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Capítulo 2

Author: Clouveri D.
last update publish date: 2026-09-10 08:36:09

ZURI

Semanas antes

A placa anunciando Vesper Hollow surgiu quando já estávamos havia quase uma hora cercados por árvores. Depois de longas horas em um voo nada tranquilo, retiramos no aeroporto o carro alugado que a Hawthorne havia reservado para usarmos durante nossa estadia na cidade. 

Eu tinha visto fotografias da cidade antes da viagem, pesquisado a localização e até percorrido parte do trajeto pelo mapa, mas nada havia me preparado para a quantidade de floresta que existia ao redor dela. A estrada avançava entre pinheiros altos e montanhas que pareciam cada vez mais próximas, enquanto o sinal do meu celular oscilava entre uma barra e nenhuma.

— Se o carro quebrar, eu quero deixar registrado que a ideia de vir pela estrada panorâmica foi sua — falei, olhando pela janela.

— São só vinte minutos a mais. — Elliot manteve uma das mãos no volante e apontou para a paisagem com a outra. — Olha isso. Quando foi a última vez que você viu alguma coisa além de prédio, aeroporto e arquivo?

— Ontem. Vi o estacionamento do aeroporto.

Ele me lançou um olhar de lado, e eu sorri antes de voltar a observar a estrada.

Apesar da reclamação, eu entendia por que ele escolhera aquele caminho. Vesper Hollow era bonita de um jeito quase inconveniente. A vegetação se abria em alguns pontos para revelar montanhas ao longe, e pequenas construções começavam a aparecer conforme nos aproximávamos da cidade. Havia casas antigas bem cuidadas, ruas arborizadas e prédios de tijolos e pedra que pareciam ter sobrevivido a várias gerações sem perder completamente a identidade.

Então senti cheiro de chuva novamente e meu sorriso desapareceu.

Foi rápido, apenas alguns segundos, mas intenso o suficiente para me fazer endireitar no banco e procurar algum sinal de mudança no tempo. O céu permanecia azul entre as copas das árvores, e a luz da tarde atravessava o para-brisa.

Aquele cheiro era familiar. Eu o sentira na Hawthorne quando segurara a fotografia de Darian Ashford, mas, na ocasião, atribuíra a sensação ao cansaço e às horas trabalhando entre documentos antigos. Agora, senti-lo novamente, justamente ao entrar em Vesper Hollow, pareceu estranho demais para ignorar.

Era quase como um déjà-vu, embora eu soubesse que não fazia sentido chamar assim uma sensação provocada por um cheiro. Ainda assim, por alguns segundos, tive a impressão incômoda de que aquilo já havia acontecido antes. 

O que era impossível. Eu nunca estivera em Vesper Hollow.

— Está tudo bem? — Elliot perguntou.

— Está. — Abri um pouco a janela, deixando o ar frio entrar. Não havia cheiro de chuva lá fora. — Só fiquei enjoada com as curvas.

Ele reduziu a velocidade sem comentar, e eu agradeci silenciosamente por isso.

Nos dias que antecederam a viagem, eu havia confirmado o pouco que precisava saber sobre a fotografia. O Darian Ashford registrado em 1919 realmente existira e morrera naquele ano. O homem que atualmente presidia a Fundação Ashford também existia, tinha vinte e nove anos e, por algum capricho extraordinário da genética, era praticamente idêntico ao antepassado com quem compartilhava o nome.

Era estranho, mas não impossível. Pelo menos era nisso que eu preferia acreditar.

A estrada desembocou na parte central da cidade alguns minutos depois, e minha atenção foi desviada para as construções. Havia cafés, pequenas lojas, uma igreja de pedra e uma praça larga dominada por árvores antigas. Pessoas caminhavam pelas calçadas como em qualquer outra cidade pequena, e a normalidade do lugar me fez sentir um pouco ridícula por ter esperado alguma coisa diferente.

— Biblioteca Memorial Ashford — Elliot leu ao passarmos por um prédio de dois andares.

Pouco depois, uma placa diante de uma construção maior anunciava que uma ala havia sido restaurada com recursos da Fundação Ashford. Algumas ruas adiante, o sobrenome apareceu novamente em uma placa de agradecimento instalada diante de um jardim público.

