LOGIN— Amiga, o que houve? — Juliana perguntou assim que viu minha cara.
— Meu filho está passando mal. Amiga, consegue me cobrir?
— Claro que sim! Você me cobre tantas vezes, vai lá ver o seu filhote. Eu dou conta de tudo e, se a Priscila aparecer novamente, o que duvido muito dou um jeito.
Peguei minha bolsa e fui para a escola. Quando cheguei lá, meu filho estava deitado no sofá da direção com a mão na barriga.
— Filho, onde está doendo?
Apalpei sua barriguinha até ele reclamar. Agradeci à direção e peguei meu filho no colo. Estava prestes a chamar um Uber quando Bernardo surgiu.
— Annyso! O que aconteceu com o nosso pequeno? — Bernardo era meu amigo de infância, nós éramos os exploradores do nosso bairro.
— Enzo está com dores na barriga, vou levá-lo ao hospital agora.
— Então eu levo vocês.
Ele abriu a porta do carro, coloquei Enzo no banco de trás e depois entrei.
O trajeto até o hospital foi tranquilo, pois o trânsito estava ameno naquele horário, mas o mesmo não podia ser dito do hospital, que estava completamente cheio.
Fiquei esperando por duas horas, até que finalmente Enzo foi atendido. Depois dos medicamentos, saímos da sala, e ele já parecia bem melhor.
Meu filho sempre tinha essas dores na barriga com frequência, mas geralmente era quando ficava nervoso. Então resolvi perguntar.
— Filho, por que você estava nervoso? — perguntei, alisando seus cabelos.
— O Matheus me chamou de filho de chocadeira e disse que eu não tenho pai. — Ele fez uma pausa, os olhos marejados. — Então eu fiquei muito bravo e briguei com ele.
Aquilo me atravessou como uma faca.
Meu coração se apertou de um jeito que quase me tirou o ar. Eu sabia que esse momento chegaria, mas nunca estamos realmente preparados para ver nossos filhos sentindo esse tipo de dor.
Puxei ele para mais perto, abraçando com cuidado.
— Filho… olha pra mamãe.
Ele levantou o olhar, inseguro.
— Você não é menos que ninguém por não ter seu pai aqui, tá bom? Você é amado, muito amado. Pela mamãe, pelos seus avós… e isso é o que importa.
— Mas… ele não quis ficar com a gente,né?
Engoli seco.
— Tem coisas que os adultos fazem que não têm nada a ver com você. Não foi culpa sua. Nunca foi.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo cada palavra.
— Então eu posso ficar bravo?
Soltei uma leve risada triste.
— Pode… mas sem bater em ninguém, combinado?
Ele assentiu, ainda meio cabisbaixo, mas parecia um pouco mais leve.
— Filho, você desculpa a mamãe?
— Te desculpar por quê? Você é a melhor mãe do mundo todinho. — Ele me abraçou, e ter o amor do meu filho era a minha maior recompensa.
Bernardo nos chamou para nos levar para casa. Estava conversando animadamente com meu amigo quando, de repente, um carro perdeu o controle e acabou batendo no nosso. Só lembro de proteger a cabeça do meu filho antes do impacto.
Quando abri os olhos, estava em uma cama de hospital e rapidamente perguntei pelo meu filho, mas fiquei tranquila ao saber que ele estava na ala da pediatria e estava bem.
Já eu estava com uma escoriação no rosto e o braço direito quebrado. Bernardo apareceu no meu quarto mancando e pediu desculpa.
— Desculpa, Annyso! Não protegi você e o Enzo.
— Você não precisa se desculpar. Enzo e eu estamos bem.
Ele sorriu e, antes que pudesse falar alguma coisa, meu pai entrou com Enzo ao seu lado.
— Mamãe… mamãe… você está bem? — meu filho perguntou, subindo na minha cama. Ele olhou para o meu rosto e alisou. — Dói, mamãe?
— Um pouquinho meu amor, mas vai passar.
— Filha! Está sentindo alguma dor? — meu pai perguntou, me analisando dos pés à cabeça.
— Estou bem, papai. Não precisa se preocupar comigo. E você, filho? Está sentindo alguma dor?
Meu pequeno balançou a cabeça negativamente.
— Não, porque a mamãe me protegeu como sempre. Quando eu ficar grandão, vou proteger a mamãe.
