FAZER LOGINEla olhou para a janela, lembrando-se da tentativa ridícula de escapar durante a madrugada. Ainda podia sentir a mão firme de Lucia segurando seu braço antes que ela escorregasse da beirada externa. Se a governanta não tivesse entrado naquele momento, Sofia talvez estivesse caída no pátio lá embaixo, com um tornozelo quebrado ou algo pior.
Idiota.
Corajosa, talvez.
Mas idiota.
A porta se abriu sem que ela autorizasse.
Sofia puxou o lençol instintivamente até o colo, embora ainda estivesse vestida. Lucia entrou carregando uma bandeja de café da manhã. Atrás dela, por um segundo, Sofia viu dois homens parados no corredor.
Então a porta se fechou.
— Bom dia, signorina — disse Lucia.
— Aqui ninguém b**e antes de entrar?
A mulher colocou a bandeja sobre uma mesa perto da janela.
— Eu bati.
— Eu não ouvi.
— Estava dormindo.
Sofia respirou fundo. A mulher parecia impossível de irritar. Havia uma tranquilidade quase militar em Lucia. Cabelos grisalhos presos em um coque baixo, vestido preto simples, postura reta, olhos atentos. Ela não parecia apenas uma governanta. Naquela casa, ninguém parecia apenas uma coisa.
— Não estou com fome — Sofia disse.
— Mesmo assim, deve comer.
— Isso é uma ordem?
Lucia olhou para ela sem demonstrar emoção.
— É bom senso.
Sofia desviou o olhar para a bandeja. Café forte, pão fresco, manteiga, frutas cortadas, queijo, um pequeno pote de geleia escura. Tudo perfeito. Tudo elegante. Tudo absurdo.
Como alguém servia café da manhã a uma prisioneira?
— Eu quero ir para casa — Sofia disse.
Lucia endireitou um guardanapo de linho.
— Isso não será possível por enquanto.
— Foi Dante quem mandou dizer isso?
— O senhor Bellucci não precisa mandar dizer o óbvio.
Sofia soltou uma risada seca.
— Você fala como se ele fosse Deus.
Pela primeira vez, Lucia parou.
— Não, signorina. Deus perdoa.
O silêncio que veio depois foi frio.
Sofia encarou a mulher, sentindo a pele arrepiar.
— Você tem medo dele?
Lucia não respondeu de imediato. Serviu o café em uma xícara pequena, colocou-a sobre o pires e só então disse:
— Tenho respeito.
— Não foi o que perguntei.
A governanta a observou com calma.
— Nesta casa, as pessoas inteligentes sabem que medo e respeito às vezes usam o mesmo rosto.
Sofia não soube o que responder.
Lucia caminhou até o armário e abriu as portas. Sofia viu vestidos que não estavam ali na noite anterior. Peças discretas, elegantes, em tons escuros e neutros. Roupas caras. Roupas que não eram suas.
— O que é isso? — perguntou, saindo da cama.
— O senhor Bellucci pediu que providenciássemos roupas adequadas.
— Adequadas para quê? Para uma execução?
Lucia pegou um vestido preto de mangas longas.
— Para o enterro do seu pai.
A frase arrancou toda a raiva de Sofia de uma só vez.
Ela ficou imóvel.
O enterro.
Por alguns minutos ao acordar, com o corpo pesado de cansaço e a mente confusa, a morte de Antonio Ricci havia parecido um pesadelo do qual ela ainda poderia acordar. Mas não era. Seu pai estava morto. E naquela manhã ela iria enterrá-lo escoltada pelos homens da família que talvez o considerasse traidor.
Sofia virou o rosto antes que Lucia visse seus olhos marejarem.
Tarde demais.
A voz da governanta suavizou quase imperceptivelmente.
— Sinto muito por sua perda.
Aquilo quase quebrou Sofia.
Não a violência de Dante. Não a ameaça. Não os homens armados.
A gentileza.
A simples gentileza a atingiu com força demais.
— Ele era tudo o que eu tinha — ela murmurou.
Lucia se aproximou, mas manteve uma distância respeitosa.
— Então honre-o ficando viva.
Sofia enxugou rapidamente o rosto.
