MasukCAPÍTULO 3 — TARDE DEMAIS
Valente permaneceu alguns segundos olhando para a fotografia do casamento. Lisboa. Helena estava indo embora do país. E ele acabara de descobrir que ela dizia a verdade. As mensagens eram falsas. A traição nunca existira. — Quero um avião preparado. O investigador ficou em silêncio do outro lado da ligação. — Senhor Ferraz... — Agora. — O senhor pretende ir para Lisboa? — Pretendo encontrar minha esposa. Valente desligou. Só depois percebeu a palavra que havia usado. Minha esposa. Na noite anterior, ele tinha colocado os papéis do divórcio diante dela. Mandado que assinasse. Olhado nos olhos da mulher com quem dividira quatro anos e dito que não havia nada para ouvir. Agora daria qualquer coisa para voltar àquele momento. Para fazer uma única coisa diferente. Escutá-la. O telefone tocou novamente. Era o investigador. — O que foi? — Encontramos a origem das mensagens. Valente ficou imóvel. — Quem? — É melhor o senhor vir até o escritório. — Diga agora. Houve uma hesitação. — O número utilizado está vinculado a uma linha secundária registrada em nome de alguém da sua família. O corpo de Valente endureceu. — Quem? — Carolina Ferraz. Silêncio. Por alguns segundos, Valente acreditou ter ouvido errado. — Minha irmã? — Sim. Ele desligou. E esqueceu Lisboa. Por alguns minutos, havia algo que precisava fazer antes. *** Helena observava as nuvens pela pequena janela do avião. Não conseguia dormir. Não conseguia pensar. Não conseguia acreditar que realmente estava indo embora. Sua mão repousava sobre o ventre. Ainda não havia qualquer sinal externo da gravidez. Mas agora que sabia... sentia como se tudo tivesse mudado. Seu corpo. Sua vida. Seu futuro. — Vocês só têm a mim agora. A frase saiu tão baixa que ninguém ao lado poderia ouvir. Ela fechou os olhos. Imediatamente viu Valente. O rosto frio. O documento sobre a mesa. “Assine.” Uma lágrima escorreu. Helena limpou antes que alguém percebesse. Não choraria mais por ele. Pelo menos era isso que repetia para si mesma. O celular estava desligado. Antes do embarque, havia visto as ligações. Valente. Uma. Duas. Cinco. Nove. Ela não atendera nenhuma. Talvez ele tivesse descoberto que as mensagens eram falsas. Talvez quisesse pedir desculpas. Talvez tivesse percebido o erro. Mas havia erros que um pedido de desculpas não apagava. Valente não duvidara dela. Ele a condenara. E Helena não permitiria que seus filhos crescessem vendo a mãe implorar para ser acreditada. Quando o avião começou a atravessar uma área de turbulência, ela respirou fundo. — Vai ficar tudo bem. Não sabia se falava com os bebês. Ou consigo mesma. *** Carolina entrou no escritório do irmão sem imaginar o que encontraria. — Você queria falar comigo? Valente estava diante da janela. — Feche a porta. Ela obedeceu. — Aconteceu alguma coisa? Ele se virou. Jogou alguns documentos sobre a mesa. — Explique. Carolina olhou. Seu rosto perdeu a cor. Foi rápido. Mas Valente viu. — Não sei o que é isso. — Sabe. — Valente... — As mensagens enviadas para Helena. Carolina ficou imóvel. — O que tem elas? — Eram falsas. Silêncio. Valente caminhou lentamente em sua direção. — E saíram de uma linha ligada a você. Carolina respirou fundo. — Você não está entendendo. — Então me faça entender. Ela desviou o olhar. — Eu fiz isso por você. Valente ficou parado. Por alguns segundos, aquela frase pareceu não fazer sentido. — Por mim? — Helena nunca foi a mulher certa para você. Ele riu. Mas não havia humor algum. — Você destruiu meu casamento porque decidiu que