LOGINLORENZO MARANZANO
Sequestrei, sim, a massagista Isadora Guerra. E, querem saber? Não me arrependo. Nem mesmo da mentira de que foi só para protegê-la. Queria mesmo era fazer dela mia Donna.
Ah, Isadora... finalmente você está livre deste criminoso que, apesar de querer teu bem-estar, é incapaz de amar como você merece.
Agora, olha pra mim: indo me casar com uma filha da Máfia, como eu.
Como deve ser. Não seria prudente te puxar comigo para a lama onde estou enfiado.
Se me preocupo em puxar minha futura esposa? Não mesmo, ela é bem pior que eu.
***
Umas Semanas Antes...
O Cassino Maranzano Palace, situado no coração do Distrito Golden, nunca dormia.
Eu também não: se o controle da Família era meu, cabia a mim manter tudo em ordem. Se eu não tolerava erros de ninguém — como toleraria os meus? Caso alguma merda acontecesse quando eu baixasse a guarda, teria que me matar? Me parecia muito injusto continuar vivo depois de todos que executei por erros tolos.
Minha chegada ao Cassino não precisava de anúncio.
Mesmo que ninguém tivesse bolas o suficiente para me encarar, todos sabiam distinguir o som dos meus sapatos entrando no meu território — sempre de passos firmes, ritmados. Assim que me percebiam, os garçons endireitavam a postura, as dançarinas forçavam ainda mais a sensualidade, e os apostadores seguravam a respiração por mais tempo do que o necessário.
O salão principal do cassino era iluminado... demais. Sem relógios, sem janelas — ninguém devia perceber o tempo passando. Eu atravessava o espaço com a consciência de que não podia parar o tempo — mas manipulá-lo era o bastante. Para dar mais impressão desse "dia que nunca dorme", os tapetes de cor vinho cobriam o chão, enfeitados pelas lágrimas que os lustres dourados derramavam sobre eles. Tomando toda essa área, os jogos: roleta, Blackjack, pôquer e uma fileira interminável de caça-níqueis. E, claro, as mulheres bonitas que, em roupas sexies, serviam drinques com sorrisos forçadamente sedutores. Quanto mais álcool, mais apostas, mais jogos perdidos.
Todos elogiavam meus ternos de três peças, sempre alinhados. Entretanto, o que realmente chamava atenção era — e ainda é — a cicatriz que divide minha sobrancelha direita. Algumas mulheres diziam que se excitavam ao vê-la. Para mim, sempre foi uma marca visível do meu pai — as outras ninguém via. Greco, um dos meus seguranças mais antigos, abria caminho entre as mesas de pôquer.
Um cliente VIP, entretido com seus ganhos, não se deu conta da minha chegada. Riu da própria sorte até me perceber às suas costas. Empalideceu. Pediu desculpas, como se eu fosse acusá-lo de trapaça. Eu nada disse, apenas o encarei e foi o bastante: ele sabia que perder meu respeito era pior que perder dinheiro, pois significava perder a vida.
Aprendi com os que vieram antes de mim: "Nada pessoal, é só negócio". E, no meu negócio, se eu deixasse um homem vivo por piedade, era certo de que ele voltaria para me matar alguns dias depois.
Abaixo do salão, ficava a boate.
Propositalmente escura, para que as mãos bobas não ficassem acanhadas. As luzes coloridas dançavam sobre as silhuetas das dançarinas profissionais. Algumas delas presas em jaulas; outras se contorcendo nos poles. A festa começava às 21h e só terminava quando o último bêbado era expulso.
Nela, meu lugar preferido: a mesa do Don. Ficava num mezanino, pairando sobre todos. Na parede ao lado, telas com as câmeras de segurança. No ouvido, o ponto de escuta. À frente, um pequeno palco. Havia sempre uma mulher dançando ali. Contudo, meus olhos sempre rondavam os clientes.
Observava homens e mulheres ricos fazendo o mesmo de sempre: beber champanhe, rir alto, enfiar notas nas laterais das lingeries. Fingiam estar ali por diversão.
Porém, todos bem sabiam: ninguém frequentava meu clube só para beber e admirar gostosas. O dinheiro, que passava por mim, vinha de crimes fiscais, tráfico, corrupção. Muita gente do Distrito Golden dependia de mim para manter as contas limpas com a Receita Federal. Era isso que me dava poder.
