INICIAR SESIÓNFiquei em silêncio por um instante, tentando entender do que ele estava falando, mas não vi sentido algum e balancei a cabeça, negando.
— Isso é coisa da sua cabeça — respondi, seco. — Pare de pensar besteira e revise minha agenda agora. Tempo, para mim, é dinheiro.
Ele assentiu imediatamente.
— Sim, senhor.
Abriu a agenda eletrônica e começou a listar meus compromissos do dia, enquanto o carro já se colocava em movimento.
Encostei a cabeça no banco, observando pela janela a cidade passando em velocidade constante. Pessoas caminhando apressadas, carros se acumulando no trânsito, vidas seguindo seus próprios ritmos… tudo parecia distante da minha realidade.
Minha vida era outra. Controlada. Planejada. Calculada.
E ainda assim por algum motivo, a imagem daquele menino insistiu em permanecer na minha mente por alguns segundos a mais do que deveria, incomum, mas irrelevante e como sempre, minha mente voltou ao que realmente importava: negócios.
Anny Sophia Rosa
Na manhã seguinte, acordei com uma leve dor de cabeça, mas nada que me impedisse de cumprir minhas tarefas diárias como mãe e como atendente de uma loja de cosméticos.
Enzo acordou com a corda toda. Ele ainda estava com seu pijama de dinossauro, que havia escolhido a dedo.
— Bom dia, mamãe! O que você fez hoje de lanche?
— Bom dia, meu amor! Fiz panqueca de Nutella e coloquei três a mais para você dividir com seus amigos.
— Obrigado, mamãe! Você é a melhor. — Ele me abraçou, e eu afundei o rosto em seus cabelos, sentindo aquele cheirinho de criança que sempre me acalmava.
— Aproveita que já acordou e vem sentar para comer.
Ele não precisou ouvir duas vezes. Sentou-se rapidamente e começou a comer suas panquecas com aquele entusiasmo que só criança tem.
Após o café, ele tomou banho e se arrumou para a escola.
— Mamãe, posso levar o carnotauro e o dilofossauro para a escola? — perguntou, levantando os dois dinossauros com os olhos brilhando.
— Pode sim — respondi, sorrindo.
Nem eu sei o nome desses dinossauros direito, mas Enzo conhece todos e ainda fica chateado quando erramos os nomes. Na cabeça dele, nós também temos que saber tudo sobre o assunto.
Me arrumei também, peguei minha bolsa e saímos para esperar o ônibus.
Enquanto aguardávamos, Enzo segurou minha mão e olhou para mim com aquela expressão séria demais para alguém tão pequeno.
— O que foi, meu filho?
— Um dia eu vou ganhar muito dinheiro e vou comprar um carro grandão pra mamãe… pra você nunca mais precisar pegar ônibus.
Meu coração apertou na mesma hora.
Antes que eu pudesse responder, uma senhora que estava ao nosso lado sorriu.
— Que menino educado! — ela disse. — Já pensa na mãe.
Enzo olhou para ela, como se aquilo fosse óbvio.
— Moça, claro que eu tenho que pensar. A minha mãe trabalha muito pra me dar tudo que eu quero. Quando eu crescer, eu que vou dar tudo que ela quer.
A senhora levou a mão ao peito, visivelmente tocada.
— Menina, essa criança tem quantos anos?
— Cinco — respondi.
— Nossa! Parece bem mais velho. Você está criando ele de uma maneira maravilhosa, parabéns.
Sorri, agradecendo o elogio.
Palavras assim aqueciam meu coração, principalmente nos dias mais difíceis.
Assim que o ônibus chegou, entramos. Descemos próximo à escola e me despedi dele com um beijo na testa.
— Se comporta, tá bom?
— Tá bom, mamãe!
Fiquei observando até ele entrar, como sempre fazia. Só depois segui meu caminho para o trabalho.
O movimento na rua já estava mais intenso, pessoas indo e vindo, cada uma com sua própria rotina.
Cheguei na loja alguns minutos antes do meu horário, como de costume.