Estávamos sorrindo um para o outro quando um idoso entrou no meu quarto. Ele olhou para mim e depois fixou o olhar no meu filho.
— Esse menino é…?
— Meu filho — respondi. — E o senhor é? O que faz aqui no meu quarto?
Ele continuou olhando meu filho por alguns segundos antes de balançar a cabeça e se desculpar.
— Perdoe-me. Descuido meu. Me chamo Belício… e meu motorista foi o responsável pelo acidente. Me perdoe. Vou pagar todos os custos pelo tratamento e reabilitação de vocês.
— Obrigada, senhor Belício.
Ele estava prestes a dizer algo quando dois homens de preto entraram no quarto e, logo em seguida, entrou o homem que vi dias atrás na escola do meu filho.
O homem de cinco anos atrás.
Ele estava ali, parado na minha frente.
Ele não se lembrava de mim,mas eu lembrava dele. Mesmo estando completamente bêbada naquela época, aquele olhar nunca saiu da minha memória.
— Vovô, te procurei por todo o hospital. O senhor está bem?
— Ainda não morri, seu moleque.
Os dois começaram a conversar, nos ignorando completamente.
— Com licença… desculpe atrapalhar a reunião de família feliz, mas eu preciso descansar, tenho trabalho amanhã.
Os dois me encararam, até que o homem de terno olhou para o meu filho.
— Amigo! — Enzo disse animado.
— Oi, pequeno. Você está bem? — ele perguntou, se abaixando para tocar sua cabeça.
— Eu tô bem sim, amigo. Minha mamãe que está machucada. Tadinha… quebrou o braço e machucou o rosto.
O homem se aproximou de mim e analisou meu rosto, me deixando completamente sem jeito.
— Sou Rafael Barcellos. Vou cuidar da compensação em nome do meu avô. Fique tranquila, você não será prejudicada.
Então nossos olhos se encontraram mais uma vez e naquele instante, tudo voltou.
Aquela noite.
Aquele olhar.
E a sensação de que aquilo estava longe de ser apenas uma coincidência.
Dei de ombros. — Não sei explicar direito. Talvez porque parecesse antigo, delicado e tivesse uma história. E você é exatamente assim. Ela sorriu. — Isso foi bonito. — Não se acostume. Ela riu enquanto retirava o colar da caixa. — Você mandou polir? — Sim. Pedi para uma pessoa especializada cuidar dele. Queria que estivesse bonito antes de entregar. Azaleia passou os dedos pelo pingente. — É lindo. — É o primeiro presente para o seu casamento. Ela me olhou novamente. — Meu Deus... Antes que eu pudesse reagir, minha irmã levantou-se e me abraçou. Com força. Tanta força que quase perdi o equilíbrio. — Azaleia! Ela não soltou. — Me solta! — Não. — Está esmagando meus pulmões. — Aguenta. — Helena! Ela começou a rir. — Você é impossível. — E você está me sufocando. Finalmente ela me soltou. Azaleia ficou diante de mim com os olhos marejados. — Obrigada. — Não precisa agradecer. — Preciso, sim. Ela segurou o colar com cuidado. — Isso é muito especial para mim
Enzo Rosa Barcellos Bati duas vezes na porta do quarto de Azaleia e esperei alguns segundos antes de ouvir sua voz do outro lado.— Pode entrar.Abri a porta devagar e coloquei apenas a cabeça para dentro.Azaleia estava sentada diante da penteadeira, organizando alguns papéis que, considerando a quantidade de anotações espalhadas sobre a mesa, provavelmente tinham alguma relação com uma de suas pesquisas. Minha irmã tinha essa mania. Conseguia transformar qualquer superfície livre em uma espécie de centro de estudos, e eu já havia desistido de tentar entender como alguém conseguia ler tantos livros ao mesmo tempo sem enlouquecer.Ela levantou os olhos quando percebeu minha presença.— Você ainda está aqui?Entrei no quarto e fechei a porta atrás de mim.— Essa foi uma recepção bastante carinhosa.Ela sorriu.— Não foi isso que quis dizer. Pensei que você e Helena já tivessem ido embora.— Nós também pensamos que iríamos.— Então por que ainda estão aqui?Aproximei-me da cama e sente
