MasukELZIAN
Eu não sabia o que era mais sufocante: o calor da vergonha queimando minha pele ou o aperto no peito pela forma como Marcelo me olhava. Eu queria fugir, desaparecer, esquecer que tudo isso estava acontecendo. Mas ali estava eu, afundada no peito dele, chorando como uma adolescente desesperada — talvez eu ainda seja uma adolescente desesperada. — Me desculpa — Pedi enxugando os olhos. — Eu não sei onde estava com a cabeça. Acho que sou suja demais nesse meio todo. — Não precisa se desculpar. — ele disse com a voz rouca, firme, quase autoritária. — Você não é suja, Elizian. Não ouse se comparar a eles. As pessoas se esgotam, você também é humana e está passando por muitas coisas ao mesmo tempo. Fechei os olhos com força. As palavras dele me atravessavam como uma corrente elétrica. Eu queria acreditar. Queria, de verdade. Mas, e se eu fosse o erro ali? Eu só preciso de um tempo até tudo ficar bem. Preciso ficar longe de toda essa bolha enorme que me prende aqui. — Saiba que pode contar comigo sempre que precisar. Está me entendendo? — Eu queria muito fazer isso, mas como posso fingir indiferença? — Mas olha só pra nós... — minha voz saiu falha, trêmula. — Você é o pai do Fred. Como isso pode estar certo? Com tantas outras pessoas, eu me entreguei a você mesmo que isso seja errado, eu não me sinto errada. Ele não desviou. Pelo contrário. Segurou meu rosto com as duas mãos, me obrigando a encará-lo. — Não é. — Marcelo admitiu sem rodeios. — Não é certo. Mas desde quando a vida nos dá o que é certo? Desde quando o coração segue regras? E você não é propriedade de ninguém, Elizian. É livre, independente e uma grande mulher. Meu estômago revirou. Eu sentia que cada palavra dele quebrava mais um pedaço da muralha que eu construí para me proteger. E eu jamais me senti tão valorizada em tão pouco tempo. Seria carência do que eu sempre almejei e nunca tive? Pode ser, mas não deixa de ser... diferente. — Você me assusta. — confessei, mordendo o lábio. Sem desviar os meus olhos dos seus. — E você me enlouquece, mas do que pode imaginar — ele rebateu, sem um segundo de hesitação. O semáforo abriu, mas nenhum de nós se moveu. O carro atrás buzinou, e Marcelo apenas respirou fundo antes de arrancar. O silêncio que se seguiu foi tão intenso que o som da minha respiração acelerada parecia ecoar dentro do carro. Nervosismo, tensão, arrependimento e ansiedade para sentir seu beijo novamente. Quando chegamos em frente à empresa, ele estacionou, mas não desligou o motor. Como se fosse um segurança, manteve seus olhos em mim. — Elizian — chamou meu nome como se fosse um segredo. — Você tem duas escolhas agora. Fingir que isso nunca aconteceu... ou me deixar provar que você merece algo muito maior do que dor e traição. Eu sou homem o bastante para saber o que eu quero, e eu quero você. O nó na minha garganta me impediu de responder. Segurei a maçaneta da porta, mas minha mão tremia tanto que parecia que meu corpo me traía. — Eu... acho que preciso ir... — sussurrei. Marcelo inclinou-se lentamente, os olhos fixos nos meus, e antes que eu pudesse evitar, os lábios dele roçaram nos meus com uma intensidade calma, sem pressa. Não era o beijo ardente das noites de vinho, era diferente. Era um pedido. Um pedido para eu não fugir. E eu não iria fugir.. MARCELO Aquele beijo era a última coisa que eu deveria ter dado a ela. Mas também era a única coisa que eu não poderia ter evitado. Havia uma fragilidade em Elizian que me destruía por dentro. Eu já havia visto mulheres chorarem, já havia consolado muitas. Mas nenhuma tinha me feito sentir tanto medo de perder quanto ela. Era para ser apenas um encontro casual, e em tão pouco tempo parece que eu já a conheço há anos. Parece que ela já me pertence há séculos. Quando me afastei, vi o turbilhão em seus olhos verdes. A tensão misturada a perdição de si mesma. Doloroso de ver, mas eu não posso fazer nada em relação aos seus