LOGINSintra acordou envolta num daqueles nevoeiros que parecem sair do nada. Um véu branco descia lentamente pela serra, cobrindo telhados, varandas e árvores, como se quisesse abraçar tudo e esconder a vila do resto do mundo. Abri a janela e o ar fresco entrou de rompante: húmido, frio, carregado do cheiro a terra molhada e daquele verde infinito tão típico daqui. Normalmente, aquele cheiro acalmava-me. Era o meu sinal de que o mundo estava no sítio certo. Mas naquela manhã, não.
Sintra tem esta coisa curiosa: parece sempre um cenário de conto de fadas… e eu, naquela manhã, sentia-me tudo menos princesa. No máximo, sentia-me uma personagem secundária que andou a tomar decisões questionáveis com homens sem apelido. Tinha a sensação de ter acordado dentro de um daqueles dias que começam com um suspense que eu não pedi. Não era nada concreto, só um pressentimento irritante, como se o mundo soubesse de algo importante e estivesse a preparar-me para isso sem a decência de me avisar. Os meus olhos azuis pareciam ligeiramente mais claros, sinal clássico de noite mal dormida, e era claro que tinha dormido pessimamente. Não por causa de pressões profissionais, mas por causa de… outro tipo de decisões. Ou da ausência delas. Enzo. O nome apareceu na minha mente com um atrevimento irritante. — Não — murmurei ao espelho, como se estivesse a disciplinar uma criança malcomportada. — Hoje não. Escovei o cabelo de forma mecânica, apliquei uma maquilhagem leve e vesti uns jeans escuros com uma blusa creme e um casaco comprido castanho claro. O suficiente para parecer composta, mas não demasiado séria. Ainda era terça-feira, e eu podia ser a adulta imperturbável a partir de amanhã. Saí de casa com passos lentos. O ar frio bateu-me no rosto e arrepiou a pele. Sintra tem esta coisa única: obriga-te a abrandar. As ruas estreitas, os azulejos que contam histórias e o verde que cresce em todos os cantos parecem desenhados para contrariar urgências. Desci a rua que serpenteava até à agência enquanto o nevoeiro começava a dissipar-se devagar. O cheiro a pastelaria quente, a travesseiros e queijadas, invadiu o ar. Aquele cheiro podia acordar qualquer alma, e quase me fez entrar. Quase. Mas continuei. A agência ficava num edifício pequeno, encaixado entre prédios de arquitetura tradicional. Empurrei a porta de vidro e o som do sino anunciou a minha chegada. O interior estava como sempre: mesas brancas, cheiro a café e papéis espalhados com ar de urgência controlada. A Marta já estava instalada, focada no seu ecrã. — Bom dia, Lya — disse ela, sem levantar os olhos. — Bom dia — respondi. Pousei a mala, sentei-me e liguei o computador. Depois de alguns segundos de ronronar digital, o monitor acendeu-se com a típica enxurrada de notificações. E foi aí que vi. Villar Studio – Convocatória para Reunião | Lisboa — Sexta-feira O meu coração falhou um batimento. Depois dois. Abri o email devagar, como se estivesse a descobrir a minha sentença. "Exma. Sra. Bettencourt, Agradecemos a disponibilidade da sua agência para o início da parceria com a Villar Studio. Aguardamos a sua presença para reunião de alinhamento na nossa sede, em Lisboa, na próxima sexta-feira, às 10h00. Participantes: Equipa de Estratégia Villar Studio, CEO Villar Studio, Sra. Bettencourt. Com os melhores cumprimentos, Patrícia Ferreira – Diretora de R.H." “Sra. Bettencourt.” Aquele tratamento formal fez-me endireitar involuntariamente. Sexta-feira. Lisboa. Eu, estaria frente ao CEO de uma empresa que todos na área consideravam inalcançável. Engoli em seco. Não que tivesse medo, mas havia um entusiasmo nervoso no estômago. A Villar Studio era gigante: clientes internacionais, campanhas premiadas e orçamentos de sonho. E eu ia estar ali, a tentar fazer figura de profissional séria, e não a mulher que ainda acordava a pensar em olhos verdes. Relia o email pela terceira vez quando ouvi a porta. Bianca. — Bom diaaaaa! — cantarolou, equilibrando cafés e uma mochila semiaberta. — Tropecei três vezes na rua, mas sobrevivi. — És um desastre — comentei, sorrindo. — Obrigada. — Ela pousou um café na minha mesa. — Então, novidades? Tens cara de quem recebeu um email que faz suar as mãos. Apontei para o monitor. Os olhos dela arregalaram-se. — Ui. Sexta-feira. Lisboa. CEO. Amor, isso é meio passo para o estrelato e três passos