LOGINCAPÍTULO 2 — O SEGREDO QUE EU LEVARIA COMIGO
Helena não dormiu naquela noite. Sempre que fechava os olhos, ouvia novamente a voz de Valente. “Assine.” Uma palavra. Foi tudo que ele precisou para encerrar quatro anos de casamento. Ela estava sentada na beirada da cama do quarto de hóspedes, com a mão sobre o ventre ainda completamente plano. Dois bebês. Dois filhos do homem que acabara de expulsá-la da própria vida. Helena deveria estar feliz. Durante muito tempo, imaginara como seria contar a Valente que estava grávida. Imaginara colocar uma pequena caixa sobre a mesa do escritório. Dentro dela, talvez dois sapatinhos. Agora a imagem parecia cruel. Porque Valente nunca receberia aquela caixa. E jamais saberia que existiam duas pequenas vidas crescendo dentro dela. Helena apertou os olhos. — Eu vou proteger vocês. A promessa saiu em um sussurro. Naquele momento, ela ainda não sabia como. Só sabia de uma coisa. Precisava ir embora. Antes que Valente descobrisse. Antes que ele pudesse transformar seus filhos em mais uma coisa sobre a qual acreditava ter direito de decidir. *** Na manhã seguinte, Helena abriu o closet. Vestidos. Sapatos. Joias. Presentes. Uma vida inteira construída ao lado de Valente Ferraz. Ela pegou uma mala. Colocou apenas o necessário. Roupas. Documentos. Passaporte. Algum dinheiro. Quando abriu a última gaveta, encontrou uma fotografia do casamento. Helena ficou parada. Na imagem, Valente sorria. Um sorriso raro. Ela lembrava daquele dia. Lembrava dele segurando sua cintura e dizendo, perto de seu ouvido: “Agora você é minha para sempre.” Helena soltou uma risada amarga. Para sempre tinha durado quatro anos. Virou a fotografia para baixo. — Acabou. — O que acabou? O sangue de Helena gelou. Ela se virou. Valente estava parado na porta. Seu olhar passou pela mala aberta. Depois por ela. — Vai a algum lugar? — Vou embora. — Eu percebi. Ele entrou. Helena continuou arrumando a mala. — Para onde? — Isso não é mais da sua conta. — Ainda somos casados. Ela parou. Virou-se lentamente. — Ontem você colocou os papéis do divórcio na minha frente e mandou que eu assinasse. — E você assinou. — Exatamente. Helena fechou a mala. — Então comece a se acostumar com a ideia de não saber onde eu estou. Alguma coisa mudou no olhar dele. — Você está fugindo? — Fugindo de quê? — De mim. Helena quase riu. — Não se dê tanta importância. Passou por ele. Valente segurou seu braço. Não com força. Mas o suficiente para fazê-la parar. — Helena. Ela olhou para a mão dele. — Solte. Valente hesitou. Depois soltou. — Você não precisa sair assim. Ela o encarou, incrédula. — Como exatamente você gostaria que eu saísse, Valente? Ele não respondeu. — Quer que eu tome café primeiro? Que agradeça pelos quatro anos? Talvez eu possa deixar um bilhete dizendo que foi um prazer ser chamada de traidora pelo homem que jurava me amar. O maxilar dele travou. — Eu vi as mensagens. — E eu disse que eram falsas. — Eu sei o que vi. Helena sentiu uma pontada no peito. Por um segundo, quase contou. Quase disse que estava grávida. Quase obrigou aquele homem a olhar para ela e perceber o tamanho do que estava destruindo. Mas então lembrou do desprezo nos olhos dele. E se calou. — Adeus, Valente. Pegou a mala. Dessa vez, ele não tentou impedi-la. *** Duas horas depois, Helena estava no consultório. A médica analisava os exames enquanto ela apertava as mãos sobre o colo. — Então são realmente dois? A médica sorriu. — Sim. Uma gestação gemelar. Helena olhou para a tela. Ainda eram pequenos demais. Mas estavam ali. Seus filhos. — Está tudo bem? — Por enquanto, sim. Mas uma gestação gemelar exige mais acompanhamento. A médica a