LOGIN(Carlos narrando)
Cheguei em casa umas oito da noite. Cansado pra caralho. O dia tinha sido longo. Problema atrás de problema. Gente devendo. Gente reclamando. Gente querendo favor. Eu resolvia um e apareciam três. Sempre assim. Abri a porta e o cheiro de comida me acertou na cara. Amanda tinha cozinhado de novo. Feijoada. Eu sentia o cheiro do louro, do alho, da carne. A casa tava arrumada. Chão brilhando. Tudo no lugar. Ela fazia isso todo dia. Todo santo dia. Como se arrumar a casa fosse um jeito de me dizer alguma coisa que ela não conseguia mais dizer com palavras. Passei pela sala. Fernanda tava no sofá com uma amiga. Alguma menina que eu já tinha visto antes. Não sei o nome. Não me interessava. — Oi, Carlos — Fernanda disse sem tirar os olhos do celular. — Oi. Passei direto. Não olhei pra amiga dela. Não olhei pra ninguém. Fui pra cozinha. Amanda tava de costas, mexendo numa panela. Tinha prendido o cabelo. Usava um vestido leve. Perfume. Eu sentia o perfume dela dali. — Oi — ela disse sem se virar. — Oi. — Fiz feijoada. — Vi. Silêncio. Ela esperou eu falar mais alguma coisa. Eu não falei. Peguei um copo d'água. Bebi em pé. — Vai jantar agora? — ela perguntou. — Depois. — Tá. Saí da cozinha. Subi a escada. Fui pro quarto. Tirei a camisa. Tirei a bota. Sentei na beira da cama. Passei a mão no rosto. Tava exausto. Não só do corpo. Da cabeça. De tudo. ... Tomei um banho quente. Demorei. Deixei a água cair nas costas. Fiquei parado ali, de olho fechado, tentando não pensar em nada. Não funcionou. Nunca funciona. Saí do banho. Me sequei. Vesti uma bermuda. Quando abri a porta do banheiro, Amanda tava sentada na cama. Me esperando. Ela tinha trocado de roupa. Tava usando uma camisola. Preta. Curta. Transparente nos lados. Dava pra ver a curva do corpo dela por baixo do tecido. Os seios. A cintura. As coxas. Ela me olhou. Aquele olhar que eu conhecia. O olhar de quem tava pedindo alguma coisa sem falar. Sem implorar. Mas pedindo. Eu sabia o que ela queria. Ela queria que eu fosse o homem que eu era antes. O que chegava em casa e puxava ela pela cintura. O que arrancava a roupa dela antes de chegar na cama. O que fazia ela gemer meu nome no escuro. Fazia tempo que esse homem tinha sumido. Mas naquela noite eu olhei pra ela e pensei: tenta, Carlos. Pelo menos tenta, porra. Fui até ela. Ela levantou a cabeça. Os olhos brilhando. Esperança. Puta que pariu, como doía ver esperança nos olhos dela. Segurei o rosto dela com as duas mãos. Beijei. Com força. Ela gemeu baixinho contra a minha boca. As mãos dela subiram pro meu peito. Quente. Trêmula. Puxei o cabelo dela pra trás. Devagar não. Com força. Ela inclinou a cabeça e eu desci a boca pro pescoço dela. Lambi. Chupei. Senti o gosto do perfume na pele. Ela agarrou meus ombros. As unhas dela cravaram na minha pele. — Carlos... A voz dela saiu rouca. Quase um sussurro. Desci a alça da camisola. Primeiro um lado. Depois o outro. O tecido escorregou e os seios dela apareceram. Bonitos. Cheios. Escuros na ponta. Peguei um com a mão. Apertei. Ela fechou os olhos. Abaixei a cabeça e coloquei o bico na boca. Chupei devagar primeiro. Depois com mais força. Ela gemeu mais alto. Puxou minha cabeça contra o peito dela. Eu chupava um, apertava o outro. Alternava. Ela se contorcia embaixo de mim. Empurrei ela na cama. Ela caiu de costas. O cabelo espalhou no travesseiro. Subi por cima dela. Puxei a camisola pra cima. Tirei de uma vez. Ela ficou só de calcinha. Preta. Pequena. Passei a mão pela barriga dela. Pela cintura. Desci até a coxa. Apertei. Ela abriu as pernas. Puxei a calcinha pro lado. Ela tava molhada. Quente. Pronta. Encaixei. Entrei devagar. Ela agarrou o lençol. — Porra — soltei entre os dentes. Comecei a meter. Devagar no começo. Depois mais forte. Ela gemia. Eu segurava o quadril dela com as duas mãos. Puxava ela contra mim. Cada vez mais forte. A cama batia na parede. Ela cravou as unhas nas minhas costas. — Não