MasukPOV/OLIVER
Naquela manhã, antes da entrevista
Fiquei diante da lápide de Juliana com as mãos nos bolsos, observando a fotografia que a mãe escolheu. Na imagem, minha mulher sorria com o rosto ligeiramente virado para o lado. Eu conhecia aquele sorriso e ainda me irritava por sentir falta dele.
Dois anos depois, continuava sem saber o que dizer naquele lugar.
Casei com Juliana aos trinta e oito anos. Estávamos perto de completar um mês de casamento quando precisei escolher seu caixão. Agora, aos quarenta, ainda havia dias em que me lembrava de uma conversa nossa antes de recordar o restante: o acidente, o homem no carro e as mensagens que encontrei depois.
Ela era dançarina e disse que precisava ir a Portugal para uma apresentação. Eu sabia da gravidez quando nos casamos. Acreditei que seria pai e comecei a fazer planos que nunca cheguei a contar a ninguém. Também me apaixonei por ela. A criança teve importância na decisão de casar, mas não foi a única razão.
Viajei depois de saber do acidente. Juliana chegou a ser socorrida, mas morreu no dia em que cheguei ao hospital. Mais tarde, descobri que o homem que estava no carro era seu amante. As conversas no celular confirmaram que o relacionamento não começou durante aquela viagem.
Não quis fazer o exame de paternidade. O bebê poderia ser meu ou dele, e eu não suportava transformar aquilo em mais uma descoberta. Ainda pensava nessa decisão quando encontrava crianças da idade que ele teria.
O telefone vibrou no meu bolso. Ignorei a chamada e permaneci olhando para a fotografia.
Eu amei Juliana. A certeza me incomodava porque sobrevivia às conversas que li, às referências ao meu dinheiro e aos planos em que eu participava apenas como fonte de recursos. Enquanto eu organizava nossa vida, ela combinava encontros com ele.
Passei noites conferindo datas. Comparei compromissos, viagens e desculpas com o que me lembrava de ouvir em casa. Descobri mentiras até nos dias de que sentia saudade.
No velório, precisei ouvir o quanto formávamos um casal bonito. As pessoas falavam dos nossos planos, do casamento recente e da injustiça de uma morte tão precoce. Eu apertava suas mãos, agradecia e voltava a olhar para o caixão. Não sabia como sentir falta da minha mulher e odiá-la ao mesmo tempo.
Meu telefone vibrou novamente. Era uma mensagem de Joana perguntando se deveria manter meus compromissos. Respondi que sim e pedi que encomendasse flores para o túmulo.
— Você podia ter ido embora — murmurei.
Antes de me afastar, lembrei de outra mulher que conheci em Portugal naquela mesma noite. Uma camisola de hospital, cabelos loiros perto de um rosto machucado e dedos fechados na minha manga.
Eu saí para o terraço depois de receber a notícia da morte de Juliana. Precisava ficar longe das perguntas e das decisões que esperavam por mim lá dentro. Acendi um cigarro, embora não tivesse o hábito de fumar, e fiquei olhando a cidade.
Tinha dinheiro, formação e negócios que exigiam minha aprovação para quase tudo. Naquele hospital, porém, eu esperava que outras pessoas me dissessem o que ainda precisava fazer. Não consegui impedir a morte da minha mulher nem descobrir se a criança que perdeu era minha.
Olhei para baixo por tempo demais. Não tinha decidido fazer nada, mas estava tão perto da beirada que uma desconhecida achou necessário me mandar sair dali.
Quando me virei, encontrei uma jovem agarrada ao suporte do soro. Um dos olhos estava inchado, e ela parecia fazer esforço para continuar em pé. Mandei que voltasse para dentro. Ela tentou se aproximar e perdeu o equilíbrio.
Consegui ampará-la antes da queda. Quando seus cabelos roçaram meu rosto, senti um cheiro suave de xampu, doce e fresco, com uma nota de fruta que permanecia mesmo entre o odor do hospital e a fumaça do cigarro. Percebi melhor quando ela segurou minha manga e se apoiou em mim.
Não quis explicar os machucados. Eu também não desejava contar por que estava ali.
Ainda assim, implicou com o cigarro e me disse que tudo melhoraria. Mal conseguia manter a cabeça erguida, mas estava preocupada com o que eu poderia fazer.
Disse que se chamava Natasha antes de perder a consciência nos meus braços.
Chamei ajuda e a entreguei à equipe do hospital. Quis saber para onde a levaram, mas fui chamado para resolver assuntos relacionados a Juliana. Quando procurei informações depois, não consegui encontrá-la. Só tinha o primeiro nome.
De vez em quando, lembrava daquela mulher e me perguntava se ficou bem.
Saí do cemitério e entrei no carro. Deixei as mãos sobre o volante antes de ligar o motor, aproveitando alguns segundos de silêncio.
