LOGINPOV Camille O outono em Port Regis não pedia licença para despir as árvores. Em quatro semanas, as copas verdes dos carvalhos na colina oeste tornaram-se esqueletos retorcidos contra um céu que raramente abandonava o cinza-chumbo. Trinta e dois dias haviam se passado desde a partida do utilitário preto. A rotina da casa senhorial encontrou um compasso próprio, rigoroso e disciplinado, como se a ausência de Elliot exigisse que cada engrenagem funcionasse sem folgas para manter a saudade sob controle. Pela manhã, a descida para o vilarejo com Leo seguia o mesmo roteiro: ele passava na oficina de Thomas para inspecionar as tábuas de cedro e verificar se os cabos de amarração do píer estavam esticados, antes de subirmos a rua de pedras até a Livraria Histórica. A livraria tornara-se um centro silencioso da comunidade. As três senhoras da paróquia agora organizavam os clubes de leitura de quarta-feira na mesa redonda dos fundos, e o velho Higgins raramente deixava de passar pelo balc
POV Camille O som dos pneus triturando o cascalho da alameda antes das cinco da manhã cortou a névoa com a frieza de uma contagem regressiva. O carro preto de Harrison já aguardava na base da varanda, as lanternas traseiras pintando de vermelho os troncos dos carvalhos adormecidos. O motor rodava em marcha lenta, um sussurro mecânico impaciente que lembrava a cada segundo que o fuso horário de Londres e o corredor aéreo de Heathrow não toleravam atrasos. No hall de entrada, a mala rígida de couro escuro de Elliot repousava junto à porta dupla. Ele usava um sobretudo de lã cinza-chumbo sobre o terno sem gravata. O homem corporativo de Mayfair parecia ter retornado na elegância impecável do corte das roupas, mas os olhos azuis que me encaravam na penumbra daquele corredor não tinham nada da frieza dos arranha-céus da capital. Eram os olhos do homem que passara a madrugada inteira velando o meu sono, com o compasso de latão guardado no bolso interno, bem contra o lado esquerdo do pei
POV Elliot Parker Contar aos acionistas em Londres que eu cruzaria metade do globo para assumir uma trincheira jurídica era uma questão de estratégia fria. Explicar a situação para Thomas envolvia apenas honra e pragmatismo entre marinheiros. Mas subir os degraus em caracol da torre para explicar a uma criança de quatro anos e meio que o pai se ausentaria por noventa dias exigia uma coragem que nenhum conselho de administração jamais me ensinara. Antes de subir, chamei Thomas e Harrison para a biblioteca térrea. A lareira crepitava com duas toras grossas de carvalho. Harrison mantinha abertas sobre a mesa as procurações com plenos poderes fiduciários e de representação legal lavradas em cartório naquela tarde. — A Parker Crown Marine responde a partir de segunda-feira sob a gestão conjunta de vocês dois em solo britânico — instruí, assinando a última via com a caneta de tinta permanente antes de fechar o livro de registros com um baque seco. — Harrison cuida do bloqueio fina
POV Camille A tranquilidade no vilarejo durou exatos três dias após a instalação dos novos compressores na cooperativa. O sábado amanhecera com um céu azul e límpido, daqueles raros no outono de Dorset, e a calçada em frente à Livraria Histórica estava cheia. Pescadores passavam cumprimentando com acenos de cabeça respeitosos, e as caixas de livros que descarregamos na véspera já ocupavam os expositores principais. Pela primeira vez em meses, a sensação de que a vida havia entrado em um fluxo sereno e definitivo aquecia o meu peito. Mas a calmaria durou até o exato instante em que vi o carro de Harrison subir a ladeira da colina em direção à casa senhorial, quase cortando as curvas de cascalho. Quando retornei para casa no início da tarde, deixando Leo com a Sra. Gable entretida com contos marítimos infantis, encontrei a porta do escritório do térreo entreaberta. Elliot estava em pé diante da grande janela voltada para a baía. Ele segurava um maço de folhas impressas com relatór
POV Elliot ParkerA vitória contra o embargo da promotoria não nos deu o luxo de cruzar os braços. A terra agora estava firme sob a falésia, mas o calçamento da vila ainda guardava as marcas da desconfiança e o mar precisava voltar a produzir.Às duas da tarde, o sol de outono brilhava sem força sobre o cais secundário de Port Regis.O cheiro residual de sulfeto fora quase totalmente dissipado pelo vento que soprava limpo do canal, mas os homens da cooperativa ainda trabalhavam com cautela redobrada. Três barcos de madeira estavam atracados no píer de serviço, onde as equipes técnicas da Parker Crown instalavam novos sistemas de ancoragem e boias de monitoramento químico contínuo.Caminhei pela passarela de madeira com galochas de couro reforçado, jaqueta técnica e uma prancheta de alumínio sob o braço. Harrison me acompanhava a dois passos, conferindo no tablet os termos do seguro ambiental estendido que fechamos com o Lloyd’s de Londres durante o almoço.— Todas as embarcações com m
POV Elliot Parker A descida pela trilha da escarpa sob a luz fria das nove da manhã revelava o estrago que o temporal da noite anterior quase causara. Pedaços de cascalho e raízes expostas mostravam onde a terra cedera superficialmente antes do escoramento, mas o bloco principal da colina permanecia hirto contra a arrebentação das ondas. O Dr. Julian Alistair descia com passos metódicos, apoiado em uma vara de medição retrátil de fibra de carbono. Atrás dele, dois técnicos de sua equipe carregavam um scanner tridimensional de subsolo acoplado a um tripé de campo. O procurador Arthur Vance vinha por último, pisando com cautela exagerada nas pedras úmidas, as barras do sobretudo cinza salpicadas de barro e a respiração curta pelo desnível da encosta. Thomas e eu abríamos o caminho com a corda guia firmemente ancorada aos grampos de aço instalados na véspera. Quando alcançamos a boca da caverna da maré baixa, a água estava em refluxo, deixando a soleira de entrada livre de inundação







