LOGINDemorei alguns segundos a ganhar coragem para olhar discretamente para o lado. Não queria parecer uma adolescente impressionável, apesar de estar a sentir exatamente isso por dentro. Todo o meu corpo, desde o pescoço até à ponta dos pés nos saltos médios, estava em alerta máximo, uma reação que não sentia há anos, talvez desde a faculdade.
Primeiro vi a manga da camisa. Escura, bem cortada, com o tecido assentando de forma perfeita no antebraço moreno. Não era uma camisa qualquer; era daquelas que não enrugam, que exalam um cuidado e um investimento que gritavam “sucesso”. As mãos grandes, os dedos compridos e fortes, pousados com naturalidade sobre o balcão. Um relógio no pulso, elegante, daqueles que não precisam de logotipo à mostra para se perceber que são caros, mas cujo brilho discreto do metal era suficiente para me dizer que ele era de um mundo que eu só visitava a trabalho. Depois, lentamente, deixei o olhar subir. O queixo era forte, duro, a barba bem aparada desenhava-lhe o rosto, dando um ar de homem mais do que de rapaz. O cabelo escuro estava penteado de uma forma que parecia descuidada, mas qualquer mulher minimamente atenta reconheceria o esforço escondido por trás daquele “despenteado estratégico”. Era o cabelo de alguém que podia pagar para que os detalhes funcionassem em seu favor. E então cheguei aos olhos. Olhos verdes. Não um verde claro, artificial, mas um verde profundo, com pequenos pontos mais claros, como se tivessem capturado pedaços de luz da cidade e os tivessem guardado ali. Eram olhos que observavam, avaliavam, e, no momento em que os nossos se cruzaram, senti um arrepio subtil percorrer-me a espinha. Eram olhos que pareciam ler o que eu tentava esconder. Ele não desviou o olhar de imediato. Manteve-o em mim por alguns segundos, longos demais para serem casuais, longos o suficiente para o meu coração começar a bater contra as costelas numa cadência errada, e depois deixou escapar um sorriso curto, de canto. — Noite longa? — perguntou. A voz dele era baixa, rouca na medida certa. Tinha aquela tonalidade que parecia vibrar mais do que simplesmente soar. Era uma voz de comando, mas usada naquele momento para me convidar a entrar numa conversa. Eu podia ter respondido com algo suave e elegante, algo que uma designer criativa como eu diria, mas o vinho branco tinha dissolvido o pouco filtro social que ainda me restava. — Às vezes tenho a sensação que a minha vida inteira é uma noite longa — respondi, dando um gole no copo, tentando disfarçar a minha vulnerabilidade com sarcasmo. Ele riu, um riso curto mas genuíno, que o fez inclinar levemente a cabeça para trás. — Isso parece-me grave — disse, pousando o copo de cristal na bancada com um click suave. — Mas também honesto. Encolhi os ombros. — A minha melhor amiga deixou-me plantada. O filho dela caiu do sofá. Eu podia ter ficado em casa, limpo o eyeliner, que tanto trabalho meu deu, e vestido o meu pijama, mas… não tive coragem de admitir a derrota ao espelho. Ele voltou a sorrir, como se gostasse da resposta. Como se eu lhe tivesse dado um código de acesso. — Então vieste — afirmou, não perguntou. Havia aprovação no seu tom. Ele apreciava a teimosia. — Vim. — Suspirei, sentindo-me subitamente confortável para lhe contar isto. — E tu? Vieste sozinho ou abandonaste alguém por aí? Ele desviou o olhar por um segundo, pousando-o na garrafa que o barman abria à frente dele, um Single Malt com um rótulo que parecia antigo e proibitivo. — Digamos que foi um dia… saturado. Precisava de respirar. Saturado. Não era um termo de cansaço, mas de excesso. Como se o seu dia tivesse ultrapassado a capacidade de absorção, fosse ela de trabalho, de emoção, ou de responsabilidade. Ele pediu uma bebida cujo nome eu não apanhei. soava a qualquer coisa com whisky. Eu não deveria estar a analisar tanto um desconhecido. Mas era quase impossível não o fazer. Havia algo nele que misturava cansaço com controlo. A forma como se sentava, a pose dos ombros, a ausência de movimento desnecessário. Como mexia ligeiramente os ombros para aliviar alguma tensão invisível antes de levar a mão ao copo. A forma como passava a língua pelo lábio inferior antes de responder, um tique subtil que mostrava que ele estava a medir as palavras. Era um homem habituado a estar no comando. Mas, naquela noite, parecia querer ser apenas mais um corpo encostado ao balcão, a