FAZER LOGINFiquei surpresa por ele ter falado.
- Oh! O que aconteceu com seu pai?
- Ele passou mal essa manhã, antes de eu sair de casa. Eu o ajudei, por isso cheguei atrasado.
- Entendo. Mas como ele está?
- Está estável. Está internado no hospital. Assim que eu sair daqui, vou vê-lo.
- Que bom. Então foi um grande susto.
- Foi sim. - ele olhou para o chão, tentando esconder sua emoção.
- Você já sabe o que ele teve?
- Sim. Ele teve um ataque cardíaco.
- Meu deus! - tapei a boca com a mão. - Ele teve muita sorte. Ainda bem que você estava presente.
- É verdade. Imagine se eu já tivesse saído. Nem quero pensar nisso. - ele balançou a cabeça, como se tentasse afastar aquela ideia.
- Não pense nisso agora. O importante é que ele vai se recuperar.
- Deus te ouça!
- Vai sim. Desejo melhoras para ele.
- Obrigado… - ele ficou pensativo por alguns segundos. - Mel, nós nunca tivemos essa conversa!
- Certo. Claro que não. Obrigada por ter confiado em mim.
Ele não falou mais. Ficou olhando para a parede, refletindo sobre nossa conversa. Provavelmente também estava com medo. Falar daquela maneira com alguém do sexo oposto, sem ser os pais, era proibido.
O Doutor Fábio entrou com dois monitores nas mãos, já conectados ao nosso filho, e nos entregou um para cada um.
Olhei para a tela e vi o mesmo que tinha visto no monitor de Adriana. A diferença é que o meu ainda era muito pequeno, quase do tamanho de uma formiga.- Este é o dispositivo de acompanhamento do desenvolvimento. É proibido mostrá-lo a outras pessoas que não sejam os pais. Em caso de descumprimento, serão aplicadas medidas sancionatórias. Aqui no menu, vocês podem escolher ver seu filho de vários ângulos. Também há várias cores para trocar a iluminação, de acordo com a preferência de vocês. Há instruções sobre quando deverão escolher o nome dele, como ocorrerá o nascimento, e quanto tempo falta. Todas as explicações sobre o desenvolvimento dele também estão disponíveis. Alguma pergunta?
Respondemos que não tínhamos nenhuma dúvida e nos despedimos.
Fiquei pensando no momento que tive com Renato. Ele realmente tinha me contado tudo. Eu não esperava por isso. A preocupação estava estampada em seu rosto. Nem acreditava que já tinha meu filho naquela tela, dentro da minha bolsa. Foi tudo tão rápido!Desci a rua em direção a casa. Quase corri para ler um pouco do diário. Como meu pai ainda estava trabalhando, poderia ficar à vontade.
Entrei em casa e fui rapidamente até o armário.
Ali estava.
Queria me perder naquele mundo novamente.Março, 2012
“Querido Diário!
No meu peito não cabe tanta felicidade! Nem sei como aguentar até mais tarde para contar a Joaquim a novidade.
Estou esperando nosso primeiro filho! Ele vai ficar tão radiante. Mal posso esperar para compartilharmos esse amor imenso. Nós nos mudamos para uma casinha perto da praia. Ironicamente, moramos perto de onde nos conhecemos. Mas estou um pouco apreensiva com uma coisa. Existem muitos desentendimentos entre os países. Se houver uma terceira guerra, não sei se vamos sobreviver. Já existem bombas nucleares. Se isso acontecer, o mundo pode acabar. Neste momento, não vou pensar nisso. Com certeza, tudo vai se resolver e não vamos chegar a esse ponto. Depois conto como foi a reação dele. “ Fechei o diário e fiquei pensando no que tinha acabado de ler. Mal sabia Renato que eu já tinha toda a informação de que, antigamente, os filhos se desenvolviam no ventre das mães. Eu gostaria de viver isso, principalmente com amor. Como seria amar alguém?Resolvi preparar o jantar.
Massa à bolonhesa. Eu sabia que meu pai adorava. Queria fazer algo por ele. Dali a três meses, eu iria para minha casa com meu filho e Renato.Meu pai, Davi, entrou com um ar cansado.
- Oi papai. Você está cansado não está? - fui lhe dar um beijo.
