LOGINPOV Clarice
O vento forte bateu atrás da minha cabeça, bagunçando meus cabelos. Passei a mão ligeiramente suada para controlá-los e continuei andando, apertando a bolsa contra o meu peito, queixo nivelado, olhos para a frente.
Olhei as horas no relógio de pulso; faltavam ainda dez minutos. Olhei para o prédio à minha frente. Lancaster Company não era apenas mais uma empresa, ela era a maior concorrente das empresas da minha família. Quando assumi os negócios e me tornei CEO, tentei ser melhor que eles, tentei alcançar o topo e ultrapassá-los. Fracassei em todas as minhas missões.
Para o mundo, Clarice Bragança estava morta, e os negócios que ela lutou tanto para manter de pé estavam à margem do que sonhei um dia. Três anos sendo invisível enquanto assistia ao mundo que sonhei desmoronando ao meu redor.
Hoje deve ser o recomeço de tudo isso.
Me aproximei da entrada do prédio, procurando uma parede silenciosa para me sustentar. Esse era o meu plano para hoje: conhecer a minha filha e me tornar sua babá. Eu estava tão perto daquilo que almejei que mal podia acreditar.
Fechei os olhos, enquanto meu peito ardia. Meu coração disparou descontroladamente, uma sensação que eu já conhecia tão bem. Um arrepio percorreu minha espinha. Quando abri os olhos, ele estava ali.
Gabriel Lancaster estava do outro lado da rua.Ele desceu do carro, olhou as horas no seu relógio de pulso, enquanto repousava a outra mão no bolso. Por exatamente dois segundos, seu olhar passeou pela paisagem urbana e finalmente repousou em mim.
Ainda faltavam quatro minutos. Minha respiração falhou.Ele atravessou a rua e caminhou em minha direção. Esforcei-me ao máximo para não olhar para ele. Eu ainda temia que ele me reconhecesse, que ele ligasse os pontos e descobrisse que sou a mãe da filha dele e que estou aqui para pegá-la de volta.
Um segundo depois, ele está na minha frente. O carro estacionou ao nosso lado; ele abriu a porta para eu entrar. Tentei controlar minha respiração ao olhar nos olhos dele, depois olhei para dentro do veículo na esperança de ver minha filha em algum lugar.
Só havia o motorista no carro.
— Entre, senhorita Scarlet — ele ordenou, seu tom afiado e impaciente —, eu não tenho muito tempo.
Eu não disse nada, nem me afastei como desesperadamente queria. Apertei com força a alça da bolsa e movi o corpo ligeiramente para dentro do veículo, quando a porta foi fechada logo em seguida. Eu estava sob o domínio de Gabriel Lancaster, o homem que eu sempre quis dominar no mundo dos negócios, e que agora me dominava e não havia nada que eu pudesse fazer para evitar isso.
Era o preço que eu pagaria para ter minha filha de volta.
Ele deu a volta no carro e se sentou ao meu lado. A colônia masculina dele invadiu minhas narinas; meu coração caiu no estômago quando o carro começou a se mover.
— Para onde estamos indo? — perguntei, sem olhar para ele.
— Para minha casa — ele respondeu rapidamente —, você deve saber que mantenho a vida da minha filha bastante reservada. Não há fotos dela nos jornais, nem nas redes sociais. O rosto dela permanecerá escondido do mundo com a promessa de que arruinarei a vida de qualquer um que tornar isso público.
— O que quer dizer com isso? — Um nó sufocou minha garganta quando ele se inclinou para o lado em minha direção e aproximou os lábios dos meus ouvidos.
— Se tivesse lido o contrato de trabalho, senhorita Scarlet, não estaria me fazendo uma pergunta estúpida como essa.
O hálito quente esquentou meu rosto por um segundo até que ele se afastasse.
— Estou entregando em suas mãos o que tenho de mais precioso — eu me virei rapidamente para olhar para ele —, estou dando a você um voto de confiança, não o desperdice. Você não vai me querer como inimigo.