observou. — E eu preciso perguntar: você está bem? Helena engoliu em seco. — Estou. — Helena. Seus olhos se encheram. — Meu casamento acabou ontem. A expressão da médica mudou. — O pai sabe da gravidez? Helena balançou a cabeça. — Não. — Pretende contar? Silêncio. — Não. A médica não julgou. — Você tem apoio? — Minha irmã. — Então fique perto dela. E evite estresse. Helena soltou uma pequena risada. — Vou tentar. Ao sair do consultório, pegou o celular. Havia uma mensagem de Laura. “Você está bem?” Helena respondeu: “Preciso de você.” A ligação veio imediatamente. — O que aconteceu? Helena encostou-se à parede. — Eu e Valente nos separamos. — O quê? — Ele acha que eu o traí. — Você? — Alguém falsificou mensagens. — Meu Deus, Helena. Ela fechou os olhos. — Tem mais. — O quê? Helena olhou para a imagem do exame em sua mão. — Estou grávida. Silêncio. — Helena... — De gêmeos. — Meu Deus! Helena começou a chorar. — Laura, ele não pode saber. — Você está falando sério? — Nunca falei tão sério. — Mas são filhos dele. — Eu sei. — Você vai esconder dois filhos de Valente Ferraz? Helena enxugou as lágrimas. — Vou proteger meus filhos do homem que acabou de provar que é capaz de me condenar sem sequer me ouvir. — E para onde você vai? Helena olhou para o passaporte dentro da bolsa. — Lisboa. *** No mesmo horário, Valente estava diante da janela do escritório. Não conseguia trabalhar. A cobertura parecia vazia. Silenciosa demais. O investigador entrou. — Senhor Ferraz. — Encontrou alguma coisa? — Sobre as mensagens. Valente se virou. — O quê? O homem colocou alguns documentos sobre a mesa. — O número usado para enviar parte das mensagens não pertence à senhora Helena. Valente ficou imóvel. — Como assim? — Foi mascarado. — Tem certeza? — Absoluta. Valente olhou para os documentos. — E a fotografia? — Também estamos analisando. — E? O investigador hesitou. — Há indícios de manipulação. O mundo pareceu parar. — Manipulação? — Ainda não posso afirmar quem fez. Valente pegou os papéis. Leu uma vez. Depois outra. Seu peito começou a apertar. Helena havia dito a verdade. “Isso é uma mentira.” Ele ouvira. E escolhera não acreditar. — Onde ela está? — Senhor? Valente levantou os olhos. — Helena. Onde ela está? — Não sei. Ele pegou o telefone. Ligou. Chamou. Uma vez. Duas. Três. Nada. Valente desligou. Ligou novamente. Nada. — Descubra onde ela está. — Imediatamente. *** Três dias depois, Helena atravessava o aeroporto com Laura ao seu lado. — Ainda dá tempo de mudar de ideia — Laura disse. — Não. — Ele ligou para mim. Helena parou. — Valente? Laura assentiu. — Perguntou onde você estava. O coração dela bateu mais forte. — O que você disse? — Nada. Helena soltou o ar. — Obrigada. — Ele parecia desesperado. — Problema dele. — Helena... — Não. Ela colocou a mão sobre o ventre. — Ele teve a oportunidade de confiar em mim. — E se ele descobriu que errou? Helena sentiu os olhos arderem. — Então vai ter que viver com isso. A chamada para o embarque ecoou. Laura abraçou a irmã. — Me liga quando chegar. — Ligo. Helena se afastou. Cada passo doía. Mas continuou. Quando entrou na área de embarque, não olhou para trás. *** Quarenta minutos depois, Valente entrou na cobertura. Vazia. O closet de Helena estava quase intacto. Ela levara tão pouco. Como se quisesse apagar a própria passagem pela vida dele. Sobre a cama havia apenas uma coisa. A fotografia do casamento. Virada para baixo. Valente pegou a moldura. Seu telefone tocou. — Fale. Era o investigador. — Confirmamos. Valente apertou o aparelho. — O quê? — As mensagens foram falsificadas. Ele fechou os olhos. A culpa veio como um golpe. — E Helena? — Conseguimos localizar