Share

Febre

Author: Grazy Souza
last update publish date: 2026-04-18 01:01:46

Ruby

Atrás de mim, ouvi o suspiro de choque da Dália. Trevor Black deu um sorriso de lado. Não era um sorriso gentil; era o sorriso de um predador que acabou de encontrar uma presa que, em vez de correr, decidiu morder. Ele puxou a carteira de couro e depositou uma nota de dez dólares no balcão.

— Fique com o troco. Seu deboche vale ao menos um dólar de gorjeta — ele murmurou, pegando o copo de papel. Nossos dedos se roçaram por um milésimo de segundo. Foi como um choque elétrico, uma descarga de eletricidade estática que percorreu meu braço e me deixou paralisada por um instante.

Ele saiu sem olhar para trás, deixando o cheiro de um perfume caro e amadeirado no ar. Eu ainda estava tentando regular minha respiração quando meu celular começou a vibrar freneticamente no bolso. Era Rosa.

— Ruby? — A voz da mulher estava trêmula. — Você precisa vir para casa agora. A Esmeralda… ela acordou chorando, a febre subiu do nada, está 39,5° e ela está reclamando de uma dor insuportável nas pernas. Ela não consegue ficar de pé.

O mundo girou. O café, o homem de terno e o meu orgulho sumiram instantaneamente. Só sobrou o medo devorador que eu guardava no fundo da alma. 

— Estou indo, Rosa! Não saia do lado dela, por favor!

Arranquei o avental e corri para a porta. O destino estava me pregando uma peça cruel: eu havia acabado de insultar o homem que era dono do único lugar que poderia salvar a vida da minha pequena.

O trajeto da cafeteria até o meu apartamento foi um borrão de asfalto cinza e respiração ofegante. Cada segundo parecia uma hora de tortura. 

Quando finalmente entrei no quarto e me deparei com ela encolhida, parecendo uma bola de pelos envolta do cobertor… algo em mim cedeu… foi como se me atingisse com um soco. O quarto cheirava febre e dor, os cachos grudados na testa úmida, soluçando baixinho. Aquela visão estraçalhou o que restava do meu coração.

— Eu estou aqui, meu amor. Cheguei e não vou mais sair do seu lado. — Murmurei, envolvendo-a em uma manta.

Rosa me ajudou a carregá-la escada abaixo, com cuidado, como se qualquer movimento em falso pudesse quebrá-la. O peso leve demais do corpo dela nos meus braços era o que mais assustava.

O táxi até o Hospital Geral de Boston consumiu o dinheiro que deveria garantir a comida da semana inteira, mas isso deixou de importar no instante em que fechei a porta do carro. Nada mais existia além dela.

Foi só no meio do trajeto, com a cidade passando borrada pela janela, que a realidade me atingiu como um choque frio: aquele era um dos hospitais da família Black. O império do homem arrogante que eu havia insultado horas antes.

Soltei uma respiração trêmula, sentindo o estômago revirar. O destino, além de cruel, parecia ter um senso de humor perverso, do tipo que não apenas testa seus limites, mas faz questão de esfregá-los na sua cara.

A triagem foi um pesadelo de burocracia. “Aguarde”, eles diziam. Mas como esperar quando o corpo da pequena, em meus braços, parecia estar em chamas?

Era um hospital particular, com uma ala minúscula que eles mantinham quase como um gesto de “caridade” para quem não podia pagar, como eu. E estávamos ali, agarradas a qualquer chance de atendimento.

Quando finalmente conseguiram estabilizá-la na ala pediátrica, o médico foi direto: ela precisava de uma bateria de exames, inclusive de imagem, e uma internação preventiva. O problema era o de sempre: o custo. A doença de Esmeralda era uma incógnita cara, e meu saldo bancário não cobria nem a primeira hora de oxigênio.

