FAZER LOGINO cair da tarde em Edimburgo tinge o jardim da mansão Durdday em tons de âmbar e lavanda. Charles, ainda vestindo o terno do escritório, mas com os primeiros botões da camisa afrouxados, ajoelha-se na terra ao lado de Mariana. A irmã, de vestido leve e luvas de jardinagem, manuseia uma roseira com a paciência de quem conhece o valor das coisas que precisam de tempo para florescer.
— Segura aqui — ela pede, indicando o ramo principal.
Charles obedece em silêncio, as mãos grandes e elegantes cobertas de terra. Há algo de quase cerimonial naquele gesto, uma trégua rara na armadura que ele veste todos os dias.
Mariana compacta a terra ao redor das raízes sem olhar para ele. A voz sai baixa, mas carregada de um cansaço que não é físico:
— Até quando, Charles?
Ele não responde de imediato. Apenas observa os dedos dela trabalhando a terra, o movimento preciso e cuidadoso.
— Márcio te contou — ele afirma, mais do que pergunta.
— Sim. E não precisava. Eu já sabia. Sempre sei.
Mariana ergue os olhos azuis, tão parecidos com os dele, mas tão mais doces. Não há acusação no olhar. Apenas uma tristeza serena que pesa mais do que qualquer grito.
— Você traz mulheres para esta casa como quem traz convidadas para um jantar. Elas vêm, ocupam o espaço, dormem no seu quarto e, pela manhã, já não existem mais. — Ela limpa a terra das mãos, devagar. — Eu odeio sentir que moro num motel, Charles. Odeio acordar e não saber se vou encontrar uma estranha na cozinha.
Charles desvia o olhar, o maxilar contraído:
— Não é da sua conta.
— É da minha conta quando isso te consome. Quando você usa essas noites como anestésico. — Mariana toca o braço dele com suavidade. — Eu não estou brava. Estou cansada de ver você se perder.
Ela suspira, voltando a atenção para a roseira:
— Vou arranjar outra secretária. Alguém mais velha, mais discreta.
Charles sente algo se contrair no peito. A imagem do relatório sobre a mesa, a caligrafia firme, os olhos azul-cristal desafiando os dele. Ele abre a boca para responder, mas as palavras não vêm.
Mariana ergue o rosto para o céu que escurece:
— Você precisa decidir o que quer, Charles. Antes que destrua tudo o que ainda pode ser salvo.
Dias se passaram desde a conversa no jardim, e o ritmo na sede do Império Durdday segue implacável. Anne se adaptou aos corredores de mármore e às pastas intermináveis, mas ainda sente o peso de cada olhar que cruza o dela.
Naquela tarde, o silêncio do décimo quinto andar é rompido por um som inesperado. Um resmungo grave, seguido de um impacto seco contra a madeira.
Anne ergue os olhos da tela do computador. A porta da sala da presidência está entreaberta. Ela se levanta, os passos silenciosos no carpete, e espia pela fresta.
Charles Durdday está de pé diante do espelho atrás da mesa, os dedos enroscados na seda escura da gravata. O nó está torto, assimétrico, e cada tentativa de ajuste só piora a situação. Ele solta um suspiro irritado, o maxilar contraído, e puxa a ponta do tecido como se quisesse estrangulá-lo.
— Droga — murmura, baixinho.
Anne morde o lábio. Não é possível que um homem como ele, que comanda um império com mãos de ferro, não saiba amarrar uma gravata.
A vontade de rir aperta o peito dela, mas ela a sufoca. Empurra a porta com cuidado:
— Sr. Durdday?
Ele se vira, surpreso, e por um instante o constrangimento cruza o rosto dele antes de ser engolido pela máscara de gelo.
— O que foi, Srta. Madison?
Anne se aproxima, os olhos fixos na gravata desastrada.
— Posso ajudar?
Ele hesita. O orgulho briga com a urgência. O relógio na parede marca três minutos para a reunião.
— Estou atrasado — ele diz, como se isso explicasse tudo.
— Eu percebi.
