LOGINPor um momento, pareceu que meu cérebro desligou para me proteger, mas foi um breve instante, logo a minha ficha caiu e veio tudo de uma vez: a raiva, a humilhação, a incredulidade e a certeza de que eu sou uma idiota.
A esposa dedicada, a mulher invisível, a que fazia tudo por ele… Foi traída. Minha respiração falhou e algo dentro de mim — algo que eu nem sabia que existia — se rompeu. — Esther! — Eduardo gritou, desesperado, jogando a mulher para o lado na cama assim que me viu. — Não é o que parece! Mas eu ri. Foi a única coisa que consegui fazer. Comecei a gargalhar como se estivesse vendo a melhor e maior piada do mundo, mas a palhaça era eu, o que não me deixou nada satisfeita. — Eduardo… — eu disse, com uma calma assustadora. — Eu vou te matar. E avancei, lentamente, como uma cobra prestes a dar o bote, isso o assustou tanto que ele caiu da cama, enrolando no lençol em seu corpo magro e batendo a cabeça na cômoda. Deve ter se arrependido de ter a cabeça raspada, um pouco de cabelo teria amortecido a batida. A outra mulher, um borrão de cabelos ruivos no qual não me concentrei o suficiente para ver o rosto, saiu correndo enrolada no edredom, tropeçando pelo caminho, mas não me importei, ela não me devia nada, ele sim. Eu não bati nele. Não muito, só um belo e bem forte tapa na cara que deixou meus cinco dedos marcados em sua pele clara e sensível. — Seu idiota! — gritei. — Por que não foi pra porra de um motel, seu canalha! — tirei um dos sapatos e joguei nele que tentava se levantar. — Depois de tudo o que eu fiz, todas as horas extras pra comprar esse maldito apartamento porque você nunca tinha dinheiro para nada! Todos os aniversários em que fiz das tripas coração para te dar os melhores presentes enquanto ganhava uma rosa, ou uma caixa de bombons barata comprada no mercado de última hora porque você tem a memória de um inseto! — vociferei, jogando o outro sapato. Eu precisava dizer aquilo, tudo o que eu tinha engolido por anos, para, no fim das contas, levar chifre na minha própria cama. — Pegue suas coisas. Tudo! Se ficar alguma coisa aqui vai pro lixo! — berrei, apontando para o guarda-roupas — E saia da minha casa! — Teté, amor, eu não tenho nada com ela, foi um deslize, eu me deixei levar, me perdoa! — tentou chorando, usando seus olhos caídos para fazer expressão de cachorro sem dono. Mas eu estava… vazia. Nem se o próprio Papa viesse interceder por ele eu o perdoaria. Simplesmente dei as costas, o ignorando. — Esther, por favor! É verdade! Não jogue nosso casamento fora por uma coisa assim tão boba. — Boba? — me virei bruscamente. — Eduardo, se você chegasse em casa e me encontrasse sentando loucamente num cara bem gostoso, seria uma bobagem? — ele abriu a boca, mas nada saiu. — Pois é, porque não é! — gritei, sem ligar para quantos vizinhos provavelmente estavam ouvindo. — Agora saia, antes que eu desista de ser boa e te mate de uma vez! — ameacei e seus olhos se arregalaram. Ele juntou com pressa tudo o que pôde em duas malas, se vestiu correndo e saiu choramingando e resmungando coisas inaudíveis. O resto do dia e a noite foram terríveis, peguei todas as fotos que tinha de nós dois, inclusive os quadros e porta retratos, os álbuns, até o álbum de casamento e rasguei uma por uma, enchendo mais da metade de um saco de lixo. Olhei em volta, ele havia deixado o amado vídeo game, que, aliás, a idiota aqui comprou para ele de Natal, anunciei na Internet por um valor irrisório e em menos de duas horas já tinha um comprador que o retirou comigo na portaria do prédio. Gastei quase cinco mil, vendi por quinhentos, mas quem liga? O prazer é deixá-lo sem! Entrei e vasculhei por roupas que ele tivesse deixado para trás, apenas algumas meias, cuecas que foram para o lixo também. Os salgadinhos que comprava apenas porque ele gostava, lixo, o perfume que ficou no armário do banheiro e a escova de dentes, lixo. Até que o saco encheu, já eram quase duas da manhã, deixei ele perto da