Compartir

A voz que não cala

last update Fecha de publicación: 2024-01-09 03:20:15

Analu

Eu precisava manter aquele emprego a qualquer custo para pagar o remédio caro da minha avó e as contas atrasadas da nossa casa pequena, mas o patrão arrogante, de olhos de mel e voz cortante, transformava cada minuto sob o mesmo teto em uma guerra silenciosa de orgulho e provocações.

Depois do confronto da hora do almoço, ele sumiu. Não apareceu no corredor, não mandou recado, não deixou nem o eco dos sapatos de sola fina no piso de madeira. Só voltou faltando dez minutos para o fim do expediente, como se o meu tempo fosse um detalhe descartável. Entrou no escritório da cozinha sem bater, soltou a frase seca e já deu as costas:

— Não jantarei em casa.

Senti o calor subir pelo pescoço. Aquele homem tinha o dom de chegar e tirar o ar do ambiente. Enquanto ele sumia pela porta, imitei a voz grave e autoritária, curvando os ombros e franindo a testa:

— “Não vou jantar em casa.”

Verinha, que secava a última panela, soltou um sorriso curto e balançou a cabeça.

— Ah, menina, tome juízo!

— Um pouco de humor não mata ninguém, Verinha. Desde que ele chegou, esta casa parece de luto. Eu hein. Deus é mais!

Juntei a bolsa, o fone e o casaco leve. Beijei a bochecha morena de Verinha, abracei Otávio — que cheirava a sabão e terra — e mandei um beijo no ar para Morgana. A menina ainda estava de cara fechada por causa do esporro da manhã, mas eu já planejava amolecê-la no dia seguinte com um bombom escondido no bolso. Cruzei o portão de ferro enferrujado e enfiei o fone nos ouvidos antes mesmo de pisar na calçada. A playlist alta, o baixo batendo no peito, era o único antídoto contra a abstinência forçada pelo “poderoso chefão”. A música preenchia os espaços que a arrogância dele esvaziava.

O caminho até casa era curto, mas cada passo trazia o cheiro de terra molhada e de flores do quintal. Quando abri o portão baixo — aquele que qualquer criança saltava —, o aroma da sopa de legumes subiu como um abraço. Parei um segundo, fechei os olhos e deixei o alívio descer pelos ombros tensos. Nossa casa era humilde: muro baixo, caminho de cimento rachado ladeado de comigo-ninguém-pode, copo-de-leite, espada-de-São-Jorge e um pezinho de rosa branca que a vó cuidava como se fosse ouro. A varanda tinha piso vermelho de barro, rede branca balançando e parede descascada. Dois quartos, um banheiro, sala e cozinha. No fundo, goiabeira, amoreira, manga-espada e a hortinha onde ela plantava tudo o que cabia. Um lugar que cheirava a paz e a resistência.

— Boa noite, minha vó! A sua bênção! — gritei assim que entrei, já vendo a silhueta fina na cozinha.

Ela se virou. Setenta e dois anos, cabelos brancos presos num coque frouxo, avental floral sobre a saia que batia nas canelas finas. Secou as mãos no pano e veio ao meu encontro. Beijou minha testa com a boca quente de quem acabara de provar o caldo.

— Deus te abençoe, minha neta. Como foi o serviço hoje?

— Vozinha, tenho babados pra te contar. Mas primeiro deixa eu tomar um banho. Depois a gente come essa sopa que tá cheirando até no portão.

O banho tirou o cheiro de cozinha alheia e o peso do dia. Vesti a camisola de algodão comprida — “pra espantar namorado”, segundo ela — e sentei à mesa. Dois pratos fumegantes, pedaços de pão duro para molhar, o vapor subindo e embaciando os óculos da velha. Minha avó tentara a vida inteira corrigir a minha boca nervosa, mas eu sabia a verdade: aprendera com ela. As respostas afiadas, o riso no meio do caos, a fé misturada com deboche — tudo vinha daquela mulher de setenta e dois anos que ainda plantava, cozinhava e enfrentava o mundo de cabeça erguida.

— Então vamos lá, Analu. Quais são esses babados?

Ri, agora que a humilhação já tinha virado história.

— A senhora acredita que eu tava na minha melhor performance de cantora de banheiro quando o patrão chegou?

— Meu Jesus Cristinho! E aí?

— E aí que o homem ficou uma fera. Insinuou que eu era menina demais e que não dava conta do serviço.

Ela arqueou as sobrancelhas brancas.

— Você não respondeu ele, né, Aninha?

— Ora, com toda certeza do mundo que sim. Mas o pior foi o confronto na hora de servir o almoço.