uma movimentação no passaporte. Valente abriu os olhos. — Onde? — Aeroporto Internacional. — Que voo? O homem hesitou. — Lisboa. Valente olhou para a fotografia do casamento em sua mão. — Que horas? — O avião já decolou. Silêncio. Pela primeira vez em muitos anos, Valente Ferraz não sabia o que fazer. Tinha acusado a própria esposa. Humilhado. Exigido o divórcio. E agora sabia que ela era inocente. — Senhor Ferraz? Valente não respondeu. Do outro lado do oceano, Helena levava consigo o único segredo que poderia destruir ainda mais aquele homem. Valente acreditava que havia perdido a esposa. Ainda não fazia ideia de que, naquele avião... estavam indo embora também os dois filhos que ele jamais soube que existiam.CAPÍTULO 162 — A MULHER QUE NÃO RECUOU— Você está tentando me distrair?Helena olhou desconfiada para Valente, que acabara de colocar uma xícara de café ao lado do notebook.— Estou tentando impedir que minha companheira se esqueça de comer.— Tenho uma apresentação em quarenta minutos.— Eu sei.— Uma apresentação que pode decidir minha promoção.Valente se inclinou e beijou seu pescoço.— Também sei.Helena fechou os olhos por um instante.— Você está definitivamente tentando me distrair.— Está funcionando?Ela o puxou pela gravata.— Infelizmente.O beijo foi interrompido por duas vozes no corredor.— PAPAI! ELE PEGOU MEU DINOSSAURO!Valente suspirou.— Parece que minha outra reunião começou.Helena gargalhou.— Boa sorte, senhor CEO.***Às dez horas, Helena entrou na videochamada.Daniel estava acompanhado de três diretores da multinacional.Uma mulher de cabelos grisalhos assumiu a palavra.— Helena, conhecemos seus resultados. Hoje queremos entender como pretende assumir uma
CAPÍTULO 161 — O VALOR DE UMA ESCOLHA— Não vamos conseguir atender a todas as suas condições, Helena.Daniel foi direto assim que a videochamada começou.Helena manteve a expressão tranquila.— Ainda não apresentei todas.Ele sorriu.— Conheço você há tempo suficiente para saber que preparou uma contraproposta.— Então vamos economizar tempo.Ela compartilhou a tela.— Aceito coordenar as três equipes europeias, mas proponho seis dias presenciais por mês em Lisboa, com viagens adicionais apenas para etapas previamente definidas.Daniel examinou o documento.— A diretoria solicitou dez dias.— Eu sei. Mas duas equipes já trabalham remotamente comigo. A terceira pode seguir o mesmo modelo, desde que estabeleçamos responsáveis locais e indicadores semanais.— E as reuniões estratégicas?— Presenciais quando necessário. Não quando alguém simplesmente preferir uma sala cheia.Daniel soltou uma risada.— Você continua impossível.— Prefiro eficiente.O sorriso dele desapareceu quando abriu
CAPÍTULO 160 — ENTRE DOIS MUNDOS— Daniel, você está me oferecendo uma promoção ou uma mudança de país?Helena fez a pergunta assim que ouviu os detalhes da proposta.Do outro lado da videochamada, Daniel sorriu.— Uma promoção. Mas preciso ser transparente sobre as exigências.— Estou ouvindo.— Queremos que você assuma a coordenação estratégica de três equipes europeias. O projeto cresceu, e seu trabalho foi fundamental para isso.Helena sentiu uma onda de satisfação.— É uma oportunidade importante.— É. Mas exigiria presença em Lisboa durante dez dias por mês, pelo menos no primeiro semestre.O sorriso dela desapareceu.Até então, sua rotina previa aproximadamente uma semana mensal na Europa.Dez dias representariam uma mudança considerável.— Existe possibilidade de dividir essa responsabilidade? — perguntou.— Podemos estudar alternativas. Mas precisamos de alguém com sua experiência.— E quando precisam da resposta?— Até o fim da próxima semana.Helena assentiu.— Vou avaliar.