porta, para colocar na caçamba de manhã. Tomei um banho e deitei no sofá, parecia que eu só havia cochilado uns vinte minutos quando o celular despertou. Lavei o rosto e tomei um copo de água gelada para tentar acordar, mas só funcionou parcialmente, escovei os dentes, fui escolher uma roupa dentre todas quase iguais que tinha no guarda roupas, quando vi a hora, já estava dez minutos atrasada para sair, eu nunca me atrasava. Coloquei a primeira camisa social que vi, uma calça pantalona, fiz um coque de qualquer jeito, o que certamente ficou uma bagunça com meu cabelo ondulado e revoltoso como é. Peguei minha bolsa e desci as pressas, deixando o saco de lixo para trás. Uma horas depois, às 8:15 da manhã, cheguei a Blackstone Corp com o coque frouxo e desgrenhado, a blusa amarrotada e uma expressão que ninguém jamais tinha visto em mim, uma mistura de raiva, sono e derrota. O segurança me cumprimentou, mas pareceu assustado com o meu estado. Adrian estava no corredor quando cheguei ao 38° andar, falando com um diretor, mas quando me viu, o assunto cessou. — Esther… — ele murmurou, dando um passo em minha direção. — O que aconteceu? Respirei fundo, ergui o queixo e disse: — Eu expulsei meu marido de casa. — dei um sorriso forçado, sem mostrar os dentes. O diretor arregalou os olhos, certamente eu parecia uma homicida, mas Adrian deu um sorriso lento, perigoso e satisfeito. — Finalmente — ele sussurrou, baixo demais para o diretor ouvir. — Bem-vinda de volta, Esther. Franzi a testa. — De volta? — À sua vida — ele respondeu. — A verdadeira. E naquele instante, percebi algo estranho. Os olhos dele, por um breve segundo, brilharam num tom vermelho. Pisquei, confusa, e o brilho sumiu, como se nunca tivesse estado lá. Talvez fosse só a luz, ou só minha imaginação fértil, até, quem sabe, pode ser a privação quase total de sono pela qual estou passando. Ou talvez… só talvez... Fosse o começo de algo que eu jamais poderia imaginar.Quando acordei no dia seguinte, corri para o banheiro, louca por um banho. Sinceramente, dormir no sofá depois de uma foda não era algo que estivesse nos meus planos, mesmo estando nos braços daquele que eu amo. É estranho pensar em amar alguém de novo, mas é realmente impossível não amar o Adrian. Eu consegui a peripécia de amar por mais de sete anos alguém que me tratava como uma qualquer, um burro de carga, como poderia não amar alguém que me trata como se eu fosse uma das estrelas mais brilhantes do céu, como se eu fosse realmente especial? Nem mesmo consigo evitar sorrir debaixo do chuveiro pensando nisso.Quando termino meu banho, já passou das seis e vinte da manhã e Adrian ainda se enrola como um gatinho nas cobertas no sofá.— Ei, Adrian, acorda, temos que ir trabalhar. — o sacudo, ainda de toalha, agachada na altura de seu rosto.— Nunca achei que fosse precisar que me despertassem para trabalhar depois de mais de vinte anos a frente dessa empresa. — ele reclama, abrindo os
POV EstherAlmoços na casa onde eu cresci sempre foram barulhentos desde que minha irmã nasceu, e como ela ainda está aqui, isso não mudou. Mesmo assim, com tanta conversa e risadas, minha mente não conseguiu mais desfocar, Adrian certamente estava escondendo alguma coisa. Será que nos descobriram? — me questiono, mentalmente. — Vamos ter que fugir? Minha família também está em perigo?Olho em volta, minha mãe, Lívia e Miguel riem da cara de pau dela ao falar com meu chefe, eu não consigo acompanha-los, mas meu coração dói com o desejo de guardar esse momento comigo para sempre, de congelar o tempo nessa simplicidade, com uma alegria tão crua e pura, com todos bem e seguros, e então, algo acontece, tudo para. Olho para Miguel, Lívia, ambos parecem congelados, minha mãe também, mas, diferente deles, seus olhos se movem, e isso me assusta mais que a situação toda em si, e dou um pulo para trás com um grito sufocado e tudo volta ao normal, todos estão se movendo de novo e Dona Antônia n