Naquela noite, um segurança se aproximou, me passando informações sobre um possível golpe no cassino. Quando ele se retirou, olhei, pela primeira vez, para a stripper que rebolava à minha frente. Fiz um gesto para que ela descesse da mesa. Vestia apenas uma calcinha preta minúscula e, puxando a renda desta, depositei ali uma nota de cem. Me levantei. Ela pôs as mãos no meu peito, desejando sentir meus músculos sob o terno.
— Don, é minha primeira semana... me disseram que sou bem paga para ser sua. É verdade? — provocou.
Segurei os punhos dela com força. Não para machucar — ainda. Só para deixar claro que não esperasse delicadezas. Aproximei minha boca de sua orelha e murmurei:
— Tem certeza de que o valor é alto o suficiente pra se arriscar?
Ela acenou com a cabeça, roçando seu rosto no meu.
— Você acredita mesmo que rebolar a bunda na minha frente te levaria pra minha cama? — minha voz saiu ainda mais fria.
Apesar de não ter a intenção de machucá-la, apertei seus punhos com mais firmeza. Queria afugentá-la.
— É o que dizem... quem dança bem e agrada ao Don ganha um vale-noite.
Outra pessoa riria da ingenuidade. Não eu.
— Dizem muitas coisas sobre mim — dessa vez, usei um tom de ameaça. — Quem acredita geralmente morre antes de descobrir se era verdade.
Larguei seus braços.
— Você não é uma dançarina. E é burra demais pra ser uma espiã. Então, da próxima vez que eu te vir por aqui, te apresento a Valentina. Ela não tem o meu código moral de não bater em mulher.
Na boca de outro, isso soaria cômico. Na minha, não.
— Nunca mais ouse me fazer perder tempo.
Ela recuou, com o olhar voltado pro chão. O modo como saiu, curvada, só confirmou minhas suspeitas: uma jovem que não fazia ideia de onde estava se metendo. Terminei meu uísque sem pressa
Subi dois lances de escada, enquanto verificava se meu terno estava alinhado. Ajustei as mangas da camisa.
No andar acima do salão de jogos, ficavam meu escritório e o de Dante — meu irmão e advogado. As salas eram à prova de som e de balas. Do outro lado do corredor, a sala de espera dos capangas e o vestiário das dançarinas. Antes de entrar no meu escritório, parei diante de uma das tantas molduras antigas que decoravam o ambiente com membros da Família. Naquela, a foto do meu pai. Por um segundo, vi o meu rosto na imagem dele.
— Ainda não, Sr. Ettore — murmurei. — Ainda não sou igual a você.
IsadoraCinco anos que pousamos no Brasil.Quatro adultos e uma criança, apenas com a roupa do corpo e os documentos que carregávamos no momento do embarque. Para a surpresa de zero pessoas, Amélia tinha contato com mais gente poderosa no Brasil do que eu tinha amigos me esperando. Pela influência dela, o pedido de refúgio à Polícia Federal foi menos tenso do que eu julguei.Cinco anos que meus pais me receberam aos prantos, mas cujas lágrimas lavaram parte da dor que senti. Receberam Camila e Noah de braços abertos. Receberam até Amélia e Rodrigo, que ficaram conosco até ela reaver parte de sua fortuna. Ela continuou trabalhando com importações e aparecendo na casa dos meus pais sem aviso prévio. Ficou viciada na culinária do Pará.Cinco anos e Belém não é nada como Verticália.É bem mais quente e muito mais úmida, com a chuva caindo sobre nossas cabeças durante todo o dia. E de noite? De noite repete. Belém das águas. E águas curam. Inclusive as que insistiam rolar de meus olhos.Cin
ValentinaMikhail caiu sem nem bambear.Um prazer: matá-lo com a arma mais mafiosa que eu poderia conseguir — a Smith & Wesson de Don Ettore. A mesma que deve ter matado o Sr. Parkov, pai do psicopata. Olhei para a feição de Camila, pálida, aturdida, sem processar o que havia acontecido.Puxei-a.— Mila, você tá bem? Vem, vamos sair daqui!Ela caiu de joelhos no chão.— Caralho, Mila. Anda!Usei toda minha força e ela se ergueu. Parecia que tinha voltado a si. De mãos dadas fomos saindo da sacristia pelos fundos.— Ele tá mesmo morto?— Você não tem ideia do que uma calibre .45 à queima-roupa pode fazer, né? Ou ele tá com o diabo ou tá no elevador pro subsolo.Também, caso não morresse, ia explodir junto àquela igreja — pensei, mas Camila não precisa saber. Não ainda, pelo menos.Fiquei feliz de não ver freiras ou outras pessoas naquele local. Só o Bispo, corrupto que nem ele, deveria morrer. Empurrei a pesada porta de serviço dos fundos com o ombro e saímos no pátio dos fundos da igr