para uma úlcera. — Sim, obrigada, era exatamente o que eu precisava ouvir — ironizei. — E vais tu sozinha — continuou ela. — O Rui deve estar a roer-se todo por dentro. Suspirei, sentindo o calor do café nas mãos. — Isto é grande, Bia. Não sei se estou preparada para este nível. — Estás. E pior: és boa. Vais impressioná-los todos. Bianca observou-me por uns segundos, o tom a tornar-se mais sério. — Estás pálida, Lya. Estás nervosa só por causa disto ou há mais alguma coisa? Hesitei. Havia um ruído de fundo que eu não sabia explicar, um pressentimento de que as peças do puzzle estavam a mover-se de forma estranha. — Estou a processar — respondi apenas. — Muito bem — suspirou a Bianca. — Deixo-te processar. Mas se precisares que te lembre do teu valor, estou aqui. Fiquei sozinha de novo com o email aberto. Relia a palavra “sexta-feira” como se fosse um mantra. Documentos, portefólio, roupa, transporte… a minha mente começou a organizar a logística para evitar pensar no vazio que Enzo tinha deixado. Peguei no telemóvel: nenhuma mensagem, menos distrações, convenci-me. Respondi ao email de forma curta e profissional, confirmando a minha presença. Quando carreguei em "enviar", senti que o compromisso estava selado. Não havia como voltar atrás. Ao final da manhã, precisei de ar. Saí da agência e a neblina tinha levantado por completo. O sol filtrava-se entre as árvores, criando padrões no chão. O ar trazia aquele cheiro a “puro verde” de Sintra. Fui caminhando sem pressa, passei pela livraria e pelo gato que dormia na moto do vizinho. Entrei no meu café preferido, pedi um latte e sentei-me junto à janela. De onde estava, conseguia ver a serra. Era o oposto de Lisboa, onde eu estaria em breve numa sala fechada com pessoas poderosas. Respirei fundo. Era “só” uma reunião, mas sentia que era uma porta grande demais para ignorar. Algo dentro de mim estava a mover-se. Não era ansiedade, era a sensação de que a minha vida ia avançar uma casa no tabuleiro. Quando voltei, a tarde voou. O Rui chamou-me duas vezes, nervoso, dizendo que confiava em mim. Passei as últimas horas a organizar tudo. Quando finalmente desliguei o computador, o sol já se punha, tingindo o céu de tons violeta. Caminhei para casa ouvindo o som dos meus passos na calçada. Sintra estava silenciosa. Tive a sensação nítida de que algo estava prestes a acontecer. Não em termos românticos, isso eu tinha trancado numa caixa, mas na minha trajetória. Eu ainda não sabia o que me esperava, mas sabia que sexta-feira ia ser mais do que uma reunião. A serra estava imóvel, a vila tranquila. Mas eu… eu já não estava igual. Sentia aquela mistura rara de medo e excitação, a certeza de estar a chegar a um ponto de viragem, mesmo sem fazer ideia de que viragem era essa.• LOURENZO •Eu sempre achei que o silêncio era uma arma. Usei-o durante anos para intimidar adversários em salas de reuniões assépticas e para esconder as minhas próprias fissuras. Mas o silêncio de Sintra, naquela tarde de final de setembro, era diferente. Era um silêncio vivo, preenchido pelo sussurro das árvores centenárias, pelo canto distante de um pássaro e pelo aroma a musgo e terra húmida que parecia purificar tudo.Estava de pé, no final de um carreiro ladeado por lanternas rústicas e pétalas brancas que se perdiam entre os troncos colossais. As mãos, que nunca tinham tremido ao assinar contratos de milhões com clientes como o Alejandro Vargas, estavam agora entrelaçadas à frente do corpo, os nós dos dedos brancos. A brisa fresca da serra batia-me no rosto, mas eu sentia um calor intenso que não vinha do sol.O Vasco estava a um metro de distância, posicionado como meu padrinho. Trocámos um olhar que dispensava palavras. Durante grande parte das nossas vidas, f
• LYA •A viagem do hospital até ao nosso apartamento foi pautada por um silêncio confortável e uma condução cirúrgica. O Lourenzo, que habitualmente rasgava as ruas de Lisboa com o seu Porsche como se não houvesse amanhã, adotou uma postura focada, suave e imaculada. Ele olhava pelo retrovisor para o ovinho no banco de trás a cada semáforo, não em pânico, mas com a atenção protetora de quem carrega a carga mais valiosa do mundo.Quando finalmente passámos pela porta de carvalho maciço da nossa penthouse, o silêncio que nos recebeu teve um peso diferente.Não havia monitores a apitar, não havia enfermeiras a entrar e a sair, não havia a azáfama da família na sala de espera. Éramos apenas nós os três. E, pela primeira vez em quase um ano, não havia absolutamente nenhuma crise corporativa para resolver.O Lourenzo pousou os sacos no chão do corredor e, com a precisão firme que lhe era característica, destrancou o ovinho onde a Aurora dormia profundamente, alheia à muda
