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Capítulo 3

Autor: Luana
last update Data de publicação: 2026-07-17 00:34:47

# Capítulo 3

Fernanda voltou a boiar de costas.

Ficou olhando pro céu.

— Sabe o que é foda, Pri?

— O quê?

— Minha mãe.

Não respondi na hora.

Esperei.

Fernanda não era do tipo que desabafava fácil.

Quando começava assim, era porque já estava segurando há tempo.

— Ela tá infeliz — disse sem me olhar. — Faz tempo.

— Por causa do Carlos?

Ela soltou o ar devagar.

— Ele não dá atenção pra ela. Tipo... nenhuma. Zero.

Fiquei em silêncio.

— Minha mãe se arruma toda. Faz comida. Cuida da casa. Tenta puxar conversa. E ele... nada. Chega, fala o básico, vai pro escritório e fica lá. Às vezes nem dorme no quarto.

Senti um aperto no peito.

Não sabia se era pena da Amanda.

Ou outra coisa.

— Ela já tentou conversar com ele? — perguntei.

— Mil vezes. Ele ouve, fala que vai mudar, e no dia seguinte é a mesma coisa. Minha mãe chora escondido, Pri. Eu ouço.

Fernanda afundou os ombros na água.

— Às vezes acho que ele casou com ela por costume. Não por amor.

Aquilo me atingiu de um jeito que eu não esperava.

Se ele não amava a Amanda...

Cortei o pensamento antes que ele fosse longe demais.

— Você acha que eles vão se separar? — perguntei tentando parecer casual.

Fernanda deu de ombros.

— Sei lá. Minha mãe nunca vai pedir separação. Ela tem medo. E orgulho. E acho que ainda gosta dele, mesmo ele sendo desse jeito.

— E o Carlos?

— O Carlos é um muro, Pri. Ninguém sabe o que ele sente. Nem minha mãe. Nem eu. Acho que nem ele.

Fiquei quieta.

A água batia de leve no meu pescoço.

O sol esquentava meus ombros.

E dentro de mim tudo girava.

Eu não devia estar sentindo aquilo.

Não devia estar pensando que se o casamento deles acabasse, talvez...

Talvez nada.

Ele era o padrasto da minha melhor amiga.

Ele era mais velho.

Ele era perigoso.

E eu era só uma garota de dezenove anos que não significava nada pra ele.

Mas o coração não escuta razão.

Nunca escutou.

— Sabe o que mais me irrita? — Fernanda continuou.

— O quê?

— Ele é bom pra todo mundo menos pra ela. Paga as contas, resolve os problemas do morro, cuida de tudo. Mas dentro de casa é como se minha mãe fosse invisível.

— Talvez ele não saiba demonstrar.

— Ou talvez ele simplesmente não sinta nada.

Ela falou aquilo com uma frieza que me assustou.

Fernanda gostava do Carlos.

Respeitava ele.

Mas via a mãe sofrer todo dia e aquilo ia corroendo por dentro.

— Enfim — ela disse virando pra mim. — Não quero ficar falando disso. Já me estresso o suficiente em casa.

Sorri.

— Tá certa.

— Bora falar de coisa boa. Sábado. Festa da Jéssica. Você vai.

— Fernanda...

— Sem discussão.

Comecei a rir.

Ela também riu.

E por um momento ficou tudo leve de novo.

Mas só por um momento.

Porque enquanto a Fernanda falava da festa, da roupa que ia usar, do batom que tinha comprado, eu pensava em outra coisa.

Pensava no que ela tinha dito.

Que o Carlos não amava a Amanda.

Que ele era um muro.

Que ninguém sabia o que ele sentia.

E eu ficava me perguntando...

Se alguém conseguisse passar por esse muro, o que teria do outro lado?

Seria frieza mesmo?

Ou seria tanta coisa guardada que ele não sabia como soltar?

Apertei os lábios.

A água já não estava mais gelada.

Ou talvez eu estivesse quente demais pra sentir frio.

— Pri, você tá fazendo de novo.

— O quê?

— Viajando.

Pisquei.

— Desculpa.

Fernanda me olhou com a cabeça inclinada.

— Tá tudo bem com você?

— Tá. Tá sim.

— Você tá estranha hoje.

— Eu sempre fui estranha.

Ela apertou os olhos.

Depois deu de ombros.

— Verdade.

Rimos juntas.

Saímos da piscina quando o sol começou a ficar forte demais.

Fernanda me emprestou uma toalha.

Nos sentamos nas cadeiras da área.

Ela mexia no celular.

Provavelmente falando com o Rodrigo.

Pelo sorriso no rosto, com certeza era ele.

Eu sequei o cabelo devagar.

Olhei pra varanda do primeiro andar.

Vazia.

Carlos não estava mais lá.

Mas a imagem dele ainda estava na minha cabeça.

A regata branca.

Os braços.

A mandíbula cerrada.

E agora, junto com a imagem, tinha uma informação nova.

Ele não amava a mulher dele.

Eu sabia que aquilo não mudava nada.

Não me dava nenhum direito.

Nenhuma chance.

Nenhuma abertura.

Mas mudava alguma coisa dentro de mim.

Uma coisa pequena.

Perigosa.

Uma esperança que eu não pedi pra sentir.

E que eu não sabia como apagar.

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