Inicio / Romance / Depois daquela Noite / Capítulo 3: Rosas e Gravatas

Compartir

Capítulo 3: Rosas e Gravatas

last update Fecha de publicación: 2026-08-11 21:24:16

O cair da tarde em Edimburgo tinge o jardim da mansão Durdday em tons de âmbar e lavanda. Charles, ainda vestindo o terno do escritório, mas com os primeiros botões da camisa afrouxados, ajoelha-se na terra ao lado de Mariana. A irmã, de vestido leve e luvas de jardinagem, manuseia uma roseira com a paciência de quem conhece o valor das coisas que precisam de tempo para florescer.

— Segura aqui — ela pede, indicando o ramo principal.

Charles obedece em silêncio, as mãos grandes e elegantes cobertas de terra. Há algo de quase cerimonial naquele gesto, uma trégua rara na armadura que ele veste todos os dias.

Mariana compacta a terra ao redor das raízes sem olhar para ele. A voz sai baixa, mas carregada de um cansaço que não é físico:

— Até quando, Charles?

Ele não responde de imediato. Apenas observa os dedos dela trabalhando a terra, o movimento preciso e cuidadoso.

— Márcio te contou — ele afirma, mais do que pergunta.

— Sim. E não precisava. Eu já sabia. Sempre sei.

Mariana ergue os olhos azuis, tão parecidos com os dele, mas tão mais doces. Não há acusação no olhar. Apenas uma tristeza serena que pesa mais do que qualquer grito.

— Você traz mulheres para esta casa como quem traz convidadas para um jantar. Elas vêm, ocupam o espaço, dormem no seu quarto e, pela manhã, já não existem mais. — Ela limpa a terra das mãos, devagar. — Eu odeio sentir que moro num motel, Charles. Odeio acordar e não saber se vou encontrar uma estranha na cozinha.

Charles desvia o olhar, o maxilar contraído:

— Não é da sua conta.

— É da minha conta quando isso te consome. Quando você usa essas noites como anestésico. — Mariana toca o braço dele com suavidade. — Eu não estou brava. Estou cansada de ver você se perder.

Ela suspira, voltando a atenção para a roseira:

— Vou arranjar outra secretária. Alguém mais velha, mais discreta.

Charles sente algo se contrair no peito. A imagem do relatório sobre a mesa, a caligrafia firme, os olhos azul-cristal desafiando os dele. Ele abre a boca para responder, mas as palavras não vêm.

Mariana ergue o rosto para o céu que escurece:

— Você precisa decidir o que quer, Charles. Antes que destrua tudo o que ainda pode ser salvo.

Dias se passaram desde a conversa no jardim, e o ritmo na sede do Império Durdday segue implacável. Anne se adaptou aos corredores de mármore e às pastas intermináveis, mas ainda sente o peso de cada olhar que cruza o dela.

Naquela tarde, o silêncio do décimo quinto andar é rompido por um som inesperado. Um resmungo grave, seguido de um impacto seco contra a madeira.

Anne ergue os olhos da tela do computador. A porta da sala da presidência está entreaberta. Ela se levanta, os passos silenciosos no carpete, e espia pela fresta.

Charles Durdday está de pé diante do espelho atrás da mesa, os dedos enroscados na seda escura da gravata. O nó está torto, assimétrico, e cada tentativa de ajuste só piora a situação. Ele solta um suspiro irritado, o maxilar contraído, e puxa a ponta do tecido como se quisesse estrangulá-lo.

— Droga — murmura, baixinho.

Anne morde o lábio. Não é possível que um homem como ele, que comanda um império com mãos de ferro, não saiba amarrar uma gravata.

A vontade de rir aperta o peito dela, mas ela a sufoca. Empurra a porta com cuidado:

— Sr. Durdday?

Ele se vira, surpreso, e por um instante o constrangimento cruza o rosto dele antes de ser engolido pela máscara de gelo.

— O que foi, Srta. Madison?

Anne se aproxima, os olhos fixos na gravata desastrada.

— Posso ajudar?

Ele hesita. O orgulho briga com a urgência. O relógio na parede marca três minutos para a reunião.

— Estou atrasado — ele diz, como se isso explicasse tudo.

— Eu percebi.

Ela para diante dele e estende as mãos. Charles fica imóvel por um segundo, depois solta a gravata com um suspiro derrotado.

