Se connecterAos quinze anos, Zeynep acreditou que declarar seu amor seria o começo de uma linda história. Mas foi o início de uma tragédia em sua vida. Em um único dia, duas famílias foram destruídas, laços foram rompidos e sonhos desapareceram. Desde então, Zeynep e Miran carregam a certeza de que o outro foi responsável por tudo o que perderam. Dez anos depois, um encontro inesperado em Istambul coloca os dois frente a frente outra vez. Agora, eles são estranhos marcados pelo mesmo passado, unidos por uma mágoa que nunca cicatrizou. Mas, quanto mais tentam manter distância, mais difícil se torna ignorar a ligação que ainda existe entre eles. Enquanto antigos fantasmas voltam para assombrá-los e novas armadilhas ameaçam separar seus caminhos mais uma vez, Zeynep e Miran precisarão descobrir se é possível confiar quando tudo o que existe entre duas pessoas foi construído sobre dor, silêncio e mentiras.
Voir plusParte 1...
Zeynep
Meu coração nunca bateu tão rápido como agora. Claro, ele sempre acelera quando vejo Miran, mas hoje em especial, está quase parecendo um cavalo de raça em uma corrida pela vitória, de tão acelerado.
Coloco a mão no peito e posso até sentir as batidas. Engulo seco, respiro fundo e solto o ar devagar entre os lábios entreabertos. Talvez assim eu me acalme.
Estou preste a fazer algo que jamais teria coragem, se não fosse pela ajuda de Yarin, minha prima e amiga. Nossa idade é próxima. Eu tenho quinze anos e ela dezenove, mas essa diferença nunca atrapalhou em nada.
— Não acho que deveria usar esse vestido, Yarin — esfreguei o tecido suave e frio, colado ao meu corpo — O decote está muito grande... e ainda tem essa abertura na perna... não sei, me sinto nua.
— Ai, não exagere, Zeynepe — ela segurou meus ombros — Esse vestido é para mulheres de verdade. Não é isso que você quer mostrar?
— Não a todos — balancei o corpo de um lado para outro, na frente do espelho — Só queria que Miran me visse diferente do comum.
— E você está diferente — levantou meu rosto — Olha só essa maquiagem? Ficou ótima. Você ficou parecendo até mais velha.
— Mas ficou muito apertado — alisei a barriga — E ainda me sinto um pouco acima do peso... comecei a fazer academia só há um mês.
— Não, você ficou muito bonita — mexeu no meu cabelo — Não esqueça do que eu disse — pegou um copo — E tome mais um pouco — me passou — Isso vai te dar coragem de falar tudo para ele.
Cheirei a bebida e logo franzi o nariz, apertando os olhos. Que horrível.
— Não gosto dessas bebidas, Yarin. Já me sinto estranha. Nem sei quantos já tomei desde hoje pela manhã.
— Ah, pelo amor de Allah! — empurrou o copo contra minha boca — Vire tudo de uma só vez, assim vai lhe dar mais ânimo para que abra a boca e conte a ele o que sente. Vamos... vamos... beba tudo.
Fiz o que disse e virei todo o conteúdo, mas desceu amargo por minha garganta. Bateram na porta.
— Entra!
Uma amiga de Yarin entrou. Eu não sou muito chegada a ela, me parece ser muito crítica e por vezes até rude. Não sei se é apenas comigo ou se isso é uma cisma minha.
De toda forma, eu não gostei do modo como ela me olhou quando entrou no quarto.
— O que fazem aqui ainda?
— Zeynep está se preparando para encontrar Miran. Ela não está linda?
A garota inclinou a cabeça de lado e me deu outra olhada demorada. Acho que vi um pequeno sorriso de canto se curvar, mas ela não disse nada, só concordou com a cabeça.
— Miran já está aí? — minha barriga se apertou de um jeito esquisito.
— Vi o carro dele lá fora. Deve estar entrando no salão. Você vai falar com ele agora?
— Eu acho que sim.
— Não, agora não — Yarin segurou meu braço — Ele tem que falar com as pessoas, com os investidores que foram convidados... meu pai disse que tem muita gente importante de Sofranbolu, de outras cidades e até mesmo de Istambul.
— Mas então, quando vou falar?
— Eu te digo a hora certa. Não se preocupe — pegou o frasco de perfume e borrifou em cima de mim — Você tem que andar pelo salão, deixe que ele a veja enquanto fala com os convidados.
— Não sei.. nunca me vesti assim.
— E por isso mesmo tem que começar.
— É verdade — a amiga dela cruzou os braços — Se quer que ele te olhe como uma mulher e não como uma menina, não pode ficar usando aquelas roupas sem graça que anda por aí.
