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🍀 CAPÍTULO 02🌿

last update Date de publication: 2026-05-11 03:56:29

Na manhĂŁ seguinte, Max acordou antes do sol nascer.

O pequeno apartamento ainda estava mergulhado no silĂȘncio, exceto pelo barulho fraco da velha chaleira no fogĂŁo. Seus olhos ardiam de cansaço. O corpo inteiro doĂ­a por causa do trabalho pesado da noite anterior, mas ele apenas ignorou a dor como sempre fazia.

Preparou o café da manhã simples para os irmãos e, enquanto o pão esquentava, organizou silenciosamente sua mochila velha sobre a mesa.

O tecido jĂĄ estava desgastado, os zĂ­peres quase quebrando e algumas costuras tinham sido refeitas Ă  mĂŁo vĂĄrias vezes.

Logan apareceu na cozinha bocejando. Pegou uma maçã e observou Max por alguns segundos antes de rir com deboche.

— VocĂȘ realmente nĂŁo tem vergonha de usar essa mochila toda acabada?

Max continuou arrumando os cadernos sem responder.

Logan deu outra mordida na maçã e o analisou dos pés à cabeça.

— E essas roupas? Cara
 parece atĂ© que vocĂȘ roubou de um morto.

Por alguns segundos, Max apenas ficou em silĂȘncio.

Depois fechou a mochila devagar e respirou fundo.

— Se continuar parado aí, vamos chegar atrasados.

Logan revirou os olhos e colocou o braço na porta, impedindo sua passagem.

— Escuta aqui
 para de falar comigo na escola. Eu tenho vergonha de ser visto com vocĂȘ.

O sorriso debochado desapareceu, dando lugar a uma expressĂŁo fria.

— Acho que fui bem claro.

Max segurou calmamente o braço dele e o afastou do caminho.

— Faça o que quiser.

EntĂŁo saiu da cozinha sem olhar para trĂĄs.

Na sala, Maira estava sentada no sofå de cabeça baixa, escondendo o rosto atrås dos cabelos.

— Eu odeio minha vida
 — murmurou. — Queria morrer.

May, que terminava de arrumar os materiais escolares, suspirou.

— VocĂȘ faz drama demais.

— Drama? — Maira ergueu o rosto irritada. — Olha para esses sapatos, May! Olha para os nossos materiais! Tudo velho, rasgado
 Nós parecemos mendigos!

Alan, sentado no chĂŁo mexendo no celular quebrado, riu baixo.

— Ela não está errada.

Max apareceu colocando a mochila nas costas.

— Estamos atrasados.

May olhou imediatamente para ele.

— VocĂȘ nĂŁo vai tomar cafĂ©? Eu deixei um pouco para vocĂȘ.

Max forçou um pequeno sorriso cansado.

— Meu estîmago não está muito bom hoje. Pode comer.

Alan soltou uma risada curta.

— SĂ©rio mesmo que vocĂȘ vai para escola desse jeito?

Max abaixou o olhar para as prĂłprias roupas gastas. As mangas do casaco estavam desfiadas e os tĂȘnis jĂĄ tinham perdido a cor fazia tempo.

Mesmo assim, apenas deu de ombros.

— O dinheiro mal dá para sobreviver.

Maira apertou os dedos contra a saia do uniforme.

— VocĂȘ nĂŁo consegue nem comprar sapatos novos para nĂłs


Aquilo atingiu Max mais do que deveria.

Mesmo assim, ele apenas respirou fundo.

— Vou tentar resolver isso, tudo bem? Mas agora precisamos ir.

Alan levantou reclamando.

— Ainda não acredito que temos que andar junto dele.

Os trĂȘs começaram a sair na frente, rindo e conversando entre si.

Max ficou parado alguns segundos observando os irmĂŁos.

Mesmo ouvindo aquelas palavras
 eles ainda eram tudo o que ele tinha.

— Eu preciso resolver uma coisa antes — disse baixo. — Podem ir na frente.

May virou rapidamente.

— Mas vocĂȘ vai chegar atrasado!

— Não se preocupe comigo.

Alan soltou uma gargalhada.

— Ainda bem. Pelo menos hoje ninguĂ©m vai achar que somos parentes dele.

— Alan! — Maira repreendeu.

Mas o garoto apenas deu de ombros.

— O quĂȘ? Vai dizer que vocĂȘ tambĂ©m nĂŁo sente vergonha? O cara parece um morto-vivo.

May lançou um olhar furioso para ele.

— A culpa nĂŁo Ă© dele! Se nĂŁo fosse o Max, a gente nem teria comida!

Maira desviou o olhar, incomodada.

— Vamos logo


Os trĂȘs seguiram pela rua.

Max permaneceu parado, ouvindo cada palavra em silĂȘncio.

Então abaixou lentamente a cabeça.

Por um instante, suas mãos apertaram as alças da mochila com tanta força que os dedos ficaram brancos.

Mas logo ele apenas respirou fundo e começou a andar.

Precisava continuar.

Sempre precisava.

Ao entrar em um beco estreito para cortar caminho, passos pesados ecoaram atrĂĄs dele.

Antes que pudesse reagir, um chute forte atingiu suas costas.

Max caiu de joelhos no chĂŁo sujo, arfando de dor.

Alguns homens cercaram o garoto.

— CadĂȘ aquele desgraçado do seu pai? — um deles perguntou segurando Max pelo cabelo.

O garoto gemeu baixo ao sentir o puxĂŁo.

