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Cláusula Proibida: O Amor Nunca Fez Parte Do Acordo
Cláusula Proibida: O Amor Nunca Fez Parte Do Acordo
Author: Priscila Ozilio

Capítulo 1 — Pela tia Marie 

last update publish date: 2026-06-11 03:20:06

Capítulo 1 — Pela tia Marie

Victoria Clark

O espartilho de cetim preto apertava minhas costelas com uma crueldade que eu já devia ter me acostumado, mas naquela noite, cada respiração parecia uma negociação. Eu me encarei no espelho manchado do vestiário do The Gilded Cage, sentindo o peso da maquiagem excessiva no rosto.

Meus lábios estavam pintados de um vermelho tão vibrante que parecia um sinal de alerta, e a saia... bom, a saia mal cumpria sua função de cobrir o que deveria.

Eu odiava esse lugar. Odiava o cheiro de perfume caro misturado com o suor do desespero, odiava o som das notas de cem dólares sendo jogadas sobre o balcão como se não fossem nada. Mas, acima de tudo, eu odiava o fato de que eu precisava de cada centavo daquelas gorjetas.

— Vic, você ainda está aqui? — Sara entrou no vestiário, o salto agulha estalando no piso de linóleo. — O Ricardo está soltando fumaça pelos ouvidos. O movimento na área VIP começou cedo hoje.

— Eu já vou, Sara. Só estava... tentando me convencer de que não vou vomitar no primeiro cliente que me olhar como se eu fosse um prato de entrada.

Sara suspirou e caminhou até mim, colocando a mão no meu ombro. O olhar dela suavizou.

— É pela sua tia, lembra? Só mais algumas semanas e você consegue quitar aquela parcela do tratamento. Foca no dinheiro, esquece os rostos. É o que eu faço.

Assenti, forçando um sorriso que não chegou aos meus olhos. "Pela tia Marie". Esse era o meu mantra. Minha tia foi a única pessoa que não desistiu de mim quando meus pais morreram naquele acidente de carro. Ela me deu uma casa, amor e um futuro. Agora que os pulmões dela estavam falhando, o mínimo que eu podia fazer era vender minha dignidade em parcelas de oito horas por noite.

Saí do vestiário e fui atingida pela onda de som do bar. O jazz moderno pulsava nas caixas de som, criando uma atmosfera de sofisticação que escondia o que aquele lugar realmente era: um mercado de luxo.

— Mesa quatro, Victoria. Agora! — Ricardo, o gerente que parecia ter prazer em nos diminuir, sibilou no meu ouvido enquanto passava. — E limpe esse desânimo do rosto. Os cavalheiros lá dentro pagam por entretenimento, não por uma tragédia grega.

Engoli o insulto, ajeitei a bandeja pesada de prata e caminhei em direção à área isolada por cordas de veludo. É ali que o dinheiro de verdade circulava. E onde o perigo também morava.

Ao entrar no lounge VIP, o ar parecia mudar. Era mais frio, mais denso. Meus olhos foram atraídos quase que magneticamente para o centro do ambiente. Sentado em uma poltrona de couro que parecia um trono, estava um homem que parecia ter sido esculpido em granito.

Adrian Foley.

Eu já o tinha visto em jornais e portais de fofoca sobre bilionários. O "CEO de Ferro". O homem que transformava empresas falidas em impérios, mas que nunca tinha sido visto sorrindo. De perto, ele era ainda mais intimidador. O maxilar era perfeitamente angulado, a pele tinha um tom levemente bronzeado que contrastava com os olhos que, mesmo de longe, pareciam duas lâminas de safira. Ele vestia um terno grafite que gritava poder.

Ao lado dele, um homem loiro e mais jovem, com um sorriso fácil, gesticulava enquanto falava. Henry Reeves, o braço direito.

— Aqui estão os pedidos, senhores — eu disse, minha voz saindo mais firme do que eu esperava.

Me aproximei da mesa, sentindo o peso do olhar de Henry sobre mim, mas Adrian... Adrian sequer ergueu a cabeça. Ele estava girando um copo de whisky com movimentos lentos e calculados. Quando fui pousar a bebida dele, o destino resolveu me pregar uma peça. Um cliente bêbado na mesa ao lado cambaleou, esbarrando no meu cotovelo.

O mundo pareceu entrar em câmera lenta. O copo de cristal inclinou, e uma dose generosa de whisky puro espirrou no pulso impecável da camisa branca de Adrian Foley.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Henry parou de rir instantaneamente.

Adrian ergueu o olhar. Lentamente. Quando seus olhos encontraram os meus, senti um calafrio percorrer minha espinha que nada tinha a ver com o ar-condicionado. Não havia raiva furiosa. Havia algo muito pior: um desprezo gélido, como se eu fosse um inseto que tivesse ousado pousar em sua pele.

— Você é nova? — A voz dele era um barítono baixo, profundo e sem qualquer traço de humanidade.

— Sinto muito, senhor. Foi um acidente, eu vou... — Peguei o guardanapo de pano da bandeja, me inclinando para secar o pulso dele.

— Não toque em mim — ele cortou. As palavras foram ditas com uma calma assustadora, mas o impacto foi como um tapa. — Apenas termine de servir e desapareça da minha vista.

Senti o sangue subir para as minhas bochechas. A fúria começou a borbulhar no meu peito, lutando contra a necessidade de manter o emprego. Eu queria dizer que o whisky custava cem dólares, mas o caráter dele não valia um centavo.

Mas eu me calei. Pelo bem da tia Marie, eu servi a bebida em seu copo, baixei a cabeça e me retirei.

Antes que eu cruzasse a cortina de veludo, girei o corpo e olhei para trás uma última vez. Adrian limpava o pulso com uma lentidão cruel, sem sequer registrar minha existência. Eu apertei a bandeja contra o peito com tanta força que o metal machucou meus dedos.

— Tudo pela tia Maire… — murmurei meu mantra.

E era isso. Hoje eu engolia meu orgulho porque… “Era tudo pela tia Maire.”

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Comments (2)
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Cátia Lopes
Pri comecei a ler hoje, estou gostando, estou no primeiro capítulo
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Olga Oliveira
adora o jeito da narrativa da Priscila Ozilio
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