olhar sobre Lisboa e a fingir que não era nada de importante. — E funcionou? — perguntei, sem pensar, quando o vi levar o primeiro gole à boca. — Respiraste? Ele pousou o copo devagar, o gesto lento, olhou-me de lado e arqueou uma sobrancelha. — A pergunta é: estarei a respirar melhor agora? O comentário atingiu-me com a subtilidade de um murro suave no estômago. A resposta era óbvia. Sim. Eu estava a respirar de forma diferente agora. O meu ar era mais denso. Senti o rosto aquecer, e agradeci mentalmente às luzes quentes do rooftop por provavelmente disfarçarem o rubor nas minhas bochechas. — Depende — respondi. — Costumas respirar melhor com estranhas que foram abandonadas pelas amigas e que estão a beber já o terceiro copo? Ele inclinou-se ligeiramente na minha direção, sem invadir o meu espaço, mas aproximando o suficiente para eu sentir o cheiro dele. Aquele aroma amadeirado, misturado com qualquer coisa cítrica da colónia, envolveu-me como um abraço que ainda não tinha acontecido. — Nem sempre — disse, com a voz ainda mais baixa, um segredo só para mim. — Mas tenho o pressentimento que hoje é uma exceção. Senti um sorriso formar-se nos meus lábios, quase contra a minha vontade. Ele tinha a capacidade de me fazer sentir única no meio da multidão. — Devo pelo menos saber o nome da pessoa que decidiu testar algumas teorias numa sexta-feira à noite? — perguntei, no tom de brincadeira que me fazia sentir segura. Ele ficou em silêncio por um segundo, como se tivesse de escolher uma resposta entre várias possíveis. O jogo de sedução dele era lento, mas eficaz. — Enzo — disse, por fim. — Podes chamar-me Enzo. O nome assentava-lhe bem. Tinha um som firme, elegante, e ao mesmo tempo próximo. Fiquei com ele a ecoar na cabeça: Enzo. Senti vontade de repeti-lo em voz alta, só para testar o sabor nos meus lábios. — Lya — apresentei-me. — Com “y”. Culpa da minha mãe, que achou que letras diferentes faziam pessoas especiais. — E fazem. — O olhar dele desceu aos meus lábios por um segundo antes de voltar aos meus olhos azuis, e eu senti um arrepio elétrico. — Enzo e Lya. Ele não fez nenhum comentário sobre como o nome soava, mas a forma como o disse foi suficiente. O meu coração deu uma batida ligeiramente mais forte. Disse a mim mesma que era o álcool. Eu sabia que não era. Ao desenvolvermos a conversa, não foi aquela troca superficial de “O que fazes?”, “Onde moras?”, “Gostas de viajar?”. Curiosamente, evitámos essas perguntas óbvias. Parecia que ambos estávamos a evitar sermos normais. Falámos de coisas pequenas e, ao mesmo tempo, estranhamente íntimas. Eu disse-lhe que achava rooftops um bocadinho sobrevalorizados, mas que, naquela noite, a vista o acalmava. Ele respondeu que também preferia sítios mais discretos, mas que, às vezes, estar no topo ajudava a lembrar que os problemas pareciam menores vistos de longe. — Mas depois voltamos ao rés-do-chão e continua tudo igual — observei. — Continua — concordou ele. — Mas, por uns minutos, enganamo-nos bem. Eu ria mais do que o habitual. Percebia-me a mexer no cabelo com mais frequência, a passar os dedos pelo pé do copo, a morder o lábio quando ele dizia algo que me prendia mais do que eu queria admitir. De perto, conseguia ver detalhes que não passavam despercebidos. A forma como um músculo saltava levemente no maxilar quando ele estava a pensar. Uma pequena cicatriz junto à sobrancelha esquerda, quase invisível. O verde dos olhos a mudar de tom conforme a luz batia. O meu interior artístico estava a catalogar cada traço dele. Houve um momento em que o vento soprou mais forte e eu estremeci sem querer. O vestido deixava-me com os ombros nus, e o ar frio lembrou-me que a noite avançava e que a temperatura descia. Antes que eu pudesse reagir, senti algo pousar sobre os meus ombros: o casaco dele. Era quente, macio e pesado. Um luxo inegável. Olhei para ele, surpresa. — Não precisas de fazer isto — murmurei, tentando entregar-lhe a peça de volta. Ele manteve as mãos nos meus ombros por um segundo extra, deslizando o tecido para que me cobrisse completamente. A sua pele não me tocou, mas eu senti a eletricidade da sua proximidade. — Não é favor — respondeu, a voz carregada de uma intensidade que não se encaixava no gesto. — É egoísmo. Não quero que apanhes frio e vás embora. O coração bateu mais depressa outra vez, e eu afundei-me um pouco no tecido