para — ela pediu. Eu não parei. Puxei o cabelo dela de novo. Ela gemeu alto. Virei ela de bruços. Puxei o quadril pra cima. Entrei de novo. Mais fundo. Mais forte. Ela agarrou o travesseiro. Abafou o gemido. Eu segurava a cintura dela com uma mão e o cabelo com a outra. Metia com raiva. Não raiva dela. Raiva de mim. Porque meu corpo tava ali. Funcionando. Fazendo tudo que tinha que fazer. Mas minha cabeça não tava. Eu olhava pra ela. Via o corpo dela. Ouvia os gemidos dela. Sentia o calor dela. E não sentia nada. Nada. Como se eu tivesse do lado de fora de mim mesmo, assistindo. Ela gozou. Eu senti o corpo dela tremer. As pernas dela fraquejaram. Ela desabou na cama. Eu continuei mais um pouco. Gozei. Sem barulho. Sem vontade. Saí de dentro dela. Deitei do lado. De barriga pra cima. Olhando pro teto. Ela se virou pra mim. Encostou a cabeça no meu peito. A mão dela no meu peito. — Te amo — ela sussurrou. Não respondi na hora. Fiquei olhando pro teto. — Eu também — falei. Mentira. Não era mentira que eu amava ela. Era mentira que eu tava ali. Meu corpo tava. Mas eu não. Ela dormiu em cima de mim. Respiração leve. Cabelo cheirando a shampoo. E eu fiquei ali. Acordado. Olhando pro teto. Pensando no que tinha de errado comigo. Porque eu tinha acabado de foder a minha mulher. Com vontade. Com força. E não senti porra nenhuma. Nada. Nem prazer. Nem alívio. Nem conexão. Nada. Só o vazio de sempre. Aquele buraco no meio do peito que não fechava. Que não enchia com nada. Nem com trabalho. Nem com dinheiro. Nem com sexo. Nem com ela. Tirei o braço de baixo da cabeça dela devagar. Levantei sem fazer barulho. Fui pro banheiro. Lavei o rosto. Me olhei no espelho. O mesmo rosto de sempre. Cansado. Velho. Vazio. — Que merda, Carlos — falei pro espelho. — Que porra de merda. Voltei pro quarto. Ela continuava dormindo. Bonita. Tranquila. Achando que alguma coisa tinha mudado. Não tinha mudado nada. Deitei na beira da cama. Longe dela. Fechei os olhos. E fiquei esperando o sono que eu sabia que não ia vir.Seis meses haviam passado desde o dia em que a vida de Carlos e Priscila mudou para sempre.A barriga de Priscila já estava grande, e Carlos havia desenvolvido um hábito que fazia ela rir todos os dias: antes de dormir, colocava a mão sobre a barriga dela e conversava com o bebê como se os dois já fossem velhos amigos.— Você tá me ouvindo aí, moleque?Priscila, deitada ao lado dele, soltava uma risada.— Você ainda acha que é menino?— Tenho certeza.— E se for menina?Carlos pensava por alguns segundos.— Aí eu vou ter uma filha linda.— Então você não tem certeza de nada.— Tenho certeza de que vai ser lindo.Priscila sorria.Aquela era uma vida completamente diferente da que eles haviam imaginado meses antes.Não havia mais homens armados na porta.Não havia telefone tocando de madrugada com notícias de invasão.Não havia Carlos saindo de casa sem saber se voltaria.Ele ainda mantinha contato com Dante, mas agora as conversas eram diferentes.Dante cuidava do morro.Carlos cuidava
A notícia ainda parecia grande demais para caber dentro daquele quarto.Priscila estava sentada na cama do hospital, uma das mãos sobre a barriga ainda sem nenhuma mudança visível. Carlos permanecia ao lado dela, olhando para aquele gesto simples como se estivesse diante da coisa mais importante que já tinha visto na vida.Um filho.O filho deles.Depois de tudo o que tinham enfrentado, depois do sequestro, dos tiros, de Caveiro, de Amanda e de todas as vezes em que Carlos teve medo de perder Priscila, descobrir que ela estava grávida parecia quase inacreditável.Ele segurou a mão dela.— Você tá bem?Priscila sorriu de leve.— Tô. Ainda tô tentando acreditar.Carlos respirou fundo.— Eu também.Ela olhou para ele.— Você ficou com medo?Carlos soltou uma risada baixa, sem humor.— Eu fiquei com medo de tanta coisa nessa vida que nem sei mais contar.Ele abaixou os olhos para a barriga dela.— Mas agora é diferente.— Diferente como?Carlos levantou o olhar.— Agora eu tenho alguém al