Contei tudo. A conversa “agradável” — e o sarcasmo na minha voz deixou claro o quanto não fora. A avó riu, mas os olhos já estavam preocupados.

— Ai, meu pai eterno, desse jeito você não fica lá nem mais um mês.

— Se eu não ficar, corro atrás de outro, vó. Preciso desse dinheiro. O remédio da senhora não paga sozinho.

Ela ficou em silêncio por um segundo, depois perguntou:

— Mas me conte: como é o seu patrão?

Fechei os olhos por um instante e vi a imagem dele saindo. Calça jeans preta, camisa social preta de manga longa, todo de preto. Só a luz nos olhos de mel queimava no meio daquela escuridão. Um homem bonito demais para ser tão odioso.

— Vó, ele é arrogante, prepotente e um grande babaca. E é só o que tenho pra falar.

— Só isso?

— Até o presente momento, sim. Tivemos pouco tempo hoje. Mas acredito que em breve ele me surpreenda com muitos outros defeitos. Porque é só isso que aquele homem tem.

Ela continuou tomando a sopa em silêncio. Mudei de assunto antes que viesse alguma pérola de conselho. Arrumamos a cozinha juntas: uma lavando, a outra guardando. Depois sentamos no sofá velho, assistimos a novela com o volume baixo e, às dez horas, já estávamos nos braços de Morfeu.

Mas o meu sono não veio fácil. Deitada no quarto escuro, ouvindo a respiração leve da avó no quarto ao lado, eu relia mentalmente cada palavra do patrão. A forma como ele me olhara de cima a baixo, o tom de quem não acreditava que eu aguentasse o tranco. Eu precisava daquele emprego. Precisava do dinheiro. Precisava provar — para ele e para mim mesma — que não era menina demais. Que a voz que ele tentava calar no banheiro ainda ia ecoar pela casa inteira.

Quando finalmente adormeci, sonhei com a melodia que cantava no banheiro e com os olhos de mel que me observavam do outro lado da porta.

No dia seguinte, ao abrir os olhos, senti o coração bater mais forte. Levantei, vesti o uniforme e, antes de sair, apertei a mão da avó com força demais, como se o toque pudesse carregar coragem até o portão da mansão.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • DROGA! CEO É UM BABACA EM BUSCA DO PRAZER   Último Capítulo e Epígrafe

    Alguns meses depoisPietro— RENAAAAAAATA, EU SOU EMPRESÁRIO, SOU GAY E NÃO PRECISO MAIS DISSO.— Mas você, além de tudo isso, é o meu amigo. Me ajude, eu não vejo mais a minha perereca, preciso depila-la e você começou assim. Não posso ter minha primeira transe com o meu marido parecendo uma ursa. — ela diz trancada no banheiro, enquanto eu ando de um lado para o outro, e Bruno está lá fora a esperando junto com os convidados.— Peça ao seu marido na lua de mel, tenho certeza que ele não vai se importar, mas agora você precisa sai daí e ir casar. Você já fez xixi cinco vezes, já deu.E enfim a porta do banheiro se abre, e lá está a pessoa mais bonita que já vi na vida. Seus cabelos loiros tem cachos, e seu penteado está com uma parte presa e o resto todo solto com uma linda tiara de pedras brilhosas. Em seu rosto uma maquiagem sutil, nos lábios um batom nude, e no corpo um vestido lindo todo rendado com uma enorme cauda de renda que também arrasta pelo chão. Seus pés? Esses que mais

  • DROGA! CEO É UM BABACA EM BUSCA DO PRAZER   Sou feliz!

    BrunoFaz meus hora que sai de dentro do hospital, eu sei que estou sendo um idiota, que estou me prestando ao pior papel que um ser humano poderia se prestar, em minha mente passam várias coisas para serem feitas, mas não tenho forças para poder saí de dentro do meu carro, que ainda está estacionado no mesmo lugar que cheguei, o hospital. Tento assimilar que eu serei pai, tento me imaginar tendo uma vida com Renata e um bebê, tal bebê esse que é o meu filho. Fecho os olhos e posso ouvi o seu choro, vê Renata amamentando em uma cadeira branco dentro de um quarto todo infantil, enquanto eu encostado na parede perco a minha noite de sono somente para poder ter o vislumbre do momento mais íntimo da vida de uma mulher com seu filho, e depois de algumas horas vê-lo feito um anjo adormecer em seu berço que parece enorme devido ao seu tamanho pequeno, e enfim após isso termos nosso momento íntimo. Talvez não conseguiremos fazer sexo devido a sua exaustão, mas ao final de tudo estará ao meu l

