LOGINEssa semana passou voando. Ainda estive com minhas amigas por mais dois dias. Não devia ter desobedecido a meu pai, mas não via problema algum em estar com Adriana.
Estava novamente na porta do Instituto. Respirei fundo e entrei. Daniele estava se despedindo de outra mulher. Quando me viu, sorriu e veio até mim. — Bom dia. Pode me acompanhar. Preparada para o início da formação do seu filho? — Sim, estou muito ansiosa. — menti. — Que bom. Renato ainda não chegou. Parece estar um pouco atrasado. — ela fez uma expressão de desagrado. — Vai chegar muito depois da hora? — Ele não deu nenhuma justificativa, mas ainda não chegou. Paramos diante de uma porta de vidro. — Pode entrar. É só aguardar. — Obrigada. — sorri e entrei. Ela ficou esperando do lado de fora. A sala era menor do que a outra onde estivemos com o Doutor. Era mais fria e tinha apenas duas poltronas e uma mesa pequena com alguns doces. Questionei-me quanto tempo demoraria e porque ele estava atrasado. Ainda mais, nem havia avisado ninguém. O que será que tinha acontecido? Olhei para o relógio e já haviam se passado quinze minutos da hora marcada. Isso era ruim. A sociedade não tolerava atrasos, muito menos em uma situação como aquela. Mais trinta minutos passaram. Comi um doce. A ansiedade estava tomando conta de mim. Então, Renato entrou pelo outro lado. Tinha os olhos vermelhos e inchados. Já havia passado uma hora do horário previsto. — Bom dia. Como está você? — cumprimentou-me apertando minha mão. — Bom dia. Bem, obrigada. E você? — Peço desculpas por fazer você esperar… Pareceu que ia continuar, mas não disse mais nada. Silêncio total. Também não insisti. O Doutor Fábio entrou. Estava menos simpático do que da última vez. Cumprimentou-nos e disse que podíamos entrar pela porta por onde ele havia aparecido. Renato fez sinal para que eu passasse, e entrei primeiro. Uau! O que eu estava vendo era grandioso! Uma máquina transparente, enorme, com braços de metal. Nunca tinha visto nada parecido. Tinha vários feixes de luz e uma grande tela. Entramos em um cubículo que tinha um vidro, para podermos assistir ao grande acontecimento. Havia várias pessoas perto da máquina, confirmando se estava tudo funcionando corretamente. Entraram dois técnicos, cada um segurando uma caixa metálica selada. O Doutor abriu uma delas, colocou-a de um lado da máquina e fez o mesmo com a outra, do outro lado. Em seguida, fez um sinal, indicando que daria início à junção. Um dos técnicos foi até à tela da máquina e iniciou o processo. — Reprodução Humana Iniciada A voz da IA me sobressaltou um pouco. Vi pelo canto do olho que Renato olhou para mim, confirmando se eu estava bem. Os braços da máquina começaram a se mover. O braço do lado esquerdo agarrou o recipiente que estava dentro da caixa da direita e despejou seu conteúdo dentro de uma espécie de bacia transparente: o Núcleo Vital, com um fluído viscoso. O braço do lado direito repetiu o processo com o recipiente da caixa do lado esquerdo. Nossas amostras de medula já estavam dentro do invólucro, que entretanto, se fechou. De repente várias células começaram a se multiplicar. Pareciam pequenas bolinhas, todas unidas. Nós acompanhávamos tudo por uma tela dentro do cubículo, pois, de onde estávamos seria impossível enxergar diretamente. Cada vez mais rápido, novas células se formavam. Até que começaram a tomar a forma de um ser humano em miniatura. Eu não sabia o que estava sentindo, mas era alguma coisa dentro do meu peito. Nunca tinha visto nada parecido, isso sem dúvida. — O que você acha? — Renato cortou o silêncio, sem olhar para mim. — Nem sei descrever o que estou vendo. É incrível. — levantei-me e me aproximei mais da tela. — Como é que duas simples amostras conseguem fazer tudo isso? — É o milagre da natureza. Misturado com o poder da