— Estou começando a suspeitar que Vesper Hollow é só o nome que os Ashford deram para o quintal deles — comentou.

— Considerando o que sabemos sobre as propriedades da família, talvez seja literalmente isso.

O centro ficou para trás, e seguimos por uma estrada que subia em direção à floresta. Quando os portões da propriedade finalmente apareceram, compreendi que minha definição de “família rica” talvez precisasse de alguns ajustes.

Um muro de pedra acompanhava os limites do terreno até desaparecer entre as árvores, interrompido por enormes portões de ferro. Havia uma guarita discreta, câmeras e segurança suficiente para proteger alguma coisa muito mais interessante do que fotografias antigas. Nossos nomes já constavam na lista de visitantes, mas ainda assim conferiram nossos documentos antes de permitir a entrada.

— Aconchegante — murmurei, olhando pelo retrovisor quando os enormes portões se fecharam atrás do carro.

— Você reclama demais para alguém que vai morar de graça numa mansão. — Elliot parecia muito mais interessado na propriedade que se estendia à nossa frente do que no fato de termos acabado de passar por uma guarita de segurança.

— Num anexo — corrigi.

— Num anexo de uma mansão. — Ele me lançou um sorriso de lado, como se essa pequena diferença encerrasse a discussão.

— Continuamos dormindo na propriedade do cliente. — Cruzei os braços e voltei a olhar pela janela, ainda tentando decidir se aquilo era hospitalidade ou excesso de controle.

Aquilo, pelo menos, era novidade. Em projetos maiores e que exigiam semanas ou meses de trabalho longe da Hawthorne, a empresa costumava alugar uma casa para a equipe. Em trabalhos mais rápidos, ficávamos em hotéis. Nunca tínhamos nos hospedado na propriedade de um cliente.

Por outro lado, nunca tínhamos fechado um contrato como aquele. O projeto mais rentável de que eu tinha conhecimento não chegara a quinhentos mil dólares. Os Ashford estavam pagando dois milhões.

Quatro humildes vezes mais. 

Ainda não tinha certeza se achava aquilo generoso ou um pouco controlador.

Elliot abriu um sorriso.

— Está com medo de que eles entrem no seu quarto durante a noite para conferir se você catalogou direito o bisavô? — Elliot perguntou, contendo um sorriso enquanto conduzia o carro pela estrada que atravessava a propriedade.

Virei o rosto devagar para encará-lo.

— Estou começando a achar que documentários sobre desaparecimentos começam exatamente assim.

Elliot soltou uma risada mas a brincadeira morreu quando a mansão apareceu entre as árvores.

Ela era enorme.

Não havia outra palavra que resumisse aquilo sem parecer uma tentativa pretensiosa de descrever riqueza. A construção principal se estendia por dois pavimentos de pedra escura, com grandes janelas, telhados inclinados e partes que claramente pertenciam a épocas diferentes. Não parecia um palácio criado para exibir dinheiro, mas uma casa que começara muito menor e crescera ao longo de séculos, incorporando novas alas sem apagar completamente as antigas.

Uma mulher nos esperava diante da entrada quando estacionamos. Devia estar perto dos sessenta anos, tinha cabelos grisalhos presos em um coque baixo e usava um conjunto escuro impecável. Seu aperto de mão foi firme quando nos apresentamos.

— Helena Ward. Sou responsável pela administração da propriedade. Espero que a viagem tenha sido tranquila.

— Foi sim, obrigada — respondi educada.

Ela nos conduziu primeiro ao anexo onde ficaríamos, embora chamar aquilo de anexo parecesse uma afronta ao mercado imobiliário. Era uma casa independente de dois andares a poucos minutos de caminhada da residência principal, com sala, cozinha, escritório e duas suítes.

Elliot deixou a mala perto da escada e olhou ao redor.

— Acho que consigo suportar.

— Sua coragem me inspira.

Helena sorriu discretamente.

— A família considerou mais conveniente mantê-los na propriedade. O trabalho de vocês exigirá acesso frequente ao arquivo, e alguns materiais não podem deixar o terreno sob nenhuma circunstância.

