LOGINEduardo
O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz azulada do celular. Eduardo estava jogado na cama, com uma camiseta velha e a janela aberta, deixando o ar da noite entrar. O ventilador fazia um barulho insistente, mas o que realmente o impedia de dormir era outra coisa. Laís. Ela estava ali, no canto dos pensamentos, como uma música antiga que volta do nada — familiar, nostálgica, e um pouco dolorida. Desde a segunda-feira, tudo girava ao redor dela. No trabalho, nas conversas, nos silêncios. Principalmente nos silêncios. Ele tentou ser natural, manter distância, respeitar o espaço dela. Mas era difícil. Porque bastava vê-la passar os dedos no cabelo, ou morder o lábio quando estava concentrada, que tudo voltava. O beijo apressado, a sensação de perda, o “depois a gente se fala” que nunca aconteceu. E agora estavam ali. No mesmo ambiente. Mesma cidade. Mesma sintonia. Mas em mundos ainda descompassados. Ele rolou no colchão, pegou o celular e digitou uma mensagem. Curta. Leve. Meio nostálgica. “Espero que o chá da sua tia ainda tenha o mesmo gosto. Eu ainda lembro. :) Foi bom te ver essa semana. Mesmo que em silêncio. Boa noite, Laís.” Enviou antes que se arrependesse. E então… nada. Ficou com o celular na mão por mais alguns minutos. A notificação de “visualizado” apareceu. Mas resposta? Nenhuma. Suspirou e largou o aparelho na mesinha. — Você tá com essa cara por causa da Laís, né? — disse uma voz na porta. Breno, de chinelo, camiseta regata e cabelo bagunçado, entrou na casa como se fosse morador. E de certa forma, era. Amigo de infância, cresceu com Eduardo, dividiu segredos, histórias, e agora, vez ou outra, invadia sua casa sem avisar. Tinha uma chave extra e uma habilidade impressionante de aparecer nos momentos mais inconvenientes. — Você não dorme, não? — Eduardo perguntou, jogando um travesseiro nele. — Dormir é para quem tá em paz. E você claramente não tá. — sentou-se na cadeira giratória do quarto e girou duas vezes. — A Rafaela me contou que a Laís voltou. E que vocês estão trabalhando juntos. Isso é real? — É. — respondeu, simples, sem encará-lo. — Meu Deus do céu. Isso vai dar ruim. Ou muito certo. Ou os dois. Eduardo soltou um riso abafado. — É só trabalho. — Trabalho é o que ela faz. Você tá é trabalhando seu autocontrole pra não se jogar em cima dela. — Breno… — Eu só tô dizendo o óbvio. Você esperou essa garota voltar por anos. E agora ela tá aqui. De carne, osso e cabelos bagunçados. Vai me dizer que tá tudo tranquilo? Eduardo passou a mão no rosto. — Não tá. Mas eu não sei o que fazer com isso. Ela foi embora. Não disse nada. Não teve final. E agora voltou… como se o tempo tivesse pausado. Mas não pausou pra mim. — Então fala com ela. — E digo o quê? “Oi, Laís, lembra daquele beijo em 2017? Ele ainda me incomoda”? — ironizou. Breno levantou as mãos. — Olha, você sempre foi melhor com palavras. Mas se não disser nada, vai repetir tudo de novo. Vai deixar passar. Eduardo ficou em silêncio. O tipo de silêncio que grita. Breno levantou, deu um tapinha no ombro dele e disse: — Só não demora demais. Tem gente que não fica esperando pela vida inteira, não. Saiu do quarto como entrou: sem pedir licença, mas cheio de razão. Depois que o amigo foi embora, Eduardo ficou olhando o teto por um tempo. Pegou o celular. Abriu a conversa com Laís. Leu a própria mensagem de novo. Nada de resposta. Abriu o perfil dela. Foto nova. Sorriso leve. Cabelos ao vento. Mas os olhos… os olhos eram os mesmos de anos atrás. Os olhos que tinham dito “fica” quando ela foi embora sem palavras. Fechou o celular. Talvez fosse cedo. Talvez ela também estivesse tentando entender o que sentia. Talvez, só talvez, ela ainda estivesse lá — em algum lugar, esperando o próximo passo. E talvez coubesse a ele dar esse passo.Laís A semana correu como um filme que finalmente aprende o próprio ritmo. O relatório preliminar da Controladoria virou definitivo — sem alterações dramáticas, apenas ratificando as recomendações e registrando, por escrito, a “mobilização cidadã exemplar em torno da ONG”. Nanda leu a frase em voz alta, sorriu com o canto da boca e guardou a folha numa pasta transparente, como quem coloca fotografia em álbum. — Não é selo de perfeição. — ela disse. — É licença para continuar. Continuamos. Lucas levantou um painel simples, colorido, com prazos e responsáveis. Rafaela organizou as caixas do arquivo físico como quem monta um mapa do tesouro. Gabriela iniciou uma série de postagens curtas — “Como ler um relatório público sem dor de cabeça” — e, de repente, até quem não gostava de ler começou a comentar. O Coletivo de Tecnologia Cívica nos enviou o laudo acessível sobre a montagem do vídeo falso, e a rádio local convidou Nanda para uma conversa mais longa sobre transparência. A cidade
Laís Os dias seguintes ao relatório foram de correria. A ONG parecia uma colmeia em plena atividade. As recomendações dos auditores viraram listas pregadas em murais, planilhas coloridas no computador de Lucas, lembretes na voz de Nanda. Gabriela preparava textos para as redes explicando cada etapa de adaptação, Rafaela organizava oficinas educativas sobre transparência, e Breno trazia notícias de bastidores como quem carrega água para apagar incêndio. Eu, entre pastas e reuniões, mal percebia a semana avançar. Até que Nanda entrou na sala com um papel na mão e um sorriso enviesado. — Laís, você foi convidada para participar de um programa de rádio local. Querem ouvir uma voz jovem, alguém que represente o trabalho de dentro. Vai ser ao vivo, sexta à noite. Meu estômago deu um salto. — Eu? Sozinha? — Não sozinha. — Nanda tranquilizou. — Eduardo vai com você, nos bastidores. E lembra: você não precisa ter todas as respostas. Precisa só falar a verdade. Sua verdade. O resto vem.