— Eu
 eu não sei


O homem puxou ainda mais forte e encostou um canivete em seu pescoço.

— Acho bom não estar mentindo, moleque.

O metal gelado fez o corpo de Max tremer.

— Suas irmãzinhas são bonitas
 Seria uma pena se elas pagassem a dívida no lugar dele.

Os olhos de Max se arregalaram imediatamente.

— Não encostem nelas!

O homem riu.

— Então manda aquele vagabundo aparecer hoje nesse endereço.

Ele jogou um papel amassado no peito de Max.

— Ou voltaremos para cobrar de outro jeito.

Logo depois o empurrou no chĂŁo novamente.

— E nĂŁo tenta bancar o herĂłi com a gente. Sabemos onde vocĂȘs moram
 e conhecemos a vadia da sua mĂŁe tambĂ©m.

Os homens foram embora rindo.

Max permaneceu caĂ­do por alguns segundos.

Seu corpo tremia.

Não sabia se era medo, raiva
 ou cansaço.

Com dificuldade, pegou a mochila caĂ­da no chĂŁo e saiu do beco.

Assim que alcançou a rua principal, respirou fundo vårias vezes tentando se acalmar.

EntĂŁo viu ao longe as irmĂŁs caminhando para escola.

Seus olhos caĂ­ram diretamente sobre os sapatos gastos de Maira.

“
Nós parecemos mendigos.”

Aquela frase voltou como uma faca em seu peito.

Max apertou o pouco dinheiro que tinha no bolso.

Era praticamente tudo o que havia conseguido trabalhando até tarde na obra.

Mesmo assim
 entrou em uma pequena loja de calçados.

Escolheu dois pares femininos.

Depois comprou materiais escolares novos, cadernos, canetas e algumas outras coisas simples.

Quando saiu da loja, sobrou tĂŁo pouco dinheiro que mal daria para sua prĂłpria comida.

Mas ao imaginar as irmãs sorrindo
 sentiu que valia a pena.

Mesmo que elas nunca soubessem.

Quando chegou à escola, as aulas jå haviam começado.

Antes de entrar na sala, entregou as sacolas para a faxineira.

— A senhora pode entregar isso para minhas irmãs?

Ela olhou surpresa para os materiais novos.

— E por que vocĂȘ mesmo nĂŁo entrega?

Max sorriu sem jeito.

Um sorriso pequeno
 triste.

— Não quero que elas fiquem com vergonha de mim.

A mulher ficou em silĂȘncio por alguns segundos.

EntĂŁo segurou as sacolas com cuidado.

— Suas irmĂŁs deveriam sentir orgulho de vocĂȘ.

Max abaixou os olhos sem responder.

— Agora vá logo para sala — ela continuou com um sorriso gentil. — E boa sorte na prova.

— Obrigado


Max correu até a sala tentando recuperar o fÎlego.

O professor suspirou assim que o viu entrar.

— Novamente atrasado, senhor Max.

Alguns alunos começaram a rir baixo.

— Vá para seu lugar e comece sua prova.

Enquanto caminhava até a carteira, Max ouviu cochichos e piadas sobre suas roupas.

“Parece um mendigo.”

“Será que ele toma banho?”

“Olha esse tĂȘnis
”

Ele fingiu nĂŁo ouvir.

Sentou-se em silĂȘncio, pegou a caneta e começou a responder Ă s questĂ”es.

Mesmo cansado
 sua mente continuava funcionando perfeitamente.

Algum tempo depois, entregou a prova.

Ao voltar para a carteira, apoiou a cabeça sobre os braços.

O corpo finalmente cedeu ao cansaço.

E ele acabou dormindo.

Quando a aula terminou e os alunos saĂ­ram conversando, o professor se aproximou devagar da mesa.

— Max


O garoto despertou assustado.

— Desculpe, professor
 eu acho que dormi.

O homem observou atentamente as olheiras profundas, o rosto pĂĄlido e as mĂŁos machucadas do garoto.

— VocĂȘ ainda estĂĄ trabalhando na obra e fazendo bicos Ă  noite?

Max desviou o olhar.

— Sim
 mas isso não está atrapalhando meus estudos.

O professor suspirou.

— E realmente nĂŁo estĂĄ. Suas notas continuam excelentes
 vocĂȘ Ă© um dos melhores alunos dessa escola.

Max permaneceu em silĂȘncio.

— Mas seu corpo não vai aguentar por muito tempo.

O professor aproximou a cadeira e continuou mais baixo:

— VocĂȘ precisa permitir que o estado ajude vocĂȘ e seus irmĂŁos.

Imediatamente Max se levantou.

— Não!

Sua voz saiu desesperada.

— Eu consigo cuidar deles! Eu prometi isso!

O professor o encarou com tristeza.

— Max
 isso nĂŁo Ă© justo com vocĂȘ.

O garoto tentou sorrir.

— Eu estou bem.

Mas até aquele sorriso parecia cansado demais para continuar existindo.

O professor segurou delicadamente uma de suas mĂŁos magras.

— Quem estĂĄ cuidando de vocĂȘ?

A pergunta fez o silĂȘncio pesar na sala.

Max desviou os olhos rapidamente.

— Eu vou melhorar
 prometo.

Puxou a mĂŁo devagar.

— Só
 por favor
 não nos separe.

O professor sentiu o peito apertar ao perceber o medo verdadeiro nos olhos do garoto.

Mas Max apenas pegou sua mochila velha mais uma vez.

E saiu da sala sozinho.

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