Aquilo combinava com as exigências de confidencialidade que Margaret havia explicado, embora estar hospedada a poucos metros de um acervo protegido por um dos contratos de sigilo mais rigorosos que a Hawthorne já assinara tornasse a situação um pouco mais concreta.

Deixamos as malas e seguimos Helena pela propriedade. Durante o caminho, descobri que os Ashford estavam naquela região havia aproximadamente três séculos e que a primeira construção erguida no terreno ainda fazia parte da ala mais antiga da mansão. A família participara do crescimento de Vesper Hollow desde seus primeiros anos, financiando estradas, escolas, serviços e, mais tarde, empresas e instituições que haviam moldado boa parte da cidade.

— Poucas famílias conseguem permanecer tanto tempo no mesmo lugar — comentei enquanto atravessávamos um corredor que ligava duas alas da casa.

— Os Ashford nunca tiveram muito interesse em ir embora. — Helena passou a mão pelo corrimão antigo antes de continuar descendo. — Algumas gerações estudaram e trabalharam fora, naturalmente, mas quase todos acabaram voltando para Vesper Hollow.

— Deve existir alguma coisa especial na cidade.

Ela me lançou um olhar que durou apenas um instante.

— Para eles, existe.

Não pensei muito na resposta, porque chegamos ao arquivo logo depois. E qualquer outra coisa perdeu importância.

Eu esperava encontrar uma sala grande com estantes, talvez duas. Em vez disso, Helena abriu uma porta e revelou praticamente um pequeno centro de documentação escondido dentro da propriedade. Havia salas climatizadas, armários deslizantes, estantes ocupadas por caixas numeradas, mesas próprias para consulta e uma área separada destinada a fotografias e materiais mais sensíveis.

Fiquei parada na entrada por tempo suficiente para Elliot perceber.

— Ela está apaixonada — anunciou.

Lhe direcionei um olhar que dizia claramente “Cale a boca”.

Helena pareceu esconder um sorriso enquanto eu entrava.

— Parte do acervo já recebeu algum tratamento ao longo das últimas décadas, mas os métodos mudaram conforme os responsáveis também mudavam. Existem também coleções que nunca foram devidamente catalogadas.

Passei os olhos pelas fileiras de caixas. Trezentos anos de uma mesma família preservados naquele espaço. Cartas escritas por pessoas que haviam morrido séculos antes, fotografias, registros, versões diferentes dos mesmos acontecimentos. Para qualquer outra pessoa, talvez fossem apenas documentos. Para mim, eram milhares de histórias esperando que alguém encontrasse as conexões entre elas.

— Teremos acesso a tudo? — perguntei.

— A todas as coleções autorizadas para o projeto. Alguns documentos permanecem restritos e exigem permissão específica da família.

Assenti. Tratando-se de um arquivo privado, não havia nada incomum naquilo.

Helena nos mostrou as áreas em que trabalharíamos, explicou os procedimentos de acesso e deixou claro que a segurança digital seria tão rígida quanto Margaret havia prometido. Quando terminamos, eu já queria abrir a primeira caixa, mas ela consultou o relógio e destruiu minhas esperanças.

— Receio que o trabalho precise esperar até amanhã. O jantar começa às oito.

Pisquei.

— Jantar?

— A senhorita Hughes não avisou?

Elliot e eu nos entreolhamos.

— Ela mencionou uma recepção — respondi.

— É uma recepção. — Helena pareceu considerar a diferença entre nossas interpretações. — A família já receberia alguns convidados esta noite e considerou uma boa oportunidade para apresentar formalmente os responsáveis pelo projeto. Haverá membros da família, representantes de algumas instituições ligadas aos Ashford e pessoas importantes da região.

Olhei para a calça confortável que escolhera para passar horas dentro de um carro.

— Quão formal estamos falando?

Helena sorriu.

— Eu usaria o vestido que a senhorita Hughes certamente mandou trazer.

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Às sete e quarenta, descobri que Margaret me conhecia bem o bastante para desconfiar que eu tentaria aparecer num jantar formal usando qualquer coisa que estivesse no topo da mala.

O vestido verde-escuro que ela praticamente me obrigara a trazer era simples, mas elegante, ajustado na cintura e com o tecido caindo até abaixo dos joelhos. Soltei os cabelos, passei maquiagem suficiente para parecer que havia feito algum esforço e estava colocando os brincos quando ouvi duas batidas na porta.