— É isso que vocês fazem aqui? Transformam dor em ordem?
— Às vezes é a única forma de atravessá-la.
Sofia olhou para a governanta. Havia algo nos olhos dela. Algo antigo. Outra perda, talvez. Outra história enterrada naquela mansão de mármore e silêncio.
— Há quanto tempo você trabalha para os Bellucci?
— Tempo suficiente para saber quando alguém deve obedecer.
— E eu devo obedecer?
— Hoje, sim.
— Porque Dante mandou?
— Porque alguém quer matá-la.
O quarto pareceu encolher.
Sofia já sabia. Dante havia dito que homens seguiram seu táxi. A mensagem que recebera, porém, ela ainda não conhecia.
— Quem?
Lucia desviou o olhar por uma fração de segundo.
— Isso o senhor Bellucci explicará, se achar necessário.
Sofia se aproximou.
— Lucia.
A mulher encontrou seus olhos.
— Por favor.
A palavra saiu baixa. Desgastada. Humana.
Lucia segurou o vestido com mais força.
— Houve uma ameaça durante a madrugada.
O sangue de Sofia esfriou.
— Contra mim?
— Sim.
— O que dizia?
Lucia hesitou.
— Não devo...
— O que dizia?
A governanta respirou fundo.
— Que a filha do traidor não sobreviveria ao luto.
Sofia sentiu a parede às suas costas antes de perceber que havia recuado.
A filha do traidor.
Era assim que a chamavam agora.
Não Sofia.
Não filha de Antonio.
A filha do traidor.
— Meu pai não era traidor — ela disse, mas sua voz falhou.
Lucia não discutiu.
— Vista-se. O senhor Bellucci virá buscá-la em uma hora.
— Eu não quero que ele venha.
— Isso não muda o fato de que virá.
Lucia deixou o vestido sobre a cama e saiu em silêncio.
Sofia ficou parada no meio do quarto, olhando para a roupa preta como se fosse uma sentença.
Uma ameaça durante a madrugada.
Alguém a seguira.
Alguém sabia que ela estava ali.
Isso significava que, de alguma forma horrível, Dante tinha razão.
E Sofia odiou isso.
Odiou porque era mais fácil vê-lo apenas como carcereiro. Como arrogante. Como criminoso. Como um homem frio usando a morte de seu pai para controlar tudo ao redor.
Mas se havia mesmo homens lá fora querendo matá-la, então aquela mansão talvez fosse uma prisão — e também o único lugar onde ela continuava respirando.
Sofia tomou banho em um banheiro maior do que a cozinha de seu apartamento. A água quente caiu sobre seus ombros tensos, mas não conseguiu levar embora a sensação de sujeira que a morte havia deixado em sua pele. Lavou os cabelos, esfregou os braços, fechou os olhos e viu de novo o rosto do pai.
Antonio Ricci não era perfeito.
Era distraído. Teimoso. Reservado demais.
Mas havia sido bom para ela.
Preparava café forte todas as manhãs. Esquecia datas importantes, mas sempre aparecia com flores no dia seguinte. Reclamava quando ela voltava tarde, mesmo que soubesse que Sofia raramente fazia qualquer coisa perigosa. Guardava dinheiro em envelopes etiquetados. Lia jornal impresso. Chamava a filha de mia luce quando achava que ela estava triste.
Minha luz.
Sofia apoiou a testa no azulejo frio e chorou em silêncio.
Chorou até a água começar a esfriar.
Quando saiu, vestiu o vestido preto. Servia perfeitamente. Claro que servia. Homens como Dante Bellucci não erravam nem o tamanho de uma roupa.
Esse pensamento a irritou o bastante para recuperar parte da força.
Prendeu os cabelos em um coque baixo, deixando alguns fios soltos ao redor do rosto. Não usou maquiagem além de um pouco de pó para disfarçar o rosto pálido. Quando se olhou no espelho, viu uma mulher que parecia mais frágil do que queria.
Então ergueu o queixo.
— Você não vai quebrar — disse para o próprio reflexo.
A batida na porta veio exatamente uma hora depois.
Dessa vez, Sofia ouviu.
— Entre.
Dante abriu a porta.
E o ar mudou.
