MasukRafael Barcellos
Abri os olhos e vi o horário no relógio, não acredito que ainda são três horas da manhã, soltei um longo suspiro e fechei os olhos mais sem sucesso. Não consigo dormir com a frequência que as outras pessoas dormem, duas ou três horas de sono são o suficiente para mim. Meu psiquiatra já me receitou diversos medicamentos, mas nenhum obteve sucesso.
Fechei os olhos e tornei a abri-los, então resolvi ir para o escritório e adiantar alguns contratos que precisavam do meu aval. Quando dei por mim já passavam das cinco da manhã, fechei o notebook e fui me arrumar para mais um dia de trabalho.
Enquanto me arrumava aquele garotinho do dia anterior me veio à mente, aquele menino era muito parecido comigo na infância e por um momento me perguntei se algum dia minha própria prole se parecia comigo. Não sei por que isso me veio à mente, embora eu sofra uma pressão familiar enorme para me relacionar com alguém e ter filhos, não sinto que tenho essa necessidade, minha maior necessidade era fazer o grupo Barcellos crescer e consolidar o meu lugar como chefe da família.
Desci e a mesa do café já estava posta, senhora Cecília sabe como gosto que as coisas sejam realizadas e parece que ela acertou em cheio na contratação da nova cozinheira. Tomei meu café e ao sair Glauber já me esperava em frente ao carro.
— Bom dia, senhor Barcellos! — Ele disse já abrindo a porta.
— Bom dia, Glauber! Vamos direto para empresa. — Ele assentiu e partimos.
Durante o trajeto Glauber ligou o som e colocou música clássica, os acordes do piano e do violino me deixavam mais calmos. Todos os meus funcionários sabem das minhas preferências e faço questão de manter ao meu redor somente os que conseguem cumprir as minhas exigências, não gosto quando me tiram da minha rotina.
Observei a cidade pela janela do carro enquanto avançávamos pelas ruas ainda meio vazias. Pessoas começavam a surgir apressadas, carregando suas próprias responsabilidades, suas próprias preocupações.
Por um breve momento, me peguei pensando em como a vida daquelas pessoas parecia… simples.
Sem reuniões milionárias.
Sem decisões que afetavam centenas de funcionários.
Sem o peso constante de manter um império de pé, mas logo descartei o pensamento.
Não fui criado para uma vida simples.
Desde muito cedo, meu pai deixou claro qual era o meu papel e eu cumpri cada etapa com precisão. Estudei nos melhores colégios, fiz cursos no exterior, aprendi a negociar antes mesmo de aprender a confiar nas pessoas.
Confiança, inclusive, era algo que eu não distribuía com facilidade.
Talvez por isso relacionamentos nunca tenham sido prioridade ou talvez… simplesmente nunca tenha encontrado alguém que despertasse esse tipo de interesse.
A imagem do garoto voltou à minha mente novamente.
O jeito como ele falava.
A forma como se expressava.
A naturalidade.
Aquilo era raro.
A mãe daquela criança o criou muito bem, até lembrei da minha infância, minha mãe também sempre me educou muito bem. Apesar de toda a cobrança que me cercava eu me sentia amado por ela e pelo meu pai também.
Franzi levemente o cenho, incomodado com a insistência daquele pensamentos.
Era apenas uma criança qualquer.
Nada além disso.
Assim que chegamos na empresa, Glauber abriu a porta e ao entrar na empresa meus funcionários me cumprimentavam e eu apenas respondia com um balançar de cabeça, alguns tinham medo de mim, outros me achavam cruel, mas se eu queria me consolidar e garantir que meu império crescesse precisava comandar com “mãos de ferro”, coisa que muitos deles não iriam entender.
Ao passar pela mesa de Roger, vi que ele conversava alegremente com uma menina de outro setor e quando me viram a mesma sumiu sobrando apenas Roger que estava sem jeito.
— Bom dia, senhor Barcellos! — Roger disse abaixando a cabeça.
— O que eu já disse sobre conversas paralelas no horário de trabalho? — Roger apenas se desculpou e pegou a agenda e começou a me atualizar a respeito dos meus compromissos.
