FAZER LOGINA mulher me convida a entrar com um gesto. Eu nem pisco. Entro e me sento diante dela com as pernas cruzadas, onde pouso minha bolsa com finesse. Permaneço por alguns segundos olhando para ela que analisa meus documentos com atenção. Ela vira página por página devagar, parece procurar por alguma informação importante.
Finalmente ela fecha a pasta, cruza os dedos sobre a mesa e me aprecia condescendente.
― Jéssica, é uma pena, realmente é uma pena que eu não tenha entrevistado você antes.
Ai, droga. Estico um sorriso trêmulo.
― Por quê? O que aconteceu? Não estou entendendo.
Ela põe o cabelo preto e liso para trás da orelha e digita alguma coisa no computador.
― Jéssica, a vaga que tínhamos era perfeita para você, de gerente de enfermagem.
― Sim, sim. Eu vim do Rio de Janeiro para cá especificamente para essa entrevista. Eu tenho todos os requisitos exigidos para o cargo. ― Eu pareço desesperada pela vaga, mas, que se dane. Estou desempregada e cheia de dívidas. Me humilho se for necessário.
Ela interrompe o que está fazendo e me encara piedosa.
― Sinto muito, Jéssica. Eu fiquei realmente impressionada com o seu currículo, mas a outra candidata foi pontual e possui as mesmas qualificações que você. ― Ela suspira e inclina a cabeça de lado. ― Sinto muito.
Não sei o que dizer e nem o que pensar. Mas que droga! Eu já disse que estou falida? Saí do Rio de Janeiro desempregada, traída e cheia de dívidas. O que me resta?
― Olha, tem certeza? Não tem como reconsiderar? Tipo, você gostou de mim, não foi? Eu sou perfeita para o trabalho. Eu só tive um acidente de percurso. Não foi minha culpa ter ficado trancada no banheiro, sabe?
Cara, eu acho que falei demais, porque a mulher está pálida e me contempla de um jeito esquisito. Bingo! É isso! Ela deve estar pensando que eu quero processar o hospital por ter ficado trancada no banheiro. Até que não é má ideia, afinal, perdi o emprego por causa do trinco defeituoso.
Abro um sorriso vitorioso e me recosto na cadeira, à espera que um prêmio seja colocado no meu colo.
Ela levanta o dedo indicador e recomeça a digitar um monte de coisas no computador. E eu aguardo pacientemente pelo bônus que receberei pela minha astúcia e paciência.
Ela de repente para e me olha esperançosa.
― Jéssica, me diga… você estaria disposta a enfrentar novos desafios?
O sol brilha dentro de mim. Desencosto da cadeira e me inclino para a frente.
― Sim, com certeza! Eu adoro novos desafios.
Ela abre novamente a pasta com meu currículo e outros documentos e os lê novamente com ainda mais atenção. Isso está ficando muito bom. Consigo vislumbrar os novos terninhos brancos que eu comprarei para compor o meu visual de gerente de enfermagem do Hospital Pamplona. E eu posso trocar de carro! Vou alugar um apartamento maravilhoso e enorme aqui do lado. Vai ser mágico caminhar para o trabalho apenas um ou dois quarteirões em vez de pegar o metrô lotado todos os dias, com gente feia e fedorenta, como era no Rio.
― Estou vendo aqui que você trabalhou por um ano na pediatria. Poderia me falar a respeito?
― A pediatria? Foi bom, como um todo. Era desafiador trabalhar com crianças, você sabe, nunca é bom ver um pequenino internado no hospital, mas eu dei o meu melhor.
Será que ela vai me dar a gerência da pediatria? É um desafio de fato, mas normalmente são bons lugares para se trabalhar.
O sorriso dela me deixa apreensiva, não sei porquê.
― Eu encontrei o trabalho perfeito para você, Jéssica. E tenho certeza que você vai adorar.
Me ajeito na cadeira em expectativa.
― Olha, que bom. Já estou animada. ― Digo esfregando as mãos.
O sorriso é igual ao meu quando tento agradar alguém. Não gosto disso.
― Jéssica, não sei se você tomou conhecimento, mas recentemente, houve uma mudança na diretoria do hospital.
É uma uma informação que eu deixei escapar…
― Sim, sim. Escutei algo ventilando pelos corredores do antigo hospital em que trabalhava.
Ela sorri satisfeita.
