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Capítulo 2

Autor: Luana
last update Data de publicação: 2026-07-16 20:53:05

Fernanda abriu o portão de casa como se fosse dona do mundo.

— Cheguei!

Ninguém respondeu.

Ela deu de ombros.

— Normal.

Entrei atrás dela.

A casa era grande.

Não era mansão, mas era a maior do morro.

Dois andares.

Varanda no andar de cima.

Piscina nos fundos.

Tudo limpo, tudo arrumado.

Amanda cuidava daquela casa como se fosse um templo.

— Minha mãe deve tá lá em cima — Fernanda disse jogando a bolsa no sofá. — Bora pra piscina?

Sorri.

— Eu nem trouxe biquíni.

Ela me olhou como se eu tivesse falado a coisa mais absurda do mundo.

— E precisa? Tenho uns dez no quarto. Vem.

Me puxou pela mão escada acima.

O quarto da Fernanda era exatamente como ela.

Bagunçado.

Colorido.

Cheio de coisas jogadas em cima da cama.

Ela abriu a gaveta e tirou dois biquínis.

— Esse aqui é seu — disse jogando um na minha direção.

Peguei no ar.

Era um biquíni preto.

Simples.

Bonito.

— Vai lá no banheiro trocar.

Entrei no banheiro e tranquei a porta.

Tirei a roupa devagar.

Coloquei a parte de baixo primeiro.

Ajustei nas laterais.

Depois o top.

Me olhei no espelho.

O preto ficava bonito na minha pele.

Passei a mão na barriga.

A marquinha do biquíni antigo ainda estava ali.

Aquela linha fininha onde o sol não pegou.

Sempre achei bonito isso.

A marca do sol desenhando o corpo da gente.

Ajeitei o cabelo.

Respirei fundo.

Abri a porta.

Fernanda já estava pronta.

Biquíni vermelho.

Cabelo preso.

Óculos de sol na cabeça.

— Gata — ela disse me olhando de cima a baixo.

Comecei a rir.

— Para.

— Tô falando sério. Se eu fosse homem...

— Fernanda!

Ela gargalhou.

— Vem, vem.

Descemos até a área da piscina.

A água estava limpa, azul, brilhando com o sol da manhã.

Fernanda não pensou duas vezes.

Pulou.

A água espirrou pra todo lado.

— Vem, Pri! Tá uma delícia!

Sentei na borda primeiro.

Coloquei os pés na água.

Estava gelada.

— Tá gelada, Fernanda.

— Deixa de frescura.

Escorreguei devagar até entrar por inteiro.

Arrepiei toda.

Depois o corpo foi se acostumando.

Ficamos ali.

Boiando.

Conversando.

Rindo de besteira.

Até que Fernanda nadou até a borda e apoiou os braços, me olhando com aquele sorriso que eu já conhecia.

O sorriso de quem vai contar um segredo.

— Pri...

— O quê?

— Preciso te contar uma coisa.

Nadei até ela.

— Fala.

Ela mordeu o lábio.

— Tô saindo com alguém.

Arregalei os olhos.

— Com quem?

— Você conhece.

— Fernanda, fala logo.

Ela abaixou a voz mesmo sem ninguém por perto.

— O Rodrigo.

Fiquei em silêncio por um segundo.

— Rodrigo... o segurança do Carlos?

Ela confirmou com a cabeça.

— Esse mesmo.

— Fernanda...

— Eu sei, eu sei. Mas ele é diferente, Pri. Juro. Ele é carinhoso, me trata bem...

— Ele trabalha pro seu padrasto.

— E daí?

— E se o Carlos descobre?

Ela fez uma careta.

— Ele não vai descobrir. A gente é discreto.

Olhei pra ela sem saber o que dizer.

Fernanda era assim.

Mergulhava de cabeça em tudo.

Sem medo.

Sem pensar nas consequências.

Eu era o oposto.

Pensava demais.

Sentia demais.

E guardava tudo.

— Só toma cuidado — eu disse.

Ela sorriu.

— Sempre tomo.

Mentira.

Ela nunca tomava cuidado com nada.

Mas eu amava isso nela.

...

Ficamos mais um tempo na piscina.

Fernanda falava do Rodrigo.

De como ele mandava mensagem toda noite.

De como ele tinha um sorriso bonito.

Eu ouvia.

Sorria.

Respondia quando precisava.

Até que ouvi vozes vindas de dentro da casa.

Não eram vozes normais.

Eram vozes tensas.

Olhei para a porta da área.

Fernanda também ouviu.

— Lá vem...

— O que foi?

— Minha mãe e o Carlos. Tão discutindo de novo.

Não consegui ouvir direito o que diziam.

Só pegava pedaços.

A voz da Amanda era mais alta.

A do Carlos era baixa.

Controlada.

Como sempre.

Durou uns dois minutos.

Depois a porta da frente bateu.

Amanda tinha saído.

Fernanda suspirou.

— Toda semana é isso.

— Eles brigam muito?

— Não é briga. É minha mãe querendo atenção e ele sendo... ele.

Ela afundou na água até o nariz.

— Enfim. Não é problema meu.

Voltou a falar de outra coisa.

Do cabelo.

Da festa de sábado.

Mas eu não estava mais ouvindo.

Porque Carlos tinha aparecido na varanda do primeiro andar.

Estava sozinho.

Apoiado no parapeito.

Olhando pra frente.

Pra lugar nenhum.

Ele usava uma regata branca.

Os braços à mostra.

Os ombros largos.

A mandíbula cerrada como se estivesse mastigando um pensamento que não queria engolir.

Engoli seco.

Meu corpo inteiro reagiu.

Eu estava dentro da piscina, com a água batendo no meu peito, e mesmo assim senti um calor subindo por dentro.

Ele não olhou pra baixo.

Não olhou pra mim.

Não sabia que eu existia naquele momento.

E mesmo assim eu não conseguia tirar os olhos dele.

Fiquei imaginando como seria se ele olhasse.

Se ele me visse ali.

De biquíni.

Com a pele molhada.

Com as marquinhas do sol.

Imaginei os olhos dele descendo devagar.

Sem pressa.

Do meu rosto até o meu pescoço.

Do pescoço até o colo.

Senti meu corpo arrepiar por inteiro.

A água gelada não adiantava mais.

Apertei as coxas debaixo da água.

Meu coração batia tão forte que eu tinha medo de a Fernanda ouvir.

Ele continuava ali.

Parado.

Sério.

Sozinho.

E eu continuava ali.

Parada.

Molhada.

Pensando coisas que não devia.

— Pri?

A voz da Fernanda me puxou de volta.

— Hã?

— Tá ouvindo o que eu tô falando?

— Tô... tô sim.

Ela estreitou os olhos.

— Tava viajando de novo.

Forcei um sorriso.

— Desculpa. Tava pensando numa coisa.

— Em quê?

— Nada.

Ela deu de ombros e voltou a falar.

Eu voltei a fingir que ouvia.

Mas não ouvia.

Porque quando olhei de novo pra varanda, Carlos já tinha entrado.

E eu fiquei ali.

Com o corpo quente.

Com a cabeça cheia.

E com a certeza de que aquilo não era mais só uma distração.

Era alguma coisa.

Alguma coisa perigosa.

E eu não sabia se queria parar.

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