Elliot entrou depois que respondi. Usava um terno escuro que o fazia parecer consideravelmente mais responsável do que eu sabia que era, e o cabelo loiro, normalmente um pouco desalinhado, estava penteado para trás. Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas ficou em silêncio por um instante.

— O quê? — perguntei.

— Nada. — Os olhos verdes percorreram meu rosto antes de ele sorrir. — Você está bonita.

— Você também. Quase profissional.

— Eu ia dizer muito bonita.

— Agora perdeu a oportunidade.

— Cruel. — Elliot levou a mão ao peito e deu passagem quando peguei a bolsa. — Espero que pelo menos tenham comida cara.

Atravessamos juntos o caminho até a residência principal, e percebi antes mesmo de entrar que a definição de Helena para “alguns convidados” era tão questionável quanto chamar nossa hospedagem de anexo.

Havia dezenas de pessoas.

A recepção ocupava um grande salão ligado a uma área de jantar ainda maior, e o ambiente tinha aquele tipo específico de elegância que não precisava provar quanto custara. Homens de terno conversavam em pequenos grupos, mulheres com vestidos sofisticados circulavam entre eles, e funcionários passavam discretamente oferecendo bebidas.

Helena nos recebeu e começou as apresentações.

Em menos de vinte minutos, conheci pessoas cujos nomes provavelmente deveria ter anotado, dois membros da Fundação Ashford, empresários locais e representantes de famílias que pareciam ter relações com os Ashford havia gerações. Havia alguma coisa curiosa na dinâmica entre eles, uma hierarquia silenciosa que eu não conseguia explicar apenas por dinheiro ou idade. Algumas pessoas recebiam cumprimentos educados; outras faziam conversas diminuírem quando se aproximavam.

E os Ashford estavam claramente no centro de tudo.

— Ainda acha que é só uma família rica? — Elliot murmurou ao meu lado.

— Estou reconsiderando o “só” para falar a verdade.

Peguei uma taça oferecida por um funcionário e procurei discretamente entre os convidados um rosto que conhecia. Eu sabia que Darian Ashford provavelmente estaria ali. Não tinha qualquer motivo pessoal para querer vê-lo, mas depois de passar dias tentando entender como um homem de vinte e nove anos podia ser praticamente idêntico a alguém morto em 1919, seria impossível não sentir curiosidade.

Não o encontrei.

Bom, talvez não viesse. A possibilidade me decepcionou mais do que deveria, e imediatamente atribuí aquilo à pesquisadora dentro de mim.

Estava conversando com Helena sobre os registros municipais que precisaríamos consultar quando percebi uma mudança sutil no salão. As conversas não chegaram a cessar, mas diminuíram aos poucos, enquanto alguns convidados interrompiam o que estavam fazendo e voltavam a atenção para a entrada.

Segui os olhares por curiosidade e levei apenas um instante para reconhecer o homem que acabara de entrar.

Darian Ashford.

Por alguns segundos, esqueci completamente o que Helena estava dizendo. Depois de tantos dias encarando aquele rosto em fotografias, havia algo desconcertante em vê-lo finalmente em movimento, atravessando o salão como alguém que pertencia àquele lugar mais do que qualquer outra pessoa ali.

A fotografia não havia feito justiça a ele. Nem a antiga, nem a atual. 

Darian era alto o suficiente para se destacar entre os homens ao redor e tinha uma presença difícil de atribuir apenas à aparência. O terno escuro acompanhava o corpo atlético, os cabelos quase negros estavam ligeiramente desalinhados e, mesmo à distância, reconheci cada detalhe daquele rosto.

Era como ver a fotografia de 1919 respirar.

E, por alguma razão, meu corpo pareceu perceber a presença dele de uma forma estranha que não sei chegar nem perto de explicar. Um arrepio lento percorreu minha pele, acompanhado daquela estranha sensação de familiaridade que vinha me perseguindo desde que encontrara a fotografia. Então o cheiro de chuva voltou, mais nítido do que antes.

Darian ainda nem sequer havia olhado para mim.