― Perfeito. Então você já sabe que o novo CEO e proprietário da Rede Hospitalar Pamplona é o sobrinho neto do doutor Arquimedes, falecido há uma semana.
Eu assinto com a cabeça.
Ela digita loucamente no computador. E meu celular faz um som de mensagem.
― Fui eu, pode ler e confirmar que recebeu o endereço, por favor?
Eu não estou entendendo absolutamente nada, mas, obedeço a mulher. Abro a bolsa e pego meu iPhone 17, que a propósito eu ainda estou pagando e confiro a mensagem recebida.
“Entrevista com o senhor Alexander Pamplona, CEO do grupo Pamplona, às 16 horas do dia 17 de agosto para a vaga de babá. Endereço: Jardim Paulista próximo ao Parque Ibirapuera”
Como é que é? Ergo os olhos para a entrevistadora com minhas entranhas novamente borbulhando, só que dessa vez não é de algo estragado que eu comi.
― Dona, qual o nome da senhora mesmo?
Ela vira a cabeça de lado como um cachorro salsichinha.
― É Milena. Eu sou a psicóloga do grupo e gerente do RH, como você sabe.
Balanço a cabeça vagarosamente.
― Então, Milena… Deve ter acontecido alguma confusão aí nos papéis. Você está me encaminhando para uma vaga de babá. Eu não sou babá.
Estico o meu sorriso dente a dente novamente, para evitar xingar a querida.
Ela percebe que eu não estou gostando. É óbvio.
― Jéssica, ― ela se levanta e dá a volta em sua mesa parando bem na minha frente. ― É imperioso ressaltar que embora esse não seja bem o cargo para o qual você se candidatou, esse é bem melhor. ― E ela enfatiza o “bem melhor” de uma forma assustadora.
O ângulo em que ela para na minha frente me faz olhar para cima e é incrivelmente incômodo por diversas razões.
― Tá bom… Me conte como é esse bem melhor, Milena.
Ela se recosta na mesa de madeira cara. Essa mesa definitivamente é bem cara.
― Que bom que você está aberta a saber melhor sobre a vaga, Jéssica. É para acompanhar a irmã mais nova do CEO. E como ele quer o melhor para a irmãzinha, o salário para a babá é de dez mil reais.
E ela faz um silêncio triunfal após me dar a informação.
― Tem certeza de que o seu irmão vai concordar com isso, Maria Luiza?A menina está deslumbrada aqui no shopping. Se eu fosse bilionária, como ela é agora, eu estaria também. Então, não posso julgar.Eu estou com o cartão Black do Alexander e já entramos nas melhores papelarias, lojas de mochilas e livrarias. E já gastamos um dinheirão.Para uma criança que cresceu no interior, a danadinha tem um gosto bem apurado. Escolheu uma mochila e uma merendeira cor-de-rosa combinando, repletas de borboletas e vários detalhes purpurinados, o uniforme da escola, ela experimentou e pediu para ajustar o tamanho.Com o sobrenome e a grana que ela tem, a vendedora já mandou os uniformes, mais de um, para as costureiras arrumarem enquanto compramos o restante do material e almoçamos. Mais tarde voltaremos lá e estará tudo pronto. Afinal, amanhã ela já começará a frequentar a escola.― O meu irmão já deixou, Jéssica. E ele sabe muito bem que eu preciso estar apresentável na escola. Já conversamos a re
Saio do ateliê carregada de sacolas de tamanhos variados. O senhor Alexander foi mesmo generoso comigo. Quando eu trabalhava no hospital eu tinha o uniforme da unidade, no entanto, eu desembolsava os custos do uniforme e dos meus calçados. Agora, não. Além das roupas serem belíssimas, eu ainda recebi dois pares de sapatos de couro legítimo de primeira qualidade.Agora eu preciso me encontrar com a Maria Luiza para comprar o material escolar dela. Pego um táxi que em pouco tempo me deixa na mansão Pamplona.Sou recebida por uma menina bonita, de banho tomado e pronta para sair. Um vestido cor-de-rosa simples adornado por um laço de fita na cintura e uma sapatilha da mesma cor dão a ela um ar angelical. O cabelo está com duas tranças amarradas com laços de fita também cor de rosa e ela está sentada no sofá brincando com um pote de vidro.― Nossa, que moça bonita e arrumada! Dá para sentir daqui o cheirinho de xampu. Foi seu irmão que te arrumou?Ela me repreende com os olhos.― Eu sou u