minha esposa não era adequada? — Você não sabe tudo. Valente se aproximou. — Então conte. Carolina apertou os dedos. — Ela afastou você da família. — Não. — Mudou você. — Carolina. — Você começou a questionar decisões do conselho depois que se casou com ela. Começou a recusar coisas que sempre foram importantes para nossa família. Valente estreitou os olhos. — O que isso tem a ver com mensagens falsas? Carolina não respondeu. — Quem ajudou você? Ela levantou os olhos imediatamente. — Ninguém. Rápido demais. — Está mentindo. — Não estou. — Você falsificou mensagens, conseguiu fotografias, manipulou números e criou uma história inteira sozinha? — Sim. Valente a observou. Conhecia a irmã. E conhecia medo. Carolina estava com medo. — De quem você está protegendo? Ela perdeu a cor. — Não sei do que está falando. — Eu não perguntei por que fez isso. Valente se aproximou mais. — Perguntei de quem está protegendo. Carolina ficou em silêncio. — Ninguém. — Olhe para mim. Ela não olhou. Valente sentiu um arrepio. Aquilo era maior. Ainda não sabia quanto. — Saia. Carolina ergueu a cabeça. — Valente... — Saia do meu escritório. — Eu fiz isso porque era melhor para você. Ele abriu a porta. — Você não tem mais o direito de decidir o que é melhor para mim. Carolina caminhou até a saída. Antes de passar pela porta, parou. — Talvez um dia você entenda. Valente a encarou. — A única coisa que eu entendo é que perdi minha esposa por causa de uma mentira. Por um instante, Carolina pareceu querer dizer alguma coisa. Mas não disse. Apenas saiu. Valente permaneceu parado. Então percebeu. Carolina não parecia arrependida. Parecia assustada. *** Horas depois, Helena desembarcou em Lisboa. O cansaço era enorme. Mas havia uma sensação estranha de alívio. Ninguém sabia onde ela estava. Laura era a única pessoa que conhecia seus planos. E Helena havia pedido uma coisa: — Não conte a ninguém. Pegou a mala. Passou pela imigração. Quando finalmente saiu do aeroporto, respirou o ar frio. Uma nova cidade. Uma nova vida. Sem Valente. Seu celular permaneceu desligado. Ela não queria ouvir a voz dele. Não ainda. Talvez nunca. Entrou no carro que a levaria até o pequeno apartamento que havia alugado temporariamente. No caminho, passou a mão sobre o ventre. — Aqui ninguém conhece nosso sobrenome. Seus olhos se encheram. — Aqui nós vamos começar de novo. *** Valente chegou ao aeroporto naquela mesma noite. O jato estava pronto. Seu investigador o esperava. — Antes de embarcarmos, preciso avisar uma coisa. — O quê? — Perdemos o rastro dela. Valente parou. — Como assim? — Sabemos que desembarcou em Lisboa. Depois disso, nada. — Hotel? — Nenhuma reserva no nome dela. — Cartão? — Não houve movimentação. — Telefone? — Desligado. Valente apertou o maxilar. Helena havia planejado aquilo. Ela não queria ser encontrada. — Procure imóveis. — Já estamos procurando. — Hospitais. Hotéis. Empresas. Tudo. — Sim, senhor. Valente olhou para o avião. Poderia atravessar o oceano. Poderia colocar dezenas de pessoas procurando. Poderia gastar milhões. Mas havia uma coisa que dinheiro nenhum poderia obrigar Helena a fazer. Querer vê-lo. Seu celular vibrou. Uma mensagem. Por um segundo absurdo, acreditou que pudesse ser ela. Não era. Número desconhecido. Valente abriu. Havia apenas uma frase. “Algumas mulheres precisam desaparecer para que tudo permaneça no lugar.” Ele releu. Uma vez. Duas. — Rastreie esse número. Entregou o aparelho ao investigador. — Agora. — O senhor acha que tem relação com Carolina? Valente olhou para a tela. — Eu