Lucas olhou para mim e seu sorriso foi imediato.— Acho que vai ficar lindo.Meu pai pareceu aliviado.— Pelo menos minha filhinha encontrou alguém que entende a sua cabeça.Lucas continuou:— Se é isso que a Azaleia quer, eu apoio.Enzo arregalou os olhos.— Você está ouvindo isso, pai?Meu pai franziu a testa.— O quê?— O homem nem casou ainda e já está dominado.Lucas riu.— Dominado?— Completamente.Helena olhou para o marido.— Não dê ouvidos ao seu cunhado.— Estou apenas tentando alertá-lo — Enzo respondeu.— Alertar sobre o quê?— Sobre o futuro.Lucas olhou para mim.— Se esse é o futuro, estou tranquilo.Sorri, pois era exatamente por isso que eu queria me casar com ele.Lucas não precisava entender todas as minhas ideias imediatamente. Não precisava gostar de cada detalhe. Bastava respeitar aquilo que fazia sentido para mim.Minha mãe percebeu minha expressão.— Você está feliz, não está?— Muito.— Então faça.Meu pai olhou para ela.— Você vai apoiar?— Claro.— Mesmo c
Azaléia Rosa Barcellos Existe uma diferença muito grande entre ter uma ideia e contar essa ideia para a minha família.A ideia, quando permanece dentro da nossa cabeça, costuma parecer perfeitamente razoável. Ela é organizada, bonita e, principalmente, faz todo sentido.O problema começa quando precisamos colocá-la em voz alta diante de pessoas que nos conhecem desde sempre.No meu caso, o problema se chamava Enzo Rosa Barcellos.Meu irmão tinha uma habilidade impressionante para transformar qualquer pensamento inocente em motivo para piada. Se eu dissesse que queria comprar flores para o casamento, ele perguntaria se eu pretendia abrir uma floricultura. Se falasse que queria escolher uma música especial para a entrada, provavelmente diria que eu estava produzindo um filme.Por isso, naquela tarde, enquanto todos estavam reunidos na sala da casa dos meus pais para conversarmos sobre meu casamento com Lucas, eu já sabia que precisava me preparar psicologicamente.Lucas estava sentado
Passei delicadamente a mão pelo rosto e sorri.— Não estou chorando.Ele estreitou os olhos.— Está sim.Rafael soltou uma risada.— Seu avô também já percebeu que você não acredita em qualquer coisa.— Eu sei.— Convencido.Belício deu de ombros.— Aprendi com vocês.Balancei a cabeça, rindo.Ele se aproximou e segurou minha mão.— Vovó, quando eu crescer, vou cuidar de vocês.Aquelas palavras me atingiram de uma maneira inesperada.Abaixei-me um pouco para ficar mais próxima dele.— Não precisa cuidar de nós, meu amor. Só precisa cuidar de você e ser feliz.— Mas eu quero cuidar.Olhei para Rafael.Ele também estava emocionado.— Então faça uma coisa — falei.— O quê?— Nunca deixe de sonhar.Belício pareceu pensar por alguns segundos.— Mesmo quando for difícil?— Principalmente quando for difícil.Ele sorriu.— Então vou sonhar grande.— Faça isso.Rafael passou a mão pelos cabelos do neto.— E lembre-se de que sonhos grandes também exigem muito trabalho.— Eu sei.— Sabe mesmo?—
Durante anos, acreditei que felicidade significava alcançar determinado objetivo, conquistar alguma coisa ou finalmente deixar para trás os problemas do passado. Hoje compreendo que estava enganada. Felicidade é olhar para uma mesa cheia e perceber que aquelas pessoas estão ali porque querem estar. É ouvir os netos rindo pela casa, ter Rafael ao meu lado depois de tantos anos e acompanhar nossos filhos construindo as próprias vidas sem precisar escolher entre sobreviver e sonhar. São esses momentos aparentemente simples que, com o passar do tempo, acabam se tornando as lembranças mais preciosas.Rafael passou o braço ao redor dos meus ombros, aproximando-me ainda mais dele.Belício veio correndo outra vez.— Vovô!— O que foi agora?— Quando eu for administrador, posso trabalhar na sua empresa?Rafael sorriu.— Pode.— Mesmo se eu não souber nada?— Você vai aprender.— Com o senhor?— Comigo.Belício abriu um sorriso enorme, como se acabasse de receber a confirmação mais importante d