- Oi, minha filha. Estou sim. Foi um longo dia. Tivemos muito trabalho. Cheira muito bem! - ele olhou para mim com curiosidade. - Você vai me mostrar meu neto?
- Vem sentar aqui à mesa. O jantar está quase pronto. Eu vou mostrar, claro, depois que comermos.
Eu não tinha mais olhado para o monitor desde que tinha saído do instituto.
- Quero muito ver. Não me deixe na curiosidade, por favor!
- Está bom. Então, senta aqui que eu vou buscar.
Fui buscar o equipamento e pus a tela na frente dele.
Ele arregalou os olhos.- Meu neto! - seus olhos se encheram de lágrimas. - eu estava com saudades de ver esse milagre.
- Seu neto está crescendo. - não consegui dizer mais do que isso.
Olhei para a tela e vi o pequeno. Ainda nem tinha nome.
- Como faço agora para decidir o nome com o pai dele?
- Tem uma opção aqui para vocês entrarem em contacto pelo monitor e decidirem como vão chamá-lo.
Ele tocou na tela e apareceram várias opções no menu. Abriu uma espécie de chat.
- Vocês só podem conversar aqui sobre o nome da criança. - alertou.
- Claro. Que outra conversa poderíamos ter?
Não contei que Renato tinha me falado sobre seu pai.
- Aqui vocês também têm informações sobre o desenvolvimento dele e sobre quando ele vai nascer.
- Obrigada, pai. Agora vamos jantar?
Ele assentiu e coloquei o monitor sobre a mesa.
Jantamos em paz e o ajudei a lavar a louça.Quando estava no meu quarto, decidi olhar mais uma vez para o aparelho. Meu filho, ainda muito pequeno, estava flutuando serenamente no líquido.
Senti algo… Mas eu não queria. Decidi guardá-lo na minha gaveta. Ia tirar o diário, mas, pela primeira vez, não o fiz. Em vez disso, tirei a tela da gaveta e adormeci olhando para ela…A técnica se aproximou e o envolveu com a mantinha, enquanto outra cortava seu cordão umbilical. Então, ouvi seu choro! Que emoção! Eu não conseguia conter as lágrimas que escorriam pelo meu rosto. Pensei que fossem me entregar meu filho logo, mas não. Levaram-no até uma máquina pequena e o deitaram ali. Fizeram sinal para que nos aproximássemos. Ela apertou um botão e ouvi um barulho no início e outro no final. Limparam-no com algumas toalhas perfumadas. Finalmente, pude pegá-lo. Era tão lindo, tão perfeitinho. Parou imediatamente de chorar assim que sentiu meu toque. Falei bem baixinho: — Meu amor! É a mamãe. Eu sempre vou amar você! Você é a melhor coisa da minha vida. Renato se aproximou com lágrimas nos olhos. Ele me pediu para segurar o filho e eu o passei para seu colo. Daniele apareceu. — Muitos parabéns aos dois. Como ele se chama? Respondemos ao mesmo tempo: — Valen! — Que nome tão diferente. É bonito. — Podem vir comigo agora. Vou most
Por que os sinais vitais dele estavam tão baixos?O que eu poderia fazer?Sentia minha boca seca e meu peito doía.Não deveria ter feito o que fiz.Se acontecesse alguma coisa com ele, nunca me perdoaria!Estava muito aflita, andando de um lado para o outro, até que, depois de alguns minutos, a luz voltou ao normal e os sinais vitais dele também.Que susto!Foi um alívio tão grande que me deixei cair no chão.Uma mensagem apareceu na tela:“Por enquanto, seu filho está a salvo. Não volte a cometer nenhum erro!”E desapareceu...Fiquei olhando para a tela.Eu me sentia tão aliviada, mas, ao mesmo tempo, uma raiva cresceu dentro de mim.Com certeza tinha sido aquela mulher. Mas, se ela estava ali para me proteger, como tinha conseguido fazer aquilo com meu bebê?Não iria arriscar mais a vida dele.Faria tudo o que estivesse ao meu alcance para mantê-lo em segurança.Agora teria muito mais cuidado, mas só voltaria a investigar quando ele nascesse.O último mês passou tranquilamente.Apro