tecnologia, claro. — Antes, os bebês eram formados dentro das mulheres, sabia? Tão estranho não é? Como seria isso? — notei um certo entusiasmo em sua voz. — Não sei se é boa ideia estarmos falando desse assunto aqui, não é? Renato pareceu esquecer-se por momentos de onde estava. Logo se recompôs. Mesmo assim, já havia conseguido um vislumbre de algo além daquela pessoa contida e correta, defensora de cumprir todas as leis e regras da melhor forma possível. Até chegou atrasado e tudo. Eu estava quase perguntando porque havia chegado depois da hora quando fomos interrompidos. — Podem me acompanhar até a sala onde estavam, por favor. — a técnica Daniele fez sinal para que a seguíssemos. — O que acharam? Gostaram da experiência? — Gostamos, sim. Foi incrível! — os olhos dele brilhavam. — Foi algo inesquecível, sem dúvida. — dessa vez, eu estava sendo sincera. Queria perguntar a Renato porque é que ele havia chegado atrasado. Estava curiosa demais. Não sabia se ele iria querer me contar. Quando ficamos um pouco sozinhos na sala, esperando, tentei a minha sorte. — Espero que não tenha sido nada de grave o seu atraso de hoje. — reparei que ele ficou um pouco desconfortável — Bom, já está tudo resolvido. — tentou claramente fugir do assunto. — Se precisar falar sobre isso, eu não me importo de ouvir. Ele pareceu hesitante. — Sabe… não devemos compartilhar coisas íntimas com nosso parceiro de reprodução. — Eu sei. Mas que mal pode haver em contar o que aconteceu? Eu acho que até merecia uma justificativa. — Mas são regras, e as regras são para serem cumpridas! — ele tinha os punhos cerrados. Começou outra vez a ficar com os olhos vermelhos. — Como quiser. Ele relaxou as mãos, suspirou e disse: — É o meu pai…Alguns meses depoisAcordei com o choro baixinho de Maya.Abri os olhos e encontrei Renato já de pé, aproximando-se do berço.— Pode continuar dormindo, meu amor — sussurrou ele. — Eu cuido dela.Sorri.— Acho que ela está com fome.Renato olhou para nossa filha e depois para mim.— Nesse caso, vou precisar da sua ajuda.Ri e sentei-me na cama.Enquanto ele me entregava Maya, olhei para Valen, que ainda dormia tranquilamente.E tanta coisa havia mudado desde aquela noite em que Renato me perguntou onde construiríamos nossa vida.Encontramos uma casa perto dos meus pais e da mãe dele, exatamente como desejávamos.Tinha um jardim, uma sala espaçosa e quartos suficientes para nossos filhos.Ainda me lembrava da emoção que senti quando entramos nela pela primeira vez.Escolhemos os móveis, as cores das paredes e cada pequeno detalhe.Coisas que antes eram determinadas por regras e sistemas agora dependiam apenas de nós.Maya nasceu alguns meses depois.Nunca esqueceria a primeira vez que
Capítulo 116 Fiquei olhando para Renato durante alguns segundos. A pergunta parecia tão simples. Escolher um lugar para viver, construir uma casa, criar nosso filho. Mas, durante toda a minha vida, nunca imaginei que pudesse tomar uma decisão como aquela. — Você está falando sério? — perguntei. Renato sorriu. — Muito sério. Olhei para Valen, que continuava dormindo tranquilamente nos braços do pai. — Quero, claro que quero! Mas podemos mesmo escolher qualquer lugar? — Podemos começar procurando. Há muitas casas que ficaram vazias depois da queda do Conselho. Algumas famílias estão construindo novas propriedades, outras querem começar de novo em lugares completamente diferentes. — E nós? — Nós vamos escolher juntos. Aproximei-me e beijei-o. — Ainda estou aprendendo a acreditar que somos livres. — Eu também, Mel. Encostei a cabeça no ombro dele e fiquei observando nosso filho. Durante muito tempo, pensei que a liberdade significava apenas poder amar Renato sem medo. Agora
