LOGINDois meses. Sessenta e um dias. Mil quatrocentas e sessenta e quatro horas.
É ridículo ter estes números contados de cor, como se fossem as coordenadas de um projeto urgente que nunca entreguei, mas o meu cérebro decidiu transformar-se num cronómetro emocional implacável desde aquela manhã no hotel. Desde o momento em que a luz pálida da madrugada filtrou pelas cortinas pesadas, eu virei a cabeça para o lado com um sorriso sonolento nos lábios e… encontrei apenas o vinco frio do lençol de linho. O mundo voltou ao normal, mas eu fiquei presa naquele 10º andar. A agência continuava no seu estado habitual de semi-caos criativo, um ecossistema que eu costumava dominar com facilidade. A Marta, da contabilidade, suspira à secretária como se carregasse todos os pecados fiscais do país nas costas, o Rui circula pelos corredores com o passo apressado de quem está permanentemente atrasado para uma reunião que ainda não foi marcada, os designers discutem a saturação de um tom de azul com um entusiasmo quase religioso, e a impressora agoniza num canto, emitindo ruídos de uma diva decadente que se recusa a trabalhar. Tudo igual. Menos eu. Estou sentada à minha secretária, rodeada de pantones e esquissos, a olhar para um e-mail de um cliente que já devia ter respondido há dez minutos. Mas não consigo passar da primeira frase. O cursor pisca no ecrã branco com o descaramento de quem sabe que eu não estou ali. Piscar tornou-se perigoso. Basta fechar os olhos por dois segundos e a memória vem inteira, como uma maré que não pede licença: o braço dele a envolver a minha cintura com uma possessividade calma, o cheiro quente da pele dele, a vibração da sua voz no meu ombro. E depois… o silêncio. O lado dele da cama vazio. O lençol frio. Aquele arranjo demasiado “arrumado”, como se ele tivesse tentado apagar a própria existência daquela noite. — Estás a olhar para o ecrã como quem contempla o abismo, Lya. — A voz da Marta arrancou-me brutalmente do transe. — Estou a trabalhar, Marta — murmurei, sem desviar os olhos do monitor, tentando focar-me em letras que pareciam borrões sem sentido. — Estás a levitar, isso sim. — Ela inclinou a cabeça, estudando-me com aquele olhar clínico de quem analisa numeros. — Deixa-me adivinhar: isto é burnout, drama existencial ou um encontro noturno que correu tragicamente. Levantei uma sobrancelha, tentando recuperar a minha máscara de designer profissional e imperturbável. — Marta, por favor... — Não me digas nada. — Ela ergueu as mãos em sinal de rendição sarcástica. — Eu sou da contabilidade. Deteto ativos tóxicos a quilómetros. E tu, minha querida, estás com um défice de atenção que nem o FMI resolvia. Revirei os olhos enquanto ela se afastava, mas a verdade é que a insistência dela só me fez recuar até à minha pior decisão pós-noite: o regresso ao hotel. Três dias depois daquela noite, com a minha dignidade pendurada por um fio invisível, decidi enfrentar o lobby impecável do hotel. O cheiro a flores frescas e a música ambiente minimalista pareciam gozar com a minha ansiedade. A rececionista atendeu-me com uma polidez gélida. — Bom dia. Em que posso ajudar? — perguntou ela. Eu deveria ter fugido naquele momento. Deveria ter inventado uma desculpa qualquer e saído a correr por aquelas portas de vidro giratórias. Mas não. — Queria saber se… um hóspede chamado Enzo ainda está hospedado no 10° andar, quarto 1004? Ela começou a digitar no seu computador silencioso, o som das teclas a marcar o ritmo do meu nervosismo. — Pode indicar o apelido? Fechei os olhos por um microssegundo, sentindo o nó na garganta apertar. — Não… não tenho o apelido. Ela manteve o sorriso profissional, mas senti o julgamento silencioso: “Mais uma pateta de uma noite só”. Tentei ainda assim, numa tentativa desesperada de dar corpo a uma sombra: — Ele é alto. Moreno. Olhos verdes. Camisa escura. Daquelas pessoas que… — Parei quando percebi que estava a descrevê-lo como se estivesse a preencher um formulário de uma app de encontros à frente de uma desconhecida. Ela consultou o sistema mais um instante, mas o veredito já estava traçado. — Não temos nenhum hóspede registado com esse nome, e sem apelido não posso fornecer informações por questões de segurança. Foi ali, naquele balcão frio, que a última esperança morreu. Saí dali a sentir-me minúscula. Se calhar, o nome também era uma mentira. Se calhar, o "Enzo" era uma personagem criada para aquela noite, tal como a ideia de que aquilo tinha sido algo mais do