IsadoraNunca pensei em virar uma dose de uísque antes de entrar numa igreja. Ela desceu queimando a minha garganta, mas não foi o suficiente para me fazer engolir minha impotência junto com ela: Lorenzo ia casar-se.Falhei.Eu ainda segurava a garrafa e o copo, mas Valentina puxou-as da minha mão para deixá-los no jipe. Resmunguei algo que nem eu mesma entendi e ela me estendeu seu braço. Vestia-se como se fosse um dos padrinhos. Ri. Queria perguntar que ideia foi essa de estar num terno de três peças e gravata. Mas sua expressão estava séria demais.Ela tava com medo.— Por que grupos de cadeiras estão divididas entre canteiros? E o altar está no meio?— Ninguém quer dar as costas a ninguém, gazela.Eu tava muito bêbada para ter medo.Nos assentos, quase não se viam vestidos e saltos. Nem havia crianças correndo pelo jardim com mães gritando para não sujarem as camisas e vestidinhos na grama.Me toquei que não havia inocentes ali.Havia apenas homens de ternos e sobretudos pesados de
CAMILANaquele sábado, Mikhail jogou a tipoia fora.Fizemos um café da manhã russo. Ao menos, pude comer junto a Isadora e vi que ela se encontrava menos depressiva. Ginevra apareceu para se despedir em definitivo: a última empregada juntava seus pertences e nos deixava. Mikhail havia dito que Verticália seria dada a ele, isso incluía a mansão? Me perguntei e a resposta "não" foi entregue num gesto: ele disse a Ginevra que o procurasse, caso necessário. Caso a mansão fosse ficar com ele, ele diria "fique".Ou, eu acho que diria.Lavamos os pratos. Varremos o nosso quarto e o de Noah. Mikhail vestia a máscara do meu amigo perfeito; e seria uma máscara tão perfeita quanto, se não fosse suas retinas dilatadas. Quem não o conhecesse, diria que era o remédio que o deixava frio e distante — quem dera! O remédio fazia com que ele não performasse a normalidade para me manipular. Frieza era sua essência.Não a minha. Eu o odiava. E o temia.No período da tarde, ele não mudou sua decisão de per
ISADORAA gravata de Lorenzo apertava tanto o rosto de Jonas que escorria um tanto de sangue pelo canto da boca. Se a tal Simplesmente Chiara estivesse presente, certamente eternizaria aquela face contorcida de dor e desespero em um quadro. Um novo "O Grito".Um grito mudo. Daquela vez, não era o meu.Como Lorenzo havia deixado uma cadeira próxima, a virei — não iria me sentar com o encosto entre as pernas — e me acomodei. Cruzei minhas pernas, com as mãos se encontrando na curva do meu joelho. Tive cuidado para não pisar na poça de mijo.Noutro dia, eu vomitaria. Naquele, o odor combinava com a ambientação — concedia certa dramaticidade, junto à parca luz amarelada que incidia nas paredes mofadas.— De metido a valente a mijão. Quem diria que você só era perigoso porque me considerava frágil. Foi apenas encontrar um homem de verdade como Lorenzo para voltar a rastejar como o verme que você é!Ele se contorceu, a cadeira bambeou — talvez fosse uma cena interessante de um filme: vê-lo
LORENZO“Vem comigo”, me pediu a mulher que, dias antes, me chamou de filho da puta. Pior: a que me disse “você é igual a Jonas”. Na verdade, sou muito diferente dele — ele é um covarde, um zé-ninguém que achou que podia se meter na máfia. Eu? Eu sou o mal encarnado; o herdeiro de Don Ettore. Mas, por outro lado, sou um homem que eu não reconhecia quando me via com Isadora: não era a face de Don Ettore no espelho. Era a de astronauta que falava demais.Pedi que ela esperasse a duas celas de distância. Não queria que ele a visse antes de fazer o que precisava ser feito.Ali embaixo, o mofo havia ganhado as paredes e a sala cheirava a concreto molhado. Valentina estava encostada no fundo, com sua cara entediada, mascando um chiclete. Sua palidez entregava que ela ainda não estava bem — e que não se tratava de uma infecção sexualmente transmissível; não ao menos daquela com a qual ela jurou que eu não precisava me preocupar. Thiago aguardava as cenas por vir sentado — era visível que seu







