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DESTINO NO MORRO
DESTINO NO MORRO
Autor: Lívia Prado

PRÓLOGO

Autor: Lívia Prado
last update Fecha de publicación: 2026-05-24 04:43:27

Dizem que o destino é uma linha invisível, tecida com fios que ninguém vê, muito antes de darmos o primeiro passo. Contam que, por mais que a gente tente fugir, mudar o percurso, apagar rastros ou enterrar o passado, ele está lá, esperando, para nos levar de volta exatamente ao lugar onde tudo começou.

Para mim, Vitória de Castro, essa frase nunca fez tanto sentido como agora.

Há anos, eu fiz de tudo para deixar São Paulo para trás. Carreguei nos ombros o peso da rejeição, a vergonha de ter sido tratada como lixo por pessoas que tinham riqueza, sobrenome e status, mas que nunca tiveram um pingo de caráter. Saí dessa cidade com a alma ferida, o coração em pedaços e uma promessa feita a mim mesma: jamais voltaria. Eu iria construir uma vida nova, bem longe das lembranças que me assombravam, longe de quem me humilhou e longe de tudo o que um dia me fez sentir menor.

E eu consegui.

Estudei como ninguém, passei no vestibular, me formei em Medicina e me tornei cirurgiã geral — uma das melhores na minha especialidade, se é que posso me gabar. Enfrentei noites sem dormir, plantões exaustivos, julgamentos e dificuldades, e conquistei o meu espaço no mundo. Mas a minha maior vitória, o meu verdadeiro troféu, foram eles: Gael e Melinda. Meus filhos, a razão de todo o meu esforço e o grande amor da minha vida.

Eles são a prova viva de que o que muitos chamariam de erro, foi o melhor acerto da minha história. Frutos de uma noite de caos, tiroteio e escuridão, onde eu confiei a minha vida a um desconhecido. Um homem que eu vi apenas uma vez, que não sabia o meu nome, nem eu o dele, além de um simples Guilherme. Loiro, de olhos azuis intensos, corpo de quem nasceu para lutar, uma voz grave que arrepia a pele só de ouvir, e uma presença forte que ficou gravada na minha memória por todos esses anos. Ele me deu o que ninguém mais conseguiu: tudo o que eu realmente amo.

Por muito tempo, essa foi a nossa realidade: eu, meus bebês e Lavínia, minha melhor amiga e irmã de alma, a única pessoa que restou de verdade na minha história. Uma família construída à base de luta, trabalho árduo, respeito e um amor incondicional que nos manteve de pé.

Mas o destino tem dessas coisas... de virar o jogo quando menos esperamos, de bagunçar os planos e nos colocar exatamente onde precisamos estar.

Hoje, estou aqui novamente. Pisando no mesmo chão que um dia me expulsou como se eu não fosse ninguém. Respirando o mesmo ar que um dia me sufocou de tanto sofrimento. Voltei por trabalho, voltei por necessidade, mas principalmente, voltei porque aprendi que não existe lugar no mundo onde eu possa me esconder de mim mesma, nem das minhas próprias histórias.

Só que eu não esperava encontrar o que me esperava.

Entrei na comunidade achando que seria apenas mais uma médica chegando para cuidar de vidas, apenas uma mulher tentando recomeçar do zero, em um lugar onde ninguém me conhecia. Mas ao cruhar o olhar com o homem que comanda tudo por aqui, que reina absoluto sobre o morro e todos que nele vivem, senti o chão desaparecer debaixo dos meus pés.

Ele está diferente, sim. Maior, mais forte, mais perigoso, carregando o poder no olhar e o respeito de todos ao seu redor. Mas tem os mesmos traços marcantes, a mesma postura imponente, e a voz que eu ouço nos meus sonhos e nas minhas lembranças há mais de sete anos.

Guilherme. O Grego. O dono do morro. E, acima de tudo, o pai dos meus filhos. O meu primeiro e único homem. E agora, o meu novo vizinho.

Eu achava que tinha voltado apenas para enfrentar os meus fantasmas antigos, para provar a mim mesma que já estava forte o suficiente para tudo. Mal sabia eu que o meu maior passado, o meu maior erro e o meu maior acerto, estava bem aqui, parado na minha frente, dono de tudo, poderoso, intocável... e ainda capaz de mexer com cada parte de mim com apenas um olhar.

Ele não sabe quem eu sou. Não faz ideia de que a médica que chegou para cuidar da sua gente é a mesma mulher que ele protegeu no meio de uma invasão policial anos atrás. Não faz ideia de que Gael e Melinda, as crianças que ele achou parecidas demais com ele, são os filhos que ele nunca imaginou existir.

Agora, o jogo virou completamente. E dessa vez, não há para onde correr.

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Último capítulo

  • DESTINO NO MORRO    CAPÍTULO 109

    Dor, revolta… era isso que sentia. Não conseguia aceitar, não queria aceitar. A dor era tão grande que parecia que meu peito estava se rasgando. Fecho e abro os olhos várias vezes, querendo que tudo isso seja um pesadelo — mas não é. É real. Minha menina foi morta. Conseguiram acabar comigo. Nada mais faz sentido. Não vou conseguir conviver com essa culpa. Meu único desejo é morrer para não sentir mais isso.— Vitória, vem. Olha o Gael — diz Arthur. — Ele está em choque. Tenta se controlar por ele.— Seu pai é um monstro. Conseguiu o que tanto queria: me destruiu.— Ei, vem comigo — ele fica na minha frente. — Ficar assim não adianta: não vai ser bom nem para você, nem para o Gael. Olha o estado dele. Vamos para sua casa.— Não dá… eu não consigo.— Sim, você pode. Vem. Laura vai levar o Gael. Não podemos ficar aqui — não sabemos o que eles ainda podem fazer.— Eu não me importo. Nada mais me importa.— Nem o seu filho? Veja o que ele está passando.Olho para o meu pequeno, sentado na

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