Se connecterCom o pouco de forças que ainda me restava, arrastei meu corpo até o quarto dos meus pais. Deitei-me na cama entre os dois corpos, buscando o conforto que eles sempre me davam quando eu tinha pesadelos na infância. Porém, eles não podiam mais me aquecer.
Meus olhos pousaram no frasco âmbar no chão, onde ainda restava um pouco do veneno que eles haviam tomado.
Eu não tinha mais nada. Não tinha mais ninguém. Talvez devesse apenas ir com eles...
Antes que eu pudesse ceder àqueles pensamentos, meu celular começou a tocar.
Com uma última esperança tola de que talvez fosse Vítor para se desculpar e dizer que tudo não passara de uma brincadeira de mau gosto, peguei o celular e vi o nome na tela.
"April"
Todos os meus amigos tinham parado de me atender e até me bloqueado quando a notícia da falência da minha família veio à tona. Mas April estava no exterior; com certeza ainda não sabia.
O medo de ser desprezada por ela também me fez hesitar, mas, ainda assim, atendi.
— Evelyn, como você está? — a voz do outro lado soou preocupada.
— April! — chamei, tentando segurar o choro.
April era minha melhor amiga e, certamente, a única com quem eu podia contar.
— Amiga, eu recebi seu recado. Soube do que aconteceu... Como você está? Onde você está?
— Meus pais... eles morreram, April! — voltei a desabar em lágrimas, ainda incrédula com aquela realidade. — Eu perdi tudo. Eles levaram tudo. Eu não tenho dinheiro nem para o funeral dos meus pais!
— Amiga, eu sinto muito. Eu estou indo para aí.
Olhei à volta: a casa vazia, os objetos quebrados, etiquetas judiciais por todos os lados.
Aquela que outrora fora uma mansão grandiosa agora parecia o cenário de um filme de tragédia.
Eu não queria que ela visse aquilo. Não queria que ninguém visse.
— Não precisa! — respondi, interrompendo-a. — Me mande seu endereço. Eu vou até você.
— Claro. Eu estou com o pessoal, não se preocupe. Vamos todos apoiar você neste momento. Vou mandar o endereço.
— Muito obrigada, April. Eu não sei o que faria sem você.
— Amigas são para isso. Venha logo.
Assim que a ligação se encerrou, senti meu coração se encher de esperança. Talvez eu não estivesse tão sozinha quanto pensava.
Rapidamente me levantei, olhei para os corpos dos meus pais e deixei um beijo na testa deles.
— Eu volto logo. Não importa como, vou conseguir dinheiro e dar um enterro digno a vocês.
Cobri seus corpos com o lençol, ajeitando os travesseiros como se eles ainda pudessem sentir conforto.
Saí de casa e peguei um táxi com as últimas notas que me restavam.
Alguns minutos depois, o táxi parou no endereço e, ao olhar pela janela, senti um frio no estômago.
Moon Light Club. O clube noturno da mais alta elite, frequentado apenas pela nata da sociedade; um lugar que eu costumava frequentar muito.
Mas agora, com minha reputação de herdeira caída, eu tinha medo de entrar ali. Medo de ser reconhecida. Medo de passar por uma situação constrangedora.
Suspirei, tentando me acalmar.
"Você não tem tempo para pensar no seu orgulho agora, Evelyn. É só entrar, falar com a April e sair."
— Evelyn! — ouvi a voz de April e sorri ao vê-la se aproximar.
— April!
Nós nos abraçamos, e ela me confortou com palavras gentis, tudo de que eu precisava.
April olhou para mim, e segui seu olhar, notando como eu estava uma bagunça: rosto vermelho e inchado, cabelo desarrumado, roupas amarrotadas e manchadas de lágrimas e sangue.
— Venha, vamos ao banheiro dar um jeito em você. Eu sei que está passando por um momento difícil, mas não pode deixar ninguém te ver assim. Afinal, você é a Evelyn Fuentes de Castilho.
Disse ela com a voz animada, tentando me animar.
Forcei um sorriso e a segui para dentro do clube, indo direto para o banheiro. Porém, por estar distraída, acabei esbarrando em alguém.
Levantei a cabeça para me desculpar, mas todo o meu corpo paralisou ao encontrar aqueles olhos negros, profundos e frios me encarando.
De todas as pessoas... eu tinha que encontrá-lo justamente no meu estado mais deplorável e miserável?
Definitivamente, aquele não era o meu dia.
Dante Franconi.
O herdeiro da família principal dos Franconi, uma família que, por algum motivo que nunca entendi direito, sempre foi rival da minha.
A rixa entre os Franconi e os Fuentes era do conhecimento de todos, e a mídia adorava colocar lenha na fogueira sempre que podia. Rivais declarados tanto nos negócios quanto na vida pessoal.
Porém, apesar de todo o fogo que a mídia alimentava entre os Fuentes e Franconi, eu e Dante não poderíamos ser mais indiferentes um ao outro. As palavras que já trocamos não enchiam um palmo. Apenas nos cruzávamos casualmente em eventos e trocávamos saudações em meio aos outros, virando as costas logo em seguida.