Ele conversava com um homem mais velho enquanto atravessava o salão e ainda não havia olhado em minha direção. Observei a pequena irregularidade no nariz, o formato da boca e o mesmo maxilar que eu examinara tantas vezes nas duas imagens.

Ao vivo, a semelhança era ainda mais absurda.

— Então esse é o famoso Darian — Elliot comentou perto do meu ouvido.

Antes que eu pudesse responder, Darian virou o rosto e seus olhos encontraram os meus. 

Alguma coisa dentro de mim reagiu no mesmo instante. 

Foi tão súbito que perdi a respiração. Uma pressão quente se formou no centro do meu peito e se espalhou sob minha pele, acompanhada pela sensação absurda de que a distância entre nós havia diminuído, embora nenhum dos dois tivesse se movido. Por um instante, todo o restante pareceu perder nitidez — as vozes, a música, as pessoas ao meu redor — até que minha atenção se reduzisse àquele homem do outro lado do salão.

Darian parou no mesmo instante.

O homem que caminhava ao lado dele ainda avançou dois passos antes de perceber que estava sozinho e voltar-se, confuso. Darian, porém, não pareceu notar. Ficou completamente imóvel, com os olhos presos aos meus e uma expressão que mudou tão depressa que não consegui interpretá-la. A segurança indiferente com que entrara no salão simplesmente desapareceu.

Por um instante, pensei que ele estivesse olhando para alguém próximo a mim e virei o rosto, procurando quem poderia ter provocado uma reação tão estranha. Havia várias pessoas espalhadas pelo salão, mas, quando dei um pequeno passo para o lado e tornei a encará-lo, os olhos de Darian acompanharam o movimento.

Era para mim que ele estava olhando.

A constatação fez a sensação quente em meu peito se intensificar. Darian continuava imóvel do outro lado do salão, como se alguma coisa o tivesse atingido no instante em que nossos olhares se cruzaram.

E, pela expressão em seu rosto, ele parecia tão perturbado com aquilo quanto eu.

Ele não pode estar sentindo o mesmo que eu, certo?

A expressão controlada que ele carregava ao entrar desapareceu. Seus lábios se entreabriram, o peito se expandiu numa inspiração profunda e, por um segundo, vi uma emoção tão intensa atravessar seu rosto que não consegui identificá-la.

Então alguma coisa mudou em seus olhos.

Pisquei, certa de que era apenas um reflexo da iluminação do salão, mas a cor continuou se alterando diante de mim. O castanho foi tomado por um brilho metálico, intenso demais para ser provocado pela luz, até que suas íris assumiram um tom de cobre incandescente.

Fiquei imóvel, tentando encontrar alguma explicação razoável para o que acabara de ver.

Não encontrei nenhuma.

— Elliot... — murmurei.

— Eu vi.

A voz dele perdeu qualquer traço de humor.

Darian começou a andar em minha direção. Não precisou pedir passagem. As pessoas simplesmente se afastavam à medida que ele avançava, algumas com expressões tão tensas quanto a minha, e havia algo na maneira determinada como ele atravessava o salão sem desviar os olhos de mim que fez meu corpo inteiro se colocar em alerta. Recuei um passo antes mesmo de perceber que estava fazendo isso.

— Zuri? — A voz de Elliot soou baixa ao meu lado. Ele tocou meu braço, aproximando-se como se pretendesse se colocar entre mim e o homem que vinha em nossa direção.

O olhar de Darian caiu imediatamente para a mão dele.

Foi apenas um movimento dos olhos, mas a reação que se seguiu fez um arrepio percorrer minha nuca. 

Puta merda.

Sua mandíbula se contraiu e o cobre de suas íris pareceu se intensificar enquanto ele encarava os dedos de Elliot sobre mim. Quando tornou a erguer os olhos, havia algo diferente em sua expressão. Algo mais duro. Quase hostil.

Elliot também percebeu.

— Acho que devemos... — começou, movendo-se discretamente para a minha frente.

Não conseguiu terminar.

Darian atravessou os últimos metros que nos separavam antes que qualquer um de nós pudesse decidir se ficar ali era uma boa ideia. De perto, ele era ainda maior do que parecera nas fotografias. Precisei erguer o rosto para encará-lo, e fui atingida pelo cheiro de chuva com tanta força que meu estômago se contraiu.