CAPÍTULO 159 — O QUE A DISTÂNCIA NÃO APAGA— Você vai viajar?Helena ergueu os olhos quando Valente entrou no quarto com o notebook.— Provavelmente. Tenho uma reunião internacional na próxima semana.— Para onde?— Madri. Dois dias.Ela assentiu e voltou a guardar as roupas.Valente percebeu sua expressão.— Algum problema?— Nenhum.— Helena...— Valente, você é CEO. Viajar faz parte do seu trabalho.Ele fechou o notebook.— E por que parece que está tentando convencer a si mesma?Helena soltou um suspiro.— Porque eu sei que é irracional, mas ainda odeio despedidas.Valente se aproximou.— Não estamos nos despedindo.— Eu sei.— Estou indo trabalhar. Depois volto para casa.Ela sorriu discretamente.— Você faz parecer simples.— Porque desta vez é.Ele a beijou.Mas Helena permaneceu abraçada a ele por alguns segundos a mais.***Na manhã seguinte, Valente reuniu os responsáveis pela expansão.— A negociação técnica ficará com a equipe de operações — anunciou. — O financeiro terá a
CAPÍTULO 158 — AS LEMBRANÇAS QUE FICARAM— Você tem certeza de que quer ir hoje?Valente observou Helena diante do espelho, prendendo os cabelos.— Se eu adiar, vou encontrar outra desculpa.— Não precisa fazer isso por obrigação.Ela se virou.— Não é obrigação. É vontade de conhecer meu pai.Valente se aproximou.— Então vamos.Helena ajeitou a gola da camisa dele.— Só uma condição.— Qual?— Nada de reuniões pelo telefone durante a visita.— Você está ficando exigente, senhora Duarte.— E você continua negociando demais, senhor Ferraz.Ele sorriu e a beijou.***Hélia abriu a porta com uma expressão surpresa.— Helena! Não sabia que vinham.— Podemos entrar, vó?— Claro, minha filha!Depois dos abraços, Helena explicou o motivo da visita.— Queria ver algumas coisas do meu pai. Fotografias, cartas... qualquer lembrança que você tenha guardado.Hélia ficou imóvel por um instante.— Pensei que nunca fosse me pedir isso.— Por quê?— Porque, durante muito tempo, falar de Alexandre só
CAPÍTULO 157 — AS COISAS QUE ELE NÃO CONTOU— Você vai voltar para a empresa?Helena observou Valente guardar o celular no bolso.— Preciso conversar com o financeiro e com a equipe de operações.— O fornecedor não pode esperar?— Até amanhã. Mas eu não vou decidir sem saber exatamente o que estamos comprando.Ela sorriu.— Finalmente alguém sensato naquela família.Valente ergueu uma sobrancelha.— Você acabou de chamar um Ferraz de sensato?— Não se acostume.Ele a puxou pela cintura e a beijou.— Vou tentar chegar para o jantar.— Os meninos vão cobrar.— E você?Helena aproximou os lábios do ouvido dele.— Eu posso cobrar depois que eles dormirem.Valente soltou uma risada baixa.— Agora ficou difícil voltar ao trabalho.***Helena pretendia ir para casa.Mas, antes de sair do estacionamento, tomou outra decisão.Ligou para Augusto.— Podemos conversar?Houve uma pausa.— Sobre a assembleia?— Sobre meu pai.O silêncio do outro lado durou alguns segundos.— Estou no escritório — A