acho que minha irmã não fez isso sozinha. *** No apartamento em Lisboa, Helena finalmente ligou o celular. Dezenas de chamadas. Quase todas de Valente. Ela ficou olhando para o nome dele. Então uma mensagem chegou. “Helena, eu sei que você dizia a verdade.” Seu coração apertou. Outra. “Eu errei.” Ela fechou os olhos. A terceira apareceu. “Por favor, me diga onde você está.” Helena chorou em silêncio. Era tudo que desejara ouvir quando estava diante dele. Agora parecia tarde demais. Ela começou a digitar. “Eu estou...” Parou. Apagou. Valente tivera a chance de acreditar nela quando sua palavra era tudo que possuía. E escolhera não acreditar. Helena bloqueou o número. Depois colocou a mão sobre o ventre. — Acabou. Do outro lado do oceano, Valente olhava para uma tela que já não entregava suas mensagens. Tentou ligar. A chamada não completou. Ligou novamente. Nada. Helena havia bloqueado seu número. Pela primeira vez, ele compreendeu que talvez não bastasse descobrir a verdade. Talvez algumas verdades chegassem tarde demais. Valente havia encontrado a mentira que destruíra seu casamento. Mas Helena havia desaparecido. E ele ainda não fazia ideia do maior segredo que ela levara consigo.CAPÍTULO 164 — UMA SURPRESA NA PORTA— Mamãe, o papai está escondendo uma coisa!Helena ergueu os olhos do notebook.Os gêmeos estavam parados na porta do escritório, com expressões de quem acabara de descobrir um crime.— Escondendo o quê?— Uma caixa!— Uma caixa grande! — completou o outro.Helena tentou conter o sorriso.— E onde está essa caixa?— No carro!Ela fechou o notebook.— Interessante...Naquele instante, Valente apareceu no corredor.— Posso saber por que meus filhos estão me denunciando?— Porque você está escondendo coisas — Helena respondeu.Ele olhou para os meninos.— Nós tínhamos um acordo!— Mas a mamãe perguntou!Valente levou a mão ao peito.— Fui traído dentro da minha própria casa.***A caixa continha uma pequena bicicleta infantil.Na verdade, duas.Helena cruzou os braços quando Valente abriu o porta-malas.— Você comprou bicicletas?— Comprei.— Sem conversar comigo?O sorriso dele diminuiu.— Achei que seria uma surpresa boa.— Valente, eles ainda estão
CAPÍTULO 163 — UMA NOITE PARA NÓS DOIS— Você está me expulsando de casa?Helena encarou Valente, que acabara de entregar a ela um vestido preto.— Estou convidando minha companheira para jantar.— E precisava comprar um vestido?— Não precisava. Mas imaginei você usando esse.Helena ergueu a peça diante do corpo.— Senhor Ferraz, isso parece uma tentativa de sedução.Ele se aproximou.— Estou sendo tão discreto assim?Ela riu.— E os meninos?— Sua mãe concordou em ficar com eles até amanhã cedo.Helena estreitou os olhos.— Você planejou tudo?— Quase tudo.— O que falta?Valente a puxou pela cintura.— Descobrir se você aceita.Ela passou os braços ao redor do pescoço dele.— Depende. O restaurante tem sobremesa?— Helena...— Estou negociando.Ele a beijou.— Tem sobremesa.— Então aceito.***Quando Helena desceu as escadas, Valente estava esperando na sala.Ele se levantou imediatamente.O vestido preto acompanhava suas curvas, deixando os ombros à mostra. Os cabelos caíam solto
