LOGINDuas horas se passaram desde que Anne saíra para o almoço. Charles emerge da sala de reuniões com passos firmes, a mente ainda ocupada pelos números da apresentação trimestral, quando Rodrigo, seu sobrinho mais velho, o intercepta no corredor.
— Tio Charles — o rapaz estende uma pasta fina. — Minha mãe pediu para entregar. Ela já revisou todos.
Charles pega os documentos, os dedos encontrando a textura do papel sulfite. Abre a pasta e folheia os currículos enquanto caminha. Mariana realmente falou sério quando disse que iria arranjar uma secretária mais velha. Os perfis ali são todos de mulheres acima dos quarenta anos, com décadas de experiência em cargos executivos.
— Obrigado, Rodrigo — diz, sem desviar o olhar dos papéis.
O sobrinho acena e se afasta, deixando Charles sozinho no corredor de mármore. O magnata continua andando, os olhos percorrendo nomes, formações e históricos profissionais impecáveis. Qualquer uma daquelas mulheres substituiria Anne Madison com competência e discrição.
Ele está passando pela sala de descanso quando uma voz familiar o faz parar.
A porta está entreaberta. A voz de Anne chega até ele, clara e preocupada:
— Não sei, Camila. Acho que o senhor Durdday está tentando me demitir.
Charles congela. O coração dá um baque surdo contra as costelas.
— Logo agora que eu achei que ia conseguir sair da pensão — Anne continua, a voz mais baixa. — Ia dividir um apartamento com umas amigas, mas precisei ajudar minha mãe com dinheiro este mês. As coisas estão tão difíceis.
Uma pausa. O som de uma xícara sendo colocada sobre a mesa.
— Estou pensando em pegar um turno freelancer à noite — Anne diz. — Um bar que conheço está precisando de garçonete. Estou muito preocupada, Camila. Tive que cancelar meu plano de saúde.
Charles olha para os currículos na mão.
Mulheres competentes. Experientes. Que não trariam o fantasma de uma noite de outono para assombrá-lo a cada esquina. Mulheres que não precisariam fazer bicos noturnos para sobreviver.
— Ele não parece o tipo que demite sem motivo — a voz de Camila responde, cautelosa. — Mas também não parece o tipo que dá confiança.
— Pois é — Anne ri, sem humor. — Ontem mesmo ele quase me mandou embora só porque eu coloquei açúcar no café dele. Foi automático... mas também, ele é o único ser vivo que conheço que bebe café amargo. Se não fosse o Sr. Campbell...
Charles aperta a pasta com mais força. O papel amassa ligeiramente nas bordas.
Ele deveria entrar. Dizer algo. Esclarecer que não há planos de demissão — pelo menos não agora. Mas as palavras não vêm. Em vez disso, ele fica ali, imóvel, ouvindo a voz dela falar sobre contas atrasadas e noites extras de trabalho.
Os currículos pesam na mão dele. Uma escolha silenciosa que ele ainda não fez.
Algumas semanas se passaram, e Charles já não sabia mais se Anne Madison era um presente ou um castigo.
Ela aparecia todas as manhãs pontualmente, com seus olhos azuis-cristalinos e aquele cabelo negro que teimava em escapar do coque. E, invariavelmente, em algum momento do dia, ela fazia algo que o tirava do sério.
— Senhor Durdday, o café está na sua mesa — ela disse certa tarde, entrando no escritório com uma pilha de pastas equilibrada no braço.
— Com açúcar? — ele perguntou, sem levantar os olhos dos relatórios.
— Claro que não — Anne revirou os olhos, um gesto rápido que ele fingiu não notar. — Eu aprendi a lição na primeira semana. Mas ainda acho um absurdo alguém tomar café amargo de propósito.
Charles ergueu uma sobrancelha:
— Algum problema com minhas preferências, Srta. Madison?
— Nenhum, senhor. Só acho que seu paladar precisa de reabilitação.
Ele a encarou por um longo segundo, sentindo a ponta dos lábios ameaçar um sorriso. Controlou-se a tempo.
— Há relatórios para revisar — disse, seco. — Na sua mesa.
— Sim, senhor.
Ela saiu com um meio sorriso que ele captou pelo canto do olho. E, quando a porta se fechou, Charles permitiu que o sorriso escapasse. Sozinho. Ninguém o via assim.
