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Coração Blindado
Coração Blindado
Author: shelly pereira

🍀 CAPÍTULO 01🍀

last update publish date: 2026-05-11 03:52:52

JĂĄ era tarde da noite.

Em uma obra no meio da cidade, um garoto empurrava carrinhos carregados de tijolos de um lado para o outro. Vestia apenas uma camiseta surrada, uma calça jeans velha, um tĂȘnis furado e um capacete grande demais para sua cabeça magra.

A madrugada jå avançava quando ele finalmente parou para descansar. Sentou-se sobre uma pedra próxima, tirando de dentro da mochila uma garrafa de ågua e um pequeno pacote de biscoitos.

Enquanto comia distraidamente, observava o cĂ©u estrelado acima da construção. Seus olhos pesavam de sono. O cansaço fazia sua cabeça tombar devagar atĂ© que


— Ai!

Uma pedra acertou sua nuca.

Ele se virou rapidamente.

O encarregado da obra caminhava em sua direção.

— Os tijolos acabaram. Podemos ir embora mais cedo hoje. — O homem lhe entregou algumas notas amassadas. — Aqui está seu pagamento.

O garoto abriu um pequeno sorriso cansado.

— EntĂŁo
 atĂ© amanhĂŁ, senhor?

O homem o observou em silĂȘncio por alguns segundos.

— Seus pais sabem que vocĂȘ trabalha desse jeito? VocĂȘ ainda estĂĄ estudando?

O garoto abaixou os olhos.

— Sabem
 mas não podem fazer muita coisa. Somos pobres e eu preciso ajudar em casa. Não posso me preocupar só com a escola.

O homem torceu a boca para o lado, analisando as roupas gastas do menino.

— Toma isso aqui tambĂ©m.

Ele colocou mais algumas notas em sua mĂŁo.

— Compra roupas novas
 e um sapato decente. VocĂȘ ainda Ă© novo, garoto. InfĂąncia sĂł temos uma vez.

O garoto arregalou os olhos.

— Senhor
 eu—

— Vai logo para casa. Já está tarde.

O menino sorriu agradecido vĂĄrias vezes antes de sair dali. Enquanto caminhava, olhou discretamente para o dinheiro em sua mĂŁo e rapidamente o escondeu dentro do sapato.

Era mais seguro assim.

No caminho para casa, precisava atravessar parte da cidade.

As luzes dos prédios iluminavam as ruas movimentadas, cheias de pessoas rindo, carros passando e mulheres espalhadas pelas calçadas.

Foi entĂŁo que ele parou.

Do outro lado da rua, uma mulher estava caĂ­da no chĂŁo.

Um homem a chutava enquanto gritava palavrÔes.

— Sua inĂștil! Drogada imunda!

O garoto atravessou a rua correndo.

No instante em que o homem ergueu uma garrafa para acertar a mulher, o garoto entrou na frente.

Crash!

A garrafa atingiu suas costas com força.

Ele caiu de joelhos imediatamente.

A mulher levantou o rosto lentamente. A maquiagem borrada escorria junto das lĂĄgrimas.

— Mas o que vocĂȘ estĂĄ fazendo aqui, seu idiota?! — ela gritou, empurrando-o. — Quer estragar meu trabalho?!

O garoto caiu no chĂŁo outra vez.

Ao redor, algumas pessoas observavam a cena em silĂȘncio. Algumas riam. Outras apenas desviam o olhar.

O homem encarou o garoto por alguns segundos
 então começou a rir.

— Olha sĂł isso
 Parece que vocĂȘ criou um projeto de homem aĂ­. — Ele olhou para a mulher com desprezo. — O que foi? NĂŁo conseguiu manter as pernas fechadas?

A mulher entrou rapidamente na frente do garoto.

— Esquece ele. Vamos embora daqui. — Ela segurou o braço do homem. — Posso te levar para um lugar melhor.

E saiu puxando-o pela rua.

O garoto ficou parado observando os dois desaparecendo entre as luzes da cidade.

EntĂŁo soltou um suspiro cansado.

Quando se levantou, sentiu uma dor forte nas costas. A garrafada havia aberto um corte, fazendo o sangue escorrer por baixo da camiseta.

Mesmo assim, continuou andando.

Antes de voltar para casa, comprou alguns lanches baratos.

Depois seguiu por uma pequena estrada de terra até chegar diante de uma casa simples e velha.

Abriu o portĂŁo devagar.

Entrou em silĂȘncio.

Assim que deixou a sacola sobre a mesa improvisada da cozinha, foi direto para o banheiro.

A ĂĄgua fria caiu sobre suas costas feridas, fazendo-o apertar os dentes de dor.

Quando terminou o banho, ficou alguns segundos parado diante do espelho.

Seu corpo era magro demais.

Havia marcas antigas espalhadas pelos braços, costas e peito.

Queimaduras.

Cicatrizes de cigarro.

Feridas que nunca desapareceram completamente.

Os olhos do garoto se encheram de lĂĄgrimas, mas ele respirou fundo antes que elas caĂ­ssem.

Foi então que ouviu alguém chamå-lo.

Rapidamente vestiu a camiseta e saiu do banheiro.

Uma garotinha estava parada na escada, ainda sonolenta.

— Por que vocĂȘ estĂĄ acordada essa hora, May?

Ela sorriu ao vĂȘ-lo.

— Ouvi vocĂȘ chegando
 queria saber se estava bem.

O garoto abriu um pequeno sorriso cansado.

— Estou sim. Vem aqui. Eu trouxe lanche.

May desceu correndo as escadas.

— Irmão
 a mamãe não vai voltar para casa hoje?

O sorriso dele desapareceu por um instante.

— Acho que nĂŁo
 mas talvez seja melhor assim. VocĂȘ sabe o que acontece quando ela e o papai estĂŁo aqui.

May abaixou os olhos.

EntĂŁo perguntou baixinho:

— VocĂȘ nĂŁo vai embora tambĂ©m
 vai?

O garoto ficou em silĂȘncio por alguns segundos antes de bagunçar os cabelos dela.

— NĂŁo vou abandonar vocĂȘs.

Ele forçou um sorriso.

— E mesmo se um dia eu for
 vou levar todos comigo.

May o abraçou forte.

— Eu te amo, irmão.

Depois subiu as escadas novamente.

O garoto permaneceu sentado sozinho na cozinha silenciosa.

Perdido nos prĂłprios pensamentos.

— Acha mesmo que consegue proteger alguĂ©m?

Uma voz debochada veio da escada.

Seu irmĂŁo mais velho estava sentado ali.

— Faça-me o favor, Max.

Max levantou os olhos lentamente.

— Se vocĂȘ me ajudasse um pouco, talvez fosse possĂ­vel.

O garoto riu com desprezo.

— Acha que vou destruir meu futuro trabalhando igual um escravo feito vocĂȘ? Eu quero estudar
 ficar rico
 sair dessa vida miserĂĄvel.

Max respirou fundo.

— EntĂŁo nossos irmĂŁos nĂŁo importam para vocĂȘ, Logan?

Logan se levantou lentamente.

— Nessa vida Ă© cada um por si.

Ele olhou para Max da cabeça aos pés.

— AlĂ©m disso
 olha para vocĂȘ. Parece um lixo humano.

Max permaneceu em silĂȘncio.

— Eu tenho aula daqui a pouco. Vou dormir.

E subiu as escadas.

Sozinho outra vez, Max apenas abaixou a cabeça.

Sem dizer uma Ășnica palavra

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