Era absurdo. Irritante. Injusto.
Ele entrou usando um terno preto impecável, camisa branca, gravata escura. Parecia vestido para um funeral, sim, mas também para uma guerra. O cabelo negro estava penteado para trás, a barba curta perfeitamente aparada, o rosto frio como mármore.
O olhar dele percorreu Sofia em silêncio.
Não de forma demorada. Não de forma vulgar.
Mas o suficiente para que ela sentisse o calor subir pelo pescoço.
— Está pronta? — ele perguntou.
— Não.
Ele ficou imóvel.
Sofia sustentou o olhar dele.
— Mas vou mesmo assim.
Algo quase parecido com aprovação passou pelos olhos dele.
— O carro está esperando.
— Antes, quero minha bolsa.
— Será devolvida quando for seguro.
— Tem meus documentos.
— Eu sei.
— Você revistou minha bolsa?
— Sim.
Ela abriu a boca, ofendida.
— Você não tem limites?
Dante pareceu considerar a pergunta.
— Tenho. Apenas são diferentes dos seus.
— Isso deveria soar melhor?
— Deveria soar verdadeiro.
Sofia passou por ele sem responder. Ao chegar ao corredor, os dois homens armados se endireitaram.
Ela parou.
— Eles vão também?
— Sim.
— Quantos homens são necessários para enterrar um contador?
Quando o juiz perguntou se Sofia aceitava Dante Bellucci, ela respondeu:— Aceito por escolha.Dante quase desmoronou ali.Quando perguntou se Dante aceitava Sofia Ricci, ele respondeu:— Aceito como mulher livre, mãe dos meus filhos e dona de si mesma. E prometo merecer a escolha dela todos os dias.Lucia chorou abertamente.Marco também, embora negasse depois.Naquela noite, Dante levou Sofia até o quarto que havia mandado preparar para eles na ala leste, mas que ela redesenhou completamente. Menos escuro. Mais claro. Cortinas leves. Livros. Flores. Uma poltrona confortável perto da janela. E, ao lado, um quarto ainda vazio, com duas pequenas mantas dobradas.Não compraram berços ainda.Sofia disse que queria escolher com calma.Dante já havia mandado vir trinta catálogos de móveis infantis de toda a Europa.Ela ameaçou queimá-los.Ele ficou com três.Progresso.Meses depois, em uma madrugada de chuva, os gêmeos nasceram.Não em uma mansão sitiada.Não em uma sala secreta.Mas na cl
A palavra ficou entre eles.Não como prisão.Não como reivindicação.Como rendição.Dante continuou:— Eu amo você. Não como meu pai amou, se aquilo era amor. Não como Enzo entende posse. Não como a aliança escreve em contrato. Eu amo você do único jeito que estou aprendendo: tentando escolher sua liberdade mesmo quando meu medo quer te guardar do mundo.As lágrimas desceram pelo rosto de Sofia.Dante apertou sua mão.— Não precisa responder agora.Ela riu chorando.— Claro que você diria isso depois de me fazer chorar.— Estou tentando não exigir nada.— Eu sei.Ela se sentou também.— Eu amo você, Dante Bellucci.O rosto dele mudou.Foi pequeno.Devastador.Como se ninguém tivesse dito aquilo de forma que ele pudesse acreditar.— Sofia...— E estou com medo disso.— Eu também.— E ainda vou brigar com você.— Eu sei.— E vou te impedir de virar muro.— Por favor.— E se você chamar nossa história de erro de novo, eu mesma te jogo no Tibre.Pela primeira vez, Dante riu.Baixo.Real.