Saiu a mesma mulher alta e esguia que nos observava.- Mel, nós não temos tempo para perguntas. Você não imagina o que causou.- Ah, não. Lá no hospital disse que ia me dar respostas. - Eu só posso dizer que…- Não, não. Eu quero saber quem você é. Agora!- Digamos que sou uma amiga da sua mãe.- Como se conheceram?- Isso é importante por quê?- Eu preciso saber.Ela respirou fundo.- Eu a conheci antes de ela morrer. Ela pediu para eu tomar conta de você.- Não respondeu à minha pergunta.- Mel, você não entende. Existe muita coisa em jogo. Quanto mais souber, mais em perigo fica.- Em perigo já estamos todos!- Se cumprir as regras, não há perigo nenhum.- Cumprir regras? Obedecer, não ter liberdade? E a felicidade, onde fica?- Você fala exatamente como a Valena. Como sabem todas essas coisas?- Agora eu que digo que não te interessa. Se minha mãe não disse, não sou eu quem vai falar.- Sua mãe era uma pessoa incrível!- Minha mãe morreu de insuficiência renal. Vocês se conhecera
Me assustei quando senti o toque e tentei me virar.- É melhor para você que não se vire. - falou em voz baixa.- Quem é você?- Está louca? Esse edifício vai ser isolado assim que todo o mundo sair daqui. Como você se arrisca a fazer isso, ateando fogo num banheiro?Como sabe? Quem é você?- Sou alguém que prometeu à sua mãe que protegeria você. Precisa sair daqui agora!- Por que não posso ver seu rosto?Terá tempo para isso um dia. Agora vá. Aproveite essa confusão. - Ela me empurrou pela porta até uma saída de emergência no fundo daquele corredor. - Desça essas escadas até a rua. E nada aconteceu! Eu cuido das câmeras.- Como vou saber quem você é?- Vá até os fundos do aeroporto à meia-noite de amanhã. - Por que o aeroporto?- Depois você vai descobrir. Vá logo e pare de fazer perguntas.Não disse mais nada. Nem olhei para trás. Simplesmente corri.Consegui sair ilesa e vi Renato lá no fundo. Ele olhou para mim com um ar desconfiado.Veio na minha direção e se colocou ao meu
Acordei me perguntando o que poderia fazer. Qual seria o primeiro passo para a investigação?A resposta deveria estar no hospital. Tanto naquela sala quanto nas informações sobre Ana.Só precisava de um plano. Sabia que seria muito arriscado.Olhei para Valen, flutuando em seu líquido no Núcleo Vital.Se acontecesse alguma coisa comigo, não sabia o que aconteceria com Valen. A sociedade não permitiria que Renato o criasse sozinho. Um arrepio percorreu meu corpo ao pensar no que poderiam fazer com meu filho. Por alguns momentos, hesitei. Será que valia a pena o risco?Valia, sim. Também estava fazendo isso por ele. Por todos nós.Por um futuro melhor! Pela liberdade!Depois de ter lido o diário pela primeira vez, comecei a me sentir muito mal por viver naquela sociedade.Nós tínhamos uma vida horrível, completamente controlada pelo governo e pela IA.Decidida, fui tomar meu café da manhã.No caminho para o hospital, encontrei Renato.Ele estava com uma aparência péssima. Olhei
Fiquei estática por alguns segundos, olhando para a mensagem na tela.Carreguei para responder. A mensagem desapareceu tão rápido quanto havia aparecido.Já era muito tarde. Não conseguia dormir de jeito nenhum.Fui conferir novamente o monitor, mas não havia qualquer vestígio da mensagem. Tentei entrar em contato com Renato.Apareceu um aviso na tela: - AVISO: Esta opção já não está disponível. Nome para filho concluído!Passei o dia seguinte praticamente na cama. Como era final de semana, meu pai estava em casa e tentou me distrair um pouco.Vimos um filme, mas nem prestei atenção.Quando acordei na manhã do funeral de Ana, sentia meu corpo pesado e estava com dor de cabeça.Fui encontrar meu pai na cozinha.- Bom dia Mel. Conseguiu descansar?- Bom dia. Só um pouco. Senti-me na cadeira e fiquei observando a janela.- Vem tomar café da manhã.- Não estou com fome. - Como você vai aguentar o dia de hoje se não se alimentar?- Eu sei. Mas não consigo mesmo.- Falta um mês e pouco