Ela para diante dele e estende as mãos. Charles fica imóvel por um segundo, depois solta a gravata com um suspiro derrotado.
— Minha irmã faz isso em segundos. Não entendo como.
Anne abaixa a cabeça para ajustar o nó, os dedos ágeis e precisos. O tecido é macio, caro, muito diferente das roupas simples que ela usa. O perfume dele — turfa, couro, algo amadeirado — envolve o ar ao redor.
Charles prende a respiração.
O rosto dela está próximo. Muito próximo. Os cílios escuros, a pele clara, os lábios entreabertos em concentração. E então o cheiro atinge as narinas dele. O perfume dela. Barato, talvez falsificado, algo que qualquer mulher de posses evitaria usar. Mas está impregnado na memória dele desde aquela noite.
A noite em que ela não era a Srta. Madison. Era apenas uma mulher de cabelos negros e olhos de cristal que o fitou como se ele fosse alguém comum.
Anne aperta o nó, ajusta a gola e ergue o olhar:
— Pronto.
Os olhos deles se encontram. O ar fica denso.
Ela recua um passo, tossindo baixinho:
— Sr. Durdday... posso sair para almoçar?
Charles pisca, como se acordasse. Olha para o relógio: uma hora e vinte da tarde.
— Me desculpe — ele diz, a voz mais suave do que ela esperava. — Não percebi a hora passar. Você não precisa pedir permissão para comer, Srta. Madison.
Ela sorri de lado, um sorriso pequeno, quase tímido:
— Obrigada.
Ele a observa se virar, os passos firmes em direção à porta. Tão fofa, pensa ele. Tão quieta às vezes. Mas é só aparência. Ele já sabe o que existe por baixo.
Charles passa a mão no nó da gravata, perfeito, e sente o coração bater mais forte do que deveria.
Mais tarde, o ar frio da manhã tocou o rosto de Vicente assim que ele cruzou a porta do velho sobrado. Ele respirou fundo, sentindo o cheiro de terra molhada e grama cortada, um alívio imediato depois do cheiro de mofo e suor que impregnava a velha casa de infância há muito tempo abandonada. Havia acabado de conversar com os sequestradores que ele mesmo havia contratado; até agora, tudo estava correndo conforme o planejado e logo teria o dinheiro do resgate em suas mãos.Lá dentro, porém, os três homens que Vicente havia contratado para o sequestro não compartilhavam da mesma sensação de alívio. Eles estavam amontoados na sala empoeirada, as cortinas cerradas, a única luz vindo de um abajur de mesa que projetava sombras distorcidas nas paredes descascadas:— Esse filhinho de papai acha que manda em tudo, hein? — Bruno rosnou, cuspindo no chão de madeira. — Chega aqui, dá ordens, fala em soltar a ruiva antes do combinado...— Ele está nervoso — Sérgio ponderou, os dedos tamborilando na
O dia seguinte amanheceu cinzento sobre Londres, mas Vitória já estava de pé desde cedo, colocando água para ferver na cozinha iluminada. Ela vestia um avental sobre uma blusa de linho clara, os cabelos loiros presos de qualquer jeito, e preparava chá de hortelã quando a campainha tocou:— Vicente? Meu querido — ela exclamou ao abrir a porta, surpresa. — Não esperava visitas hoje.O filho de Vitória entrou com um sorriso rápido, os olhos um pouco inquietos sob a luz da manhã. Ele beijou o rosto da mãe com afeto, as bochechas rosadas pelo vento frio da rua:— Estava passando por perto, resolvi aparecer — ele disse, os dedos tamborilando na chave do carro.Vitória o conduziu até a cozinha, onde o chá já começava a soltar vapor:— Sente-se, vou pegar uma xícara para você. Prove estes biscoitos de aveia que fiz ontem.Vicente sentou-se à mesa, mas seus olhos vagavam pela sala, sem se fixar em nada:— Como estão as crianças? — Vitória perguntou, despejando água na xícara. — O pequeno Bruno