Morava sozinho num apartamento grande demais. Melinda cuidava da casa e já entendia que não precisava mudar meus objetos de lugar para demonstrar que trabalhou. Meus pais viviam fora do país e, depois de algumas tentativas frustradas, pararam de insistir para que eu considerasse outro casamento.
Não pretendia dividir minha vida com outra mulher. Isso não significava que deixei de procurá-las.
Antes de Juliana, eu já frequentava ambientes como o Ambrosia. Depois dela, passei a preferir encontros sem compromisso. Deixava claro que não pretendia me casar novamente ou planejar uma vida a dois.
O Ambrosia tinha a estrutura e a discrição que eu procurava. Quando Rocco decidiu vender o clube, fiz uma proposta. A compra do prédio também atendia aos meus planos de ampliar a Ferraz Construtora.
Hades Sinclair, meu amigo de infância, ficou com a outra metade, onde passou a funcionar a Sinclair Advocacia. As empresas tinham equipes e espaços separados.
Eu também tinha formação em Direito, mas escolhi trabalhar com engenharia. Gostava de desenvolver projetos, encontrar soluções e fazer funcionar o que parecia inviável. Era o tipo de problema ao qual conseguia me dedicar por horas sem perceber o tempo passar.
Quando estacionei na empresa, Joana ligou.
— Bom dia. Mantive seus compromissos.
— E as entrevistas?
— São oito candidatas. Vou chamá-las por ordem de chegada.
— Está bem. Vou participar de todas.
Detestava aquele processo. As respostas ensaiadas, os elogios à empresa e as tentativas de descobrir o que eu queria ouvir exigiam uma paciência que estava ainda menor naquela manhã.
Mesmo assim, a contratada trabalharia diretamente comigo, sob a coordenação de Joana. A vaga de secretária de projetos e comunicação envolvia materiais, apresentações, arquivos e contato com as equipes. Eu precisava de alguém que aprendesse a rotina e cumprisse os prazos.
Preferia passar algumas horas escolhendo a ter que substituir a pessoa semanas depois.
Encerrei a ligação e entrei no prédio. No elevador, voltei a uma mensagem de trabalho enquanto uma mulher entrava e selecionava o andar.
Pouco depois, a cabine parou, e ela começou a passar mal.
Guardei otelefone e tentei me aproximar, mas o pedido para que não a tocasse me fez parar. Falei com a manutenção e permaneci perto do painel, acompanhando sua respiração.
Quando ela virou o rosto, senti um arrepio nos braços.
Os cachos loiros, a boca e os olhos verdes me fizeram observá-la por mais tempo. Então senti nos cabelos dela aquele cheiro de xampu, frutado e levemente adocicado, com o mesmo frescor que percebi no hospital. Lembrei dos dedos fechados na minha manga.
Não é possível.
Inclinei ligeiramente a cabeça, tentando enxergar melhor suas feições. Ela chorava, com uma das mãos no corrimão, e desviou o rosto antes que eu conseguisse continuar olhando.
O mecanismo do elevador voltou a funcionar. A cabine se moveu, e precisei me firmar quando ela agarrou o apoio com mais força.
Saí primeiro para deixar a passagem livre. No corredor, uma funcionária veio perguntar o que aconteceu, e voltei a atenção para ela. Quando tornei a olhar para a jovem, encontrei suas mãos tremendo enquanto tentava guardar um lenço.
Ela se apresentou como candidata à vaga, mas eu ainda estava atordoado com a lembrança. Indiquei uma cadeira e chamei Joana.
— Traga um copo de água, por favor. Vamos deixar a entrevista dela para o final.
(CAPITULO MAIOR POR CAUSA DO CAP. ERRADO ANTERIORMENTE)POV/OLIVERA porta se fechou depois que Joana e Natasha saíram, e continuei olhando para a cadeira diante da minha mesa. O material da reinauguração estava aberto no computador. Precisava conferir as informações, devolver dois documentos e falar com as equipes antes do almoço.Peguei a caneta, mas lembrei do jeito como Natasha segurou o caderno contra o corpo ao se levantar. Durante a reunião, afastou uma mecha do rosto várias vezes. Eu acompanhava seus dedos, voltava ao documento e, pouco depois, estava olhando para ela de novo.Duas semanas esperando aquela mulher começar a trabalhar comigo, e bastaram alguns minutos na mesma sala para dificultar o restante da manhã.Deixei a caneta sobre a mesa e esfreguei a testa.Tinha quarenta anos, uma empresa para administrar e compromissos que não podiam depender da minha disposição. Ainda assim, passei os últimos dias consultando o telefone como se alguma informação nova sobre Natasha f
