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Capítulo 3

Author: Serein M
Parei de arrumar a mala e me virei para encará-lo. Se eu ia embora para sempre, então era melhor dizer tudo de uma vez.

— Acho que nós deveríamos —

— Lá vamos nós de novo — Damien zombou, interrompendo-me. — Outra birra, outra mala arrumada. Quantas vezes você ainda vai fazer esse teatro, Serena?

— Não é uma birra! — tentei explicar. — Eu recebi uma —

— Não quero ouvir suas desculpas. — Ele acenou com a mão, como se estivesse espantando uma mosca.

— Se você quer ir embora, então vá. Desta vez eu não vou te impedir.

Não vou te impedir...

As palavras atravessaram meu coração.

Minha loba soltou um uivo de dor. O vínculo de companheiros entre nós não apenas rachou. Ele se estilhaçou. Uma onda de náusea me atingiu, mas do lado dele… nada. Ele não sentiu nada.

— Tudo bem — eu disse, voltando para minhas roupas. — Vou ficar na casa de uma amiga por alguns dias. Assim nós dois podemos esfriar a cabeça.

— Tanto faz — ele murmurou, e a porta bateu atrás dele.

Desabei na beira da cama, e finalmente as lágrimas vieram.

No dia seguinte, fui até os Anciãos e protocolei rapidamente o pedido para romper o vínculo de companheiros.

Quando voltei para o meu quarto, ouvi Lila e Damien rindo no andar de baixo. Eles tinham acabado de voltar de um passeio de compras.

Lila exibiu inúmeras peças de luxo que Damien havia comprado para ela, brilhando como uma princesa triunfante.

Eu me escondi no meu quarto, os olhos fixos em uma pequena redoma de vidro sobre a minha penteadeira. Dentro havia uma única flor seca.

Uma Flor da Primeira Lua.

O presente que Damien me deu quando confessou seu amor pela primeira vez. Ele disse que ela florescia apenas na noite de lua cheia — rara e especial, assim como o nosso amor.

Virei o rosto, enxugando as lágrimas, tentando não me importar. Mas, naquele instante, a porta se abriu de repente, e Lila entrou cambaleando. Seu pé pisou diretamente na redoma de vidro.

CRASH.

O vidro se estilhaçou — junto com a flor.

— Ops, sinto muito — ela disse, cobrindo a boca. Mas não havia arrependimento em seus olhos. — Eu só queria te ver…

— Você fez isso de propósito! — avancei em sua direção.

— Damien! — Lila imediatamente começou a chorar, correndo para os braços dele quando ele entrou apressado no quarto.

— Eu não quis…

Ajoelhei no chão, minhas mãos tremendo enquanto tentava recolher as pétalas esmagadas.

Era a primeira e a última prova do nosso amor.

A voz de Damien estava carregada de irritação.

— Serena, é só uma flor morta. Pare de ser dramática.

Só… uma flor morta?

Naquele momento, meu coração se transformou em pó junto com ela.

Baixei a cabeça e sussurrei:

— Desculpa. Eu vou limpar.

Naquela noite, Damien bateu na porta do meu quarto.

Ele segurava uma pequena caixa bordada. Dentro havia um Amuleto da Alma da Lua, brilhando com uma luz suave. As Pedras da Alma da Lua eram encontradas apenas perto dos Poços da Lua, um mineral raro capaz de nutrir e acalmar o espírito de um lobo.

— Para você — ele disse, estendendo-o. — Eu sei que a flor era importante para você. Isso é para compensar.

Eu não peguei. Apenas fiquei olhando para ele, com o coração gelado. Ele realmente achava que podia simplesmente compensar tudo com algo caro?

— Serena — ele disse, perdendo a paciência quando não me movi. Colocou o amuleto sobre a mesa, sua voz ficando dura.