que um escape. — Então? Alguma novidade do Fantasma? — Bianca apareceu ao meu lado na agência, interrompendo o meu flashback. Suspirei fundo. A Bianca era a única que sabia de tudo. Da mancha de vinho, da suite, do desaparecimento e da minha humilhação no hotel. — Ele podia ter deixado um bilhete, Bianca. Um “foi bom, mas adeus”. Qualquer coisa. — Podia — concordou ela, apoiando a mão na minha. — Mas homens com aquele calibre de olhos verdes não deixam números de telefone. Eles deixam traumas leves e memórias de alta definição. É o pacote. — Não estou a achar graça nenhuma. — Eu sei. Mas vais sobreviver. Agora recompõe-te, que o Rui está a convocar uma reunião de emergência e ele tem aquela cara de quem acabou de ganhar o Euromilhões. A sala de reuniões ficou cheia em segundos. Sentei-me ao lado da Bianca. O Rui entrou, pousou uma pasta de couro preta e ajeitou os óculos. — Pessoal, tenho novidades importantes — começou ele. — Foi confirmada a parceria com a Villar Studio. O impacto foi imediato. A Villar Studio era o "Tubarão Branco" do mercado. Gigantes. Influentes. O tipo de agência que colocava qualquer pequena empresa na liga principal. — Vamos trabalhar com eles nos próximos seis meses — continuou o Rui. — Precisamos de afinar processos e estar preparados para um nível de exigência muito acima do habitual. Eles vão enviar as instruções de branding nos próximos dias. A reunião prosseguiu com detalhes técnicos, mas eu estava noutro lugar. Villar... o nome soava a poder. Quando todos saíram, o Rui fez-me um sinal. — Lya, ficas um minuto? Bianca lançou-me um olhar de "manda mensagem depois" e saiu. Fiquei sozinha com o meu chefe. Ele fechou a porta e sentou-se à minha frente. — Lya, tu és a nossa melhor mente criativa. Tens uma sensibilidade para o detalhe que eu não encontro em mais ninguém. — Obrigada, Rui. — Por isso mesmo decidi que tu serás o ponto de contacto exclusivo para a Villar Studio. Eles pediram uma cara fixa, alguém que garanta uma comunicação limpa e profissional. Eu acredito que tu és a pessoa certa para liderar este projeto. O meu coração deu um salto. Era a oportunidade da minha vida. — Eu? Tens a certeza? — Absoluta. Vais receber o e-mail com a convocatória para a primeira reunião técnica ainda esta semana. O encontro será nas instalações deles. Ele abriu a porta, dando por encerrada a conversa. Eu saí devagar, como se estivesse a aprender a andar de novo, sentindo o peso da nova missão a equilibrar a leveza da minha incerteza. A adrenalina do trabalho estava finalmente a conseguir soterrar a melancolia dos últimos dois dias. O corredor era o mesmo. Mas nada parecia igual. Quando me sentei na secretária, senti a adrenalina, o pânico e a excitação a misturarem-se numa mistura impossível de domar. O email ainda não tinha chegado. Nada concreto estava marcado. Mas alguma coisa dentro de mim sabia que isto ia mexer com a minha vida de uma forma que eu ainda não conseguia prever. E pela primeira vez em dois meses, o cronómetro parou, dando lugar a uma expectativa que me fazia tremer as mãos.• LOURENZO •Eu sempre achei que o silêncio era uma arma. Usei-o durante anos para intimidar adversários em salas de reuniões assépticas e para esconder as minhas próprias fissuras. Mas o silêncio de Sintra, naquela tarde de final de setembro, era diferente. Era um silêncio vivo, preenchido pelo sussurro das árvores centenárias, pelo canto distante de um pássaro e pelo aroma a musgo e terra húmida que parecia purificar tudo.Estava de pé, no final de um carreiro ladeado por lanternas rústicas e pétalas brancas que se perdiam entre os troncos colossais. As mãos, que nunca tinham tremido ao assinar contratos de milhões com clientes como o Alejandro Vargas, estavam agora entrelaçadas à frente do corpo, os nós dos dedos brancos. A brisa fresca da serra batia-me no rosto, mas eu sentia um calor intenso que não vinha do sol.O Vasco estava a um metro de distância, posicionado como meu padrinho. Trocámos um olhar que dispensava palavras. Durante grande parte das nossas vidas, f