Quando ele terminou pedi que se retirasse e iniciei meus trabalhos, o investidor que teve o problema com a queda da filha no brinquedo da escola me ligou para saber se tomei as devidas providências e respondi apenas que sim.
Embora ele tivesse a sua família, mantinha uma família secundária em um lugar inferior, nunca entendi o motivo dos homens quererem manter duas famílias, o lema na minha família é que casamento seja por amor ou por conveniência era para a vida toda. Meus avós foram casados por anos e mesmo após o falecimento da minha avó meu avô não quis se relacionar novamente, meus pais também são casados há anos e é por isso que penso muito nessas questões, pois se for para me casar tem que ser com alguém que eu saiba que conseguirei pelo menos manter as aparências perante a sociedade.
Não sei por que nesses dois últimos dias comecei a pensar em relacionamentos e em filhos, segundo meu pai, chega uma hora na vida de um homem em que ele precisa ter uma família para chamar de sua, o que não era meu caso, já que eu não tinha essa vontade, pelo menos por agora.
Balancei a cabeça e comecei a trabalhar, estava completamente imerso em meus afazeres quando ouvi batidas na porta.
— Pode entrar! — digo e Roger entra.
— Desculpe o incômodo senhor Barcellos, senhor Belício está lá fora e deseja falar com o senhor.
Retirei meus óculos e massageei minhas têmporas, sempre que eu recebia a visita dele não era uma coisa boa. O que será que o velhote quer dessa vez? Bom só conversando com ele para descobrir.
— Pode pedir para ele entrar, por favor.
Segundos depois ele entrou e sorriu para mim.
— Rafa, meu querido! — Ele continuava sorrindo e sentou-se à minha frente.
— Diga-me o que queres?
ANNY SOPHIA ROSA MARTINSNaquele ano, as notícias que chegaram até nossa família foram, sem dúvida, as melhores que poderíamos receber.Depois do nascimento de Riot Rose, nossa casa nunca mais foi a mesma. Não apenas porque agora tínhamos mais um bebê para encher nossos dias de choros, fraldas e noites mal dormidas, mas porque, em pouco tempo, nossa família cresceu de uma maneira que ninguém poderia ter imaginado.Um mês depois do nascimento do nosso pequeno, chegou a vez de Enzo e Helena conhecerem novamente a emoção de ter um bebê nos braços.A pequena Anna Rafaela nasceu na madrugada de uma quarta-feira chuvosa.Ainda me lembro da ligação de Enzo. A voz dele estava completamente diferente, misturando nervosismo, felicidade e aquela emoção que ele tentava esconder desde que descobriu que seria pai pela primeira vez.Quando ouvi o choro da minha neta pelo telefone, meus olhos se encheram de lágrimas.Anna Rafaela chegou ao mundo cercada de amor e, desde o primeiro instante, conquisto
ANNY SOPHIA ROSA MARTINSDepois de tudo o que havia acontecido, finalmente estava acomodada no quarto, tentando convencer meu corpo de que era permitido descansar. O cansaço pesava em cada parte de mim, mas, ainda assim, meus olhos não conseguiam se afastar do pequeno berço ao lado da cama.Nosso bebê dormia tranquilamente.Fiquei alguns segundos apenas observando aquele rostinho minúsculo, as mãozinhas fechadas e o peito subindo e descendo devagar. Ainda parecia impossível acreditar que, naquela mesma manhã, havia saído de casa pensando em uma simples reunião de trabalho e, algumas horas depois, estava ali, com mais um filho nos braços.Sorri sozinha.Rafael havia saído por alguns minutos para avisar que eu já estava acomodada e permitir que Enzo, Azaléia e Lucas entrassem. Não demorou muito para ouvir a porta se abrir.— Posso entrar?Reconheci a voz de Rafael imediatamente.— Pode.Ele entrou primeiro, seguido por Enzo, Azaléia e Lucas. Os três estavam com expressões completamente