Assenti para o médico, olhei para ela adormecida, suspirei e saí da ala de internação para o pátio do hospital, sentindo as paredes se fecharem sobre mim. Eu precisava de ar. Precisava de um milagre. Caminhei até a área externa da diretoria, onde o asfalto brilhava sob o sol frio. Me encostei em uma área antes que meus pés se cessem, foi quando o vi novamente.

Trevor Black estava saindo pela entrada principal, cercado por assessores e seguranças que pareciam sombras tentando acompanhar seus passos largos. Ele estava imerso em uma conversa telefônica, gesticulando com irritação, os olhos fixos em alguns papéis que segurava. Ignorava o mundo ao redor, confiando que o mundo pararia para ele passar.

Ele começou a atravessar a rua interna do complexo hospitalar, deixando suas sombras de terno para trás, justamente quando uma caminhonete de entrega, em alta velocidade, dobrou a esquina. O veículo não ia parar. Trevor nem sequer levantou a cabeça.

— Cuidado! — O grito saiu da minha garganta antes que eu pudesse processar o risco.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Contrato com o senhor arrogante   Cont. 11º Família_1

    Eu caminhava devagar pela marina de pedras enquanto observava meus três filhos andarem um pouco mais à frente. Benjamin ia na liderança, tentando parecer um adulto independente e responsável. Aurora tirava cerca de cinquenta fotos por minuto de cada gato ou flor que cruzava seu caminho. Arthur analisava o motor das embarcações ancoradas como se estivesse planejando um projeto de engenharia naval para construir algo duas vezes melhor.De repente, senti os dedos quentes de Trevor se entrelaçarem nos meus.Era um gesto tão simples. Um toque cotidiano. Mas, mesmo depois de tantos anos de casamento, aquilo ainda tinha o poder absoluto de fazer meu coração dar aquele mesmo salto descontrolado no peito.— No que você tanto pensa? — ele perguntou suavemente, sem desacelerar o passo.Olhei para a imensidão azul do mar e depois para os nossos filhos caminhando à nossa frente.— Em como conseguimos chegar até aqui — murmurei.Trevor ficou em silêncio por alguns instantes. Ele não precisava que e

  • Contrato com o senhor arrogante   Cont. 11º Família

    — O Arthur destruiu realmente o controle, Aurora — Benjamin comentou, dando um gole em seu suco de laranja. — Vi quando ele arrancou a placa-mãe.— Viu?! Obrigada, Ben! — Aurora cruzou os braços, vitoriosa, encarando o gêmeo.— Mas você também gritou como se o barco estivesse sendo invadido por piratas somalis — Benjamin completou com um sorriso de deboche.— Ben! De que lado você tá?!— Do lado da razão. Você é extravagante demais e o Arthur é um cientista maluco sem noção de limites sociais.Aurora bufou, indignada, jogando o cabelo longo para trás. Arthur deu um sorriso imperceptível de satisfação. E eu não consegui conter um sorriso no rosto.Era simplesmente impossível olhar para aquela confusão e não sentir o peito transbordar. Olhar para eles era como ver a nossa história reproduzida em alta definição.Arthur era a cópia fiel e miniaturizada do Trevor. Cabelos escuros, olhar analítico, gênio controlado e uma inteligência assustadora. Aurora era o meu clone emocional e físico. I

  • Contrato com o senhor arrogante   11º Família

    Alguns Anos DepoisRubySe alguém tivesse me dito, há quinze ou vinte anos, que um dia eu pisaria em um iate de luxo navegando pela costa deslumbrante da Grécia enquanto tentava mediar uma Terceira Guerra Mundial entre meus três filhos, eu teria dado uma gargalhada escandalosa na cara da pessoa.Porque, sinceramente? Na maior parte da minha juventude, meu maior objetivo de vida era simplesmente tentar sobreviver ao dia seguinte. Era contar os centavos para pagar o aluguel do apartamento caindo aos pedaços, dobrar turnos exaustivos em três empregos diferentes, cuidar da saúde da minha irmã e rezar para que o destino não me desse mais uma rasteira.Mas olhe só para mim agora.Tenho quarenta e poucos anos, não que eu goste muito de ficar contando.Sou proprietária de uma rede de cafeterias literárias ao lado da minha melhor amiga. Sim, nós conseguimos. Realizamos o sonho que nasceu entre conversas, planos rabiscados e uma quantidade absurda de esperança.Usei cada centavo da herança que

