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CAPÍTULO 8

Author: LIDIANE
last update publish date: 2026-06-29 07:35:18

ELZIAN

As horas seguintes foram um borrão. Entrei na empresa como se fosse um fantasma, sorrindo para os colegas, mas por dentro completamente partida. Ainda podia sentir o gosto do beijo dele em meus lábios, e isso me deixava insana.

Mas eu estava ali com um propósito, e não pretendia falhar.

Eu não conseguia entender como em tão pouco tempo ele tinha virado meu ponto de paz e, ao mesmo tempo, a fonte do meu maior conflito. Marcelo me fez sentir mais... mulher.

No fim do expediente — que eu estava cobrindo — uma mensagem no meu celular me fez prender a respiração.

"Arrume sua mala. Amanhã, voo às 9h. Patagônia. Caso ainda queira.

Meu coração quase saiu pela boca. Ele não estava blefando. Ele realmente ia me levar. Ou ia me mandar. As mãos suavam tanto que quase deixei o celular cair. Eu queria, desesperadamente queria ir. Mas uma parte de mim tremia só de pensar no que aquilo significava.

— Elizian? — a voz de Bruna ecoou pelo corredor.

Me virei devagar, e lá estava ela. Minha ex-melhor amiga. O veneno da minha vida, e a desgraçada que me fez perder tempo com aquele lixo.

— Que cara é essa? — ela riu, debochada, como se nada tivesse acontecido. — Está pálida... problemas com o Fred? Ou... será que já está superada demais, ou ele que não está te dando bola.

Meu sangue ferveu, mas eu não poderia dar a ela o luxo

— Eu não tenho mais nada com o Fred. — respondi, seca.

— Não? — Bruna ergueu a sobrancelha, fingindo surpresa. — Então por que ele me ligou ontem dizendo que você estava correndo atrás dele?

Arfei. Meu corpo inteiro tremia, mas não de medo. De raiva. O ódio e da enorme vontade que eu estava guardando para mim, de acabar com ela.

— Não confunda as coisas, Bruna. — falei firme, me aproximando. — Você pode ter roubado o que quiser de mim, mas nunca vai roubar minha dignidade. Aliás, nunca chegará aos meus pés e você sabe disso. No fundo, eu quero te agradecer, você me fez um enorme favor, reciclando lixo da minha vida.

Ela riu, mas eu só pensei em uma coisa: quem ri por último, ri melhor. E eu já estava rindo bem melhor. Saí dali sem olhar para trás. Não valia a pena tamanha atenção naquele ilustre criatura horrenda.

MARCELO

Enquanto isso, no escritório, eu olhava para a tela do computador, mas não via nada além do rosto dela. Não era só desejo. Era algo muito mais fundo, mais perigoso. Mas meu...

O celular vibrou. O nome na tela de bloqueio me fez cerrar os dentes: Fred. Como sempre, sempre estragando tudo.

— Pai. — a voz dele veio carregada de arrogância. — Precisamos conversar. É importante e espero que seja homem para admitir isso.

— Sobre o quê? — perguntei, já com o estômago revirando. Mesmo já sabendo do que poderia ser, mas no fundo, eu estava em paz comigo mesmo.

— A Elizian. — ele disse sem rodeios. — Você ainda fala com ela? Vocês dois se conhecem, certo?

Silêncio. Eu poderia mentir, mas minha voz traiu o que sentia.

— E se falar, qual é o problema? Ela trabalha para o Moretti e eu tenho negócios com ele.

Do outro lado da linha, Fred riu.

— O problema é que ela é minha. Sempre foi. E eu vou tê-la de volta, custe o que custar. E seja lá o que o senhor estiver tentando fazer, não vai conseguir. Não sei se é o senhor ou o Moretti, mas eu juro que não vão se dar bem nessa.

Antes que eu pudesse responder, a ligação caiu.

Apertei o celular na mão com tanta força que quase quebrei. Eu sabia o que aquele tom queria dizer: meu filho estava prestes a virar meu inimigo e eu iria defendê-la.

E agora, eu não tinha certeza de até onde isso nos levaria. Mas eu não queria brigar por agora, então resolvi me calar também. Seria o melhor a fazer.

"A pescaria ainda está de pé?" Enviei a mensagem a Wesley, meu amigo de infância e de toda a vida.

"A hora que você quiser". A resposta foi quase instantânea.

"Pode ser agora então. Não esquece o gelo, estou levando a cerveja". Enviei e comecei a arrumar minhas coisas.

Eu precisava pensar. Ficar longe de rodas essas coisas que me enlouquecem. Acho que não estou diferente de Elizian. Acho que estou precisando de paz e, quem sabe, um pouco de silêncio e solidão.

Encontrei Wesley no píer, com uma caixinha de som ao seu lado, gelo e os demais objetos de pescaria.

— Sua mulher anda te dando muitos Donuts, quase te confundi com um golfinho. — Ele era a amizade com quem eu poderia ser eu mesmo, sem julgamentos ou ter que fingir alguma coisa.

— É, Ferraz... às vezes tudo que a gente precisa é de alguém que encha a gente de donuts. — Seu olhar estava radiante. Reluzindo felicidade e eu me sentia feliz por ele também. Pois nunca teve uma vida fácil, assim como eu.

Enquanto ele ajustava as varas de pesca, coloquei a cerveja dentro do balde com gelo e sentei ao lado dele. Me senti como se ainda fossemos dois adolescentes. Conversamos sobre o baile com quem iríamos. Não era diferente, com ele tudo sempre parecia ter a mesma energia o tempo todo.

— Estou apaixonado pela ex-noiva do meu filho. — Disse, sem pensar duas vezes. Então, a cerveja foi cuspida e ele quase se engasgou com a própria saliva.

— Tá me dizendo que você está transando com a ex-noiva do seu filho? Mas... eu achei que ele... que porra foi essa, Marcelo? Cê tá ficando louco, cara?

— Ela flagrou o Fred degustando da sua melhor amiga, então... você já deve imaginar como foi o fim desta história. Acredite, não sou eu o vilão. A gente se conheceu em negócios de emprego, mas ela me despertou algo mais e até então, Fred nunca tinha me apresentado a sua noiva. Eu não imaginei que ela fosse ter um mal gosto. Fred ainda não cresceu, você sabe disso.

— Quer dizer que ela viu ela sendo traída, deixou seu filho para trás. Conheceu você, que porra. Quanta coincidência. Mas então? O que está pensando em fazer agora? Vai fazer isso ser casual ou tá afim de aproveitar antes de ficar velho?

— A verdade é que ela também é... eu não quero nada casual. Acho que estou na hora de sossegar um pouco. Ela me disse que o sonho dela era conhecer a Patagônia e adivinha? Eu já fiz tudo, só estou esperando que ela aceite. Eu sei que sou um idiota, mas não sei como agir de outra forma.

— Se você acha que tá mandando bem, continua assim. Se ela não estivesse na mesma, não estaria te correspondendo de forma tão... intensa. — Wesley me arrancou risadas naquela noite.

Mas a minha mente estava nela. No que ela estava fazendo. Pensando e desejando.

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