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Capítulo 4

Autor: Luana
last update Data de publicação: 2026-07-17 00:48:09

*Carlos narrando)

Acordei às seis.

Como todo dia.

Não preciso de despertador.

Meu corpo já sabe a hora de levantar.

Olhei pro lado.

Amanda dormia virada pro outro lado da cama.

Longe.

Sempre longe.

Levantei sem fazer barulho.

Fui pro banheiro.

Lavei o rosto.

Me olhei no espelho.

Quarenta e dois anos.

Cicatriz no queixo.

Olheiras que não saem mais.

Cabelo curto, já com uns fios brancos na lateral.

Foda-se.

Não tenho tempo pra me preocupar com isso.

Escovei os dentes.

Vesti uma calça cargo e uma camisa preta.

Calcei a bota.

Peguei o celular.

Sete mensagens.

Três do Djalma.

Duas do Rodrigo.

Uma do Neguinho.

Uma de número desconhecido.

Abri a do Djalma primeiro.

"Patrão, o Sérgio tá devendo de novo. Terceira vez."

"Quer que eu resolva?"

"Ele tá escondido na casa da mãe dele."

Li as três.

Respondi com uma só.

"Traz ele pra mim."

Guardei o celular no bolso.

Desci a escada.

A casa tava em silêncio.

Amanda ainda dormindo.

Fernanda também.

Fui pra cozinha.

Fiz um café preto.

Sem açúcar.

Tomei em pé, encostado na pia, olhando pela janela.

O morro já tava acordando.

Meu morro.

Cada rua, cada beco, cada esquina.

Tudo passava por mim.

Nada acontecia ali sem eu saber.

Ou sem eu deixar.

...

Saí de casa às sete.

O Rodrigo já tava esperando na porta com o carro.

— Bom dia, patrão.

— Bom dia.

Entrei no banco de trás.

Ele ligou o carro e desceu a rua devagar.

— O Djalma ligou — ele disse olhando pelo retrovisor.

— Eu sei. Já mandei ele trazer o Sérgio.

— Quer que eu vá junto?

— Não. Fica na porta. Se precisar, eu chamo.

Ele assentiu.

Rodrigo era bom soldado.

Calado.

Obediente.

Não fazia pergunta demais.

Eu gostava disso.

Gente que fala demais me irrita pra caralho.

...

Chegamos no galpão lá embaixo.

Desci do carro.

Três dos meus já tavam lá.

Djalma.

Neguinho.

E o Biel, que ficava na boca da entrada.

— E aí — falei sem parar de andar.

— Patrão — os três responderam quase junto.

Entrei no galpão.

Sentei na cadeira atrás da mesa.

Acendi um cigarro.

— Cadê o Sérgio?

— Tão trazendo — Djalma disse. — Tava chorando na casa da mãe.

— Chorando?

— Chorando.

Soltei a fumaça devagar.

— Deve trinta mil meu e tá chorando. Puta que pariu.

Neguinho riu baixo.

— Ele disse que vai pagar, patrão.

— Disse isso da primeira vez. E da segunda. Agora é a terceira. Não tem terceira vez comigo.

Fiquei em silêncio.

Fumei.

Esperei.

Dez minutos depois trouxeram o Sérgio.

Magro.

Suado.

Olho vermelho.

Colocaram ele na minha frente.

Ele não conseguia me olhar.

— Senta — falei.

Ele sentou.

As mãos tremiam.

— Sérgio.

— Patrão, eu juro que—

— Cala a boca.

Ele calou.

— Trinta mil. Três meses. Três vezes que você me prometeu e não pagou. Me diz uma coisa. Você acha que eu sou otário?

— Não, patrão, jamais—

— Então por que tá me tratando como um?

Ele engoliu seco.

Não respondeu.

Apaguei o cigarro na mesa.

— Você tem uma semana. Uma. Se em sete dias o dinheiro não tiver na minha mão, não sou eu que vou te procurar. É o Djalma. E o Djalma não conversa.

Djalma cruzou os braços atrás de mim.

Sérgio olhou pra ele.

Ficou branco.

— Vai embora — falei.

Ele levantou tropeçando na própria perna.

Saiu quase correndo.