POV AdrianQuando cheguei à mansão Blackstone, Caíque me aguardava na porta, com seus 1,90 de altura, o rapaz loiro e parrudo pareceria muito mais imponente, não fosse seu rosto gentil. Ele sorri para mim e faz sinal para que o siga.— Pegamos um espião do Clã MacLeod, de Fia. — puxo o ar com força, já estava preocupado com nossa situação, agora, mais do que nunca.— Quem o está interrogando? — pergunto. — Marcus, é claro! — ele dá de ombros e sorrio, pensando que o espião vai dizer até com quantos anos saiu das fraldas. Noto que ele não espelha minha reação, parece extremamente tenso.— Você está bem, Caíque? — ele para e se vira para mim, estamos há poucos passos da sala de interrogatório, então, ele sussurra, falando tão baixo que há poucos metros talvez nem eu o escutaria:— Temo que ele já saiba sobre nossa atual situação, e, se isso chegar até Fia, o que pode acontecer? — esse medo também brinca no fundo de minha mente, mas faço meu melhor para contê-lo e sorrio para Caíque. —
— Mãe! Mãe! — chamo repetidamente, dando leves tapinhas em seu rosto e a abanando com uma de suas revistas de receitas, tentando acordá-la. Aos poucos, ela parece voltar a consciência. — Ai, graças à Deus! — respiro aliviada. — Mãe, fica sentada, respira. — continuo a abandando, enquanto ela parece recobrar a consciência.— Filha, olha a carne para mim, se não, vai queimar. — me levanto e mexo a carne que ainda tem bastante caldo e está longe de secar. Me certifico de que nada está grudando no fundo, abaixo o fogo e volto a me sentar perto de minha mãe e a abaná-la.— Fica tranquila, mãe, ainda precisa cozinhar um pouco. — ela acena positivamente, puxa o ar com força e pega a revista da minha mão, colocando ela sobre a mesa. — Agora, explique-se muito bem, que história é essa de namorar um vampiro? Está maluca? — eu pensei em negar, mas, na verdade, a pergunta nem me ofendeu, acho que estou realmente louca, aconteceu tanta coisa em poucos dias que ainda nem processei tudo como devia.
Quando termino de me arrumar, pego o celular para chamar um carro, mas vejo que tem uma mensagem de Adrian avisando que mandou alguém deixar meu carro e ele está do lado de fora do prédio. — Ué... — solto e pego a bolsa do dia anterior, só para confirmar que a chave do meu carro está lá, e me pergunto como levaram meu carro sem ela, mas não perco tempo quebrando a cabeça com o que vampiros ricos conseguem ou não fazer, tenho a sensação de que a lista seria quase infinita. Pego as chaves, o celular e meus documentos e coloco numa bolsinha preta, que coloco transpassada sobre o longo blusão cinza que vesti para cobrir minha calça legging preta. Calço meus sapatênis que não uso há quase um ano e faço um rabo de cavalo e dou uma última olhada no espelho. Meu reflexo me agrada de uma forma inesperada, afinal, nada havia mudado em mim aparentemente, mesmos olhos castanhos, pele pálida com algumas sardinhas, cabelos volumosos, tudo como sempre foi, mas havia um certo brilho em mim, algo
— Vai embora, Eduardo! — grito, tentando manter a voz firme, mas falho. — Por quê? Está esperando seu patrãozinho? — ele está ofegante e quase sibila as palavras, mas eu não respondo, impressionada por ele saber. — O que é? O gato comeu sua língua? Achou que eu não soubesse, né? — ele solta uma risada amarga. — Eu segui você, vi vocês no restaurante, sei que dormiu na casa dele, que me largou só para poder se esfregar nele que nem uma vagabunda! — aquilo me faz ferver de ódio. Solto a porta de uma vez, fazendo ele cair com tudo dentro do apartamento. Não perco tempo e vou para cima dele, o esbofeteando.— Vagabunda é a tua mãe, seu canalha! — ele tenta me empurrar, mas agarro seu pescoço e aperto com força. — Você se deita com outra na nossa cama, na casa que eu tanto ralei para pagar, e a vagabunda sou eu? Seu infeliz, eu vou te matar! Ele se debate sobre meu corpo, tentando me empurrar para soltá-lo, mas é como se eu estivesse possuída, um momento atrás eu estava com medo de morre