CAPÍTULO 162 — A MULHER QUE NÃO RECUOU— Você está tentando me distrair?Helena olhou desconfiada para Valente, que acabara de colocar uma xícara de café ao lado do notebook.— Estou tentando impedir que minha companheira se esqueça de comer.— Tenho uma apresentação em quarenta minutos.— Eu sei.— Uma apresentação que pode decidir minha promoção.Valente se inclinou e beijou seu pescoço.— Também sei.Helena fechou os olhos por um instante.— Você está definitivamente tentando me distrair.— Está funcionando?Ela o puxou pela gravata.— Infelizmente.O beijo foi interrompido por duas vozes no corredor.— PAPAI! ELE PEGOU MEU DINOSSAURO!Valente suspirou.— Parece que minha outra reunião começou.Helena gargalhou.— Boa sorte, senhor CEO.***Às dez horas, Helena entrou na videochamada.Daniel estava acompanhado de três diretores da multinacional.Uma mulher de cabelos grisalhos assumiu a palavra.— Helena, conhecemos seus resultados. Hoje queremos entender como pretende assumir uma
CAPÍTULO 161 — O VALOR DE UMA ESCOLHA— Não vamos conseguir atender a todas as suas condições, Helena.Daniel foi direto assim que a videochamada começou.Helena manteve a expressão tranquila.— Ainda não apresentei todas.Ele sorriu.— Conheço você há tempo suficiente para saber que preparou uma contraproposta.— Então vamos economizar tempo.Ela compartilhou a tela.— Aceito coordenar as três equipes europeias, mas proponho seis dias presenciais por mês em Lisboa, com viagens adicionais apenas para etapas previamente definidas.Daniel examinou o documento.— A diretoria solicitou dez dias.— Eu sei. Mas duas equipes já trabalham remotamente comigo. A terceira pode seguir o mesmo modelo, desde que estabeleçamos responsáveis locais e indicadores semanais.— E as reuniões estratégicas?— Presenciais quando necessário. Não quando alguém simplesmente preferir uma sala cheia.Daniel soltou uma risada.— Você continua impossível.— Prefiro eficiente.O sorriso dele desapareceu quando abriu
CAPÍTULO 160 — ENTRE DOIS MUNDOS— Daniel, você está me oferecendo uma promoção ou uma mudança de país?Helena fez a pergunta assim que ouviu os detalhes da proposta.Do outro lado da videochamada, Daniel sorriu.— Uma promoção. Mas preciso ser transparente sobre as exigências.— Estou ouvindo.— Queremos que você assuma a coordenação estratégica de três equipes europeias. O projeto cresceu, e seu trabalho foi fundamental para isso.Helena sentiu uma onda de satisfação.— É uma oportunidade importante.— É. Mas exigiria presença em Lisboa durante dez dias por mês, pelo menos no primeiro semestre.O sorriso dela desapareceu.Até então, sua rotina previa aproximadamente uma semana mensal na Europa.Dez dias representariam uma mudança considerável.— Existe possibilidade de dividir essa responsabilidade? — perguntou.— Podemos estudar alternativas. Mas precisamos de alguém com sua experiência.— E quando precisam da resposta?— Até o fim da próxima semana.Helena assentiu.— Vou avaliar.
CAPÍTULO 159 — O QUE A DISTÂNCIA NÃO APAGA— Você vai viajar?Helena ergueu os olhos quando Valente entrou no quarto com o notebook.— Provavelmente. Tenho uma reunião internacional na próxima semana.— Para onde?— Madri. Dois dias.Ela assentiu e voltou a guardar as roupas.Valente percebeu sua expressão.— Algum problema?— Nenhum.— Helena...— Valente, você é CEO. Viajar faz parte do seu trabalho.Ele fechou o notebook.— E por que parece que está tentando convencer a si mesma?Helena soltou um suspiro.— Porque eu sei que é irracional, mas ainda odeio despedidas.Valente se aproximou.— Não estamos nos despedindo.— Eu sei.— Estou indo trabalhar. Depois volto para casa.Ela sorriu discretamente.— Você faz parecer simples.— Porque desta vez é.Ele a beijou.Mas Helena permaneceu abraçada a ele por alguns segundos a mais.***Na manhã seguinte, Valente reuniu os responsáveis pela expansão.— A negociação técnica ficará com a equipe de operações — anunciou. — O financeiro terá a