ANNY SOPHIA ROSA MARTINSAs horas seguintes passaram de uma maneira completamente diferente do que havia imaginado. Ainda parecia estranho estar naquela cama de hospital depois de ter saído de casa acreditando que teria apenas mais uma reunião de trabalho. Agora, cada contração lembrava que nosso bebê havia decidido que não esperaria mais. A equipe estava ao meu redor, acompanhando tudo com atenção, enquanto tentava respirar da maneira que me orientavam.— Respira devagar, Anny.Assenti, apertando os lençóis.A contração veio novamente, mais forte, fazendo meu corpo inteiro ficar tenso. Fechei os olhos e tentei me concentrar na respiração, mas não era simples. A dor aumentava e diminuía em ondas, deixando alguns segundos de alívio entre uma e outra.— Rafael...Meu marido que finalmente teve autorização para entrar na sala de parto segurou minha mão imediatamente.— Estou aqui.Apertei seus dedos.— Está doendo.Ele aproximou o rosto do meu.— Eu sei, meu amor. Estou aqui com você.—
RAFAEL BARCELLOSEnquanto ia para o hospital, peguei meu celular e liguei para os nossos filhos. Liguei para Enzo primeiro. — Pai, aconteceu alguma coisa? — Ele perguntou por que nunca ligo naquele horário. — Filho, sua mãe entrou em trabalho de parto.Do outro lado da linha, houve alguns segundos de silêncio.— Como assim?— O bebê decidiu que está na hora de nascer.— Pai, você está falando sério?— Muito sério.— Jajá chego lá no hospital. Ele disse e desliguei, em seguida liguei para Azaléia que demorou um pouco mais a atender. — O que aconteceu, pai? — Ela pergu.rou sonolenta. — O bebê vai nascer. — Disse. — O quê? — Azaléia gritou. — Pai, ela está bem?— Está. Sua mãe está bem. Só começou o trabalho de parto e estou indo para o hospital.— Vou ligar para Lucas e em breve chego lá. — Não precisa correr, você também está grávida. — Pai, é o meu irmão que está nascendo!— Ou irmã. — Respondi. — Jajá chegamos lá. Antes que pudesse responder, a ligação terminou.Balancei
ANNY SOPHIA ROSA MARTINSMinha manhã começou como tantas outras, mas havia uma diferença impossível de ignorar: minha barriga estava enorme e qualquer movimento parecia exigir o dobro de esforço. Os últimos meses tinham passado rápido demais e, embora todos ao meu redor insistissem que eu precisava descansar, ainda existiam algumas responsabilidades que não conseguia simplesmente abandonar.Principalmente aquela reunião.Assim que entrei na empresa, minha assistente veio ao meu encontro carregando alguns documentos e me lançou aquele olhar de quem já estava preparando um sermão.— Dona Anny, a senhora não deveria estar aqui.Parei no meio do corredor.— Bom dia para você também.Ela suspirou.— Bom dia. Mas continuo falando sério. Sua gravidez está muito avançada.Passei a mão pela barriga.— Eu sei.— Então deveria estar em casa.— Tenho uma reunião importante.— Que poderia ser feita por videoconferência.— Poderia.Ela ergueu uma sobrancelha.— Então?— Então que decidi vir pessoal
RAFAEL BARCELLOSAlguns meses haviam passado desde os últimos acontecimentos, e a nossa família parecia ter entrado novamente naquela fase em que tudo acontecia ao mesmo tempo. A gravidez de Anny avançava rapidamente, e agora faltava muito pouco para conhecermos o novo membro da família. A barriga estava enorme, os pés continuavam inchando com frequência e até os movimentos mais simples exigiam um pouco mais de paciência. Mesmo assim, Anny continuava sendo Anny: determinada, teimosa e incapaz de ficar parada por muito tempo.Pela manhã encontrei minha esposa se arrumando para sair. Ela caminhava devagar pelo quarto, escolhendo o que vestir, enquanto uma das mãos permanecia apoiada na barriga. Só de observá-la, já conseguia sentir aquela mistura de ansiedade e preocupação que vinha me acompanhando havia semanas.— Você vai mesmo sair?Anny olhou para mim pelo espelho.— Vou a uma reunião e depois volto para casa.Aproximei-me e coloquei as mãos sobre os ombros dela.— Anny, você dever