Aquilo era uma ameaça, como se ele pudesse prever minhas intenções. Ele girou o pescoço e me fuzilou com o seu olhar gélido e afiado. Aquele homem não estava brincando, e eu sabia que desafiá-lo não era uma opção.
Ele pegou uma maleta que estava posta em seus pés e retirou uma pasta, me entregando-a.
— Estão registrados todos os horários que minha filha deve cumprir durante o dia. Um motorista estará sempre à sua disposição para qualquer emergência — segurei a pasta que ele direcionava insistentemente em minha direção —, faça tudo o que está escrito aí. Vocês serão acompanhados por um segurança o tempo todo. Nada poderá ser feito fora da agenda sem minha autorização.
Meus olhos caíram sobre a pasta. Aquilo só podia ser uma brincadeira. Segurança? Motorista? Que tipo de prisão aquele homem estava impondo à minha filha?
— Você entendeu minhas ordens?
Como eu a salvaria? Como eu a tiraria desse lugar?
— Você está me ouvindo? — O carro parou quando o encarei, assustada. Meus olhos marejados insistindo em derramar lágrimas e revelar todos os meus sentimentos.
— Eu entendi, senhor — respondi quando travei a língua no céu da boca, não deixando todo o ódio que fluía dentro de mim escapar pelos meus lábios.
Ainda não era hora de fazer perguntas e nem de procurar uma maneira de escapar. Eu só precisava entrar naquela casa e conhecer a minha filha. Observei Gabriel sair do carro e a porta na minha lateral ser aberta.
Desci do veículo com os meus joelhos tremendo descontroladamente. Quando ergui a cabeça, deparei-me com uma mansão.
— Vamos — ele ordenou, caminhando para dentro do lugar; minhas pernas mal me obedeciam —, está na hora de você conhecer a Charlotte, minha filha.
POV GabrielEu estava entrando na empresa quando vi Frank correndo em minha direção como se estivesse correndo do perigo. Meu primeiro pensamento foi que ele havia descoberto algo muito importante.Ele parou na minha frente e se inclinou, mal conseguindo respirar.— Precisa parar de fumar, Frank — eu zombei dele no seu primeiro dia de trabalho —, se continuar assim, vai morrer.— Morrer... — ele se ergueu, a garganta seca, sua voz desesperada —, você precisa ir ao hospital. A Scarlet sofreu um atentado.Uma coisa estranha aconteceu comigo quando ouvi essas palavras. O mundo ao redor parou e depois deixou de existir. Eu gaguejei palavras que não faziam sentido antes de entrar no carro e ordenar que o motorista dirigisse em direção ao hospital.Algo que eu nunca pensei que sentiria por Skay invadiu meu peito, quase não me deixando respirar.Foi uma enxurrada de acontecimentos depois disso. Frank entrou no carro comigo; eu fiz um milhão de perguntas para as quais ele não sabia as respost
POV ClariceSegurei Charlotte em meus braços e corri com ela para dentro do prédio. Apressada, empurrei a porta enquanto deixava o barulho da chuva pelo silêncio e calmaria da recepção.Ela se encolheu e choramingou. Afastei-a para que pudesse olhar em seus olhos.— Eu estou aqui, tudo bem? — Ela balançou a cabeça. — Não precisa ter medo.Virei-me para a recepcionista e entreguei os documentos da Charlotte para ela. Eu estava pronta para arrumar um bom lugar para sentarmos enquanto planejava um diálogo em minha mente. Certamente o primeiro bom diálogo que eu teria com minha filha, quando uma sombra parou bem na minha frente.Eu conhecia aqueles sapatos vermelho-vivos e aquele perfume enjoativo.A euforia da Charlotte me deu a certeza de que eu não estava enganada.— Tia Emily! — Ela se levantou e correu para os braços da mulher.Fechei meus olhos com força, tentando manter calma toda a minha frustração e raiva que sentia naquele momento. Eu estava tão perto de começar a construir uma