POV/NATASHAConferi o nome no arquivo antes de encerrar a ligação. A confirmação ficou registrada, e acrescentei uma observação para Joana acompanhar depois.Quando levantei os olhos, duas mulheres atravessavam a recepção. Uma delas caminhava com uma bolsa no antebraço, olhando diretamente para a sala de Oliver. A outra vinha ao lado, falando alguma coisa que não consegui ouvir.Joana passou a mão pelo rosto e se levantou.— Clarice.A mulher mais nova voltou a atenção para ela.— Ele está aí?— Está.Ela continuou andando com a acompanhante. Joana foi atrás, e ouvi uma batida breve antes de a porta de Oliver se abrir. As duas entraram, e Joana retornou à mesa.Fiquei esperando, sem saber se deveria perguntar alguma coisa.— Natasha, pode preparar café, por favor?— Posso.Salvei a alteração no arquivo e fechei o caderno.— A Clarice é a secretária de operações? — perguntei.— É. A outra é Madame Antonieta, mãe dela.Assenti. Joana olhou na direção da porta fechada.— Clarice é irmã d
(CARAMBA!! COMECEI MAL))- DESCULPEMPOV/NATASHAEu não conseguia encontrar a saída.O corredor estava escuro, e meus passos faziam barulho demais. Olhei para trás, tentando enxergar quem vinha, mas só percebi o movimento de um homem se aproximando. Apertei a bolsa contra o corpo e corri mais depressa.Havia uma porta adiante. Estendi a mão, mas meu pé prendeu em alguma coisa. Caí de joelhos e tentei me levantar antes que ele me alcançasse.Uma mão agarrou meu braço.— Não!Virei o corpo, procurando espaço para escapar. Ele me empurrou de costas contra o chão e se abaixou sobre mim. A máscara preta tinha detalhes dourados ao redor dos olhos.Reconheci a boca que me beijou.— Por favor…Os dedos dele se fecharam no meu pescoço.Segurei seu pulso com as duas mãos. Tentei puxá-lo, empurrar seu peito, fazer qualquer coisa que me permitisse sair dali. O chão estava frio sob minhas costas, e minhas pernas se moviam sem encontrar apoio.— Se você não for minha, não vai ser de mais ninguém.Er
POV/NATASHATábata mandou uma mensagem perto do horário de almoço, perguntando se eu já podia comer.Eu estava conferindo um contato e precisei terminar de registrar a resposta antes de pegar o telefone. Quando levantei os olhos, Joana organizava alguns documentos sobre a própria mesa.— Posso sair para almoçar?Ela conferiu o horário.— Pode. Depois continuamos com as confirmações.Salvei o arquivo, deixei o caderno fechado sobre a pasta e fui encontrar minha amiga na copa. Tábata estava escolhendo um lugar para sentar e sorriu quando me viu.— Como foi?Puxei a cadeira diante dela.— Acho que bem.— Você acha?— Ninguém pediu para eu ir embora.Ela soltou uma risada, e abaixei os olhos, sorrindo um pouco também.— Já te deram trabalho?Contei sobre a reinauguração e a lista de convidados. Enquanto comíamos, expliquei o que precisaria organizar e como Oliver acompanharia algumas escolhas.Tábata ouvia sem me interromper, mas ergueu as sobrancelhas quando mencionei as apresentações.—
POV/NATASHAAbri o caderno sobre os joelhos enquanto Oliver afastava alguns documentos da mesa. A porta permaneceu aberta, e consegui acompanhar a entrada de Joana sem precisar me virar completamente.Ela colocou uma pasta diante dele e se sentou na cadeira ao meu lado.— Separei o material da reinauguração.Oliver abriu a pasta, conferiu a primeira folha e a deslizou na minha direção.— Vamos apresentar a nova estrutura da empresa. Precisamos organizar os convidados e os materiais do evento.Inclinei o corpo para ler. Havia uma relação de nomes, informações de contato e algumas observações. Passei os olhos pela página, procurando entender o que esperavam que eu fizesse.— Você vai começar pela lista — ele continuou. — Conferir os dados, entrar em contato e registrar as confirmações.Assenti e anotei, embora soubesse que poderia consultar a folha depois. Escrever me ajudava a manter as mãos ocupadas.— As alterações precisam ficar registradas no mesmo arquivo — Joana explicou. — Assim
POV/NATASHAEu não conseguia encontrar a saída.O corredor estava escuro, e meus passos faziam barulho demais. Olhei para trás, tentando enxergar quem vinha, mas só percebi o movimento de um homem se aproximando. Apertei a bolsa contra o corpo e corri mais depressa.Havia uma porta adiante. Estendi a mão, mas meu pé prendeu em alguma coisa. Caí de joelhos e tentei me levantar antes que ele me alcançasse.Uma mão agarrou meu braço.— Não!Virei o corpo, procurando espaço para escapar. Ele me empurrou de costas contra o chão e se abaixou sobre mim. A máscara preta tinha detalhes dourados ao redor dos olhos.Reconheci a boca que me beijou.— Por favor…Os dedos dele se fecharam no meu pescoço.Segurei seu pulso com as duas mãos. Tentei puxá-lo, empurrar seu peito, fazer qualquer coisa que me permitisse sair dali. O chão estava frio sob minhas costas, e minhas pernas se moviam sem encontrar apoio.— Se você não for minha, não vai ser de mais ninguém.Era a frase de Rafael.O homem apertou