sentimentos. — Eu preciso de tempo... — ela murmurou. — Se eu me entregar de novo, vou me perder. E você não faz ideia do quanto eu quero me perder em você. Eu acariciei sua mão e ela apenas assentiu. — Então eu espero. — disse firme, e pela primeira vez em anos, percebi que não estava apenas dizendo. Eu realmente esperaria, porque não tem nada que eu queira além de estar ao seu lado. Ela saiu do carro sem olhar para trás. Mas quando fechou a porta, vi seu reflexo no vidro. O olhar era de quem também não queria ir embora. E naquele momento eu soube: nada entre nós seria simples. Passei o resto do dia pensando nos meus negócios. Assinando papéis, respondendo e-mails e telefonemas, até que eu parei rindo do que estava fazendo e fui dar atenção ao que realmente importava. Mas isso não durou por muito tempo, porque antes que eu fizesse algo, ela já estava na porta do meu escritório. — Marcelo, desculpe-me vir sem avisar, mas eu não consegui nenhum contato seu. — Eloise estava impecável, como eu jamais a tinha visto. — Está tudo bem? — Claro. Entre e fique à vontade. — Observei ela sentar, elegante e sem ser escandalosa, mesmo tendo motivos para isso. — Eu estou indo embora, mas quero que saiba que foi um prazer conhecê-lo e uma pena que não tenhamos dado certo. Espero que você seja feliz, você merece isso. — Antes que eu respondesse, ela me beijou sem hesitar e meu corpo reagiu ao seu toque. Não como reagia aos toques de Elizian, não havia comparações, mas ainda sim reagiu e eu me senti um homem completamente perdido. — Eloise... — me afastei, levantei e olhei nos seus olhos, querendo dizer mil e uma palavras. — Você é boa demais para alguém como eu. Mas eu sei que vai encontrar alguém que a mereça. No fundo, eu sabia que eu estava mentindo, mas por qual motivo eu estava me deixando levar desse jeito? Por Elizian ou por um sentimento que eu já não estava familiarizado?MARCELO Nada daquilo foi planejado. Eu não quero me aproveitar do momento, sei exatamente como ela está se sentindo. Me aproveitar de um momento desse, seria covarde da minha parte. — Elizian, não posso fazer isso. Fiquei a uma distância significativa dela, nos mantendo sempre longe. Sua expressão confusa quase me arrancou um riso. Mas, se eu ousasse sorrir, ela iria embora sem olhar para trás. — Eu não quero fazer isso aqui. Ela me encarou sem desviar os olhos. Como se fosse capaz de ver minha estupidez.— Você está me rejeitando, Marcelo? — Não é isso. Eu nunca rejeitaria você. Eu só acho que esse não seja um lugar apropriado para isso. — Ótimo! Agora me deixa pegar minhas coisas e ir embora, por favor. Eu nunca me importei tanto com alguém, como me importo com Elizian. Não tem nada relacionado a pena, mas há algo ainda mais profundo, que eu não consigo explicar. Observei ela recolher coisa por coisa, depositando cada casa uma dela com cuidado, mesmo que fosse apenas um l
MARCELO A ficha caiu no momento em que vi Elizian parada, do outro lado da rua, nos molhando com as sacolas quase caindo das mãos. — Elizian! — Chamei seu nome alto o bastante, mas como era de se esperar, ela não olhou para trás. Eloise continuou parada onde estava, tentando fingir que aquilo a deixou desconfortável, mas não era verdade. — Então aquela é a Elizian? Ela é bonita e bem jovem… — Eu não deveria ter aceito o seu convite. Mas, saiba que eu só vim para deixar as coisas bem resolvidas entre nós dois. — Nunca existiu “nós dois”, Marcelo. Eu traía meu marido com você, porque quis me vingar quando soube que ele estava me tratando com outras mulheres. — Isso não vem ao caso agora, Eloise. Quando nos envolvemos, você me disse que era solteira, eu acreditei em você. O restante da história eu descobri sozinho. — Você realmente gosta dela tanto assim? Ela é só uma garota, Marcelo. — Ela não é uma garota, Eloise. E eu não vou entrar em detalhes sobre isso com você. Quando e