— Minha irmã faz isso em segundos. Não entendo como.

Anne abaixa a cabeça para ajustar o nó, os dedos ágeis e precisos. O tecido é macio, caro, muito diferente das roupas simples que ela usa. O perfume dele — turfa, couro, algo amadeirado — envolve o ar ao redor.

Charles prende a respiração.

O rosto dela está próximo. Muito próximo. Os cílios escuros, a pele clara, os lábios entreabertos em concentração. E então o cheiro atinge as narinas dele. O perfume dela. Barato, talvez falsificado, algo que qualquer mulher de posses evitaria usar. Mas está impregnado na memória dele desde aquela noite.

A noite em que ela não era a Srta. Madison. Era apenas uma mulher de cabelos negros e olhos de cristal que o fitou como se ele fosse alguém comum.

Anne aperta o nó, ajusta a gola e ergue o olhar:

— Pronto.

Os olhos deles se encontram. O ar fica denso.

Ela recua um passo, tossindo baixinho:

— Sr. Durdday... posso sair para almoçar?

Charles pisca, como se acordasse. Olha para o relógio: uma hora e vinte da tarde.

— Me desculpe — ele diz, a voz mais suave do que ela esperava. — Não percebi a hora passar. Você não precisa pedir permissão para comer, Srta. Madison.

Ela sorri de lado, um sorriso pequeno, quase tímido:

— Obrigada.

Ele a observa se virar, os passos firmes em direção à porta. Tão fofa, pensa ele. Tão quieta às vezes. Mas é só aparência. Ele já sabe o que existe por baixo.

Charles passa a mão no nó da gravata, perfeito, e sente o coração bater mais forte do que deveria.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Depois daquela Noite   Capítulo 46: Legado e Promessas

    O céu de Edimburgo está cinzento, pesado como o chumbo que se alojou no peito de cada pessoa reunida naquele cemitério. O vento corta a pele, mas ninguém se move. As lágrimas congelam antes de cair.Mariana está de joelhos na terra úmida.O vestido preto, simples, sem nenhum adorno, está manchado de barro na barra. Ela não percebe. Não percebe o frio, não percebe o vento, não percebe as mãos de Márcio tentando ampará-la pelos ombros. Sua visão está turva, fixa naquele caixão de madeira escura que desce lentamente para a cova.Rodrigo. Seu primogênito.O nome ecoa vazio dentro dela, como um grito num abismo sem fundo.A voz do padre chega até ela como se viesse de muito longe, palavras em latim que deveriam trazer paz, mas que apenas escorrem sobre sua pele como água gelada. Ela aperta a terra nas mãos com tanta força que as unhas arranham a palma, abrindo pequenos cortes. A dor física é um alívio minúsculo diante do que rasga seu peito:— Meu filho — ela sussurra, mas o som não sai. A

  • Depois daquela Noite   💬 NOTA DA AUTORA: A JORNADA CONTINUA! ❤️

    Olá, meus amores! Tudo bem com vocês?Se vocês achavam que a história da Família Durdday tinha chegado ao fim com o casamento inesquecível da Anne e do Charles, preparem os corações: a nossa jornada está apenas começando e a história vai continuar bem aqui neste mesmo livro!A força desses personagens e o amor de vocês por este universo foram tão gigantes que a saga da Família Durdday se expandiu em três arcos completos, reunidos todos aqui para vocês não precisarem sair desta página para acompanhar cada reviravolta!📌 O QUE VEM POR AÍ A PARTIR DE AGORA?📖 Parte 1 (Concluída): A história de Anne & Charles (onde tudo começou, cheia de superação, segredos de escritório e a descoberta do amor verdadeiro).📖 Parte 2 (Em andamento): A história de Mariana & Márcio (o casamento de fachada, as mágoas acumuladas e a paixão avassaladora do casal mais maduro e ardente da família!).📖 Parte 3 (Em breve): A história de Louise & Gabriel (a busca pela redenção no Brasil e a cura de uma alma marca