Ele lançou aquele olhar frio e indiferente de sempre para mim e apenas passou, sem dizer uma palavra.
— Dante Franconi... Céus, esse homem consegue ser mais bonito do que nas fotos. Pena que não dá nem bom dia... Porém, é essa arrogância que dá um charme a mais nele!
Olhei para April após ouvir suas palavras, e ela coçou a garganta.
— Esquece o que eu falei. Vamos logo, todos já estão nos esperando.
Após alguns minutos no banheiro, com April me ajudando a me arrumar, saímos em direção à sala onde os outros estavam e, pelo corredor, ouvimos a conversa de duas funcionárias que acabavam de sair de uma sala VIP.
— Dizem que o Dante Franconi é frio e indiferente, mas encheu toda essa sala com flores e presentes para pedir a namorada em casamento.
— Eu ouvi dizer que homens aparentemente frios são os mais românticos... e parece que é verdade!
— Ela é tão sortuda! Queria eu receber uma proposta de um homem desses!
— Vai sonhando. Nem em mil encarnações.
As duas funcionárias passaram por nós e, por curiosidade, olhei pela porta entreaberta. Vi a sala toda decorada com flores brancas, frescas e naturais, um amontoado de presentes e uma grande faixa escrita:
"Vivianne, casa comigo!"
Senti meu peito apertar, lembrando-me do pedido de casamento que Vítor fez para mim na entrada da universidade, anos atrás.
Eu o pedi em casamento primeiro, mas ele fez questão de fazer o pedido publicamente para preservar minha imagem. Pelo menos era isso que ele dizia, e eu acreditava.
Limpei a lágrima que escapou pelo meu rosto, lembrando das palavras duras e cruéis que ele havia dito horas antes, percebendo que aquele homem que amei talvez só existisse na minha cabeça iludida.
Eu não podia mais chorar por ele. Não devia. Ele não merecia.
— Amiga, vamos. Os outros já devem estar à nossa espera! — April me despertou, e logo a segui para outra sala.
April entrou primeiro e manteve a porta aberta para mim, com um largo sorriso que me pareceu estranho. Ainda assim, entrei.
Porém, todo o meu corpo paralisou ao ver aqueles rostos ali.
Todos pararam o que faziam e olharam para mim com expressões que variavam entre deboche, julgamento e desprezo. Rostos conhecidos do meu círculo social.
Mas meus olhos se fixaram nas duas pessoas sentadas no centro, aquelas que carregavam o maior ódio no olhar.
Adelina e Vítor.
Apertei a alça da minha bolsa e me virei para April.
— April, o que é isso?
Ela continuou sorrindo ao responder, de forma simples.
— A Adelina e Vítor convidaram o pessoal para vir aqui dar uma forcinha para você. Você disse que estava precisando de dinheiro, não disse?
Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto eu a encarava, com dor e decepção, percebendo que ela estava do lado deles. Todos ali estavam contra mim, e queriam minha ruína.
— Evelyn — Adelina começou, aproximando-se de mim. — Já que você perdeu tudo e está precisando de dinheiro, eu convenci o Vítor e, juntos, conseguimos um emprego para você.
Ela estendeu a mão, e uma das garotas lhe entregou uma sacola.
Adelina enfiou a mão ali dentro, tirou o uniforme das funcionárias do clube e o jogou no chão, com um sorriso malicioso e perverso.
— Nos sirva esta noite. Seja nossa empregada VIP... e nós pagaremos pelo funeral dos seus pais.