• LOURENZO •Eu sempre me orgulhei do meu controlo. Passei décadas a treinar o meu rosto para não vacilar perante crises financeiras, traições de sócios ou a frieza cortante do meu pai. Mas, naquele momento, enquanto eu guiava o carro pelas ruas de Lisboa, o meu controlo era uma ilusão barata. As minhas mãos, que tinham assinado contratos de milhões sem tremer, estavam agora coladas ao volante, suadas e instáveis.Ao meu lado, a Lya arquejava. Cada vez que ela soltava um gemido abafado, o meu coração batia contra as costelas como um animal encurralado. Eu teria dado toda a minha fortuna, toda a Villar Studio e cada centímetro do império que recuperei, apenas para poder transferir aquela dor para o meu próprio corpo.— Já estamos a chegar, Lya. Aguenta, meu amor — a minha voz saiu estranha, mais aguda do que o normal.Assim que parámos na entrada das urgências, o mundo tornou-se um borrão de luzes fluorescentes e ordens médicas. Tentei manter a postura de comando q
O calor já se fazia sentir em Lisboa, e as portas de vidro da varanda do apartamento do Lourenzo estavam escancaradas, deixando a brisa do rio Tejo ventilar a sala de estar. Eu estava refastelada no fundo do grande sofá de cabedal, com as pernas apoiadas no colo do Lourenzo. A minha barriga de trinta e oito semanas assemelhava-se a um pequeno planeta prestes a entrar em órbita, e a minha paciência para o calor roçava o limite do razoável.Mas o verdadeiro espetáculo daquela tarde de sábado não era a vista sobre o rio. Eram as duas pessoas de pé perto da ilha da cozinha.— Se continuares a olhar para mim com esse ódio todo, Bianca, ainda me convences de que estás perdidamente apaixonada por mim — provocou o Miguel, encostado ao mármore com a sua típica pose de lorde lisboeta relaxado, a segurar um copo de gin tónico. — Há uma linha muito ténue entre a repulsa e a atração fatal, sabias?A Bianca, que estava a cortar fruta para o pequeno Afonso, que via bonecos animados
A luz da primavera de Lisboa invadia o meu novo gabinete no último andar da Villar Studio. Não era o antigo escritório da Alice — recusei-me a herdar qualquer espaço que tivesse a energia daquela mulher. O Lourenzo e o Vasco tinham mandado deitar abaixo duas paredes de uma antiga sala de reuniões subaproveitada para me construírem um estúdio criativo banhado por luz natural, com vista para o rio Tejo e espaço suficiente para espalhar os meus moodboards, os meus tecidos e os meus esboços.Fechei a tampa do meu portátil de design com um suspiro de satisfação, encostando-me à cadeira ergonómica e pousando as mãos na minha barriga de oito meses.O ecrã ainda refletia o fim da videochamada que tinha acabado de ter com o Alejandro Vargas. Nos últimos três meses, a nossa rotina tinha-se estabelecido com uma fluidez perfeita. Eu tinha voltado definitivamente para Lisboa, para o lado do Lourenzo, mas a direção de arte da Magnólia continuava a ser inteiramente minha. Quando era estri
A manhã de dia um de Janeiro nasceu com um sol de inverno frio, mas de uma clareza cortante sobre a cidade de Lisboa. A luz entrava pelas grandes janelas do apartamento do Lourenzo, banhando o quarto num dourado tranquilo que contrastava com a escuridão da noite anterior.Acordei com o cheiro a café acabado de fazer e a lençóis lavados. Estiquei o braço, sentindo o lado do Lourenzo vazio, mas o som abafado da voz dele na sala indicava que ele já estava de pé há algum tempo. Espreguicei-me devagar, sentindo um alívio físico tão profundo que parecia que me tinham tirado um colete de chumbo de cima das costelas. A respiração entrava limpa. Não havia mais segredos, não havia mais medos. O ecrã do meu telemóvel, pousado na mesa de cabeceira, estava inundado de notificações, mensagens de parabéns e alertas de notícias, mas eu não sentia pressa de as ler.Vesti um roupão quente e caminhei descalça até à sala de estar.O Lourenzo estava encostado à ilha da cozinha, de calças de







