LOGIN# Capítulo 3
Fernanda voltou a boiar de costas. Ficou olhando pro céu. — Sabe o que é foda, Pri? — O quê? — Minha mãe. Não respondi na hora. Esperei. Fernanda não era do tipo que desabafava fácil. Quando começava assim, era porque já estava segurando há tempo. — Ela tá infeliz — disse sem me olhar. — Faz tempo. — Por causa do Carlos? Ela soltou o ar devagar. — Ele não dá atenção pra ela. Tipo... nenhuma. Zero. Fiquei em silêncio. — Minha mãe se arruma toda. Faz comida. Cuida da casa. Tenta puxar conversa. E ele... nada. Chega, fala o básico, vai pro escritório e fica lá. Às vezes nem dorme no quarto. Senti um aperto no peito. Não sabia se era pena da Amanda. Ou outra coisa. — Ela já tentou conversar com ele? — perguntei. — Mil vezes. Ele ouve, fala que vai mudar, e no dia seguinte é a mesma coisa. Minha mãe chora escondido, Pri. Eu ouço. Fernanda afundou os ombros na água. — Às vezes acho que ele casou com ela por costume. Não por amor. Aquilo me atingiu de um jeito que eu não esperava. Se ele não amava a Amanda... Cortei o pensamento antes que ele fosse longe demais. — Você acha que eles vão se separar? — perguntei tentando parecer casual. Fernanda deu de ombros. — Sei lá. Minha mãe nunca vai pedir separação. Ela tem medo. E orgulho. E acho que ainda gosta dele, mesmo ele sendo desse jeito. — E o Carlos? — O Carlos é um muro, Pri. Ninguém sabe o que ele sente. Nem minha mãe. Nem eu. Acho que nem ele. Fiquei quieta. A água batia de leve no meu pescoço. O sol esquentava meus ombros. E dentro de mim tudo girava. Eu não devia estar sentindo aquilo. Não devia estar pensando que se o casamento deles acabasse, talvez... Talvez nada. Ele era o padrasto da minha melhor amiga. Ele era mais velho. Ele era perigoso. E eu era só uma garota de dezenove anos que não significava nada pra ele. Mas o coração não escuta razão. Nunca escutou. — Sabe o que mais me irrita? — Fernanda continuou. — O quê? — Ele é bom pra todo mundo menos pra ela. Paga as contas, resolve os problemas do morro, cuida de tudo. Mas dentro de casa é como se minha mãe fosse invisível. — Talvez ele não saiba demonstrar. — Ou talvez ele simplesmente não sinta nada. Ela falou aquilo com uma frieza que me assustou. Fernanda gostava do Carlos. Respeitava ele. Mas via a mãe sofrer todo dia e aquilo ia corroendo por dentro. — Enfim — ela disse virando pra mim. — Não quero ficar falando disso. Já me estresso o suficiente em casa. Sorri. — Tá certa. — Bora falar de coisa boa. Sábado. Festa da Jéssica. Você vai. — Fernanda... — Sem discussão. Comecei a rir. Ela também riu. E por um momento ficou tudo leve de novo. Mas só por um momento. Porque enquanto a Fernanda falava da festa, da roupa que ia usar, do batom que tinha comprado, eu pensava em outra coisa. Pensava no que ela tinha dito. Que o Carlos não amava a Amanda. Que ele era um muro. Que ninguém sabia o que ele sentia. E eu ficava me perguntando... Se alguém conseguisse passar por esse muro, o que teria do outro lado? Seria frieza mesmo? Ou seria tanta coisa guardada que ele não sabia como soltar? Apertei os lábios. A água já não estava mais gelada. Ou talvez eu estivesse quente demais pra sentir frio. — Pri, você tá fazendo de novo. — O quê? — Viajando. Pisquei. — Desculpa. Fernanda me olhou com a cabeça inclinada. — Tá tudo bem com você? — Tá. Tá sim. — Você tá estranha hoje. — Eu sempre fui estranha. Ela apertou os olhos. Depois deu de ombros. — Verdade. Rimos juntas. Saímos da piscina quando o sol começou a ficar forte demais. Fernanda me emprestou uma toalha. Nos sentamos nas cadeiras da área. Ela mexia no celular. Provavelmente falando com o Rodrigo. Pelo sorriso no rosto, com certeza era ele. Eu sequei o cabelo devagar. Olhei pra varanda do primeiro andar. Vazia. Carlos não estava mais lá. Mas a imagem dele ainda estava na minha cabeça. A regata branca. Os braços. A mandíbula cerrada. E agora, junto com a imagem, tinha uma informação nova. Ele não amava a mulher dele. Eu sabia que aquilo não mudava nada. Não me dava nenhum direito. Nenhuma chance. Nenhuma abertura. Mas mudava alguma coisa dentro de mim. Uma coisa pequena. Perigosa. Uma esperança que eu não pedi pra sentir. E que eu não sabia como apagar.Seis meses haviam passado desde o dia em que a vida de Carlos e Priscila mudou para sempre.A barriga de Priscila já estava grande, e Carlos havia desenvolvido um hábito que fazia ela rir todos os dias: antes de dormir, colocava a mão sobre a barriga dela e conversava com o bebê como se os dois já fossem velhos amigos.— Você tá me ouvindo aí, moleque?Priscila, deitada ao lado dele, soltava uma risada.— Você ainda acha que é menino?— Tenho certeza.— E se for menina?Carlos pensava por alguns segundos.— Aí eu vou ter uma filha linda.— Então você não tem certeza de nada.— Tenho certeza de que vai ser lindo.Priscila sorria.Aquela era uma vida completamente diferente da que eles haviam imaginado meses antes.Não havia mais homens armados na porta.Não havia telefone tocando de madrugada com notícias de invasão.Não havia Carlos saindo de casa sem saber se voltaria.Ele ainda mantinha contato com Dante, mas agora as conversas eram diferentes.Dante cuidava do morro.Carlos cuidava