— Eu sei que você ainda está irritada por causa do assento no conselho. Assine o acordo de transferência, e este amuleto será seu. Ele vai ajudar a reparar a sua loba ferida. É para o seu próprio bem.

Ele tirou um pergaminho de pacto de sangue, um contrato ligado magicamente às antigas tradições dos lobos, impossível de quebrar.

Acordo de Transferência do Assento do Conselho da Alcateia. Ele estava me subornando. Usando um tesouro que poderia curar minha loba para me chantagear e me fazer assinar a entrega da minha dignidade. A ironia era um veneno que eu não conseguia cuspir.

— E se eu não assinar? — perguntei, olhando para ele, com voz rouca.

— Então você está sendo ingrata — ele disse, sua expressão ficando fria. — Serena, não me obrigue a usar o meu comando Alfa.

Não o obrigue...

Então era isso que havíamos nos tornado. Uma relação sustentada por poder e ameaças.

Meus dedos tremiam enquanto eu feria levemente minha pele e pressionava minha impressão digital ensanguentada no pergaminho.

— Ótimo. — Ele pegou o documento, um sorriso satisfeito finalmente surgindo em seu rosto.

— Eu sabia que você entenderia.

— Você pode ir agora — eu disse, virando as costas para ele.

Ele hesitou na porta.

— Serena, talvez um tempo separados seja bom para nós.

A porta se fechou novamente. Encarei o Amuleto da Alma da Lua brilhando sobre a mesa. Sua luz parecia ofuscante.

Na manhã seguinte, enquanto me preparava para ir embora de vez, o calendário sobre a mesa de cabeceira chamou minha atenção.

Ah, é mesmo. Nosso aniversário de vínculo de companheiros.

Damien havia prometido passar todos os aniversários comigo no restaurante onde tivemos nosso primeiro encontro.

Se eu não aparecesse… será que ele ficaria magoado?

Depois de pensar um pouco, eu fui.

O voo seria à noite. Ainda havia tempo.

Usei o vestido que ele sempre dizia ser o seu favorito.

Esperei das sete até as dez.

Ele nunca apareceu.

Nenhuma resposta pela nossa conexão mental. O telefone dele estava desligado.

Quando saí do restaurante, perdida e de coração partido, o Beta de Damien ligou.

— Luna, peço desculpas. O Alfa decidiu levar a senhorita Lila para a Cúpula dos Lobos da Aurora Boreal. O jato particular deles acabou de decolar.

Aurora Boreal… a cúpula. O lugar mais romântico do mundo para companheiros de lobos.

No nosso aniversário, ele levou outra loba para lá.

Voltei para a mansão vazia, com todas as minhas forças drenadas. Sentei-me à mesa e escrevi para ele uma última carta. Quando terminei, fechei os olhos. Reuni o pouco de força de vontade que ainda me restava e mergulhei profundamente dentro do meu peito, em direção ao vínculo de companheiros que conectava nossas almas. Antes ele era quente e cheio de vida. Agora era apenas um fio frio e frágil.

Era hora de eu mesma rompê-lo.

Alcancei aquele fio frio e moribundo dentro de mim… e PUXEI.

Uma agonia explodiu no meu peito. Um grito rasgou minha garganta quando minha própria alma foi rasgada ao meio.

Cerrei os dentes, abraçando a tortura. Com um último puxão brutal, ele se rompeu.

O espaço no meu peito ficou subitamente vasto e vazio, como se uma parte de mim tivesse sido arrancada para sempre. Uma sensação esmagadora de perda me invadiu, mas junto com ela veio uma estranha e nova leveza.

Então arrastei minha mala para fora da mansão que guardava todo o meu amor e dor, e fui embora.

No avião rumo à sede de The Talons, observei as nuvens girando pela janela. Eu conseguia sentir minha loba, fraca, mas finalmente… completamente minha.

Me pergunto como será sua expressão, Damien, quando você acordar sob a Aurora do Norte e sentir metade da sua alma sendo arrancada.

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