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CAP. 4 - Nova oportunidade

Author: Nanda Érica
last update publish date: 2026-10-28 09:39:11

Dois anos depois

POV/NATASHA

Conferi a roupa diante do espelho: blusa larga de mangas compridas, saia até o meio das canelas e sapatos baixos. Aos vinte e quatro anos, ainda escolhia peças que escondessem minha barriga. Engordei bastante desde que voltei de Portugal e tinha medo dos comentários. A depressão me manteve em casa por muito tempo; a ansiedade ainda me fazia comer sem fome e desistir de sair.

Prendi os cachos num coque simples e guardei o currículo na bolsa. O cheiro doce e fresco do xampu ainda estava nos meus cabelos.

Da cozinha, ouvi Sakura reclamar:

— Nathan, essa caneca é minha.

— O café também?

— Principalmente.

Sorri. Morar com os dois me ajudou a reconhecer uma casa pelos ruídos da rotina, em vez de ficar esperando uma discussão começar. Rafael continuava preso, mas ainda fazia terapia e havia noites em que precisava conferir a fechadura mais de uma vez.

Da internação em Portugal, guardava lembranças incompletas. Sabia que Nathan e Sakura estavam comigo quando acordei, mas não conseguia reconstruir aquela primeira conversa. Também lembrava de vento frio e de um homem perto da beirada de um terraço. Às vezes, achava que tinha sonhado com alguém que queria morrer.

Nathan contou que saí do quarto e passei mal numa área externa. Eu não conseguia ligar direito uma coisa à outra.

Nos dois anos seguintes, recebi cuidados, retomei os estudos e comecei a faculdade de Design. Agora meu irmão me convenceu a tentar uma vaga como secretária de projetos e comunicação na Ferraz Construtora.

Eu tinha pouca experiência. Mesmo assim, prometi comparecer à entrevista.

Quando entrei na cozinha, Nathan devolveu a caneca a Sakura e me observou.

— Quer que eu leve você?

— Vou sozinha. Já salvei o endereço.

Sakura colocou uma torrada no meu prato.

— Então come antes.

Sentei e dei uma mordida, embora estivesse sem fome.

— Se der certo, quero organizar a mudança — falei.

Nathan apoiou os braços na bancada.

— Você tem certeza?

— Não vou morar sozinha. Vou dividir o apartamento com amigas, perto da empresa. Você disse que me ajudaria quando eu conseguisse um emprego.

Gostava de morar com eles. Querer sair não diminuía minha gratidão, mas eu precisava começar a pagar minhas despesas e tomar decisões sem sentir que estava pedindo mais alguma coisa ao meu irmão.

— Primeiro vamos esperar a resposta — ele disse.

Sakura tocou seu braço.

— E depois ajudamos com as caixas.

Nathan olhou para ela, depois para mim.

— Só lembra que pode voltar quando quiser, Nash.

Levantei para abraçá-lo.

— Eu sei.

Sakura também me abraçou e ajeitou a alça da minha bolsa antes de me deixar sair.

— Boa entrevista.


Cheguei à Ferraz Construtora com antecedência. Nathan contou que o prédio era ligado à Blackwood, empresa de Rocco, seu amigo, e passou para alguém da família Ferraz. Não sabia os detalhes. Conferi o endereço no telefone e entrei.

Na recepção, informei meu nome. A atendente verificou o agendamento, indicou o andar e apontou os elevadores. Avisei Nathan de que tinha chegado antes de seguir naquela direção.

Meu telefone vibrou quando apertei o botão.

Tábata: Bom dia, futura empregada! Seu quarto continua esperando. Depois me conta tudo.

Sorri, mas não consegui pensar numa resposta. Guardei o aparelho quando as portas se abriram.

Havia um homem dentro da cabine, olhando para o telefone. Alto, de terno escuro, com cabelos castanhos e alguns fios grisalhos nas laterais. Ele ergueu os olhos e esperou que eu entrasse.

Olhei para o espaço ao lado dele. Apertei a alça da bolsa e senti o coração acelerar.

Um, dois, três.

Entrei e apertei o botão do andar, mantendo os olhos no painel. Fiquei perto da porta, com a bolsa junto ao corpo, constrangida por ter demorado tanto para atravessar a entrada.