quente, sentindo o cheiro dele ainda mais próximo. Aquela frase não era sobre a minha temperatura; era sobre a sua vontade. Ele queria manter-me ali. — E se eu disser que sou uma completa maluca, que tenho uma vida caótica, que às vezes choro a ver filmes de cãezinhos e que posso muito bem ser um desastre ambulante? — tentei brincar, num esforço de recuperar algum controlo, de afastá-lo com a minha imperfeição. — Então vou pedir mais uma bebida — respondeu, tranquilo, sem desviar o olhar dos meus olhos. — Para te continuar a ouvir. Ele tinha essa capacidade irritante de derrubar as minhas pequenas defesas com frases simples e carregadas de intenção. A certa altura, reparei que já não olhava tanto à volta. O rooftop podia estar cheio, a música podia estar mais alta, as pessoas podiam estar a rir e a tirar fotos… mas, para mim, tudo isso se tornara pano de fundo, um ruído distante. Aquele homem moreno de olhos verdes, sentado ao meu lado, concentrado em cada palavra que eu dizia, era, nesse momento, o centro da minha atenção, o meu único foco. Eu não sabia quem ele era. O que fazia. De onde vinha. E, estranhamente, isso sabia-me bem. Pela primeira vez em muito tempo, eu sentia que podia simplesmente ser Lya. Sem dramas, sem clientes, sem cronogramas. Só eu, o meu vestido branco, o meu cabelo louro escuro… e um desconhecido que parecia ver mais do que eu deixava mostrar. Já passava um pouco da uma da manhã quando reparei na hora no telemóvel. — Wow — murmurei. — Perdi completamente a noção do tempo. Ele inclinou-se ligeiramente, aproximando o rosto do meu para conseguir ver o ecrã. Senti a respiração dele perto do meu pescoço e um arrepio percorreu-me o corpo inteiro. — Isso é mau? — perguntou, a voz quase um sussurro. Engoli em seco. — Depende. — Brinquei. — Se amanhã eu me arrepender de não ter ido cedo para casa, vou culpar-te oficialmente. — Aceito a culpa — respondeu, com um semi-sorriso. — Se também aceitares a responsabilidade. O olhar dele desceu devagar do meu rosto até ao meu pescoço, como se estudasse a forma, o traço da clavícula, a forma como o tecido do vestido assentava ali. Senti a pele aquecer, e o ar à minha volta pareceu ganhar outra densidade. Eu podia ter dito que estava na hora de ir. Podia ter pago a conta, agradecido a conversa e ido embora com a sensação meio agridoce de “foi giro enquanto durou”. Mas não disse. Fiquei ali, com o casaco dele nos ombros, o copo na mão, o coração a bater um bocadinho mais depressa do que devia. Olhei para o ecrã do telemóvel outra vez, mas nem vi a hora. O reflexo que vi foi o meu: olhar demasiado atento ao homem sentado ao meu lado, o meu próprio rosto traído pela antecipação. Dei mais um gole no vinho, respirei fundo e decidi que, por uma vez, não ia sair a meio da história. Queria saber até onde é que aquela noite ia, mesmo que o destino fosse, inevitavelmente, o caos.• LOURENZO •Eu sempre achei que o silêncio era uma arma. Usei-o durante anos para intimidar adversários em salas de reuniões assépticas e para esconder as minhas próprias fissuras. Mas o silêncio de Sintra, naquela tarde de final de setembro, era diferente. Era um silêncio vivo, preenchido pelo sussurro das árvores centenárias, pelo canto distante de um pássaro e pelo aroma a musgo e terra húmida que parecia purificar tudo.Estava de pé, no final de um carreiro ladeado por lanternas rústicas e pétalas brancas que se perdiam entre os troncos colossais. As mãos, que nunca tinham tremido ao assinar contratos de milhões com clientes como o Alejandro Vargas, estavam agora entrelaçadas à frente do corpo, os nós dos dedos brancos. A brisa fresca da serra batia-me no rosto, mas eu sentia um calor intenso que não vinha do sol.O Vasco estava a um metro de distância, posicionado como meu padrinho. Trocámos um olhar que dispensava palavras. Durante grande parte das nossas vidas, f
• LYA •A viagem do hospital até ao nosso apartamento foi pautada por um silêncio confortável e uma condução cirúrgica. O Lourenzo, que habitualmente rasgava as ruas de Lisboa com o seu Porsche como se não houvesse amanhã, adotou uma postura focada, suave e imaculada. Ele olhava pelo retrovisor para o ovinho no banco de trás a cada semáforo, não em pânico, mas com a atenção protetora de quem carrega a carga mais valiosa do mundo.Quando finalmente passámos pela porta de carvalho maciço da nossa penthouse, o silêncio que nos recebeu teve um peso diferente.Não havia monitores a apitar, não havia enfermeiras a entrar e a sair, não havia a azáfama da família na sala de espera. Éramos apenas nós os três. E, pela primeira vez em quase um ano, não havia absolutamente nenhuma crise corporativa para resolver.O Lourenzo pousou os sacos no chão do corredor e, com a precisão firme que lhe era característica, destrancou o ovinho onde a Aurora dormia profundamente, alheia à muda