UM ANO DEPOIS... O jardim da mansão dos Franconi, em Miami, estava completamente preparado para o batismo de Marcos. As mesas estavam decoradas com flores claras, os garçons circulavam pelo espaço organizando os últimos detalhes, enquanto as duas famílias chegavam aos poucos para participar da cerimônia. Isabella supervisionava tudo com atenção, enquanto Sofia e Beatrice discutiam discretamente sobre a disposição de alguns arranjos, como se o batismo fosse um grande evento de Estado. — Onde está o batizado? — Isabella perguntou, olhando ao redor. — Está chegando — respondeu Vitória, surgindo logo depois pelo caminho que levava ao jardim. Ela carregava Marcos nos braços, e o pequeno vestia um terninho branco que o deixava ainda mais fofo e encantador. Vitória também usava um vestido branco florido, os cabelos arrumados e um sorriso orgulhoso no rosto. Ao lado dela vinha Lucien, que imediatamente se aproximou para ajudá-la. — Finalmente! — Isabella sorriu. — Eu já estava começan
Vitória tentou segurar as lágrimas, mas foi inútil. Uma delas escapou pelo canto de seu olho e percorreu sua face antes que ela pudesse limpá-la. Ela soltou uma pequena risada emocionada, olhando para Lucien ajoelhado diante dela, ainda segurando a caixa aberta com a aliança. — Sim... — respondeu, com a voz trêmula. — Eu aceito. Lucien sorriu imediatamente. Vitória respirou fundo e passou os dedos pelo rosto antes de continuar. — Eu aceito porque, quando penso no futuro, você está nele. Não sei exatamente como serão os próximos anos, nem tudo o que vamos enfrentar, mas sei que quero descobrir tudo isso ao seu lado. Quero continuar conhecendo suas manias, reclamando quando você estiver sendo convencido e perfeito demais, brigando quando você estiver errado... Lucien riu. — Isso parece mais uma ameaça do que uma declaração. Vitória também riu entre as lágrimas. — Deixe-me terminar. — Ela segurou a mão dele. — Quero dividir meus dias com você, os bons e os difíceis. Quero conti
— Você está pensando em finalmente dar o próximo passo com o Lucien?Vitória ficou em silêncio por alguns segundos, encarando Sônia sem saber exatamente o que responder. Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Não negou, porém também não confirmou. Apenas desviou o olhar e começou a organizar alguns documentos sobre a mesa, embora sua atenção estivesse muito longe dali.— Eu não se. Quer dizer... talvez. Mas isso não significa que eu esteja pensando em casamento agora.Sônia cruzou os braços e a observou com um sorriso divertido. — Você acabou de dizer que quer ter o "seu bebê"Vitória suspirou. — Sim eu quero! Eu sou mulher, tenho o meu instinto materno. Mas... Não é tão simples.— Claro que é. — Sônia se aproximou da mesa. — Você ama o homem, ele ama você, vocês praticamente vivem juntos e agora você voltou de Miami falando sobre bebê, família e como foi bonito ver o Dante e a Evelyn construindo uma vida juntos.Vitória fez uma careta.— Quando você coloca dessa maneira, parec
Lucien estava na sala de estar da mansão dos Fuentes em Miami, despedindo-se de Evelyn e Dante. Ele mantinha um sorriso tranquilo enquanto explicava que ele e Vitória precisariam voltar para a Espanha por causa do trabalho. Evelyn, sentada no sofá ao lado de Dante, fez uma expressão imediatamente contrariada.— Mas por que tão cedo? — choramingou ela. — Eu já estava me acostumando com vocês vindo aqui todos os dias. Até o Marcos já está acostumado com a presença de vocês.Lucien soltou uma pequena risada.— Eu também vou sentir falta de vocês. Mas nós realmente precisamos voltar. Já estamos aqui há tempo demais e o trabalho está nos chamando.— E como eu vou explicar isso para o Marcos? Ele vai perguntar onde estão os dois que aparecem aqui todos os dias.Antes que Lucien pudesse responder, uma voz veio do corredor.— Falando de nós?Os três se viraram ao mesmo tempo. Vitória apareceu segurando Marcos nos braços, sorrindo enquanto se aproximava.— Olha só quem já está de fralda tro
Lucien e Vitória começaram seu passeio pelo centro da cidade, caminhando pelas ruas movimentadas, entrando em algumas lojas e parando em pequenos cafés sempre que Vitória encontrava alguma coisa que despertasse sua curiosidade.— Você percebeu que já entramos em quatro lojas e você não comprou absolutamente nada? — Lucien perguntou enquanto caminhava ao lado dela, carregando apenas uma pequena sacola que ela havia comprado.Vitória olhou para ele com uma expressão ofendida.— Eu estou apenas olhando.— Há vinte minutos você disse exatamente isso.— E continuo apenas olhando.Lucien soltou uma risada baixa.— Você é muito mais perigosa quando diz que está apenas olhando.— E você reclama demais para alguém que se ofereceu para me acompanhar.— Eu não estou reclamando. Só estou tentando entender como alguém consegue passar tanto tempo olhando para roupas sem levar nenhuma.Vitória sorriu e segurou o braço dele.— Talvez eu esteja esperando você se oferecer para comprar alguma coisa.Luc
Lucien acordou e se deparou com a cabeleira de Vitória espalhada sobre seu peito. Ele sorriu ao olhar para o rosto adormecido dela e permaneceu alguns segundos apenas observando-a. Logo, inclinou-se e deixou um beijo delicado em sua testa antes de tentar se levantar, mas sentiu os braços dela envolvendo sua cintura, o que o fez sorrir novamente.— Você não está dormindo? — perguntou ele, olhando para ela.— Por que se levantar tão cedo? Nós não temos que trabalhar hoje. Fica aqui mais um pouco — respondeu Vitória, ainda de olhos fechados e encolhida contra ele.Lucien sorriu.— E todo aquele seu plano de conhecer Miami? Não vamos conseguir realizar tudo se levantarmos ao meio-dia.Vitória ficou em silêncio por alguns segundos antes de resmungar e finalmente abrir os olhos.— Você tem mesmo que ter razão sempre?— Não posso dizer que não gosto.— Convencido! — rebateu ela, dando um leve soco no ombro dele.Lucien apenas sorriu e deixou outro beijo em sua testa.— Vá tomar um banho pri