— Eu gosto das minhas roupas — ela revirou os olhos — Estão adequadas para minha idade — as duas riram e me olharam como se eu fosse de outro planeta — O que foi? Eu tenho quinze anos.
— Certo, mas não precisa se vestir de jeans o tempo todo, não é?
— Ou aqueles vestidos sem cor, cheios de renda — a amiga comentou, torcendo a boca.
— Zeynep, esse vestido ficou ótimo em você e combinou com seu tom de pele e realçou seu cabelo preto.
Olhei de novo meu reflexo. Não sei se concordo com elas. Achei a maquiagem muito escura.
— Acho que eu devia trocar esse batom.
— Não! Está bonito assim.
— É garota — a outra gesticulou para o alto — O vestido é vermelho e o batom faz o par. Não troca, vai com esse.
Respirei fundo duas vezes.
— Tudo bem. E como eu sei quando chamar o Miran?
— Deixa que eu cuido disso. A gente vai te ajudar, não é amiga?
— É sim, confia na gente. Prepara o que vai falar pra ele e vai com tudo... cai em cima dele e mostra que você é a mulher para ele.
— Isso... então aproveita e termina isso — virou o resto da bebida no copo — Bebe de um gole só.
— Eu já estou com a cabeça doendo e meu estômago não está bem — apertei a barriga.
— É porque você está nervosa, é um grande passo. — a garota alisou meu braço. — Mas homens como Miran gostam de mulheres assim, atraentes, sexys, decididas.
— Tudo o que eu não sou — torci a boca.
— É sim, você só não sabe disso e eu estou aqui pra te ajudar — abriu outra garrafa.
— Não, já chega, Yarin — virei o rosto — Já estou ficando com ânsia de vômito. Estou com fome, não comi nada de tão nervosa e você me fez beber coisas que eu nem sei pronunciar o nome.
— Bebe só mais esse pra esquentar e vai lá para o salão. Circula no meio das pessoas e sempre passe por perto de onde Miran possa te ver, entendeu? — fiz que sim — E assim que a oportunidade surgir, eu te aviso.
— Tá bem... — fechei os olhos por um segundo — Eu vou para o salão agora.
— Vai... — a amiga dela me empurrou pelos ombros e abriu a porta — Não esquece de falar nada, faz como a Yarin te ensinou que vai dar tudo certo.
— Vocês acham?
— Mas é claro que sim, minha linda. Vai! — Yarin abanou a mão — A gente já vai também. Vou só retocar minha maquiagem aqui e já chego lá.
Engoli seco quando saí para o corredor e duas mulheres me avaliaram. Fiquei meio sem jeito. É a primeira vez que eu uso um vestido como esse. Se minha mãe me visse usando um vestido desse, com certeza ela iria reclamar muito. Meu pai, nem penso no que ele diria.
Tentei passar pelo meio dos convidados, evitando olhar diretamente para cada um deles, porque me sinto ainda com um pouco de vergonha. A fenda do vestido parecia que ia abrir tudo de vez. Me pergunto se alguém está vendo minha calcinha.
Parei ao lado de uma das mesas e procurei em volta até encontrar Miran, do outro lado, conversando com dois outros homens. Meu coração bateu tão forte que até senti falta de ar.
Miran sempre foi lindo aos meus olhos. Uma mecha do cabelo castanho caía sobre sua testa. Sua pele tinha um tom mais escuro.
Ele tinha saído a trabalho na semana passada e foram para as montanhas de Kure. Era um projeto da família e passar dias debaixo do sol forte, lhe deu um novo bronzeado, o que pra mim, ficou ainda mais bonito.
Parei perto das portas de acesso ao jardim. Acho que olhei para ele umas seis vezes, mas ele estava concentrado que só percebeu quando eu me virei e acabei esbarrando no garçom e quase derrubei as taças.
Seus olhos vieram para mim e meu coração bateu mais forte. Pedi desculpas ao rapaz e andei para o outro lado. Quando ergui a cabeça, ele ainda me olhava.
— O que está fazendo?
— O quê? — franzi a testa — Não fiz nada.
— Exato — Yarin falou baixo — Vá para o jardim, perto do coreto.
— E por que?
— Miran vai para lá. Você tem que ir antes e esperar por ele. — pegou uma taça da bandeja de outro garçom — Leva isso aqui.
— De novo? — franzi o nariz.
— Você tem que passar segurança. Uma mulher adulta gosta de beber. Miran está surpreso com você.
— Como sabe disso?
— Olha só como ele está te olhando... está surpreso por te ver assim, toda sensual.
Não me acho nada sensual e sendo honesta, esse vestido está me deixando desconfortável. Ela me empurrou.
— Vai agora. Miran já está indo — indicou com um gesto de cabeça.
