava fora do jogo.Não importava, naquela noite, se viva, morta, exilada. Não importava o destino exato. Importava que não tinha mais mão dela em nenhuma opera
Vinnie Eu sempre achei que a mansão Azzaro era território.Território pra reunião, pra guardar arma, pra planejar guerra. Um lugar onde o submundo se levantava e se desmontava todo dia, dependendo de quem entrava pela porta.Nunca tinha pensado nela como casa.Até ver a Liel descendo a escada com a mão na barriga.Não era barriga grande ainda.Era só gesto.Ela vinha devagar, não por fraqueza, mas porque estava pensando. Liel nunca andava rápido quando pensava. Cada degrau era tempo de cálculo.Eu estava no meio da escada.— Onde você acha que vai? — perguntei, cruzando os braços.— Trabalhar — respondeu, simples.— Trabalhar onde?— Na sala de reunião.Desci mais um degrau, bloqueando o caminho.— Não.Ela ergueu o queixo.— Não o quê?— Você não vai pra sala de reunião.— Por quê?— Porque tem dez homens sentados lá embaixo discutindo contrato, risco, possíveis ataques, gente querendo arrancar pedaço do nome Azzaro. Não é ambiente pra grávida.— Vinnie… — ela suspirou, olhando pro
VinnieAlguns dias depois, Liel decidiu que precisava ver o mar.Ela não avisou.Eu percebi quando acordei e ela não estava na cama, e uma mensagem curta no celular substituía a presença.“Praia. Sem escolta demais. Sem drama. Não surta.”Surtei.No limite interno.Peguei o carro, fui atrás.A praia não era luxuosa.Era uma faixa de areia, mar cinza, vento cortando a pele. Ela estava em pé perto da água, sapatos na mão, pés descalços, vestido simples que não chamava atenção, cabelo preso de forma prática.A “Estrela da Morte” tinha sido cena que marcou a vida dela.Ela me contou, aos pedaços, sobre naufrágio, sobre quem ela foi antes de virar Liel Bellatorre, sobre o que o mar tirou. Nunca em detalhes demais. Só o suficiente pra eu entender que, pra ela, água não era só água.Era perda.Cheguei devagar.Não chamei.Fiquei alguns passos atrás, observando.Ela olhava pro horizonte como se estivesse tentando ver uma pessoa que não existia mais.Depois olhou pra própria barriga, ainda dis
Vinnie O consultório ainda me incomodava.Parede clara, cadeira confortável demais, cheiro de coisa limpa. Eu sempre me senti deslocado em lugares que não carregavam o peso de tudo que eu fiz. Aqui, ninguém tinha sangue nas mãos. Só caneta, papel e diplomas na parede.O médico me olhou por cima dos óculos.— Há quanto tempo você não bebe? — perguntou.— Tempo suficiente pra ter medo de contar — respondi.Ele anotou.Sessões de terapia nunca foram lugar em que eu me senti à vontade. Nas primeiras, eu passei metade do tempo irritado, a outra metade calado. Nas últimas, alguma coisa mudou. Não porque eu passei a gostar, mas porque o peso dentro da cabeça começou a exigir um lugar pra sair.— E por que decidiu parar? — ele insistiu.Pensei em responder com alguma frase de efeito.Não respondi.— Porque eu amo uma mulher que não merece ver a própria vida virar repetição da minha — falei, simples. — Porque eu vou ser pai de alguém que não pediu pra nascer nesse mundo. Porque meu pai já pa
Liel O salão do tribunal da máfia nunca foi feito pra acomodar conforto.É pedra, madeira pesada, luz baixa. Há décadas, homens decidem destinos ali com a mesma naturalidade com que pedem mais café. Hoje a sala está cheia.Azzaro.Serracante.Dois aliados secundários do norte que ainda não decidiram se amam ou odeiam o nome Conte.Todos sentados em semicírculo, olhando pro centro.No centro, uma mesa.Sobre ela, dois nomes pesam mais do que qualquer papel:Renata Conte.Marco Vitale.Os relatórios estão empilhados, cada operação listada, cada tentativa de ataque, cada resposta que demos. O tribunal não existe pra elogiar. Existe pra julgar.Marcus está à minha esquerda.Vinnie, à minha direita.Eu no meio.A barriga não aparece ainda, mas eu sinto. Não como peso. Como presença. É estranho estar ali com a consciência de que não sou só conselheira, não sou só arma, e mesmo assim carregar a responsabilidade de falar por todos.O Don mais velho dos aliados bate o martelo de madeira na m
VinnieEle continua:— Pra mim, cada alvo era só alvo. Cada contrato, só número. Eu entrava, fazia, saía. Nunca tive pai pra segurar estrutura. Nunca tive mulher pra ser conselheira. Nunca tive filho pra pensar em futuro. — Dá de ombros. — Não tenho problema em cair hoje, se for o caso. É só mais um dia.O contraste é claro.Eu sei exatamente por que não posso cair.Ele não.— É por isso que você nunca falhou — digo. — Porque não tinha nada a perder.Ele sorri de canto.— Talvez.— É por isso que você vai falhar hoje — completo.Não dou tempo pra ele responder.— Armas abaixadas — ordeno pros homens.Eles obedecem.Vitale franze a testa.— Vai me deixar sair? — pergunta.— Não.— Então?— Isso aqui não é execução em massa. — Dou mais um passo. Agora a distância entre nós é mínima. — Isso aqui é acerto. De mim com você.Ele leva a mão pro lado da jaqueta.Eu já esperava.Minha própria mão vai pra arma, mas não tiro ainda. Entro na linha dele, não fora. Se ele atirar, vai ter que me ace