Mas havia também os momentos em que a tensão no escritório ficava insuportável. Reuniões com acionistas, números que não fechavam, ligações complicadas. E Anne aparecia com uma xícara de chá quente, uma observação casual sobre o tempo, um comentário sobre o livro que ele estava lendo.
— Li esse ano passado — ela disse um dia, apontando para o exemplar sobre a mesa dele. — O final é uma porcaria, mas o meio é bom.
— Srta. Madison, esse livro é um clássico da literatura escocesa.
— Sei. Mas o final continua sendo uma porcaria.
Charles bufou, algo entre a irritação e o divertimento. E, pela primeira vez em anos, sentiu a tensão nos ombros diminuir.
Ela arrumava a gravata dele. Isso havia se tornado um hábito silencioso. Todas as manhãs, quando ele chegava, Anne se aproximava com naturalidade e ajustava o nó, alisava o tecido, dava um pequeno toque nos ombros dele.
— Pronto — ela dizia, os olhos azuis encontrando os dele por um instante. — Agora está apresentável.
— Eu sou perfeitamente capaz de arrumar minha própria gravata — ele protestou na terceira vez.
— Sei que é. Mas não faz direito.
Ela disse isso com tanta convicção que Charles não encontrou resposta.
Naquela tarde, ele estava na sala de reuniões, ouvindo o gerente financeiro discursar sobre projeções trimestrais, quando Anne entrou para servir café. Ela se moveu pela sala com discrição, servindo as xícaras, mas quando chegou perto dele, parou por um segundo.
— A gravata — murmurou, baixinho. — Está torta.
Antes que ele pudesse reagir, os dedos dela tocaram o nó, ajustando-o com precisão. O toque foi rápido, quase impessoal, mas Charles sentiu o calor dos dedos dela através do tecido.
— Obrigado — ele disse, a voz mais baixa do que pretendia.
— De nada — ela respondeu, e havia um brilho nos olhos dela, um pequeno sorriso nos lábios.
O gerente financeiro tossiu, retomando a apresentação. Charles forçou a atenção de volta aos números, mas sentiu o calor no rosto.
Mais tarde, sozinho no escritório, ele riu. Um riso baixo, quase inaudível. Fazia tanto tempo que ninguém o fazia rir.
Londres respirava o outono com a elegância de sempre. O ar frio da noite fazia as folhas secas dançarem pelas calçadas de pedra do South Bank, enquanto a iluminação dourada do Royal Festival Hall se derramava sobre o rio Tâmisa. Anna Whitmore ajustou o cachecol de seda sobre os ombros, sentindo o perfume suave de lavanda que usava se misturar ao cheiro úmido da cidade. Ao seu lado, Melissa caminhava com as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo cinza-escuro, o rosto iluminado pelo brilho da noite, os olhos verdes ainda refletindo o êxtase do concerto de violino que haviam acabado de assistir. — Eu sempre esqueço o quanto Vivaldi pode ser... arrebatador ao vivo — Melissa disse, a voz um pouco mais suave do que o normal, quebrando o silêncio confortável entre elas. Anna sorriu, um sorriso lento e genuíno que suavizou as linhas de expressão ao redor dos seus olhos azuis. — É a magia dos instrumentos acústicos. Nenhuma gravação consegue capturar a vibração das cordas no ar. — Ann
O café do hospital não era grande coisa. Algumas mesas de fórmica, uma máquina de espresso que fazia barulho demais e uma vitrine com biscoitos que pareciam ter sido comprados na semana anterior. Mas, naquela tarde de terça-feira, o lugar parecia o refúgio mais aconchegante do mundo. Louise estava sentada em uma das mesas do canto, as mãos envolvendo a xícara de chá de camomila. Ela ainda usava o jaleco da clínica geral, mas os primeiros botões estavam abertos, e o cabelo loiro, agora um pouco mais curto, caía solto sobre os ombros. Ela parecia mais leve. Não era a Louise vibrante de antes, mas era uma versão dela que estava começando a se curar. Gabriel estava à sua frente, a xícara de café preto intocada. Ele a observava com uma intensidade mansa, quase como se ela fosse um pássaro que ele não queria assustar. — O novo setor é bom? — ele perguntou, a voz baixa. — É... calmo — Louise respondeu, dando de ombros. — A Dra. Regina foi muito compreensiva. Menos emergências, horários