Priscila ainda estava abraçada a Carlos quando a ambulância que levaria Amanda começou a se afastar.Ela continuava tremendo.Carlos percebeu.— Você está bem?Priscila assentiu, mas seus olhos ainda estavam assustados.— Estou... só quero ir embora daqui.Carlos passou o braço ao redor dela.— Vamos.Ele olhou para Dante.— Você fica para resolver tudo por aqui?Dante assentiu.— Fica tranquilo. Eu cuido disso.Carlos olhou mais uma vez para a estrada por onde a ambulância havia desaparecido.Amanda estava sendo levada para receber atendimento e depois responderia pelo que havia feito.Caveiro estava morto.Os homens dele haviam sido derrotados.Aquela parte da guerra tinha terminado.Agora só havia uma coisa que importava.Priscila.Carlos segurou a mão dela e a conduziu até o carro.Antes de entrar, parou.— Espera.Priscila olhou para ele.Carlos segurou seu rosto.— Você tem certeza que não está machucada?— Tenho.— Está sentindo dor?— Meu corpo está doendo um pouco. Acho que p
Carlos e Dante entraram na construção atrás de Caveiro.O lugar estava escuro, cheio de portas e corredores estreitos.— Caveiro! — gritou Carlos. — Acabou!Nenhuma resposta.Dante olhou para os lados.— Ele está tentando fugir.Um barulho veio do fundo.Carlos apontou para o corredor.— Ali.Os dois avançaram.Do lado de fora, os homens de Carlos mantinham os outros criminosos sob controle. Alguns tinham fugido. Outros haviam largado as armas e se rendido.Priscila permanecia protegida atrás de um dos veículos.Amanda, porém, continuava ali.Ela olhava para Carlos desaparecer dentro da construção.Seu rosto estava tomado pela raiva.— Não pode acabar assim...Priscila ouviu.Virou-se para ela.— Amanda...Amanda olhou para Priscila.— Tudo isso aconteceu por sua causa.Priscila ficou assustada.— Não. Tudo isso aconteceu porque você escolheu ficar do lado de Caveiro.Amanda colocou a mão dentro da bolsa.Priscila arregalou os olhos quando percebeu o que ela estava fazendo.— Amanda,
Carlos colocou o celular sobre a mesa.A mensagem para Caveiro já tinha sido enviada.“Eu aceito.”Dante ficou olhando para ele.— Você realmente vai entregar o morro?Carlos levantou os olhos.— Não.Dante soltou um pequeno sorriso.— Eu sabia.— Eu só preciso que Caveiro acredite que venceu.França entrou na sala.— E como vamos fazer isso?Carlos olhou para Dante.— Ele sabe.Dante cruzou os braços.— Primeiro precisamos fazer Caveiro acreditar que Carlos está desesperado demais para pensar.Carlos assentiu.— É exatamente isso.Dante pegou um papel e colocou sobre a mesa.— A gente deixa ele escolher o lugar da troca.— Certo.— Você vai sozinho, como ele pediu.Carlos imediatamente negou.— Nem pensar.— Não sozinho de verdade — explicou Dante. — Caveiro precisa acreditar que você está sozinho.Carlos entendeu.— E vocês ficam escondidos.— Exatamente.França perguntou:— E Priscila?Dante respondeu:— Primeiro precisamos confirmar que ela está viva e onde está. Depois fazemos a
Carlos continuava observando o galpão de longe.O lugar estava quase completamente escuro.Apenas algumas luzes fracas escapavam pelas frestas das janelas.Dante permanecia ao lado dele, atento a cada movimento.França estava alguns metros atrás, acompanhando tudo.— Tem gente entrando e saindo — murmurou Dante.Carlos não tirava os olhos do galpão.— Priscila está lá.— Pode estar.— Eu sinto.Dante olhou para ele.Sabia que Carlos estava tentando controlar a própria ansiedade.Mas não era fácil.A mulher que ele amava estava presa naquele lugar.E cada segundo parecia uma eternidade.Um dos homens de Caveiro saiu do galpão e olhou ao redor.Carlos imediatamente se abaixou.— Espera.O homem entrou novamente.Alguns minutos passaram.Então o telefone de Carlos vibrou.Ele olhou para a tela.Número desconhecido.Seu coração acelerou.— É ele.Dante se aproximou.— Atende.Carlos apertou o botão.— Fala.Do outro lado, uma voz masculina respondeu.— Carlos.Ele reconheceu.Caveiro.Car