  • Contrato com o senhor arrogante   Cont. 10º NATAL DOS BLACK_1

    Benjamin inflou o peito, orgulhoso da missão.— Mamãe, a Mel pode me ajudar?— Oba! Presentes! — Melinda comemorou.As duas crianças dispararam escada acima.— Cuidado com a escada! — gritou Lorrayne.Voltei meu olhar para a minha Tempestade.Ela sustentava um sorriso travesso que conhecia bem demais.Um sorriso perigoso.Passei os braços ao redor da sua cintura e me inclinei para sussurrar em seu ouvido:— O que você está aprontando, Tempestade?Antes que ela pudesse responder, os dois furacõezinhos já estavam de volta.Benjamin e Melinda desciam os degraus com duas caixas nos braços, concentrados como se transportassem algo extremamente valioso.— Posso entregar, mamãe? — Benjamin perguntou, animado.— Eu também quero! — Melinda ergueu a mão. — Deixa eu ajudar, dinda?Ruby sorriu.— Claro. Ben, entrega esse para a vovó e esse para a dona Rosa. Mel, esse é para a sua mamãe.As duas crianças correram para cumprir a missão.Então Ruby estendeu uma caixa para mim.— E esse é para você.

  • Contrato com o senhor arrogante   Cont. 10º NATAL DOS BLACK

    Afastando-me um pouco da entrada da sala, caminhei até a extremidade do cômodo e apoiei a mão no batente de madeira da porta. Encarei os cantos daquele espaço, deixando minha mente voltar no tempo.Para qualquer pessoa que estivesse aqui hoje, esta mansão parecia o cenário perfeito de um comercial de Natal. Mas para mim, cada metro quadrado deste chão guardava o eco de uma infância sombria.Lembrei-me de quando eu tinha oito ou nove anos. Do silêncio sepulcral que dominava estes corredores. Meu pai, Alisson, não permitia risadas, brincadeiras ou qualquer demonstração de afeto. A mansão dos Black costumava ser uma prisão de mármore e vidro, onde eu e William aprendíamos desde cedo que o amor era uma fraqueza e que o poder era a única moeda que importava. Cresci vendo minha mãe engolir o choro pelos cantos e meu irmão se transformar, dia a dia, no monstro que nosso pai moldou.Se o pequeno Trevor, assustado e com o peito blindado pelo medo, pudesse me ver agora... ele jamais acreditaria

  • Contrato com o senhor arrogante   10º NATAL DOS BLACK

    (Cinco Anos Depois)Trevor BlackSe alguém me dissesse, seis ou sete anos atrás, que um dia eu estaria usando um suéter natalino absurdamente vermelho, parado no meio da minha sala de estar e vendo uma criança tentar arrancar os enfeites de uma árvore de quatro metros, eu teria mandado prender a pessoa por insanidade.Eu era Trevor Black. O homem de negócios implacável, focado apenas em metas, números, reuniões e no controle absoluto da minha vida e do meu patrimônio. A mansão dos Black, naquela época, não passava de um mausoléu frio, governado pela sombra rígida e manipuladora do meu pai, Alisson. Não havia calor ali. Não havia vida. Apenas uma competição silenciosa e destrutiva por um trono que quase nos custou tudo. Ou custou, depende do ponto de vista.Um fenômeno acontecia lá fora. Era muito raro, mas hoje estavanevando. A neve que caía suavemente do lado de fora das janelas de vidro da mansão nesta noite de Natal. Dentro da minha sala, o ar cheirava a rabanadas assadas, peru t

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status