  • DROGA! CEO É UM BABACA EM BUSCA DO PRAZER   Amigo de verdade

    PietroEu estava em minha casa, quando recebo a mensagem de Renata, dizendo de suas suspeitas sobre uma possível gravidez. Na hora meu corpo gelou, e tentei saber mais detalhes, porém aquela safada me bloqueou por já saber que eu a encheria de perguntas até conseguir descobrir todos os detalhes, por mínimos que sejam. Minha ansiedade na hora atacou, e quando já estava a ponto de sai para espairecer uma surpresa invade a minha casa. Era Leonel, um antigo affaire, sinceramente nem sei como devo chama-lo, porque ele simplesmente desapareceu por meses, e agora ressurge do nada como se ainda fossemos íntimos. Sinceramente minha vontade era dá um ponta pé bem dado naquela bunda volumosa dele, mas fiquei pensando por um curto período de tempo, e então acabo percebendo que ele teria alguma utilidade para mim, além é claro de me ajudar momentaneamente a esquecer uma certa amiga louca que me bloqueia após jogar uma bomba em cima de mim, com a possibilidade de que eu poderia me tornar titio. Vej

  • DROGA! CEO É UM BABACA EM BUSCA DO PRAZER   De mal a pior

    BrunoEu não poderia deixa de perder a oportunidade de fazer o que tanto desejava, eu planejei e almejei por esse momento durante dias, enfim ele chegou. Minha casa, minhas coisas, todos os meus pertences e a mulher que amo ao eu lado. Tudo perfeitamente ajeitado e arquitetado, e sim eu jurava que seria diferente, acreditava que ela aceitaria meu pedido sem pestanejar, e como sabemos que não foi o que aconteceu, eu fique mexido, mas não fiquei satisfeito com sua resposta. Ela está incerta, indecisa, pendendo mais para o 'Sim', eu sei que ela queria dizer 'Sim', mas algo à impedia. Ela vomitou e após isso me deu um belo 'Não', então não me restou outra alternativa, eu precisava apelar, tinha que usar tudo o que podia, até porque eu não saberei lidar com esse 'Não'. Ansioso por conseguir o tão desejado 'Sim', usei todos os meus artifícios, tinha que levá-la a loucura e proporcionar à ela sensações e emoções jamais vivenciadas. Pode ter sido golpe baixo, mas assim eu fiz, eu usei vendas,

  • DROGA! CEO É UM BABACA EM BUSCA DO PRAZER   Ferrou!

    RenataNão consegui aceitar o pedido de Bruno, pelo menos não hoje, preciso primeiro descobrir se estou mesmo grávida ou não, porque eu não quero que ele pensei que casei com ele por interesse ou coisa do tipo. Mas meu coração está dilacerado, as coisas na minha vida acontecem muito rápido, em menos de um ano eu pedi um cara em namoro, me apaixonei por ele, pouco tempo depois ele foi embora, nos voltamos, brigamos e ele foi atrás de mim, fui pedida em casamento e ainda existe a possibilidade de eu está grávida. E de tudo isso, o pior foi sem dúvida a gestação. Enfim... Imaginem como está minha cabeça que já não regula muito bem. Bruno me oferece uma taça de champanhe, eu aceito, ele percebe o clima e começa a fala de assuntos aleatórios com a intenção de me distraí, mas confesso que não estou prestando atenção em nada do que ele está falando.— Renata, está acontecendo alguma coisa? — ele pergunta, mas não me dá tempo para responder, pelo visto ele estava nervoso e então engatou a fa

  • DROGA! CEO É UM BABACA EM BUSCA DO PRAZER   Medo

    RenataNunca, em toda a minha vida, eu fiquei tão constrangida como hoje, porque além de vomitar, eu ainda tenho o Bruno ao meu lado todo prestativo segurando meu cabelo enquanto eu colocava para fora toda a água de coco, que foi a única coisa que tomei o dia todo, devido a ansiedade de vir embora e a euforia de está com três novos diplomas nas mãos. Enquanto coloco até o meu fígado para fora, eu me lembro de algo e um frio na barriga me consome. "Não acredito que isso esteja acontecendo, eu não posso ter vacilado desse jeito, não posso." — penso já tomada pelo desespero, e me sinto cada vez pior pelo medo de não poder dizer nada à ninguém sobre minhas suspeitas, nem mesmo para o Bruno."Meu Deus, isso não pode ser real. Não pode!" — mais uma vez me recuso a acreditar, e tudo o que eu precisava naquele momento era ficar sozinha e pensar no que fazer.Então sem jeito e com a voz baixa, não encaro o Bruno e só falo:— Bruno, você não precisa ficar aqui. — digo na intenção de ficar soz

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status