Se connecterPOV: Olivia Bennett O som da espátula de silicone raspando suavemente o fundo da frigideira de ferro fundido parecia um milagre doméstico naquela cozinha de mármore e inox. Nicholas devorava sua fatia de torrada com geleia artesanal sentado na banqueta alta da ilha, balançando as perninhas e tagarelando sobre o pônei Trovão com a espontaneidade de quem havia esquecido completamente o medo de hospitais e de homens estranhos com câmeras. Ao lado dele, Sebastian terminava de ajeitar as mangas dobradas de uma camisa social azul-escura, passando a mão livre pelos cabelos do menino com um afeto tão despretensioso que nem parecia o homem temido por meia Wall Street. — O Trovão vai ter uma maçã verde inteira no próximo domingo, né, papai? — Nicholas perguntou, apontando o garfinho de plástico para ele. — Se você terminar o suco de laranja sem derrubar na bancada, garoto, ele ganha duas — Sebastian respondeu em um tom grave, mas macio, pegando a caneca de café preto com a outra mão. Apro
POV: Sebastian Carter A lareira agora resumia-se a brasas avermelhadas, estalando baixinho no silêncio monumental da sala. Olivia adormecera sobre o meu peito ainda no divã, a respiração quente e compassada batendo contra a curva das minhas costelas. Os cabelos loiros espalhavam-se como fios de ouro sobre os meus ombros, e um dos seus braços permanecia jogado sobre a minha cintura, os dedos entrelaçados frouxamente nos meus. Passei longos minutos apenas observando o contorno sereno do rosto dela sob a meia-luz. Não havia mais a linha tensa entre as sobrancelhas, nem a defensiva calculada que ela sustentara por semanas. Pela primeira vez desde que cruzara as portas de carvalho da sede corporativa, Olivia Bennett descansava desprovida de qualquer couraça. Com cuidado cirúrgico para não romper o torpor do seu sono, apoiei a palma da mão sob as costas dela e a outra sob suas coxas, erguendo o corpo leve nos meus braços. Olivia soltou um suspiro manhoso e aninhou o rosto no vão do me
POV: Olivia Bennett O couro do divã era frio contra a pele das minhas costas despidas, mas o choque térmico durou apenas uma fração de segundo antes de ser engolido pelo calor escaldante de Sebastian cobrindo cada centímetro do meu corpo. A blusa de cashmere marfim caiu esquecida no tapete persa. As mãos dele, calejadas e firmes, subiram pelas minhas costelas com uma lentidão deliberada que me fez prender a respiração. Não havia pressa, mas cada toque carregava a gravidade de uma posse há muito adiada. Quando a boca dele desceu da minha mandíbula para a curva do meu pescoço, sugando a pele sensível com uma fome contida, um arquejo involuntário escapou da minha garganta. — Sebastian... — sussurrei, as mãos cravando-se nos ombros largos dele, sentindo os músculos retesados sob a camiseta preta. — Deixe queimar, Olivia — ele rosnou contra a minha clavícula, a voz tão baixa e áspera que parecia vibrar direto nos meus ossos. — Nós passamos tempo demais fingindo que éramos feitos de ge
POV: Olivia Bennett O som distante dos talheres de prata sendo recolhidos na copa misturava-se ao crepitar manso da lareira embutida na parede de mármore da sala de estar. Às oito da noite, o sexagésimo andar parecia uma cidade suspensa sobre as luzes infinitas de Manhattan. Nicholas já dormia na ala leste; o cansaço do segundo dia de aula e a construção monumental de uma ponte de blocos de madeira o haviam vencido ainda durante a leitura do segundo parágrafo sobre os cavaleiros medievais. Eu estava sentada no divã de couro marrom, descalça, vestindo uma calça de seda e uma malha de cashmere branca. Sobre o meu colo, o tablet corporativo exibia o gráfico final de alocação de insumos pediátricos para o Hospital Elmhurst — o mesmo pronto-socorro onde, dois anos antes, eu passara trinta e seis horas sentada em uma cadeira de plástico quebrado, implorando por uma ampola de dobutamina para o meu bebê. Agora, com um simples deslizar de polegar sob a rubrica da fundação, cem leitos de m
POV: Sebastian Carter A descida pelo elevador social da torre corporativa às dez da manhã não tinha nada do protocolo distante que reinava no sexagésimo quinto andar semanas atrás. Nicholas havia ficado na St. Jude’s sem qualquer sobressalto. O menino cruzara os portões de ferro forjado de cabeça erguida, acenando para nós do pátio sob a vigilância discreta de dois seguranças posicionados a uma distância respeitosa. Nenhuma lente. Nenhum repórter. Apenas a infância serena que lhe fora devolvida. Quando as portas de vidro fosco do hall executivo se abriram, o silêncio respeitoso dos assessores e analistas da antessala congelou em reverência imediata. Eu não caminhava três passos à frente. Minha mão direita mantinha-se firmemente entrelaçada aos dedos de Olivia, sem a menor concessão a dúvidas ou sussurros de bastidores. Ela vestia um terninho de corte milimétrico em tom verde-petróleo, os cabelos soltos em ondas polidas sobre os ombros e o semblante emanando uma altivez tranq
POV: Olivia Bennett O sol de outono entrava sem pedir licença pelas vidraças monumentais da suíte master, desenhando faixas douradas sobre os lençóis de linho desfeitos. Acordei devagar, sentindo o calor constante e firme das costas de Sebastian coladas ao meu peito, um braço pesado repousado com posse sobre a minha cintura. Por longos segundos, fiquei apenas respirando o cheiro amadeirado de sândalo que agora impregnava os travesseiros, absorvendo a ausência inédita de qualquer aperto no peito. Não havia alarmes falsos, nem passos contidos pelo corredor, nem o fantasma do anexo de gelo pairando entre nós. Movi os dedos pela pele nua do ombro dele, sentindo os músculos relaxados sob o sono profundo. Sebastian soltou um murmúrio rouco, puxando meu corpo ainda mais para perto sem abrir os olhos, enterrando o rosto na curva do meu pescoço: — Que horas são? — a voz dele saiu áspera de sono, reverberando contra a minha pele com uma intimidade preguiçosa. — Quase oito — respondi com







