FAZER LOGINUm ano depois...~ ZOEY ~A porta do salão de festas do Hotel Milani parecia maior do que deveria.Do lado de dentro, havia centenas de convidados e uma festa pronta para começar oficialmente. Do lado de fora, na antessala, só havia eu, andando de um lado para o outro como se eu pudesse gastar ansiedade no atrito do salto com o carpete.Eu tinha ensaiado mentalmente as primeiras frases pelo menos vinte vezes. A parte de “família”. A parte de “legado”. A parte de “sucesso”. A parte de “futuro”. O que é engraçado, porque se tem uma coisa que eu aprendi nesses últimos anos é que futuro não se escreve com discurso. Futuro se escreve com coragem repetida, com trabalho que ninguém vê, com amor que aguenta o peso de dias difíceis.Ainda assim… eu ia ter que abrir a boca.A Bellucci Beauty tinha nascido grande, grande demais para um projeto que, um ano atrás, era só uma pasta no tablet do Christian e o meu hobby de misturar coisas com uva como se eu tivesse algum direito de brincar de alquimi
~ ZOEY ~A gente pegou o jatinho particular até a Villa Bellucci no final da manhã, e eu passei metade do voo tentando não pensar em como era surreal ter trinta anos e estar atravessando fronteiras como quem atravessa ruas.Christian tinha aquele ar de calma impecável de sempre, como se até a gravidade fosse um detalhe administrativo. Eu, ao contrário, estava com o coração batendo em algum lugar entre “euforia” e “meu Deus, eu estou grávida de novo”, o que era basicamente o meu estado natural nos últimos dias.Quando o carro finalmente contornou a última curva e a propriedade apareceu, eu senti o peito apertar de um jeito familiar. A vila Bellucci ainda mais bonita do que eu me lembrava: mais nítida, mais real, com o verde das videiras mais vivo, o céu mais claro.Só que… havia uma coisa estranha.Vazio.Alguns funcionários nos receberam com sorrisos educados, levaram nossas malas até os quartos, falaram baixo, andaram com aquela eficiência silenciosa de quem não quer atrapalhar nada.
~ ZOEY ~A primeira coisa que eu senti foi a boca do Christian no meu ombro.Um beijo lento, quente, como se ele estivesse acordando uma parte específica do meu corpo antes de acordar o resto.— Feliz trinta anos, meu amor — ele murmurou, e a voz veio com aquele sorriso que eu sempre ouvia mesmo quando meus olhos ainda estavam fechados.Eu me revirei na cama, preguiçosa, puxando o lençol mais para cima como se eu pudesse negociar com o mundo por mais cinco minutos.— Achei que esse era um tipo de marco… — eu resmunguei, ainda com a cara amassada de sono. — Que tudo ia mudar depois dos trinta.Christian deu um beijinho na minha testa.— E não vai?Eu abri um olho só, do jeito dramático que eu fazia quando queria parecer mais séria do que estava.— De certa forma, vai — eu admiti. — Vamos ser pais de novo. Vamos morar em Bolonha. E você ainda aí… todo misterioso sobre alguma coisa.Ele arqueou uma sobrancelha, fingindo inocência.— Misterioso?— Misterioso — eu confirmei, e fechei o olh
~ ZOEY ~O jantar em casal tinha sido leve, cheio de risadas que não precisavam de esforço, com aquela sensação rara de que o mundo inteiro podia ficar do lado de fora por algumas horas.Eu e Christian voltamos para o apartamento em Bolonha ainda com o corpo naquele estado confortável de “fizemos o dia caber num lugar bonito”. Ele entrou tirando o relógio e largando as chaves no aparador como se fosse uma cena doméstica comum — o que era quase engraçado, porque nada na nossa vida era realmente comum. Nem quando a gente tentava.Eu fui direto para o banheiro e tomei uma banho rápido.Skincare antes de dormir era minha forma de dizer ao meu sistema nervoso: acabou. Você pode respirar agora.Prendi o cabelo, lavei o rosto e comecei a alinhar as embalagens na bancada com um zelo que, eu sei, parece exagero para quem não entende. Para mim, era ritual. Era cuidado. Era eu sendo eu sem precisar provar nada para ninguém.Christian apareceu na porta do banheiro enquanto eu massageava um cleans
~ CHRISTIAN ~A Galleria Cavour parecia feita para testar a disciplina de qualquer homem que já jurou que não liga para vitrines.O lugar tinha brilho, vidro, mármore e aquela organização impecável que faz tudo parecer mais caro só por estar no lugar certo. Perfumes diferentes se misturavam no ar — um rastro de couro novo, um toque cítrico vindo de alguma loja aberta, e a lembrança do café que saía de algum canto e dava vontade de parar sem motivo.Gente bem-vestida passava devagar, como se ninguém ali tivesse horário. Segurança discreta nos pontos certos. Funcionários com sorriso medido. E eu, tentando convencer a mim mesmo de que aquilo era parte de uma “parada de algumas horinhas”.Zoey entrou como se o lugar fosse dela por direito.E, na prática, era.Porque Zoey sempre teve essa habilidade: ela não precisava pertencer a uma sala para dominar a sala. Bastava existir com aquele jeito natural.Eu caminhei ao lado dela, controlando o instinto de vigiar tudo — segurança, ângulos, gent
~ ZOEY ~Eu ainda não tinha entendido em que momento, exatamente, a minha manhã em Londres — que começou com um teste de gravidez em cima da pia e eu tentando não desmaiar — virou uma operação internacional.Mas, quando eu percebi, de alguma forma nós tínhamos acabado todos dentro do jatinho da Bellucci rumo à Itália.E, quando eu digo “todos”, eu não estou exagerando.Isso incluía os adultos, as crianças, as babás e… Ginger.A Ginger estava deitada na área mais espaçosa da aeronave, com aquele ar confiante de quem nasceu para receber carinho e ganhar comida proibida. Matteo estava tão feliz com a presença dela que parecia ter esquecido que tinha acabado de trocar de país como quem troca de sala.— Mamãe, olha! — ele anunciou, com três anos e aquela certeza absoluta de que qualquer novidade no mundo existe para ser mostrada para mim. — A Ginger tá comigo!— Eu vi, amor — eu respondi, beijando a cabeça dele.Eu beijava Matteo com uma frequência que devia ser considerada crime em alguns