Assim que entrei, o cheiro familiar dos produtos me envolveu imediatamente.
Era estranho como aquele lugar, apesar de tudo, ainda me trazia uma sensação de estabilidade.
— Bom dia, senhorita pontual! — ouvi a voz de Juliana assim que me aproximei do balcão.
Revirei os olhos.
— Eu nunca me atrasei.
— Hoje você está com cara de quem virou a noite.
— Não exagere — respondi, colocando minha bolsa no armário. — Só dormi tarde.
Ela cruzou os braços e me encarou.
— Assistindo dorama de novo?
— Talvez…
— Anny! — ela riu. — Você vai acabar apaixonada por um coreano fictício.
— Melhor do que por homem de verdade — murmurei sem pensar.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Ih… essa foi profunda.
Ignorei o comentário e comecei a organizar alguns produtos no balcão.
— Qual o dorama da vez? — Juliana perguntou.
Fingi não ouvir.
— Anny…
Suspirei, sem olhar para ela.
— Adivinha!
Ela pensou por alguns instantes e depois sorriu.
— O tal do demônio. — Juliana não gosta de doramas e não entende o meu amor por eles.
— Sim, estava assistindo novamente “Meu Demônio Favorito”.
— Aí, An! Só você mesmo. Vai acabar mais apaixonada por esse demônio.
— Mais do que já sou é impossível.
Ambas rimos.
— Hoje a playlist da loja é por sua conta.
Liguei o som e coloquei BTS e Generation from Exile Tribe para tocar.
— Lá vem você com essas músicas de coreano.
— BTS é K-pop e Generation é J-pop. — Ela revirou os olhos. — Engraçado que, quando te mostrei uma foto do Jungkook e do Nam, você surtou chamando eles de gostosos.
— E são mesmo.
— Deixa o Fred ouvir isso.
Nós duas rimos e voltamos ao trabalho.
Abrimos a loja e começamos a atender os clientes que chegavam. O Dia dos Namorados estava chegando, então a loja ficava frenética.
Entrou um cara e comprou três kits de maquiagem diferentes. Ele disse, na maior naturalidade, que um era para a namorada, outro para a amante e o mais simples de todos para a esposa.
Juliana e eu nos olhamos, com vontade de xingar aquele idiota, mas lembramos que ele era cliente.
Assim que ele saiu, Ju me chamou.
— Você viu aquele cuzão? Um kit pra minha namorada, um pra minha amante e um pra minha esposa. — Ela imitou a voz dele.
— Pior que o cara era um Jurandir. — Ju concordou comigo.
— Onde essas mulheres acham a buceta delas? — ela me perguntou.
— Pra fazerem uma merda dessas, com certeza em um lixão. Tenho dó da esposa dele… provavelmente fica em casa cuidando dele, e ele deve tratar ela super mal.
— Que ódio! Viu o kit vagabundo que ele comprou pra ela?
Nem tive tempo de responder, pois Priscila chegou.
— Quem é vagabunda? — ela perguntou com a voz esganiçada que ela tem.
— Estamos falando de um cliente que veio comprar kits para a esposa, a namorada e a amante. E estamos nos perguntando onde essas mulheres que se propõem a ser amante acham a buceta delas.
Ela nos encarou com cara de poucos amigos e mandou não nos envolvermos nos assuntos dos clientes, apenas trabalhar.
Quando ela saiu, reviramos os olhos.
— Claro que ela vai defender essa safadeza… ela é uma safada.
— Vadia mesmo! — respondi, e rimos.
Voltamos para o trabalho e, à noite, fui à casa dos meus pais buscar Enzo.
Quando cheguei, minha mãe me puxou de lado e disse que ele estava muito chateado e choroso. Perguntei o motivo.
— Um colega disse a ele que o pai dele não gosta dele, porque, se ele não tem pai, é porque o pai não está nem aí pra ele.
Respirei fundo.
Eu sabia que, uma hora ou outra, isso iria acontecer.
O ponto fraco do Enzo sempre foi esse.
Perguntei à minha mãe se alguém na escola havia chamado a atenção do menino por isso, e ela suspirou.