• LYA •A viagem do hospital até ao nosso apartamento foi pautada por um silêncio confortável e uma condução cirúrgica. O Lourenzo, que habitualmente rasgava as ruas de Lisboa com o seu Porsche como se não houvesse amanhã, adotou uma postura focada, suave e imaculada. Ele olhava pelo retrovisor para o ovinho no banco de trás a cada semáforo, não em pânico, mas com a atenção protetora de quem carrega a carga mais valiosa do mundo.Quando finalmente passámos pela porta de carvalho maciço da nossa penthouse, o silêncio que nos recebeu teve um peso diferente.Não havia monitores a apitar, não havia enfermeiras a entrar e a sair, não havia a azáfama da família na sala de espera. Éramos apenas nós os três. E, pela primeira vez em quase um ano, não havia absolutamente nenhuma crise corporativa para resolver.O Lourenzo pousou os sacos no chão do corredor e, com a precisão firme que lhe era característica, destrancou o ovinho onde a Aurora dormia profundamente, alheia à muda
• LOURENZO •Eu sempre me orgulhei do meu controlo. Passei décadas a treinar o meu rosto para não vacilar perante crises financeiras, traições de sócios ou a frieza cortante do meu pai. Mas, naquele momento, enquanto eu guiava o carro pelas ruas de Lisboa, o meu controlo era uma ilusão barata. As minhas mãos, que tinham assinado contratos de milhões sem tremer, estavam agora coladas ao volante, suadas e instáveis.Ao meu lado, a Lya arquejava. Cada vez que ela soltava um gemido abafado, o meu coração batia contra as costelas como um animal encurralado. Eu teria dado toda a minha fortuna, toda a Villar Studio e cada centímetro do império que recuperei, apenas para poder transferir aquela dor para o meu próprio corpo.— Já estamos a chegar, Lya. Aguenta, meu amor — a minha voz saiu estranha, mais aguda do que o normal.Assim que parámos na entrada das urgências, o mundo tornou-se um borrão de luzes fluorescentes e ordens médicas. Tentei manter a postura de comando q
O calor já se fazia sentir em Lisboa, e as portas de vidro da varanda do apartamento do Lourenzo estavam escancaradas, deixando a brisa do rio Tejo ventilar a sala de estar. Eu estava refastelada no fundo do grande sofá de cabedal, com as pernas apoiadas no colo do Lourenzo. A minha barriga de trinta e oito semanas assemelhava-se a um pequeno planeta prestes a entrar em órbita, e a minha paciência para o calor roçava o limite do razoável.Mas o verdadeiro espetáculo daquela tarde de sábado não era a vista sobre o rio. Eram as duas pessoas de pé perto da ilha da cozinha.— Se continuares a olhar para mim com esse ódio todo, Bianca, ainda me convences de que estás perdidamente apaixonada por mim — provocou o Miguel, encostado ao mármore com a sua típica pose de lorde lisboeta relaxado, a segurar um copo de gin tónico. — Há uma linha muito ténue entre a repulsa e a atração fatal, sabias?A Bianca, que estava a cortar fruta para o pequeno Afonso, que via bonecos animados
A luz da primavera de Lisboa invadia o meu novo gabinete no último andar da Villar Studio. Não era o antigo escritório da Alice — recusei-me a herdar qualquer espaço que tivesse a energia daquela mulher. O Lourenzo e o Vasco tinham mandado deitar abaixo duas paredes de uma antiga sala de reuniões subaproveitada para me construírem um estúdio criativo banhado por luz natural, com vista para o rio Tejo e espaço suficiente para espalhar os meus moodboards, os meus tecidos e os meus esboços.Fechei a tampa do meu portátil de design com um suspiro de satisfação, encostando-me à cadeira ergonómica e pousando as mãos na minha barriga de oito meses.O ecrã ainda refletia o fim da videochamada que tinha acabado de ter com o Alejandro Vargas. Nos últimos três meses, a nossa rotina tinha-se estabelecido com uma fluidez perfeita. Eu tinha voltado definitivamente para Lisboa, para o lado do Lourenzo, mas a direção de arte da Magnólia continuava a ser inteiramente minha. Quando era estri
A manhã de dia um de Janeiro nasceu com um sol de inverno frio, mas de uma clareza cortante sobre a cidade de Lisboa. A luz entrava pelas grandes janelas do apartamento do Lourenzo, banhando o quarto num dourado tranquilo que contrastava com a escuridão da noite anterior.Acordei com o cheiro a café acabado de fazer e a lençóis lavados. Estiquei o braço, sentindo o lado do Lourenzo vazio, mas o som abafado da voz dele na sala indicava que ele já estava de pé há algum tempo. Espreguicei-me devagar, sentindo um alívio físico tão profundo que parecia que me tinham tirado um colete de chumbo de cima das costelas. A respiração entrava limpa. Não havia mais segredos, não havia mais medos. O ecrã do meu telemóvel, pousado na mesa de cabeceira, estava inundado de notificações, mensagens de parabéns e alertas de notícias, mas eu não sentia pressa de as ler.Vesti um roupão quente e caminhei descalça até à sala de estar.O Lourenzo estava encostado à ilha da cozinha, de calças de