LaísA segunda-feira chegou com cheiro de papel novo e nervos velhos. O e-mail da Controladoria aterrissou às 08:14 com um título tão burocrático quanto ameaçador: “Relatório Preliminar – Visita Técnica”. O coração deu um pulo; meus dedos hesitaram um segundo antes de tocar na tela.Nanda nos reuniu na sala grande. As janelas abertas deixavam entrar o barulho da praça, e, na mesa, o café de tia Zuleica fumegava ao lado de um prato de broas. Eduardo chegou por último, encostou discretamente a mão nas minhas costas; foi o suficiente para eu lembrar de respirar.— Vamos lá. — disse Nanda, abrindo o PDF no projetor.A leitura começou seca, mas foi amolecendo ao longo dos parágrafos. Havia ali um retrato que não nos diminuía: “boa mobilização comunitária”, “processos transparentes em linhas gerais”, “comunicação acessível à população”. O alívio veio em ondas silenciosas, até que surgiram as recomendações: padronizar datas e versões de relatório; criar um protocolo de registro de voluntaria
Laís O dia seguinte à vistoria amanheceu abafado. O céu guardava nuvens pesadas, como se refletisse o peso que pairava sobre todos nós. Na ONG, o cheiro de café recém-passado se misturava ao nervosismo. Cada olhar dizia o mesmo: alívio, sim, mas também a ansiedade pelo relatório que viria. Era como estar entre o fim de uma tempestade e o início de outra. Eduardo foi o primeiro a chegar. Trouxe pão fresco da padaria e um sorriso determinado. — Café da manhã coletivo. — anunciou, tentando arrancar sorrisos. Colocou os pães na mesa e abraçou Nanda de surpresa. — Você foi gigante ontem. — disse. Ela sorriu de leve, mas seus olhos revelavam que a mente já estava na próxima batalha. Eu tentava respirar fundo, mas sentia o peito apertado. Eduardo percebeu, aproximou-se por trás e pousou a mão na minha cintura. — Vai dar tudo certo. — murmurou. — Nós já atravessamos tempestades piores. — O calor do toque dele me ancorou. *** Nanda convocou uma reunião logo cedo. Estávamos na sala grande
Laís O sol nasceu tímido, escondido atrás de nuvens claras. Mesmo assim, o calor da expectativa já pesava no ar. A ONG estava em polvorosa desde as sete da manhã. Pilhas de pastas cuidadosamente revisadas se espalhavam pelas mesas, o café de tia Zuleica exalava aroma forte na cozinha, e o mural na entrada, reforçado com novas cores, brilhava como bandeira de resistência. Tudo parecia ensaiado, mas por dentro todos tremiam. Eu caminhava pelos corredores tentando respirar fundo. Sentia a tensão pairar em cada olhar, em cada gesto. Não era apenas uma visita técnica. Era um teste de credibilidade, a chance de provar que não tínhamos nada a esconder. Eduardo percebeu meu nervosismo e se aproximou devagar, pousando a mão na minha cintura. — Vai dar tudo certo. — disse, com a voz baixa. — Nós já atravessamos tempestades piores. Assenti, tentando acreditar tanto quanto ele. *** Às nove em ponto, uma caminhonete preta estacionou em frente à ONG. Dois auditores desceram: uma mulher de ca
Laís Acordei com o celular vibrando sem parar. Três chamadas perdidas de Rafaela, duas mensagens de Gabriela, uma de Lucas com um link e o aviso: “Não abre sozinha”. O coração desandou antes dos passos. Abri assim mesmo. Um vídeo curto, cortes secos, minha imagem em close no pátio da ONG. A legenda gritava: “ELA ADMITE: É TUDO MANIPULAÇÃO”. No áudio, minha voz — só que costurada para dizer o oposto do que falei semanas atrás: “a melhor mentira é… simples”. O resto, amputado. A montagem era tosca, mas eficaz. Eduardo, ainda com a voz de sono, sentou na cama. — O que aconteceu? Mostrei a tela. Ele assistiu e ficou vermelho. Fechou os punhos, respirou fundo, e depois me puxou para um abraço que segurou meu corpo antes que o pânico me tomasse. — A gente vai resolver. Juntos. *** A sala da ONG virou gabinete de crise. Nanda estava com o cabelo preso alto e os olhos afiados. Lucas abriu o notebook em cima da mesa. — Postaram de madrugada, 03h17. Perfil novo, sem foto, mas a replicação