— Quando falei com a coordenadora, ela disse que era coisa de criança e que você deveria conversar com o Enzo sobre isso… falar pra ele não ligar quando zoassem ele.
— A escola só falou isso?
Minha mãe confirmou, e eu disse que iria conversar com a diretora sobre o assunto.
— Vai lá conversar com ele. Hoje ele não quis comer direito e nem contou pra gente como foi a escola.
Fui até o meu antigo quarto, que agora era do meu pequeno, e, quando entrei, ele estava olhando para o nada.
— Filho… — chamei, mas ele não respondeu.
Meu pequeno, quando se fecha, não conversa. Fica apenas no mundinho dele.
Chamei mais algumas vezes, até que finalmente ele olhou para mim.
Me sentei ao seu lado e alisei seus cabelos.
— Filho, não liga para as provocações das crianças más.
Ele me olhou com tristeza.
— Mamãe… você não sabe mesmo onde está o meu pai? — perguntou com os olhos cheios de lágrimas. — Por que ele não me quis?
Meu coração se partiu.
Como explicar para o meu filho que o pai dele é um desconhecido?
— Filho… tem coisas que a mamãe não pode te explicar agora, porque você ainda é pequeno para entender. Quando você estiver maior, eu te explico direitinho.
— Mas não tem como procurar ele?
— Não tem, meu filho.
Ele abaixou a cabeça, triste.
— Poxa… eu queria que o moço que conheci na escola fosse meu pai.
Meu alerta ligou na hora.
— Que moço, filho?
ANNY SOPHIA ROSA MARTINSNaquele ano, as notícias que chegaram até nossa família foram, sem dúvida, as melhores que poderíamos receber.Depois do nascimento de Riot Rose, nossa casa nunca mais foi a mesma. Não apenas porque agora tínhamos mais um bebê para encher nossos dias de choros, fraldas e noites mal dormidas, mas porque, em pouco tempo, nossa família cresceu de uma maneira que ninguém poderia ter imaginado.Um mês depois do nascimento do nosso pequeno, chegou a vez de Enzo e Helena conhecerem novamente a emoção de ter um bebê nos braços.A pequena Anna Rafaela nasceu na madrugada de uma quarta-feira chuvosa.Ainda me lembro da ligação de Enzo. A voz dele estava completamente diferente, misturando nervosismo, felicidade e aquela emoção que ele tentava esconder desde que descobriu que seria pai pela primeira vez.Quando ouvi o choro da minha neta pelo telefone, meus olhos se encheram de lágrimas.Anna Rafaela chegou ao mundo cercada de amor e, desde o primeiro instante, conquisto
ANNY SOPHIA ROSA MARTINSDepois de tudo o que havia acontecido, finalmente estava acomodada no quarto, tentando convencer meu corpo de que era permitido descansar. O cansaço pesava em cada parte de mim, mas, ainda assim, meus olhos não conseguiam se afastar do pequeno berço ao lado da cama.Nosso bebê dormia tranquilamente.Fiquei alguns segundos apenas observando aquele rostinho minúsculo, as mãozinhas fechadas e o peito subindo e descendo devagar. Ainda parecia impossível acreditar que, naquela mesma manhã, havia saído de casa pensando em uma simples reunião de trabalho e, algumas horas depois, estava ali, com mais um filho nos braços.Sorri sozinha.Rafael havia saído por alguns minutos para avisar que eu já estava acomodada e permitir que Enzo, Azaléia e Lucas entrassem. Não demorou muito para ouvir a porta se abrir.— Posso entrar?Reconheci a voz de Rafael imediatamente.— Pode.Ele entrou primeiro, seguido por Enzo, Azaléia e Lucas. Os três estavam com expressões completamente