A noite inteira passou como um borrão de escuridão e metal frio. Mariana não conseguira pregar o olho. Passara horas tateando as paredes do porão, os dedos percorrendo cada fenda, cada parafuso, cada centímetro de concreto úmido. Nada. A porta era maciça, sem fechadura visível do lado de dentro. A única luz vinha de uma fresta estreita perto do teto, por onde a claridade cinzenta do dia seguinte começava a se infiltrar.Ninguém aparecera desde que as trancaram. Nenhuma voz, nenhum passo, nenhuma explicação. Apenas o silêncio pesado e o cheiro de mofo e terra batida.Mariana estava sentada no chão, as costas apoiadas na parede de tijolos, quando ouviu o gemido. Baixo, abafado, mas inconfundível.— Cecília?Silêncio. Depois outro gemido, mais longo.— Cecília, você está bem?— Não — a voz saiu rouca, trêmula. — Não estou.Mariana se levantou com dificuldade, as pernas dormentes, e caminhou até o canto onde Cecília estava sentada sobre uma manta fina que encontraram jogada no chão. Ela e
Mariana voltou ao perceber que havia esquecido a bolsa; o silêncio entre elas se estendeu por um longo momento. Cecília ainda estava sentada no tapete rosa, os dedos entrelaçados sobre a barriga, o olhar perdido no chão de madeira. Mariana permanecia de pé, a toalha pendurada no ombro, sentindo o suor esfriar sobre a pele: — Você esqueceu sua bolsa — Cecília disse finalmente, a voz baixa. — No vestiário. Peguei para você. Ela estendeu a bolsa que Mariana havia deixado para trás. Mariana a pegou com um movimento automático, os dedos roçando os de Cecília: — Obrigada. Cecília ergueu os olhos, e havia algo diferente neles. Algo que Mariana não sabia nomear: — Não somos amigas — Cecília disse, a voz firme, sem hesitação. — E nunca vamos ser. Mariana não respondeu. Apenas esperou: — Eu sei que já passei de todos os limites — Cecília continuou, as palavras saindo devagar, como se cada uma custasse um esforço. — Sei que fiz coisas terríveis. Coisas que não têm perdão. Mas esta gestaç
Um mês depois, Londres respirava aquela luz cinzenta de outono que se filtravá pelas paredes de vidro do estúdio de pilates. O espaço era amplo, com máquinas reformer alinhadas sob a claridade suave, e um silêncio de concentração quebrado apenas pelo som das molas e pela voz paciente do instrutor.Mariana ajustou os pés na barra do reformer, as mãos segurando as alças de couro. Ela vestia uma calça preta de compressão e um top esportivo azul-marinho, os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo baixo que escapava em fios finos sobre a nuca. O movimento era lento, controlado, cada alongamento exigindo dela uma concentração que ia além do físico.O tratamento contra o câncer a deixava exausta. Mas ela não deixaria transparecer.A porta de vidro deslizou com um suave chiado. Mariana não precisou levantar os olhos para saber quem era. Sentiu a presença antes de ver, uma irritação instantânea que tensionou seus ombros.Cecília entrou com a barriga já evidente sob um vestido floral justo,
Duas semanas depois, a manhã no chalé amanhecera coberta por uma névoa fina que se dissolvia lentamente sobre o lago. O ar frio das montanhas trazido pelo vento carregava o cheiro de pinho e terra molhada, e os primeiros raios de sol começavam a aquecer a varanda de madeira onde Mariana estava sentada, uma cesta de crochê apoiada no colo.Ela movia as agulhas com uma dedicação paciente, o fio azul-claro se transformando em pequenos quadrados perfeitos sob seus dedos. Ao lado, Cecília observava com uma expressão que misturava curiosidade e ceticismo, os cabelos ruivos presos em um rabo de cavalo desleixado:— Tenta de novo — Mariana disse, a voz suave, sem o tom de julgamento que costumava marcar suas conversas.Cecília suspirou, pegando as agulhas com a mesma graça de quem segura um ouriço. Tentou repetir o movimento que Mariana lhe ensinara, mas o fio escapou das hastes, formando um nó confuso:— Não sei como você faz isso parecer tão fácil — Cecília resmungou, os dedos lutando contr