Neguinho olhou pra mim.

— Acha que ele paga?

— Não sei. Mas se não pagar, o problema é dele.

Acendi outro cigarro.

...

O resto da manhã foi isso.

Resolver merda dos outros.

Ouvir reclamação.

Cobrar.

Organizar.

Manter tudo funcionando.

Porque se eu parasse um dia, um dia que fosse, tudo desmoronava.

Ninguém ali pensava por conta própria.

Ninguém resolvia nada sozinho.

Tudo caía no meu colo.

Sempre caiu.

Desde que eu tinha vinte e poucos anos e assumi o morro do meu tio.

Vinte anos nisso.

Vinte anos carregando essa porra nas costas.

E eu não reclamava.

Nunca reclamei.

Porque era meu.

Eu escolhi isso.

E o que é meu, eu cuido.

...

Voltei pra casa no fim da tarde.

A casa tava cheia de cheiro de comida.

Amanda tinha cozinhado.

Ela sempre cozinhava.

Arrumava a casa.

Se arrumava.

Botava perfume.

Esperava eu chegar.

E eu chegava, comia, falava o básico e ia pro escritório.

Todo dia.

Eu sabia que ela sofria com isso.

Eu não era burro.

Via nos olhos dela.

Na forma como ela me olhava quando eu passava direto por ela sem dizer nada.

Na forma como ela ficava parada na porta do escritório esperando eu levantar a cabeça.

E eu não levantava.

Não porque eu quisesse magoar ela.

Mas porque eu não sabia mais o que dizer.

...

Eu amava a Amanda.

Amei de verdade.

Quando conheci ela, a Fernanda tinha uns seis anos.

Pequenininha.

Segurava na mão da mãe e me olhava com aqueles olhos grandes, sem medo nenhum.

Amanda era bonita.

Sorriso largo.

Cabelo comprido.

E tinha uma força que me chamou atenção.

Mulher que criava filha sozinha no morro, trabalhando, sem pedir nada pra ninguém.

Eu olhei pra ela e pensei: essa mulher merece alguém que cuide dela.

E fui esse alguém.

Casei com ela.

Dei casa.

Dei segurança.

Dei tudo que eu podia dar.

E por muito tempo foi bom.

Eu chegava em casa e queria estar ali.

Queria ouvir ela falar.

Queria deitar do lado dela.

Queria sentir o cheiro do cabelo dela no travesseiro.

Mas alguma coisa mudou.

Não sei quando.

Não sei como.

Não sei por quê.

Foi como se um dia eu acordasse e aquele fogo tivesse apagado.

Não foi culpa dela.

Ela continuava a mesma.

Bonita.

Dedicada.

Carinhosa.

O problema era eu.

Alguma coisa dentro de mim travou.

E eu não sabia destravar.

Tentei.

Juro que tentei.

Mas cada vez que ela vinha falar comigo, eu só conseguia dar respostas curtas.

Cada vez que ela tentava se aproximar na cama, meu corpo não respondia.

Não era outra mulher.

Nunca foi.

Em vinte anos eu nunca olhei pra outra.

Nunca quis outra.

Nunca toquei em outra.

Isso eu podia jurar de olho fechado.

Mas também não conseguia mais tocar nela.

E isso tava me comendo por dentro.

Porque eu via ela sofrendo.

Via ela chorando achando que eu não ouvia.

Via ela se arrumando pra mim e eu passando direto.

E eu me odiava por isso.

Mas não sabia como mudar.

...

Subi pro primeiro andar.

Fui pra varanda.

Acendi mais um cigarro.

Olhei pro morro lá embaixo.

O sol tava forte.

Ouvi risadas vindas da piscina.

Fernanda e alguma amiga dela.

Não olhei.

Não me interessava.

Fiquei ali fumando.

Pensando.

Em tudo que eu construí.

Em tudo que eu tava perdendo dentro da minha própria casa.

Soltei a fumaça pro céu.

— Que merda, Carlos — murmurei pra mim mesmo. — Que merda.

Apaguei o cigarro.

Entrei.

Fechei a porta da varanda.

E fui pro escritório.

Como sempre.

Sozinho.

Como sempre.

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