Fiquei olhando para a última mensagem de Renato, sorrindo.ONDE?, respondi.É SURPRESA.Ri sozinha.Depois de tantos dias de medo, perseguições e incertezas, era maravilhoso poder pensar em alguma coisa tão simples quanto fazer planos com o homem que eu amava.Minha mãe se aproximou.— O que aconteceu?— Renato está planejando uma surpresa.Ela sorriu.— Então acho que finalmente vamos ter motivos para comemorar.Mas, antes que eu respondesse, Maísa entrou na sala.— Mel, precisamos conversar.Sua expressão fez meu sorriso desaparecer.— O que foi?— Renato acabou de me informar que começaram as investigações sobre os laboratórios. Os médicos e cientistas envolvidos nos experimentos estão sendo identificados.— E a doutora Vanessa?Maísa assentiu.— Também está sendo investigada. Ela e os outros profissionais que participaram voluntariamente dos procedimentos terão de responder pelo que fizeram.Senti um aperto no peito.Durante tanto tempo, aquelas pessoas tinham decidido quem poderi
A televisão continuava mostrando a entrada da sede do Governo quando surgiu um anúncio inesperado.TRANSMISSÃO EXTRAORDINÁRIA — REUNIÃO COM O CONSELHO.— Vão mostrar a reunião! — exclamei.Marcos aumentou o volume.A imagem revelou uma sala onde Renato, Davi, Tiago e Vítor estavam sentados diante dos sete membros do Conselho. Lex permanecia junto à porta.Reconheci Augusto Vilar imediatamente.— Não autorizei esta transmissão! — protestou ele.— A população tem o direito de ouvir esta conversa — respondeu Renato.Augusto lançou-lhe um olhar furioso.— Vocês não fazem ideia do que estão tentando destruir.— Não queremos destruir nada — respondeu Davi. — Queremos acabar com o controle que vocês exercem sobre as nossas vidas.Renato levantou-se.— As pessoas descobriram os experimentos, as reinicializações de memória e o plano de extermínio. Agora queremos respostas. E queremos que o Sistema deixe de obedecer a decisões que prejudicam a população.Augusto bateu a mão na mesa.— Estão a j
Fiquei olhando para a mensagem de Renato, tentando compreender o que acabara de ler.Como seria possível?Minha mãe percebeu minha expressão.— O que foi?Mostrei-lhe a mensagem.Ela leu duas vezes.— Mas como?— É exatamente o que eu quero saber!Digitei rapidamente:RENATO, EXPLICA!A resposta chegou quase imediatamente.A UNIDADE QUE LIBERTAMOS CONSEGUE TRANSMITIR A CORREÇÃO ÀS OUTRAS ATRAVÉS DA REDE LOCAL DE SEGURANÇA. LEX NÃO CONSEGUE ACESSAR O SISTEMA CENTRAL, MAS ESSES ANDROIDES JÁ ESTÃO CONECTADOS ENTRE SI.Li a mensagem em voz alta.Marcos levantou-se da cadeira.— Então basta que uma unidade liberte outra?Meu celular vibrou novamente.É ISSO. CADA UNIDADE LIBERTADA PODE AJUDAR AS SEGUINTES. ESTAMOS TESTANDO COM UM GRUPO PEQUENO.Olhei para minha mãe.— Se funcionar...Nem precisei terminar.Ela compreendeu.Pela primeira vez desde que descobríramos os planos do Conselho, a possibilidade de impedir o extermínio parecia estar ao nosso alcance.— Vou avisar a Maísa — disse ela
A mensagem de Renato continuava aberta no meu celular.A população estava avançando para a sede do Conselho.E ele estava no meio da multidão.Minha mãe sentou-se ao meu lado, sem conseguir esconder a preocupação.— Davi também deve estar indo com eles — murmurou.— Está. Renato disse que todos continuavam juntos.Ela assentiu, mas permaneceu em silêncio.Na televisão, a transmissão oficial havia sido substituída por imagens dos protestos. Era uma cobertura produzida pelos equipamentos de comunicação do próprio Sistema.Um androide de reportagem aparecia diante de uma multidão, enquanto uma pequena unidade de gravação flutuava ao seu lado.— Os cidadãos continuam reunidos em diferentes setores, apesar das ordens de dispersão — informou, com uma voz perfeitamente controlada. — As autoridades classificam os acontecimentos como uma perturbação da ordem coletiva.Atrás dele, as pessoas gritavam exigindo a suspensão do extermínio.— Perturbação da ordem coletiva? — repetiu Clara, indignada