ANNY SOPHIA ROSA MARTINSAs horas seguintes passaram de uma maneira completamente diferente do que havia imaginado. Ainda parecia estranho estar naquela cama de hospital depois de ter saído de casa acreditando que teria apenas mais uma reunião de trabalho. Agora, cada contração lembrava que nosso bebê havia decidido que não esperaria mais. A equipe estava ao meu redor, acompanhando tudo com atenção, enquanto tentava respirar da maneira que me orientavam.— Respira devagar, Anny.Assenti, apertando os lençóis.A contração veio novamente, mais forte, fazendo meu corpo inteiro ficar tenso. Fechei os olhos e tentei me concentrar na respiração, mas não era simples. A dor aumentava e diminuía em ondas, deixando alguns segundos de alívio entre uma e outra.— Rafael...Meu marido que finalmente teve autorização para entrar na sala de parto segurou minha mão imediatamente.— Estou aqui.Apertei seus dedos.— Está doendo.Ele aproximou o rosto do meu.— Eu sei, meu amor. Estou aqui com você.—
RAFAEL BARCELLOSEnquanto ia para o hospital, peguei meu celular e liguei para os nossos filhos. Liguei para Enzo primeiro. — Pai, aconteceu alguma coisa? — Ele perguntou por que nunca ligo naquele horário. — Filho, sua mãe entrou em trabalho de parto.Do outro lado da linha, houve alguns segundos de silêncio.— Como assim?— O bebê decidiu que está na hora de nascer.— Pai, você está falando sério?— Muito sério.— Jajá chego lá no hospital. Ele disse e desliguei, em seguida liguei para Azaléia que demorou um pouco mais a atender. — O que aconteceu, pai? — Ela pergu.rou sonolenta. — O bebê vai nascer. — Disse. — O quê? — Azaléia gritou. — Pai, ela está bem?— Está. Sua mãe está bem. Só começou o trabalho de parto e estou indo para o hospital.— Vou ligar para Lucas e em breve chego lá. — Não precisa correr, você também está grávida. — Pai, é o meu irmão que está nascendo!— Ou irmã. — Respondi. — Jajá chegamos lá. Antes que pudesse responder, a ligação terminou.Balancei
ANNY SOPHIA ROSA MARTINSMinha manhã começou como tantas outras, mas havia uma diferença impossível de ignorar: minha barriga estava enorme e qualquer movimento parecia exigir o dobro de esforço. Os últimos meses tinham passado rápido demais e, embora todos ao meu redor insistissem que eu precisava descansar, ainda existiam algumas responsabilidades que não conseguia simplesmente abandonar.Principalmente aquela reunião.Assim que entrei na empresa, minha assistente veio ao meu encontro carregando alguns documentos e me lançou aquele olhar de quem já estava preparando um sermão.— Dona Anny, a senhora não deveria estar aqui.Parei no meio do corredor.— Bom dia para você também.Ela suspirou.— Bom dia. Mas continuo falando sério. Sua gravidez está muito avançada.Passei a mão pela barriga.— Eu sei.— Então deveria estar em casa.— Tenho uma reunião importante.— Que poderia ser feita por videoconferência.— Poderia.Ela ergueu uma sobrancelha.— Então?— Então que decidi vir pessoal
RAFAEL BARCELLOSAlguns meses haviam passado desde os últimos acontecimentos, e a nossa família parecia ter entrado novamente naquela fase em que tudo acontecia ao mesmo tempo. A gravidez de Anny avançava rapidamente, e agora faltava muito pouco para conhecermos o novo membro da família. A barriga estava enorme, os pés continuavam inchando com frequência e até os movimentos mais simples exigiam um pouco mais de paciência. Mesmo assim, Anny continuava sendo Anny: determinada, teimosa e incapaz de ficar parada por muito tempo.Pela manhã encontrei minha esposa se arrumando para sair. Ela caminhava devagar pelo quarto, escolhendo o que vestir, enquanto uma das mãos permanecia apoiada na barriga. Só de observá-la, já conseguia sentir aquela mistura de ansiedade e preocupação que vinha me acompanhando havia semanas.— Você vai mesmo sair?Anny olhou para mim pelo espelho.— Vou a uma reunião e depois volto para casa.Aproximei-me e coloquei as mãos sobre os ombros dela.— Anny, você dever