  • Depois daquela Noite   Capítulo 45: Hasta Mi Final

    O som do órgão preencheu o corredor de pedra como uma onda cálida, e Anne sentiu os joelhos fraquejarem. As primeiras notas de Hasta Mi Final ecoaram pelas paredes centenárias do castelo, a melodia poderosa e emocionante de Il Divo envolvendo cada canto da fortaleza.Felipe estendeu o braço, e Anne entrelaçou o seu no dele, o buquê de flores brancas tremendo levemente em sua mão:— Pronta? — ele perguntou, a voz mais suave do que ela jamais ouvira.Anne respirou fundo, sentindo o perfume das flores e o peso do véu sobre os ombros. As notas da música subiam, cheias de promessa e paixão, e ela sentiu cada acorde vibrar dentro do peito:— Pronta — respondeu, a voz firme apesar do coração disparado.Eles começaram a caminhar. Cada passo era uma batida de tambor no peito de Anne. O corredor parecia se estender infinitamente, mas ela via apenas a luz no final: a porta da capela entreaberta e a silhueta de Charles à sua espera.A música envolvia tudo. As vozes dos cantores se entrelaçavam em

  • Depois daquela Noite   Capítulo 44: A Caminho do Altar

    O corredor de pedra do Castelo de Dunvegan ecoava com os passos apressados do grupo quando Anne e Felipe viraram a esquina. O vestido branco de renda e seda farfalhava contra o chão, e o véu flutuava como uma nuvem atrás dela.Foi então que Charles apareceu no extremo oposto do corredor.Ele estava impecável em seu terno preto, os cabelos prateados brilhando à luz do lustre. Mas, antes que qualquer um pudesse falar, Márcio saltou de trás da porta do quarto onde estava, com os olhos arregalados:— Não! Não olhe! — gritou Márcio, jogando as mãos na frente do rosto de Charles.Charles franziu o cenho, tentando desviar do bloqueio:— O que você está fazendo, Márcio? — perguntou, a voz carregada de irritação contida.— É má sorte ver a noiva antes da cerimônia! — Márcio insistiu, os dedos abertos sobre os olhos do cunhado.— Não acredito nessas superstições — Charles retrucou, tentando empurrar a mão de Márcio para longe.Mas então, com um suspiro teatral, Charles fechou os olhos com força

  • Depois daquela Noite   Capítulo 43: Um Novo Capítulo

    Um mês depois, o Castelo de Dunvegan se erguia contra o céu cinzento das Terras Altas como uma fortaleza de pedra e história. Dentro de uma das salas privadas, Mariana ajeitava a gravata de Charles com a precisão de quem já fizera aquilo centenas de vezes:— Pronto — ela disse, recuando um passo para admirar o próprio trabalho: — Você é o noivo mais lindo que eu já vi.Charles desviou o olhar, um traço de constrangimento atravessando o rosto sério. Inclinou-se e beijou a bochecha da irmã com uma ternura que poucos conheciam:— Obrigado, Mari.Márcio apareceu com uma garrafa de uísque e dois copos. Serviu uma dose generosa e a estendeu ao cunhado:— Bebe isso. Você está mais tenso que um gato em dia de mudança.Charles aceitou o copo e tomou um gole longo, sentindo o líquido queimar a garganta:— O castelo está lotado — ele observou, a voz baixa: — Parece que metade da Escócia veio ver o magnata se casar.— E vão ver — Márcio disse, erguendo o próprio copo: — Vai ser digno de um lorde.

  • Depois daquela Noite   Capítulo 42: Pontes para o Futuro

    Algumas semanas depois, o aeroporto de Edimburgo estava movimentado naquela manhã, mas a pequena reunião da família criava uma bolha de silêncio e emoção perto dos portões de embarque. Mariana segurava as mãos de Louise como se fosse a última vez, os olhos já marejados:— Minha filha, você vai longe demais — Mariana disse, a voz falhando: — A Itália não é aqui do lado, Louise. É outro país, outro idioma...— Mãe, eu já falo italiano — Louise respondeu com um sorriso paciente, apertando os dedos da mãe: — Foi uma ótima decisão voltar para a faculdade e terminar minha graduação. E é só um ano. Um ano e meio, no máximo. A graduação em pediatria lá é mais intensiva, eu termino muito mais rápido.— Mas você podia fazer aqui, na Escócia — Márcio interveio, os braços cruzados, o semblante preocupado: — Tem faculdades ótimas aqui perto.Louise soltou uma das mãos da mãe para tocar o braço do pai:— Pai, a gente já conversou sobre isso. O curso aqui é mais longo, e eu quero voltar logo. Quero

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status