• LOURENZO •Eu sempre me orgulhei do meu controlo. Passei décadas a treinar o meu rosto para não vacilar perante crises financeiras, traições de sócios ou a frieza cortante do meu pai. Mas, naquele momento, enquanto eu guiava o carro pelas ruas de Lisboa, o meu controlo era uma ilusão barata. As minhas mãos, que tinham assinado contratos de milhões sem tremer, estavam agora coladas ao volante, suadas e instáveis.Ao meu lado, a Lya arquejava. Cada vez que ela soltava um gemido abafado, o meu coração batia contra as costelas como um animal encurralado. Eu teria dado toda a minha fortuna, toda a Villar Studio e cada centímetro do império que recuperei, apenas para poder transferir aquela dor para o meu próprio corpo.— Já estamos a chegar, Lya. Aguenta, meu amor — a minha voz saiu estranha, mais aguda do que o normal.Assim que parámos na entrada das urgências, o mundo tornou-se um borrão de luzes fluorescentes e ordens médicas. Tentei manter a postura de comando q
O calor já se fazia sentir em Lisboa, e as portas de vidro da varanda do apartamento do Lourenzo estavam escancaradas, deixando a brisa do rio Tejo ventilar a sala de estar. Eu estava refastelada no fundo do grande sofá de cabedal, com as pernas apoiadas no colo do Lourenzo. A minha barriga de trinta e oito semanas assemelhava-se a um pequeno planeta prestes a entrar em órbita, e a minha paciência para o calor roçava o limite do razoável.Mas o verdadeiro espetáculo daquela tarde de sábado não era a vista sobre o rio. Eram as duas pessoas de pé perto da ilha da cozinha.— Se continuares a olhar para mim com esse ódio todo, Bianca, ainda me convences de que estás perdidamente apaixonada por mim — provocou o Miguel, encostado ao mármore com a sua típica pose de lorde lisboeta relaxado, a segurar um copo de gin tónico. — Há uma linha muito ténue entre a repulsa e a atração fatal, sabias?A Bianca, que estava a cortar fruta para o pequeno Afonso, que via bonecos animados
A luz da primavera de Lisboa invadia o meu novo gabinete no último andar da Villar Studio. Não era o antigo escritório da Alice — recusei-me a herdar qualquer espaço que tivesse a energia daquela mulher. O Lourenzo e o Vasco tinham mandado deitar abaixo duas paredes de uma antiga sala de reuniões subaproveitada para me construírem um estúdio criativo banhado por luz natural, com vista para o rio Tejo e espaço suficiente para espalhar os meus moodboards, os meus tecidos e os meus esboços.Fechei a tampa do meu portátil de design com um suspiro de satisfação, encostando-me à cadeira ergonómica e pousando as mãos na minha barriga de oito meses.O ecrã ainda refletia o fim da videochamada que tinha acabado de ter com o Alejandro Vargas. Nos últimos três meses, a nossa rotina tinha-se estabelecido com uma fluidez perfeita. Eu tinha voltado definitivamente para Lisboa, para o lado do Lourenzo, mas a direção de arte da Magnólia continuava a ser inteiramente minha. Quando era estri
A manhã de dia um de Janeiro nasceu com um sol de inverno frio, mas de uma clareza cortante sobre a cidade de Lisboa. A luz entrava pelas grandes janelas do apartamento do Lourenzo, banhando o quarto num dourado tranquilo que contrastava com a escuridão da noite anterior.Acordei com o cheiro a café acabado de fazer e a lençóis lavados. Estiquei o braço, sentindo o lado do Lourenzo vazio, mas o som abafado da voz dele na sala indicava que ele já estava de pé há algum tempo. Espreguicei-me devagar, sentindo um alívio físico tão profundo que parecia que me tinham tirado um colete de chumbo de cima das costelas. A respiração entrava limpa. Não havia mais segredos, não havia mais medos. O ecrã do meu telemóvel, pousado na mesa de cabeceira, estava inundado de notificações, mensagens de parabéns e alertas de notícias, mas eu não sentia pressa de as ler.Vesti um roupão quente e caminhei descalça até à sala de estar.O Lourenzo estava encostado à ilha da cozinha, de calças de