ELIZIANO primeiro dia na empresa Ferraz deveria ter sido um recomeço, mas tudo não estava passando de um teste psicológico — apesar de que, apenas eu enxergasse isso. Tudo ali era grande demais. As salas pareciam ser para quatro ou mais pessoas, mas era apenas de uma única pessoa. Nas paredes havia quadros chiques e caríssimos. Tudo ali estava muito fora da minha realidade, mas eu não posso deixar que me subestimem. A sala que ele me deu ficava no último andar. Os vidros enormes, com vista para a cidade inteira. A mesa de madeira escura, computador novo, documentos organizados e até uma máquina com algumas cápsulas de sabores diferentes de cappuccinos. Aquilo não parecia um cargo, parecia que aquela sala foi pensada nos meus gostos. E isso me assusta mais do que deveria, e com motivos. Porque significava que ele havia pensado em tudo, em cada detalhe que eu nem mesmo reparava, ele havia notado. — Senhorita Vasconcellos? — Levantei os olhos e vi uma secretária elegante demais para
ELIZIANOs dias seguintes foram estranhamente silenciosos e solitários. Depois do aeroporto, depois da discussão, depois da forma como eu praticamente destruí qualquer chance de termos uma vida simples… Marcelo respeitou meu espaço. E aquilo me confundia ainda mais.Porque eu esperava insistência, ou pressão.Esperava ele aparecer no meu apartamento dizendo que eu estava cometendo um erro, mas ele não apareceu em nenhum momento. Respeitou completamente o meu espaço. Marcelo apenas me olhou naquele aeroporto com uma intensidade quase dolorosa… e disse:"Então fique. Mas fique por você."E me deixou ir, chamou um táxi e pediu para me deixar em casa. Aquilo mexeu comigo mais do que qualquer declaração apaixonada, porque aquilo era o máximo de respeito com alguém. Agora eu estava sentada diante do notebook na mesa da cozinha, cercada de currículos enviados, cafés frios e anúncios de emprego humilhantes. Parece até que eu nunca saí da merda de onde eu vim…A cada email enviado, uma resp
MARCELO Viajar parecia a única solução racional no momento em que eu falei. Qualquer coisa que afastasse Elizian daquela cidade eu estava disposto a propor. Mas nada naquela história estava sendo racional há muito tempo. Eu observava Elizian caminhar pelo apartamento enquanto terminava de fechar a mala. Ela usava uma calça de moletom cinza e uma camiseta larga minha, os cabelos presos de qualquer jeito, mas ainda assim conseguia ser absurdamente bonita. E aquilo me irritava. Porque quanto mais eu olhava, mais difícil ficava imaginar minha vida sem ela. Era pra ser só uma noite casual entre dois adultos, mas por algum motivo eu não consegui deixá-la ir embora e também não quis pedir que ela fosse. — Você está me encarando de novo — ela comentou, sem levantar os olhos. — Porque você sempre parece estar preocupada demais com tudo. Deveria relaxar um pouco de vez em quando. Ela soltou uma risada fraca e eu parei de tentar amenizar a situação. — Isso não é um elogio, Marcelo. — Não
MARCELOElizian preparava um café enquanto sorria cantarolando alguma coisa, mas essa felicidade durou pouco…— Pai? Abre a porta, preciso falar com você.Abrir antes que a frase fosse dita, porque somente sua voz já me irritava mais que o necessário.Fred estava parado, com as mãos nos bolsos e atrás dele sua… a mulher com quem ele traiu Elizian.— Eu posso entrar ou sua namorada não deixa? — O olhar dele percorreu até encontrar Elizian sentada no sofá.— Me diga o que você quer e pode ir, por favor Fred.— É sério mesmo que você vai trocar seu filho por essa mulher?Elizian surgiu ao meu lado, vestida com uma camiseta minha e os cabelos ainda bagunçados.— O que você faz na casa do seu pai a essa hora? Você nunca vai crescer?Quase rir com sua ousadia, mas mantive as expressões rígidas, porque aquilo também estava me irritando. E foi um erro meu pensar que ela iria parar por ali.— Será que dá pra você não se meter na conversa entre pai e filho? Ah, esqueci que você pega pai e filho