Um mês se passou. O outono paulistano chegou, trazendo dias mais cinzentos e um vento frio que Louise não sentia desde Edimburgo. Ela voltou a trabalhar na semana anterior, mas não na pediatria. A Dra. Regina, com uma sensibilidade que Louise não esperava, a realocou para a clínica geral, um setor mais calmo, com horários fixos e menos emergências. Não era o que ela queria, mas era o que ela precisava. A rotina era um bálsamo. Consultas de rotina, check-ups, gripes, pequenas queixas. Nada que a fizesse lembrar do cheiro de antisséptico da ala pediátrica ou do som do choro das crianças. Nada que a fizesse lembrar de Gabriel. Ele não estava lá. A clínica geral ficava no outro extremo do hospital, e ela não o via desde a noite em que ele a abraçou no quarto do hospital. Ele havia mandado uma mensagem dias depois, perguntando como ela estava, e ela respondera com um "Estou bem, obrigada" que não convencia nem a ela mesma. Ele não insistiu. O apartamento novo, alugado por Mariana, er
A noite em São Paulo estava amena, um alívio depois do calor escaldante do dia. No apartamento novo, o silêncio era confortável. Louise havia adormecido cedo, exausta, depois de um dia de lágrimas e poucas palavras. Mariana a observou por um longo tempo, acariciando seus cabelos, antes de fechar a porta do quarto e ir para a sala. Ela olhou para o relógio na parede: 23h45. Melissa havia saído no final da tarde, dizendo que ia conhecer um pouco da cidade e comprar algumas coisas. Mariana não se preocupou; Melissa era uma mulher adulta e independente. Mas, à medida que as horas passavam, uma pontinha de curiosidade começou a crescer. Mariana preparou um chá de camomila e se sentou no sofá. Estava prestes a mandar uma mensagem quando ouviu o som da chave na fechadura. Melissa entrou, e Mariana quase engasgou com o chá. A amiga tinha um brilho diferente no rosto. O cabelo castanho, normalmente preso de forma prática, estava solto e levemente bagunçado. Ela usava um batom mais es
Os dias no hospital passaram como uma névoa lenta e dolorosa. Louise permaneceu internada por três dias, sob observação rigorosa. A pressão alta havia sido controlada com medicação, mas o corpo ainda estava frágil, e a mente... a mente era um campo de ruínas. Mariana não saiu do quarto. Ela respondia às mensagens da família na Escócia com monossílabos. Charles ligava todos os dias, a voz grave e preocupada. Anne mandava fotos de Edward e Elizabeth para animar Louise, mas ela mal olhava para o celular. No segundo dia, o Caio apareceu. Ele tentou entrar no quarto, mas foi barrado por dois seguranças que Mariana havia contratado. A confusão no corredor chamou a atenção de toda a ala. Louise ouviu a voz dele, alta e indignada, e sentiu o estômago revirar. — Eu sou o pai da criança! — Caio gritava. — Eu tenho o direito de ver a Louise! Ela é minha namorada! Mariana saiu do quarto, a postura ereta, o olhar gelado. Ela parou diante dele, bloqueando a porta com o próprio corpo.
O saguão do hotel Tivoli era um oásis de mármore, luzes suaves e silêncio. Mariana entrou primeiro, a postura ereta, os olhos varrendo o ambiente com a autoridade de quem já era dona do lugar. Atrás dela, Louise caminhava como um fantasma, o casaco abraçando o corpo trêmulo, os olhos fixos no chão. Mariana fez o check-in em tempo recorde, usando um cartão corporativo da Durdday Cosmetics. Assim que as portas do elevador se fecharam, trancando-as na segurança do cubículo, Louise pareceu desmoronar. Ela encostou a cabeça no ombro da mãe e fechou os olhos. — Não chora, querida , vamos resolver a situação— Mariana sussurrou, acariciando os cabelos loiros. No quarto, Mariana não perdeu tempo. Colocou Louise na cama, tirou o casaco dela e pegou o celular. — Mãe, o que você está fazendo? — Louise perguntou, a voz oca. — Ligando para o Dr. Nogueira. Ele é o advogado da Durdday no Brasil, contratamos ele antes de você se mudar. — Mariana discou o número. — Se o Caio acha que pode roubar