“Alexander”Eu tô muito encafifado com essa novidade. Minha mãe estudou nessa escola chique? Como isso é possível? Ela sempre foi uma mulher simples, cuidava da casa como uma mãe normal, fazia comida, limpava a bagunça, alimentava os animais e vivia feliz com o meu pai.Mas, pensando bem, ela nunca comentou sobre o passado. Eu não conheci meus avós ou primos. E nunca vi necessidade, pois tinha vizinhos e amigos que frequentavam a minha casa e eu as deles.― Está tudo bem, senhor Alexander?Carlos me desperta dos pensamentos.― Para onde estamos indo, Carlos?Nossos olhares se cruzam pelo retrovisor.― O senhor já se esqueceu? Vamos ao alfaiate e depois o senhor tem horário com o barbeiro.Sinto um frio na barriga. Eu não tô acostumado com essas frescurada de homem rico, não. Fecho os olhos com força e só penso em minha irmã. Eu não posso decepcioná-la. Essa chance nos foi dada e eu sou o responsável por ela.Me encho de coragem e abro os olhos.― Perfeito, Carlos. Mal posso esperar.E
Uma loja de uniformes profissionais. Reviro os olhos. Deve ser aquela roupa de empregada, brega e humilhante. Pensa, Jéssica. Vai economizar as suas roupas, fora que ninguém tem nada a ver com a sua vida e você vai ganhar muito mais que várias mulheres que trabalham de terninho e vestidos caros.Melhor eu me conformar logo com essa história de uniforme. A loja fica na Avenida Paulista e é simples. Vitrines de ambos os lados com uniformes variados e uma vitrine central com calçados. É, até que as roupas daqui não são tão xexelentas.― Bom dia, posso ajudar?Um senhorzinho baixinho e encurvado vem me atender.― Oi, bom dia. Disseram lá no meu trabalho para eu vir aqui buscar o meu uniforme.Ele me examina com cuidado. Deve ter mais de oitenta anos. Ele caminha com passos incertos em direção ao balcão. Gente, é sério que esse vovozinho ainda trabalha? Deveria ficar em casa cuidando dos netinhos.― A senhorita é a babá da família Pamplona, não é? Senhorita Jéssica Belmonte.Ele confere as
“Alexander”― Tá ansiosa para conhecer a nova escola, Malu?Maria Luiza só balança a cabeça para cima e para baixo e não diz nada. Eita menina turrona, sô. Mas tenho certeza que ela vai gostar da escola. É papa fina aqui no bairro dos bacana.― Agradecido, Carlos. Vai tomar um café na padaria. Quando terminar, mando mensagem procê.― Entendido, senhor Alexander. ― Carlos se vira para a Malu. ― Senhorita Maria Luiza, esta escola é muito boa e é perto de sua casa. Vai dar tudo certo, viu?― Obrigada, Carlos.A Malu tá meio amuada. É fácil de se entender. São mudanças radicais demais para uma criança pequena. Cresceu indo pra escola pública do bairro, com crianças molecas iguais a ela. Espero sinceramente que dê tudo certo para a minha irmã.A escola é enorme e foi muito bem recomendada. Aqui estuda a elite de São Paulo. Dá para ver que as crianças são mesmo de outra classe. Mas no fim, são todas crianças. Correndo, pulando, trocando figurinhas.E eu tenho certeza que meus pais aprovaria
Então este é o meu quarto. Até que é bem bonito.Mentira.É maravilhoso! Infinitamente maior que os quartos que tive em toda a minha vida! Tudo nesta casa é no superlativo! Sinceramente? Eu quero aproveitar este lugar o máximo que eu puder!O quarto é amplo, tem uma janela enorme que pega o sol da manhã e dá para um jardim belíssimo que ocupa a parte da frente da casa. O banheiro é imenso! Tem uma ducha forte, igual às de hotel, que quando bate no corpo chega a doer! Só não tem a hidromassagem, né… A hidro é no quarto do chefe… Mas tudo bem. O que eu tenho aqui está bem distante da minha realidade até hoje.E maldita Alda! Foi investigar a minha vida! Não que eu seja uma criminosa, mas tenho um passado. Meu pai é um presidiário. E minha mãe… Ah, nem quero pensar mais neles. Pertencem ao passado.Agora, depois desse banho quente e gostoso, vou me arrumar para o jantar. A Alda já me deu as coordenadas para amanhã. Na parte da manhã, irei à loja que ela indicou pegar meu uniforme de babá