Olhei para ele. Miran estava saindo pela outra porta. Respirei fundo, assenti com a cabeça e saí rápido. Quando olhei para trás, Yarin estava parada com as mãos na cintura e um sorriso grande.
Ela acenou pra mim e eu devolvi o aceno, depois segui pela lateral do salão até o coreto que ficava no meio do jardim.
Parte 92...MiranEu estava andando de um lado para o outro no corredor havia um bom tempo.— Se continuar assim, vai abrir um buraco no chão — disse Mert. — Já tem uns quarenta minutos, rapaz.Parei.— Estou pensando.Elif riu.— Você já passou pela mesma porta umas doze vezes.— Treze — corrigiu Derya. — Eu contei.Firat estava encostado na parede, segurando o café que já devia estar frio.— Nunca imaginei ver Miran Karahan desse jeito.— Você não viu nada — Kemal comentou.— Desse jeito como? — olhei pra ele.— Com medo.— Minha mulher está lá dentro.— Nós sabemos — respondeu Elif. — Você já disse isso umas vinte vezes.Mert se levantou e veio até mim.— O médico mandou você esperar.— Eu sei.— Então espera.— Eu estou esperando.— Você está andando e deixando todos ansiosos.— É o meu jeito de esperar.Derya cruzou os braços.— Se ele andar mais um pouco, o hospital vai mandar cobrar o piso.Firat e Kemal começaram a rir. Eu não tinha paciência para nenhum deles agora. Minha cab
Parte 91...ZeynepAlguns meses passaram sem que eu percebesse. Foi tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, que eu mal tive tempo para respirar direito. Especialmente com Miran.A mansão que Aras queria a restauração finalmente ficou pronta. A última janela foi instalada numa manhã de sol, e Derya passou quase uma hora conferindo cada detalhe como se estivesse inspecionando uma obra que seria apresentada a um rei. E como sempre, reclamando de mim porque troquei algumas peças na sala principal.Os primeiros eventos do empreendimento de Aras aconteceram nas semanas seguintes. A inauguração foi um sucesso, os convidados ocuparam os jardins, o restaurante improvisado ficou cheio e, por alguns dias, Safranbolu voltou a falar de outra coisa que não fosse os problemas das famílias Karahan e Kaya.Quando o outro escândalo explodiu, dessa vez eu não era o centro da fofoca e sim a vítima. Não me importei com isso. Eu fui mesmo e quem deve ter vergonha é minha família, não eu.Yarin teve uma cri
Parte 90...ZeynepNa manhã seguinte, eu estava no escritório quando meu telefone tocou. Olhei a tela. Era Aylin. Suspirei e me preparei. Atendi.— Bom dia.— Zeynep... você está sozinha?Olhei para Derya, que estava do outro lado da sala conferindo alguns documentos.— Estou. Pode falar.A voz dela demorou alguns segundos para sair.— Eu queria pedir desculpas.Fiquei em silêncio.— Não apenas pelo que aconteceu agora — continuou ela. — Pelo que aconteceu anos atrás. Eu julguei você sem ouvir sua versão... Acreditei no que me disseram porque era mais fácil acreditar que meu filho tinha sido enganado do que aceitar que eu poderia estar errada sobre tudo.Engoli em seco. Não esperava por isso.— A senhora não precisa fazer isso.— Preciso, sim.A voz dela tremeu.— Eu deveria ter procurado você. Deveria ter perguntado o que aconteceu... foi tudo tão estranho. Em vez disso, tratei você como se fosse responsável por uma dor que também era minha. E depois, quando você voltou, eu continuei
Parte 89...MiranEu esperei Zeynep dormir antes de sair do quarto. Fiquei alguns segundos olhando para ela. Depois de tantos anos, depois de tudo que tinha acontecido entre nós, eu ainda tinha dificuldade para acreditar que ela estava ali. Não queria acordá-la. Não queria levar para aquela cama mais uma noite de tensão, medo ou lembranças ruins.Peguei o telefone e saí. Kemal atendeu antes do terceiro toque.— Estou indo para o escritório.— Eu já estou aqui.— E falou com Aras?— A caminho também.Desliguei. Quando cheguei, Kemal estava diante de uma mesa coberta por pastas. Aras já tinha chegado. Mert estava junto à janela, de braços cruzados. Parei na porta.— Mert? — franzi a testa.Ele se virou.— Eu vim porque quero participar.Deixei o casaco sobre a cadeira.— Isso não é uma briga de família.— Eu sei. — Mert se aproximou da mesa. — É justamente por isso que estou aqui. Quando soube que aquele canalha tinha armado para os pais de Zeynep, só piorou minha opinião sobre ele.Kem


















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