POV ClariceEngoli todas as rejeições da Charlotte e continuei apaixonada por ela. Eu a observava enquanto ela dormia, imaginando os dias felizes que eu ainda poderia ter ao lado da minha filha.Conquistá-la e ter o direito de ser sua mãe verdadeira era o que importava e nada mais.Eu esqueceria os conflitos que eu tinha com o Gabriel, o fato de o Frank estar trabalhando para ele e os motivos de Ava não me apoiar, apenas para ter o direito de ser mãe da minha filha.Enquanto ela dormia, eu fiz uma promessa aos pés da sua cama de que o meu foco e energia seriam somente dela a partir daquele momento.Mesmo sabendo que, talvez, Charlotte nunca me amaria da mesma forma.Uma batida na porta rompeu meus pensamentos e, quando virei o pescoço para ver quem era, meu estômago revirou e eu desejei vomitar ali mesmo.— Com licença, senhora — ela trazia uma pilha de roupas quando empurrou a porta e entrou. Ela sempre andava com a cabeça erguida, ainda agia como se fosse superior a mim. Eu tinha vo
POV ClariceMeu estômago afundou e eu fiquei tempo demais parada em pé no meio da lanchonete enquanto pessoas esbarravam em meu ombro e reclamavam por eu estar parada no meio do caminho como uma estátua.Nunca passou pela minha cabeça que Frank estaria apaixonado por mim.Que tudo o que ele havia feito foi por amor ou que estava se envolvendo ainda mais na minha trágica história porque queria de alguma forma me proteger.Respirei fundo, sabendo que era hora de partir.Meu corpo pegava fogo como se eu estivesse em chamas.Sem pensar duas vezes, saí e voltei para o carro. Sentei no banco e observei a cidade passar diante dos meus olhos enquanto o segurança perguntava para onde ele deveria me levar.— Para a mansão, por favor — eu disse quando o vi me observar pelo espelho.Não havia nenhuma garantia de que aquele homem não contaria nada do que viu para o Gabriel, mas para mim não faria diferença. A situação já havia saído do controle há muito tempo.E eu estava cansada de manter tudo so
POV FrankApoiei os cotovelos na mesa desgastada e grudenta enquanto virava o rosto para não olhar para Skay. Eu deveria ter recusado o convite. Eu deveria ter ido embora na primeira oportunidade e ter deixado que ela finalmente encontrasse o seu destino.— Por que não pára um pouco de brigar com a Ava e se junta a ela para me ajudar a resolver os meus problemas?Scarlet realmente achava que minha vida girava em torno dela? Virei-me para olhá-la, tentando controlar o coração que parecia querer escapar pela garganta.— Eu me juntar a essa mulher? — Apontei para o nada como se ela ainda estivesse ali e soltei uma risada. — Eu só a suporto porque é sua amiga.— Talvez você esteja apaixonado por ela — cruzei os braços e forcei o rosto a permanecer impassivo —, por isso não a suporta...— Você não me chamou aqui para que eu ouça suas besteiras — eu a interrompi, vendo-a se divertir com suas certezas. — O que vai me pedir desta vez, Skay? Que eu não aceite trabalhar para o seu marido?O hum
POV ClariceQue irônico.Ficamos sentadas uma em frente à outra em silêncio, sem mexer na comida, apenas olhando para o nada, evitando olhar nos olhos uma da outra por minutos intermináveis. Ava remoendo suas ideias e eu remoendo as minhas.Nenhuma das duas daria o braço a torcer; ainda assim, eu confiava que ela poderia ser minha âncora, minha salvação. Eu ainda queria que minha melhor amiga fosse minha cúmplice no meu imenso mar de mentiras.— Eu ainda não entendi por que se casou com o Gabriel — ela havia entendido sim, mas estava apenas esticando a corda para tentar me fazer mudar de ideia —, é só para conquistar uma criança de três anos antes de revelar a ela que você é a mãe verdadeira?— Não use seu deboche comigo, não em uma situação como essa — uma carranca se formou no rosto de Ava, revelando a impaciência que ela tentava esconder. — O Gabriel precisava se casar para ter direito à herança dele. Eu fiz isso pela Charlotte.— Cometeu o mesmo erro duas vezes — ela zombou, um so