A notícia ainda parecia grande demais para caber dentro daquele quarto.Priscila estava sentada na cama do hospital, uma das mãos sobre a barriga ainda sem nenhuma mudança visível. Carlos permanecia ao lado dela, olhando para aquele gesto simples como se estivesse diante da coisa mais importante que já tinha visto na vida.Um filho.O filho deles.Depois de tudo o que tinham enfrentado, depois do sequestro, dos tiros, de Caveiro, de Amanda e de todas as vezes em que Carlos teve medo de perder Priscila, descobrir que ela estava grávida parecia quase inacreditável.Ele segurou a mão dela.— Você tá bem?Priscila sorriu de leve.— Tô. Ainda tô tentando acreditar.Carlos respirou fundo.— Eu também.Ela olhou para ele.— Você ficou com medo?Carlos soltou uma risada baixa, sem humor.— Eu fiquei com medo de tanta coisa nessa vida que nem sei mais contar.Ele abaixou os olhos para a barriga dela.— Mas agora é diferente.— Diferente como?Carlos levantou o olhar.— Agora eu tenho alguém al
Priscila ainda estava abraçada a Carlos quando a ambulância que levaria Amanda começou a se afastar.Ela continuava tremendo.Carlos percebeu.— Você está bem?Priscila assentiu, mas seus olhos ainda estavam assustados.— Estou... só quero ir embora daqui.Carlos passou o braço ao redor dela.— Vamos.Ele olhou para Dante.— Você fica para resolver tudo por aqui?Dante assentiu.— Fica tranquilo. Eu cuido disso.Carlos olhou mais uma vez para a estrada por onde a ambulância havia desaparecido.Amanda estava sendo levada para receber atendimento e depois responderia pelo que havia feito.Caveiro estava morto.Os homens dele haviam sido derrotados.Aquela parte da guerra tinha terminado.Agora só havia uma coisa que importava.Priscila.Carlos segurou a mão dela e a conduziu até o carro.Antes de entrar, parou.— Espera.Priscila olhou para ele.Carlos segurou seu rosto.— Você tem certeza que não está machucada?— Tenho.— Está sentindo dor?— Meu corpo está doendo um pouco. Acho que p
Carlos e Dante entraram na construção atrás de Caveiro.O lugar estava escuro, cheio de portas e corredores estreitos.— Caveiro! — gritou Carlos. — Acabou!Nenhuma resposta.Dante olhou para os lados.— Ele está tentando fugir.Um barulho veio do fundo.Carlos apontou para o corredor.— Ali.Os dois avançaram.Do lado de fora, os homens de Carlos mantinham os outros criminosos sob controle. Alguns tinham fugido. Outros haviam largado as armas e se rendido.Priscila permanecia protegida atrás de um dos veículos.Amanda, porém, continuava ali.Ela olhava para Carlos desaparecer dentro da construção.Seu rosto estava tomado pela raiva.— Não pode acabar assim...Priscila ouviu.Virou-se para ela.— Amanda...Amanda olhou para Priscila.— Tudo isso aconteceu por sua causa.Priscila ficou assustada.— Não. Tudo isso aconteceu porque você escolheu ficar do lado de Caveiro.Amanda colocou a mão dentro da bolsa.Priscila arregalou os olhos quando percebeu o que ela estava fazendo.— Amanda,
Carlos colocou o celular sobre a mesa.A mensagem para Caveiro já tinha sido enviada.“Eu aceito.”Dante ficou olhando para ele.— Você realmente vai entregar o morro?Carlos levantou os olhos.— Não.Dante soltou um pequeno sorriso.— Eu sabia.— Eu só preciso que Caveiro acredite que venceu.França entrou na sala.— E como vamos fazer isso?Carlos olhou para Dante.— Ele sabe.Dante cruzou os braços.— Primeiro precisamos fazer Caveiro acreditar que Carlos está desesperado demais para pensar.Carlos assentiu.— É exatamente isso.Dante pegou um papel e colocou sobre a mesa.— A gente deixa ele escolher o lugar da troca.— Certo.— Você vai sozinho, como ele pediu.Carlos imediatamente negou.— Nem pensar.— Não sozinho de verdade — explicou Dante. — Caveiro precisa acreditar que você está sozinho.Carlos entendeu.— E vocês ficam escondidos.— Exatamente.França perguntou:— E Priscila?Dante respondeu:— Primeiro precisamos confirmar que ela está viva e onde está. Depois fazemos a
Carlos continuava observando o galpão de longe.O lugar estava quase completamente escuro.Apenas algumas luzes fracas escapavam pelas frestas das janelas.Dante permanecia ao lado dele, atento a cada movimento.França estava alguns metros atrás, acompanhando tudo.— Tem gente entrando e saindo — murmurou Dante.Carlos não tirava os olhos do galpão.— Priscila está lá.— Pode estar.— Eu sinto.Dante olhou para ele.Sabia que Carlos estava tentando controlar a própria ansiedade.Mas não era fácil.A mulher que ele amava estava presa naquele lugar.E cada segundo parecia uma eternidade.Um dos homens de Caveiro saiu do galpão e olhou ao redor.Carlos imediatamente se abaixou.— Espera.O homem entrou novamente.Alguns minutos passaram.Então o telefone de Carlos vibrou.Ele olhou para a tela.Número desconhecido.Seu coração acelerou.— É ele.Dante se aproximou.— Atende.Carlos apertou o botão.— Fala.Do outro lado, uma voz masculina respondeu.— Carlos.Ele reconheceu.Caveiro.Car