— Nunca fui simpática.Dante levantou-se.— Notícias.Marco ficou sério.— O porto está limpo. Oito mulheres resgatadas do Santa Aurelia. Três em estado grave, mas vivas. Valentina Esposito está sedada, sob proteção de Lorenzo. Bianca Bellucci está estável. O traidor do carro foi levado para interrogatório. Paolo está preso. Enzo desapareceu.O ar da sala mudou.Sofia sentiu a mão de Dante se fechar.— Algum rastro? — ele perguntou.— Parcial. Ele saiu do porto antes da operação terminar. Provavelmente por túnel de serviço. Mas deixou documentos falsos, sangue e um recado.Sofia fechou os olhos.— Outro?Marco assentiu.Dante estendeu a mão.— Mostre.Marco entregou o tablet.Dante leu em silêncio.Sofia observou o rosto dele para medir o perigo antes de pedir para ver. O rosto dele fechou, mas não se desfez em fúria. Isso já era alguma coisa.— Sem segredos — ela lembrou.Dante virou o tablet para ela.A mensagem era curta.Você salvou o navio, Bellucci. Mas a Mano Nera não vive em n
Ele hesitou.Ela apertou a mão dele.— Sem segredos.Dante entregou o bilhete.Sofia leu.Primeira tentativa falhou. Mas agora sabemos que a mãe sangra, o pai treme e os herdeiros sobrevivem. A próxima caçada será dentro do lugar que vocês chamarem de seguro.Sofia sentiu o frio voltar.A médica praguejou baixinho.Marco ficou sombrio.Dante pegou o bilhete de volta e o dobrou devagar.Não explodiu.Não gritou.Não ordenou que Sofia fosse trancada.Apenas olhou para ela.— Você precisa descansar.— Sim.— E precisamos encontrar Enzo.— Sim.— E descobrir quem mais está dentro.— Sim.Dante tocou o ventre dela com cuidado.— Mas não vou transformar isso em jaula.Sofia sentiu lágrimas novas.— Eu vou cobrar.— Eu sei.Ele olhou para Marco.— Ninguém volta para a mansão sem nova verificação. Ninguém entra no círculo de Sofia sem Raffaella aprovar. Quero Bianca Bellucci levada para local médico seguro e separada de qualquer funcionário antigo. Valentina também. As mulheres resgatadas fic
Lorenzo respondeu:— Ouvi isso.— Era para ouvir — Dante disse.Sofia quase chorou e riu ao mesmo tempo.Na tela de Lorenzo, a imagem corria pelos corredores enferrujados do depósito. Porta arrombada. Sala vermelha. Bianca Bellucci amarrada. Temporizador: quarenta e nove segundos.Lorenzo entrou.— Senhora Bellucci.Ela olhou para ele, sangrando, mas viva.— Ferraro?— Infelizmente.— Você tem a cara do seu avô. Não gostei dele.— Ninguém gostava.Ele cortou as amarras com uma faca.— Bomba? — ela perguntou.— Sim.— Desarme?Lorenzo olhou para o mecanismo.— Sem tempo.— Então corra, menino elegante.Ele a levantou nos braços.Sofia prendeu a respiração.Quarenta segundos.Trinta.Lorenzo correu.A câmera balançava.Bianca Bellucci gemia de dor, mas não gritava.Vinte.Dez.Lorenzo se jogou para fora da porta lateral com ela nos braços.A explosão iluminou a tela.O sinal caiu.— Lorenzo! — Sofia gritou.Silêncio.Dante saiu do porão no mesmo instante, olhando para a direção do depós
— Enzo.— Parabéns pelo resgate. Sofia deve estar orgulhosa.A câmera cortou para o veículo de comando.A imagem de Sofia apareceu na tela do navio.Ela prendeu a respiração.Marco ficou pálido.— Ele invadiu nossa câmera interna.Raffaella se colocou imediatamente diante dela.Mas era tarde.Enzo tinha visto.— Ah, aí está ela — ele disse, com satisfação. — A mãe dos herdeiros. A noiva marcada. A mulher que Dante tenta fingir que não possui.Dante falou pelo rádio:— Marco, corte transmissão.— Tentando.Enzo continuou:— Não corte ainda. Sofia precisa ouvir a parte importante.Sofia pegou o comunicador.Dante disse:— Não responda.Ela respirou fundo.— Se ele quer falar comigo, que fale.Dante ficou em silêncio.Muro ou abrigo.Ele escolheu não impedir.Enzo sorriu na tela.— Corajosa como sempre.— Covarde como sempre — Sofia respondeu. — Aparecendo em tela enquanto outras pessoas sangram.O sorriso dele diminuiu.— Toque elegante. Mas você ainda não entende. Este navio não era ap