Era ele. O mesmo cheiro.

Ele parou diante de nós. Por um instante, achei que fosse dizer alguma coisa para mim, mas seus olhos baixaram para a mão de Elliot, que ainda segurava meu braço.

— Solte-a.

A ordem saiu baixa, quase calma, mas carregava uma autoridade que fez alguma coisa no ambiente mudar. Elliot ficou tenso ao meu lado, embora não afastasse a mão.

— Nós já estávamos de saída, senhor Ashford. — Ele se moveu ligeiramente, como se pretendesse se colocar entre nós.

A mandíbula de Darian se contraiu, mas seu olhar permaneceu fixo na mão que ainda segurava meu braço, enquanto o cobre de suas íris se tornava cada vez mais intenso.

Então senti.

Uma onda de fúria me atravessou com tanta violência que meu peito se contraiu. Não era medo, embora meu corpo reagisse como se estivesse diante de uma ameaça. Era algo mais escuro, feroz e perigosamente próximo de perder o controle. A sensação não fazia sentido — e, ainda assim, trouxe consigo uma certeza tão absoluta que não precisei pensar para compreendê-la.

Elliot precisava se afastar dele. Tipo, agora!

— Elliot... — Minha voz saiu mais urgente do que eu pretendia. Coloquei a mão sobre os dedos dele, ainda presos ao meu braço. — Me solta.

Ele franziu o cenho e olhou para mim.

— Zuri?

— Por favor. — Apertei sua mão, sustentando seu olhar. — Só me solta.

Eu não sabia por que estava pedindo aquilo quando, segundos antes, queria exatamente o contrário. Só sabia que a ideia de Elliot continuar me segurando diante daquele homem provocava em mim uma urgência quase desesperadora de tirá-lo dali antes que alguma coisa muito ruim acontecesse.

Elliot hesitou, mas acabou cedendo. O alívio que senti quando sua mão deixou meu braço foi imediato e tão absurdo quanto todo o resto.

Darian voltou os olhos para mim e avançou um passo. Antes que eu pudesse reagir, sua mão se fechou ao redor do meu braço, exatamente onde os dedos de Elliot estiveram segundos antes.

Meu corpo enrijeceu com o contato, mas, antes que eu pudesse recuar ou exigir que me soltasse, percebi que alguma coisa havia mudado ao nosso redor.

O salão inteiro estava em silêncio.

Só então me dei conta de quantas pessoas nos observavam. Helena havia empalidecido. O homem que entrara com Darian nos encarava com uma expressão incrédula e, mais adiante, uma mulher levara a mão à boca. Não era apenas curiosidade diante de uma situação constrangedora.

Era choque.

E eu não fazia ideia do motivo.

— Darian.

A voz masculina veio de algum ponto atrás dele, baixa e carregada de advertência. Mas Darian sequer virou o rosto.

Seus olhos de cobre continuaram presos aos meus enquanto ele  inspirou profundamente.

Vi a última hesitação desaparecer de sua expressão. O espanto permaneceu, assim como aquela emoção incompreensível que parecia atravessar o espaço entre nós, mas alguma coisa nele se assentou. Como se, no meio de toda aquela confusão, Darian tivesse chegado a uma conclusão da qual não restava a menor dúvida.

Seus olhos de cobre se fixaram nos meus.

— Minha... — A palavra saiu baixa, rouca, carregada de uma certeza que pareceu surpreendê-lo tanto quanto a mim. Seus dedos se firmaram ao redor do meu braço e o último vestígio de hesitação desapareceu de seu rosto. — Você é minha companheira. 

Por alguns segundos, encarei-o como se três cabeças tivessem acabado de brotar de seus ombros. 

Eu não sabia o que aquilo significava. Não sabia por que seus olhos brilhavam daquela maneira, por que uma sala cheia de pessoas importantes parecia ter parado de respirar ou por que aquele homem me olhava como se tivesse acabado de encontrar alguma coisa que procurava havia uma vida inteira.

Só sabia que Darian Ashford, o homem com o mesmo rosto de um morto de 1919, estava diante de mim, ainda com os dedos ao redor do meu braço, no meio de uma sala lotada.

E acabara de anunciar, na frente de todos, que eu era companheira dele.

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