FAZER LOGINO peso dos meusnsegredo não diminuíam. Cada dia que passava, carregá-lo sozinha doía mais.Heitor tentava se afastar. Eu via. Depois da nossa última conversa no escritório, ele passou a cumprimentar com a cabeça, a evitar ficar sozinho no mesmo cômodo, a inventar desculpas para não subir ao sótão ou vasculhar gavetas comigo. A distância que ele mesmo impôs agora estava sendo cumprida com rigor… e com um sofrimento visível nos olhos. Eu estava sofrendo, não sabia como sair de tudo isso, como contar a ele a verdade sobre sua paternidade. E ele... ele sofria porque se sentia culpado. Bruno, no entanto, fazia exatamente o oposto. Me cercava por todos os cantos da casa.Numa certa manhã, ele me interceptou no corredor quando eu ia levar o chá de Dona Marieta.— Cecília — chamou ele com a voz baixa e aveludada. — Preciso de um favor.Parei, mantendo a bandeja entre nós como escudo.— Sim, senhor Bruno?— Só Bruno, por favor querida. Quantas vezes preciso repetir? — O sorriso dele era fáci
Passei a noite inteira acordada.A verdade que eu ouvi atrás da porta da biblioteca não me deixava mais em paz. Heitor não era filho de Bernardo. Era filho de Bruno. Ele não era meu irmão.E eu não podia contar nada a ele, não agora.Cada vez que eu fechava os olhos, imaginava o rosto de Heitor ao descobrir. A decepção. A raiva. A sensação de ter vivido uma mentira a vida inteira. O peito doía só de pensar. Eu sofria por ele antes mesmo de ele sofrer.Na manhã seguinte, desci para o café com o rosto inchado da noite mal dormida, minha cabeça latejava de dor. Bruno já estava na mesa, impecável, tomando café e lendo o jornal como se fosse o dono da casa.— Bom dia, Cecília — cumprimentou ele erguendo os olhos. O sorriso veio fácil, sedutor, demoníaco. Só de imaginar qualquer pensamento que ele estivesse pensando me causava náuseas, afinal, ele era meu tio.— Dormiu bem? Parece cansada. — Bom dia Senhor Bruno — respondi, educada. — Só o plantão de ontem.Isadora observava a troca com um
Na manhã seguinte, acordei com uma sensação estranha.Não era medo.Era a certeza de que estávamos perto de alguma coisa. No hospital, Davi estava me esperando.Assim que me viu, veio em minha direção.— Bom dia, Ceci.— Não começa Davi...— Eu trouxe café.— Não quero, por favor e obrigada. Eu já tomei café.Ele suspirou.— Você está brava comigo.— Estou cansada.— Eu só quero conversar.— Davi, nós já conversamos tudo que tínhamos para conversar.— Não o suficiente.Antes que eu respondesse, ouvi uma voz atrás de mim.— Ela disse que não quer conversar.Heitor.Virei-me.Ele estava parado alguns metros atrás, com os braços cruzados.Davi sorriu com um ar de deboche,— E você é quem para decidir por ela?— Ninguém. Mas aparentemente alguém precisa repetir o que ela acabou de dizer.— Heitor... sussurrei Davi deu um passo à frente.— Você está sempre por perto — disse Davi— Porque você não sabe respeitar limites.— E você sabe?Os dois se encararam.— Chega — falei entrando no mei
O dia seguinte amanheceu carregado. Isadora não saiu de casa pela manhã logo cedo como sempre fazia. Ficou na sala de estar, de pernas cruzadas, folheando uma revista sem realmente ler, o olhar sempre voltando na minha direção cada vez que eu passava.— Você tem um jeito… — comentou ela de repente, quando eu levava o chá de Dona Marieta. — Um jeito que me incomoda. Bernardo levantou os olhos do celular.— Isadora, pelo amor de Deus.— Seu olhar. Até o silêncio. Você me lembra alguém.Meu sangue gelou, mas mantive o rosto neutro.— Lamento se causei algum desconforto, senhora.— Hun... resmungouBernardo se levantou, claramente irritado.— Chega Isadora. Deixa a menina em paz, ela está apenas fazendo o trabalho dela. Vamos. Temos reunião.Quando os dois saíram, Dona Marieta, que fingia dormir na poltrona, abriu um olho.— Ela sempre foi assim. Venenosa. Cuidado, minha filha. O veneno dela gruda.Passei o resto da manhã com dona Marieta, eu não tinha plantão no hospital, estava por a
Mal saímos do quarto de Dona Marieta e já ouvimos os passos de Isadora subindo a escada. Heitor puxou meu braço e me arrastou para o corredor oposto, nossos o corações batiam descompassado. A certidão e a carta queimavam dentro da minha blusa. — Heitor? — a voz de Isadora soou mais perto. — Você está em casa? — Estou no escritório, mãe! — ele gritou, forçando a voz a soar normal. Depois, baixinho para mim: — Vai para o seu quarto. Agora. Eu distraio ela. Obedeci. Fechei a porta com cuidado e me apoiei nela, tentando controlar a respiração. A cópia da minha certidão de nascimento suada em mãos. Por que a família Villela teria aquilo guardado no cofre da avó? A pergunta martelava sem resposta. Minutos depois, ouvi a voz de Isadora se afastando. Heitor bateu de leve na minha porta e entrou sem esperar resposta. — Ela foi para o quarto — sussurrou. — Ela ficou um pouco desconfiada mas consegui despistar, eu acho. — Por que eles teriam isso, Heitor? Isso não é coincidência.
Guardei a carta junto ao peito o caminho inteiro até o meu quarto. O papel fino parecia quente demais contra a pele, como se ainda carregasse a dor de quem o escreveu décadas atrás. "Eu não posso ir com você. Eu não quero atrapalhar sua vida". As palavras de minha mãe ecoavam sem parar em minha mente.Heitor havia ficado no escritório, fechando tudo com cuidado para não deixar rastros. Antes de nos separarmos no corredor, ele apenas murmurou:— Amanhã a gente conversa mais sobre isso.Me deitei e por mais que eu tentasse, era em vão, eu não conseguia dormir. A cada poucos minutos pegava o celular. A mensagem de Davi continuava na tela, sem resposta. "Eu não desisto de nós." Parte de mim sentia culpa, a outra parte, só queria que ele entendesse que o tempo que eu pedi não era capricho. Era uma espécie de sobrevivência. Eu precisava focar em outras coisas no momento e Davi não era minha prioridade agora.Por volta das duas da manhã, uma batida leve na porta me fez sentar na cama de um