As portas se fecharam, e acompanhei a mudança dos números, tentando ignorar a tensão nos meus ombros.

Poucos segundos depois, o elevador parou com uma sacudida.

Agarrei o corrimão. Esperei as portas se abrirem, mas elas permaneceram fechadas.

— Deve ter ocorrido uma falha — o homem disse.

Apertei o botão de abrir. Nada aconteceu.

Tentei novamente. Meu dedo escorregou, e precisei olhar para o painel para acertar. O coração começou a bater tão forte que senti a pulsação no pescoço.

— Você está bem?

Abri a boca, mas a resposta não veio. Lembrei da mão de Rafael entre as portas, do relógio sob a manga e do perfume que senti antes de ouvir sua voz.

— Preciso sair.

O homem deu um passo na minha direção.

— Não toca em mim!

Ele parou.

Recuei até encostar na parede. A gola roçou meu pescoço, e puxei o tecido, tentando afastá-lo da pele.

— Não toca. Por favor.

— Está bem.

Ele permaneceu onde estava.

— Vou usar o interfone.

Assenti, agarrada ao corrimão. Meus dedos estavam úmidos, e um formigamento começou nas pontas. Tentei respirar fundo, mas só conseguia puxar o ar depressa, sem aliviar o aperto no peito.

O homem apertou o botão de emergência. Uma voz respondeu, e ele explicou o que aconteceu. Eu ouvia as palavras, mas tinha dificuldade para acompanhá-las.

Continuava olhando para a porta.

Abre. Por favor, abre.

Meu estômago se contraiu. Engoli para conter o enjoo e tentei firmar as pernas, que tremiam.

— A manutenção já foi chamada — ele informou.

Balancei a cabeça.

Estava em Porto Alegre. Saí da casa do meu irmão naquela manhã. Sakura ajeitou minha bolsa. Rafael estava preso.

Repeti aquilo em silêncio, procurando alguma coisa na cabine que me ajudasse a permanecer ali, naquele dia. O corrimão estava frio sob minha mão. Havia um risco perto do painel e uma luz acesa acima da porta.

Aquele homem não era Rafael.

Mesmo sabendo disso, eu não conseguia parar de tremer.

— Quer que eu chame alguém para você?

— Não… Só preciso sair.

As lágrimas escorreram, e virei o rosto para enxugá-las com a manga. Estava indo a uma entrevista de emprego e não conseguia sequer chegar ao andar.

Ele não se aproximou.

— Quando abrirem, eu saio primeiro.

Olhei para ele por um instante. Tinha olhos castanhos e uma expressão séria, mas mantinha as mãos longe de mim.

— Deixo espaço para você passar — acrescentou.

Assenti. Soltei o corrimão com uma das mãos e procurei um lenço na bolsa. O zíper escapou dos meus dedos duas vezes antes de conseguir abri-lo.

O interfone soou novamente. Ele atendeu, fez algumas perguntas e ouviu a resposta. Concentrei-me naquela voz distante, no ruído da ventilação e no contato dos meus sapatos com o chão.

A respiração ainda vinha curta, mas consegui soltar o ar mais devagar. Encostei o lenço no rosto e esperei, com a boca seca e os joelhos fracos.

Quando ouvi o mecanismo funcionar, ergui a cabeça.

A cabine se moveu um pouco, e apertei o corrimão. Então as portas começaram a abrir.

O homem saiu e se afastou, como prometeu. Esperei enxergar espaço suficiente antes de atravessar. No corredor, abri os dedos doloridos e respirei, olhando para a distância que consegui colocar entre mim e a cabine.

Uma mulher se aproximou dele.

— Senhor Ferraz, está tudo bem?

Parei.

Ele respondeu alguma coisa sobre o elevador e voltou a atenção para mim.

— Quer se sentar?

Olhei para seu rosto.

— Ferraz?

— Oliver Ferraz.

Tentei guardar o lenço, mas minhas mãos ainda tremiam. Errei a abertura da bolsa e precisei tentar outra vez.

— Eu sou Natasha Beaumont. Tenho uma entrevista com o senhor.

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